Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2021

Um texto de Fernando Paulouro

Sei que é feio fazer isto, mas não resisto a roubar este texto ao Fernando Paulouro, publicado no seu blog «Notícias do Bloqueio», e a colocá-lo aqui. 

«POR UM PAÍS MAIS HABITÁVEL

Agora, que andam por aí salazares empalhados, sujeitos que se alimentam no chafurdo da indignidade para se arvorarem em salvadores políticos, lendo aos seus apaniguados o catecismo do ódio e da intolerância, ameaçando uns e tentando agredir outros, apetece, mais do que nunca, quando a demagogia e a mentira andam à solta, evocar os tempos ominosos de um país amordaçado, e nessa evocação gritar: viva a liberdade! Obscuros interesses da extrema direita internacional deram palco a estes abencerragens do passado e é vê-los, hoje, também aqui, espertos e ladinos, nas televisões e nos jornais, confundindo-se com pessoas de bem, dando voz a tudo aquilo que há de mais primário e irracional na natureza humana. Alguns iludiram decerto a Justiça, ou a atenção dos carcereiros, sabe-se lá, para darem corpo aos populismos que trazem na ponta da língua e põem as ideias em estado de sítio, e que, na política dos votos, sabemos bem onde conduzem. A História já fez o registo desses dramas, mas há sempre aqueles que, apostando no esquecimento ou na rasura da memória, acreditam que os crimes do passado se podem repetir para proveito próprio.

Na situação portuguesa, diga-se, há responsáveis pela onda populista. O vazio da política, o abandono dos ideais e do ideário, a programação do unanimismo, convergem na indiferença. Por comodismo, digamos assim, o PS optou por falta de comparência nas Presidenciais, deixando ao abandono o território da política, como se fora terra de ninguém. Ora, é dos livros: quando nós não nos ocupamos da política, a política ocupa-se de nós permitindo que energúmenos racistas e xenófobos ergam bandeiras contra a fraternidade solidária das políticas sociais. É o que está a acontecer. A democracia, tão generosa a tratar os seus inimigos, não poucas vezes tem morrido às suas mãos.

Daí que o combate das ideias, a denúncia da cruz gamada oculta no catecismo xenófobo ou o braço estendido da saudação fascista disfarçada na apologia comicieira, sejam uma exigência inadiável na sociedade portuguesa. Por um país mais habitável.»

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:55
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