Terça-feira, 17 de Novembro de 2020

O silêncio dos livros

Há quem diga que quando o tempo sobra há espaço para os livros que ficaram por ler... Era bom que assim fosse, mas não é! A pandemia ocupa o tempo e o espaço, não sobra nada (como na Tragédia de Hamlet, o resto é silêncio) .

A ausência de constantes compromissos profissionais, de agendas rígidas, de stress e, como se costuma dizer, do dia-a-dia preenchido, é uma ilusão. Não fomos feitos ou formatados (ou educados?!) para este nova realidade. Precisamos de compromissos, de agendas e de stress para ludibriar as rotinas e ganhar algum tempo para outras coisas, como ler livros. É assim a natureza humana - buscamos sofregamente algumas coisas como contraponto a outras coisas de que não gostamos, ou que, gostando, nos limitam o tempo e o espaço. Precisamos de não ter tempo para dar valor ao tempo. 

Sinto que a pandemia apagou da memória esta busca do contraponto emocional e os livros não escaparam a esta decapitação. A Crónica de Um Vendedor de Sangue, de Yu Hua e Magalhães, o homem e o seu feito, de Stefan Zweig, são algumas das leituras neste longo interregno, mas não passam de exceções num quotidiano longo, aborrecido e estupidamente inútil. Restam, como notas de rodapé, um retrato da revolução cultural de Mao - simples, sem adjetivos e juízos morais inúteis (no livro de Yu Hua) e uma biografia de Magalhães, com várias inexatidões históricas (?!...), ou apenas excesso de entusiasmo do autor (no livro de S. Zweig).

Pouco, muito pouco!

 

«[...]

Serviu rei e país sob todas as formas: por mar e por terra, em todas as estações do ano e em todas as zonas marítimas, no meio da geada e sob um céu tórrido. Porém, servir é coisa de jovens, e agora, com quase trinta e seis anos, Magalhães decide que já se sacrificou o suficiente pelos interesses e pela glória dos outros. Como acontece a qualquer criador, Magalhães sente media in vita a necessidade de se realizar pessoalmente, de ser responsável por si próprio. A pátria abandonou-o, desfez a ligação com as suas tarefas e obrigações - tanto melhor: agora está livre. Como tantas vezes sucede, o punho que tenta repelir um homem, impele-o, na verdade, para dentro de si mesmo. [...]»

Stefan Zweig in Magalhães, o homem e o seu feito. Assírio e Alvim, 2ª ed., pp 67-68.

 

 


publicado por Fernando Delgado às 00:34
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2020

Cartoons

O exagero (?!...) como espelho da realidade. Admirável!

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AYTOS (turco)_Política Mundial

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DARIO (mexicano)_Bolsonaro

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FRANK HOPPMANN (alemão)_Boris Johnson

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MOLINA (nicaraguense)_Populismo

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PEDRO SILVA (português)_Christina Lagarde

 

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Quinta-feira, 9 de Julho de 2020

Do lagostim à merda dos chef

Porque sim:

 

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:44
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2020

O pandemineiro

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O feireiro (1) voltou!

O feireiro voltou para nos explicar a pandemia do coronavírus. Agora sem chapéu de palha ou boina de agricultor, mas com gravata de seda, botões doirados no casaco e sapato lustroso bicudo (se me lembro era assim que o Mário Zambujal caracterizava um dos seus bons malandros, acrescentando “e escarreta no chão”, que obviamente não se aplica a tão ilustre personagem).

Com gráficos retirados de jornais, de publicações, da net, ou muito simplesmente juntando imagens a números de diversas fontes. Não há um raciocínio que se possa seguir (as frases terminam abruptamente em «bom…», como o martelo do juiz na bancada, ressoa a fim) a não ser aquele que já se esperava: idolatrando o trabalho de alguns (Taiwan, Singapura, Alemanha, …), ignorando muitos outros (EUA, Brasil, Holanda, Itália, …) e batendo nos restantes (China, Espanha, Portugal, …).

O José Alberto Carvalho às vezes tenta introduzir um pauzinho naquele discurso (mas nos EUA…; no Brasil…), mas é inútil – o guião está definido e não há como sair dele. A conclusão não depende de uma interpretação dos gráficos, é predefinida e os números são apenas um adereço. Não subestimem o pandemineiro, ele sabe que os números, por muito que os torturem, não se confessam...

São assim os intrujões: remetem-nos sempre para o universo do logro, da burla e da encenação patética. Não há nada mais comovente do que ver um pantomineiro a explicar uma pandemia!

(1) Não confundir com feirante: feireiro é aquele que frequenta feiras e se faz notado porque a única coisa que vende é a sua própria imagem – também conhecido por espalha-borralhos – enquanto o feirante é um trabalhador como qualquer outro…

 

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Quinta-feira, 16 de Abril de 2020

«Éramos felizes, mas não sabíamos!»

(Esta é provavelmente a frase, não sei de quem, que melhor define este intervalo na vida...)

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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2019

Ausência

Não desapareci - estou apenas numa longa e sonolenta preguiça ...

O mais estranho é que sabe bem!

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:07
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Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

... à mesa do café...

«Se vires um cágado no cimo de uma árvore, foi porque alguém o pôs lá!»

- Provérbio umbundu -

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Quinta-feira, 28 de Março de 2019

«A natureza deixa sempre sobras...»

(Um texto infantil?...

Não sei, mas gostei de ler que

A natureza deixa sempre sobras, uma margem de segurança.

O MEC está a ficar maduro ou, como sempre, naif?...)

 

«Entram borboletas nas nossas vidas, joaninhas. Numa estação de serviço o verde duma bomba engana uma abelha. Chegam dois livros sobre as aves do mundo: a falta cada vez maior de insectos é o maior problema de todos.

Nas janelas e nas gavetas da minha casa nascem moscas para me comer o juízo, peixinhos de prata para me comer os livros, traças para me comer as camisolas.

São insectos também. Os insectos não se podem escolher. Os desagradáveis vêm como os giros. Se não houvesse insectos a voar por toda a parte não viriam as andorinhas e os andorinhões. Morreriam de fome. Não se reproduziriam. Entrariam em extinção. Extinguir-se-iam.

Sem as minhocas não crescia quase nada. Os pássaros também comem minhocas mas deixam minhocas que cheguem para fertilizar a terra. Em contrapartida não há andorinhas e andorinhões que cheguem para dar cabo das moscas e dos mosquitos.

A natureza deixa sempre sobras, uma margem de segurança. Nascem sempre mais bichos do que aqueles que podem viver. A morte é a maneira de distribuir o que há para comer.

Há menos andorinhões porque há menos insectos. O glifosato mata passarinhos — só que não se vê. Cada Primavera é menos primaveril por causa das mortes. Pesticida é a morte das ditas pestes, herbicida é a morte das plantas.

Matando insectos e plantas estamos a matar os animais que dependem deles. Conheço uma horta cheia de caracóis e ácaros onde as alfaces e as couves são esburacadas mas deliciosas. Disse-me a dona, Belmira Cosme: “Tem de dar para todos. Senão como é que havia de ser?”»

Miguel Esteves Cardoso. Público, 28.03.2019.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:44
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

«Deus e o Diabo»

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Nas televisões, para além de uma lógica comercial, suponho que existe uma lógica jornalística na concepção de programas informativos... É esta lógica jornalística que me assusta em "Deus e o Diabo". Este programa é o protótipo do populismo tal como o conhecemos hoje e que se alimenta sobretudo das "redes sociais". Agora chegou à televisão pela mão do mesmo jornalista que introduziu os reality shows na tvi,  e que volta a "inovar" com mais um programa lamentável e que se baseia em duas coisas muito simples: uma frase retirada do contexto e imediatamente valorizada - falsa, verdadeira, ... - e a opinião de público anónimo em direto sobre essa frase ou qualquer outra.

É assim que nascem os populismos: uma opinião que se transforma em realidade/verdade e o pseudo-contraditório sobre essa realidade/verdade... É a transposição direta das fake news das "redes sociais" para as tv's, para um público-alvo bem definido. Depois queixem-se!

O J. Eduardo Moniz não é obviamente ingénuo e diz ao que vem: “Não pensem que vou fazer um debate, uma entrevista, que vou fazer de moderador… Não é nada disso! Espero que os portugueses gostem, porque vão ver jornalismo sério, muito frontal, sem papas na língua, que chama as coisas pelos nomes. Vai ser interessante“.

J. E. Moniz imagina-se sentado numa poltrona moralista, entre as cadeiras monoteístas de Deus e do Diabo. Condiz com a personagem, mas não pense que somos estúpidos.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:16
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2018

Guião para um filme tragicómico - take 2

Local de filmagem: Terreiro do Paço

Ambiente: Urbano, agitado, multiracial, multicultural

Personagens: Ministro das Finanças e Secretário de Estado Adjunto e das Finanças

Take 2 (panorâmico sobre o Terreiro do Paço, com oTejo ao fundo, zoom para a estátua de D. José I, pormenor dos pombos sobre o cavalo e entrada pelas arcadas do ministério das finanças com alteração dos níveis de luz e ruído, passando do mundano ao reservado)

(Mourinho, nas escadas do ministério das finanças parece aguardar Centeno) - bom dia caro ministro..., a sua secretária tem uma carta urgente...

(Centeno) - uma carta, urgente? de quem?

(Mourinho) -  do sr. ministro, de si!

(Centeno) - de mim? (rugas fugidias na testa contrastam com o tom infantil da pergunta)

(Mourinho) - sim! diz que existem grandes riscos no orçamento..., o Primeiro já ligou a perguntar o que se passa...

(Centeno) - ah, já percebi, do presidente do Eurogrupo... (sorriso malandro, mas infantil). A carta é para o Secretário de Estado, é para si!

(Mourinho sem convicção) - ... mas está dirigida ao sr. ministro! 

(Centeno) - não...,  O presidente do Eurogrupo não escreve ao ministro das finanças, ouve-o, dorme com ele! E quando ouve, discorda dele... E quando dorme... (sorriso malandro, lascivo, mas infantil)

(Mourinho desalentado) - mas então o que faço, o que digo ao Primeiro?

(Centeno, com voz pausada, solene) – diz-lhe que o ministro das finanças ouve o presidente do eurogrupo e discorda dele e que o presidente do eurogrupo escreve ao ministro das finanças e ..., e vice-versa...

(Mourinho baralhado) - vice-versa?!...

(Centeno) - sim!, vice aqui, versa lá, em Bruxelas!... vice-versa...

(Mourinho, a morder o dedo mindinho e a olhar para a ponta dos sapatos lustrosos parece meditar e falar para si próprio...)

(Centeno numa decisão rápida) - deixa, eu falo com o Primeiro! Ele ouve-me (cala-se, sobe as escadas,... e ainda murmura para si próprio) - ... se calhar escrevo-lhe uma carta..., ou vice-versa...

Corta!!!

 


publicado por Fernando Delgado às 23:31
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Guião para um filme tragicómico - take 1

Local de filmagem: gabinete de reuniões do Conselho Europeu, em Bruxelas (como não existe sede do Eurogrupo, é escolhido um ao acaso)

Ambiente: Tipo clandestino - mobiliário austero e iluminação artificial, difusa, com lugares na penumbra.

Personagens: Todos os ministros das finanças do euro, vestidos de fato cinzento-escuro e gravata vermelha, e ainda o vice-presidente da CE, o comissário dos assuntos económicos e financeiros, o presidente do BCE e o diretor do MEE, estes vestidos de fato azul escuro e gravata branca.

Take 1 (travelling pela sala de reuniões antes do início da reunião. Especial atenção à austeridade do ambiente e às facies pálidas das personagens)

 (Centeno) - toca a sineta com um riso infantil…

(Centeno) - volta a tocar a sineta e olha com ar reprovador para Giovani Tria, ainda de pé junto da cadeira

(Giovani Tria para Centeno, com o olhar distante, fixo no vazio) – Estou como a torre de Pisa: ainda de pé! (esboça um sorriso, mas perante o silêncio dos restantes acaba por se sentar. Centeno sorri, sorriso infantil!)

(Centeno dá a palavra a Moscovici que inicia um longo discurso) – Sr. Presidente, caros colegas (sorri para os de gravata vermelha) temos que dar umas palmatoadas aqui no camarada Tria (volta a sorrir sem levantar os olhos e por isso não percebeu o esgar de dor do italiano). As regras são regras e como tal têm que ser cumpridas sob risco do três ser ultrapassado ou, na hipótese otimista, ficar mais de cinquenta por cento acima do dois. Coisa que não acredito, já que o dois é um número traiçoeiro que quando inchado se parece mais com o três. Temos que abater o três, custe o que custar…

(Tria, com voz colérica) – E sou só eu que valho menos cinquenta por cento que a diferença entre o dois e o três (faz uma pausa fazendo cálculos mentais). Este cenário não entra em consideração com a hipótese do três também poder inchar e ficar um oito ou um infinito (nova pausa) … um oito deitado…

(Scholz) – morto! (a luz ténue acentua o rosto hirto do personagem)

(Silêncio, longo silêncio… Luz ténue sobre rostos muito brancos, casacos escuros que apenas revelam a silhueta e gravatas berrantes – vermelhas e brancas - como cordas ao pescoço)

(Centeno) – então?!, não é preciso tanto dramatismo (sorriso cândido, infantil)

(Tria, outra vez com voz colérica) – E o senhor presidente, e Portugal? A raiz quadrada do três, somada à diferença do três com o dois, mesmo considerando o grau de liberdade que concede ao um, a si próprio, convenhamos, (e olha Centeno de frente) pelas minhas contas também tende para um oito deitado!

(Centeno sorri, sorriso infantil, ingénuo. Olha para o outro lado da mesa…)

(Mourinho, afagando com a mão direita a gravata vermelha e olhando-a com medo que a cor desbote) – Mas nós temos as contas certas! Um é um e menos o coeficiente de cagança…, perdão, de cagaço, fica quase zero…

(Tsakalotos) – Coeficiente de cagaço?!, mas isso é de engenheiro, camarada…  (a cadeira polaca rangeu, rosnar na noite sem lua e a sala ficou mais escura)  Aqui tratamos de finanças!

(Mourinho, enrubescido como as crianças repreendidas, afagando novamente a gravata vermelha, que parecia menos vermelha, ignorando o grego, dirigindo-se a Centeno e repetindo) – Sr. Presidente, as nossas contas estão certas: um é um e menos o coeficiente de … segurança (e repetiu) de segurança, fica quase zero! Quase zero, o número perfeito…, perfeito! Deitado ou não, é zero! Zero!

(Centeno, sorriso, sorriso infantil, babado com o bombom do Mourinho)

(Silêncio, longo silêncio. Travelling sobre a mesa iluminada, os copos cheios de água, cristalinos, e saída para um grande plano do quadro pendurado na parede - uma reprodução de um frame da Roma de Fellini. Saída lenta pela janela e zoom para Manneken Pis, ouvindo-se em fundo a sineta e a voz indecifrável de Centeno).

 


publicado por Fernando Delgado às 01:46
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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018

«... para uma geografia emocional do interior»

Transcrevo texto integral do “ensaio” de Álvaro Domingues no Público, pela espantosa síntese do Portugal de hoje, mas também porque a «teoria é quando sabemos tudo mas nada funciona; a prática é quando tudo funciona mas não sabemos porquê; aqui, juntamos teoria e prática: nada funciona e não sabemos porquê».

 

«Desamparados – para uma geografia emocional do interior

Chamam-lhe territórios de baixa densidade. Nada como uma boa expressão tecnocrata para tentar apaziguar este sentimento de que há uma espécie de maldição que caiu sobre o lado errado do mapa, o que se afasta do mar e, da Serra da Peneda ao Guadiana, se estende pela maior parte do território de Portugal.

Portugal, apesar da pequena dimensão, é constituído por um mosaico com variações e contrastes bruscos. Sempre foi. Não é tudo a mesma coisa nessas terras do dito interior. Percorrem-nas vias rápidas, redes de energia, telecomunicações; emergem nesse panorama depressivo uma mão cheia de centros urbanos de pequena dimensão, capitais de distrito quase todos, e um sem número de vilas, sedes de concelho que resistem enquanto não fecharem todos os postos dos CTT, os centros de saúde, as escolas básicas e secundárias, os tribunais, as casas da cultura ou câmaras municipais, quem sabe. A história de como aqui se chegou é conhecida e, resumidamente, pode-se contar assim.

Estávamos no início da década de 1960, governava uma ditadura arcaica e conservadora e a elite pensante e o poder aglomeravam-se em Lisboa, como sempre desde os afonsinhos. A modernização acontecia aos solavancos, descoordenada e na maior parte do território corria a debandada geral da emigração a fugir da pobreza dos campos, da vida rural e dos horizontes curtos. O mau viver desse interior empurrou a gente para o exterior. Nas lendas e narrativas do Portugal romântico e fantasioso, essa era a terra idílica dos camponeses, a mesma que enxameava os livros da Escola Primária, a propaganda do SNI, os concursos das aldeias mais portuguesas, os Guias de Portugal, ou os relatos pitorescos das viagens de férias da burguesia que ia à “província”, narrativas muito distintas daquelas dos que, simplesmente, iam “à terra” quando podiam. Apesar do regime tornar ilegal e dificultar essa sangria emigratória, tinha começado o último episódio do fim da pré-modernidade portuguesa. Algures em França, na Alemanha ou nas Américas organizava-se a vida, trabalhava-se, poupava-se, sonhava-se com o regresso à terra sem a escravatura do trabalho nos campos, os casebres a cheirar a fumo ou a sobranceria dos notáveis que gostavam do povo simples e, sobretudo, barato e submisso.

Quando apareceram os sinais desse regresso – as casas novas – a elite instalada alvoroçou-se. Aqueles novos-ricos estavam a construir umas casas exóticas, perturbadoras daquela paz onde o sino tocava e a torre da igreja branquejava no vale onde antes se cantava na vindima ou na ceifa e os carros de bois chiavam nos caminhos. No 10 de Junho, o da Raça que depois foi de Portugal, de Camões e das Comunidades, baixava o tom e mudava o registo: os emigrantes eram uns heróis que enviavam divisas, punham os filhos na escola e equilibravam a balança de pagamentos do país. No dia a seguir voltava tudo ao mesmo. Entretanto, os filhos deles também partiram, organizaram vida algures e agora os seus pais ou avós já passam mais tempo onde toda a vida trabalharam do que nas casas vazias que semeiam o território das origens.

Houve uma revolução entretanto. Já tardava. Passadas as convulsões iniciais, o país rapidamente integrou a então Comunidade Económica Europeia e o tempo acelerou. Em menos de trinta anos Portugal mudou mais do que em toda a sua longa história. A construção rápida do Estado Social distribuiu infraestruturas, bens e serviços públicos por toda a geografia nacional: estradas e auto-estradas, rede eléctrica, telecomunicações, água, esgoto, escolas, hospitais, universidades, politécnicos, equipamentos culturais e desportivos…, seguindo as políticas sectoriais do Estado Central e apoiando o novo municipalismo democrático.

A unanimidade acerca deste surto de investimento público era praticamente total. Como em qualquer política keynesiana, o Estado investiria, modernizaria o país e os privados viriam a reboque aproveitando essas vantagens e economias externas produzidas para uma sociedade mais desafogada e equilibrada, mais educada e com maior poder de compra, e um território finalmente tornado funcional, desencravado e equipado. Música celestial.

Lá fora o mundo acelerava com o capitalismo neoliberal em modo de desregulação global e a velha Europa entrava na cena a medir forças com os EUA ou as economias emergentes da Ásia. Rapidamente as vantagens da semi-periferia portuguesa (salários baixos, integração na UE e boas dotações infraestruturais) se foram diluindo na vertigem da economia a marchar ao clarim do sistema financeiro e do mundo aberto: algures, salários de miséria e fiscalidade nula; por perto, paraísos fiscais; em lugares remotos, Estados tomados de assalto por interesses privados; jogos sem fronteiras em todos os continentes. A fluidez da cibernética da globalização económico-financeira não se fez acompanhar de nenhum dispositivo político de regulação do que quer que seja à mesma escala.

Estado de coma

Portugal tinha-se democratizado e fundado, a contra-ciclo, um Estado Social. Passado o ímpeto dos investimentos públicos co-financiados pela UE, o tal investimento privado não veio e a saída da população também não parou. O processo de desruralização (a desconstrução do edifício da ruralidade tradicional, das economias familiares de auto-subsistência, das práticas agrícolas ancestrais, das tradições, dos ranchos de filhos, do abandono dos campos) aprofundou-se e ganhou velocidade, em alto contraste com o tempo longo em que permaneceu sem grandes sobressaltos até praticamente ao final dos anos de 1950’. Parece que foi ontem e por isso o país está cheio de presenças materiais desse longo ciclo que agora lentamente se esvaziam e arruínam: casas, caminhos, espigueiros, moinhos, muros, celeiros, campos. Das novas gerações que entraram no ensino superior (este que escreve também é o primeiro diplomado na família, como a maioria dos diplomados na casa dos cinquentas), as primeiras ainda saíram beneficiadas com o ciclo de desenvolvimento do Estado Social; as seguintes sentiram na pele a mudança brusca do clima económico, dos anos duros da troika e do Estado endividado metido na deriva neoliberal a “reestruturar” o sector público, a privatizar, a concessionar. Os governantes diziam aos jovens que emigrassem. Assim fizeram (como sempre, desde há séculos).

Neste turbilhão veloz de construção e desconstrução do Estado Social, de desenvolvimento seguido de crise prolongada, a geografia do país foi-se extremando. Entretanto, o estado ex-empreendedor foi desinvestindo, fechando ali um centro de saúde, acolá um tribunal ou uma escola. As mazelas do centralismo do Estado (e da Administração Pública) dividido pelas capelas ministeriais nem se deu conta que muitas das decisões sectoriais do emagrecimento coincidiam nos mesmos lugares. A folha de cálculo não estava georeferenciada. O certo é que entre o ciclo positivo do Portugal pós-adesão à UE e o país que hoje temos não aconteceu nenhuma reestruturação assinalável na estrutura fortemente hierárquica e polarizada da organização do estado/administração.

O ciclo vicioso — emigração, envelhecimento, quebra da natalidade, despovoamento, escassez de oferta de emprego —, deixou a maioria do país em estado de coma. A rapidez do processo provocou um certo atordoamento. Chega a haver escolas novas para alunos que não há; sem os serviços de apoio aos idosos que são cada vez mais, e mais fragilizados e ainda mais idosos. O paradoxo é que mesmo onde há investimentos agrícolas fortes — Douro Vinhateiro, perímetros de rega do Mira e do Alqueva —, a saída de população continua e o emprego não aparece. Para os trabalhos sazonais dessa nova agricultura hipertecnológica — o agro-negócio —, aparece gente do longínquo Nepal para jornas onde no tempo da miséria apareciam os trabalhadores das migrações internas, os “ratinhos” e as “rogas” da ceifa e da vindima. A globalização é a lei do dinheiro que faz dinheiro, seja com as tecnologias, com o trabalho, com as mercadorias, com o transporte, com a finança. São os mercados. A regulação dos sistemas económicos no contexto dos Estados-nação desbordou e explodiu. A centralidade do Estado na condução das políticas sectoriais ou territoriais afundou-se com a dívida, com o canto da sereia neoliberal, com uma exagerada distância entre governo central e municipal e respectivos orçamentos e competências. Com os sectores estratégicos privatizados — desde a energia, aos correios e às telecomunicações — e a penúria para financiar os sistemas básicos do Estado Social como a justiça, a saúde, o ensino e a segurança social, pouco fica para, através das políticas públicas, orientar o que quer que seja.

Futebol, sempre

Por isso o povo se sente desamparado. Umas vezes é cidadão e reclama direitos e Estado de Direito; outras vezes é utente, protesta e assina petições nas redes sociais; na maior parte das vezes é apenas cliente: se tem dinheiro, compra, se não tem, não tem. Na ditadura havia o Estado paternalista, autoritário e somítico; depois houve uma democracia generosa e agora há os governos com as finanças apertadas, ultracentralizados, burocráticos e distantes. Os orçamentos municipais continuam escassos e a descentralização emaranha-se em discussões inúteis. Pela política adentro entrou uma retórica poderosa que se perde em adjectivos e causas de que não se percebem as vantagens para a vida de todos os dias — tudo será sustentável, verde, património, resiliente, coeso, empreendedor, empoderado, comunidade, participado, ambientalmente saudável, descarbonizado, inteligente…, e tudo o mais que é articulado neste latim pastoso, no inglês andadeiro ou em algoritmos tecno-burocráticos. Para variar, um tema fracturante sobre género, sociedade da informação, protecção da natureza ou mobilidade suave. Futebol, sempre.

Por isso este mal-estar quando tudo arde, quando desabam estradas e barrancos, quando morrem famílias, quando a TV (cada vez mais irreal) vai ao país real, quando ao lado do último cosmopolitismo lisboeta do Web Summit ou de mais um escândalo envolvendo milhões, políticos profissionais, bancos e negócios, aparecem as notícias avulso da província, das aldeias, do interior, ou de qualquer outro nome que tenha esta geografia incerta do Portugal metido nas névoas ou amacacado em regionalismos e tipicismos para o turismo rural e para a vertigem da circulação das imagens nas redes e nas vidraças dos telemóveis.

Dissonância cognitiva é o nome que se dá a certas patologias psicológicas caracterizadas pelo conflito derivado da percepção de coisas ou situações que surgem em simultâneo e que parecem muitas, inconsistentes, contraditórias, anacrónicas, difíceis de ponderar ou de avaliar segundo os esquemas simplificados que existem para as entender.

É por isso que estou sempre a lembrar-me de um escrito que estava na porta do gabinete de uma minha professora: teoria é quando sabemos tudo mas nada funciona; a prática é quando tudo funciona mas não sabemos porquê; aqui, juntamos teoria e prática: nada funciona e não sabemos porquê (mas vamos fazer um inquérito, uma averiguação, uma nova legislação, umas multas, uma comissão parlamentar, uma política de mitigação de risco, um sistema de alerta, um abaixo-assinado, um dia nacional sem desastres, uma missa cantada, um site, um workshop…). Como dizia François Ascher a propósito da sociedade hiper-moderna, face a estes acontecimentos que nos ultrapassam, façamos de conta que os organizamos

Álvaro Domingues. Público, 25 novembro, 2018.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:38
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2018

Bertolucci

«Bertolucci morreu!», diz-me alguém do pequeno ecrã…

... ainda me persistem na memória as imagens de 1900 (mais de cinco horas de cinema comprometido - aquele comboio a sair da estação ao som da concertina é memorável...), do Último Tango em Paris (para além do “escândalo” da manteiga, as interpretações memoráveis de Brando e da então desconhecida Maria Schneider…), dos Sonhadores (a ingénua utopia do Maio 68, ou à margem dele…), da Estratégia da Aranha (o fascismo segundo Jorge Luis Borges…), o rigor de O Conformista ou mesmo o “grande cinema” de O Último Imperador.

Os filmes continuam aí e, juntamente com obras de Fellini, Pasolini, de Sica e Antonioni (agora não me lembro de mais ninguém…), fazem parte de uma short list do grande cinema italiano.

Que saudades, mas também que ingenuidade esta de achar que os acontecimentos têm em nós o mesmo impacto em épocas diferentes… Não, não têm e por isso não gosto de efemérides, e tento afastar alguma nostalgia - vi alguns destes filmes no Palácio Foz, em sessões à borla, promovidas não sei por quem… Eram dias/semanas de realizadores: Fellini, Godard, Bergman, Resnais, Truffaut, Buñuel, …

Enfim, velhos tempos..., a cultura não incluia discussões sobre touradas e desconfio que Robert de Niro já então (no filme1900) não gostava de Trump!

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:47
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018

«O Bode Expiatório»

Bode_Expiatorio_final.jpg

Como considero a expressão de opiniões atos legítimos e saudáveis, não tenho nada contra a divulgação de manifestos ou panfletos.

Confesso, no entanto, que me causa alguma perplexidade verificar que alguns académicos (e só estes, os outros nem me interessam...) subscrevem manifestos como este. Devem subscrever manifestos? Devem! Mas, digam-me, este texto faz algum sentido? A ciência e os interesses coincidem muitas vezes, mas é no mínimo desagradável ver a ciência aprisionada num labirinto de curtíssimo prazo? 

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:15
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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

«BBB»

Não sabia (a ignorância tem pelo menos a virtude de temporariamente nos deixar mais descansados…) que o Congresso Nacional do Brasil tem a “bancada do Boi” a “bancada da Bala” e a “bancada da Bíblia”, também chamadas “Ruralista”, “Armamentista” e “Evangélica”, respetivamente. Ao conjunto parece que lhe chamam a bancada “BBB”.

Resisto à tentação de encontrar sinónimos nas bancadas parlamentares em Portugal - e há qualquer coisa que ri dentro da imaginação, mas que uma palmada suave afasta como se enxota uma mosca… É que há coisas que nem o riso atenua!

Parece claro que o Sr. Bolsonaro é adepto da “bancada da Bíblia” e da “bancada da Bala”. Estranho não encontrar nenhuma ligação evidente à “bancada do Boi”, mas temo que seja apenas uma questão de tempo, o tempo necessário para que a Amazónia entre no lote de bens transacionáveis…

Não há nada como pertencer a uma claque organizada em torno de um qualquer deus, de pistola em punho e nos cornos de um boi. O problema é que assim que se constroem os infernos deste mundo.

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:37
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

wildfire

«[…]

(…) a primeira constatação é a da grande confusão sobre os conceitos de “fogo” e de “incêndio”. Neste aspecto, como em outros, a língua inglesa torna tudo mais fácil: fogo é fire e incêndio é wildfire. Logo, os incêndios são um caso particular dos fogos, são aqueles que dificilmente se controlam, os fogos “selvagens”, que se distinguem por isso de outras categorias de fogos, aqueles que são utilizados de forma controlada, em geral designados na língua inglesa por prescribed fires e que, em Portugal, tornaram a designação quase equivalente de “fogos controlados”.

Parecia uma divisão simples, facilmente entendível pelo público em geral, por políticos, por jornalistas. Mas não! As campanhas mais mediáticas, com mais meios e mais responsabilidades continuam a não entender a diferença. E aí está o slogan, que até nem rima, do “Portugal sem fogos depende de todos”.

Sem caricaturar, mas usando apenas analogias com outros elementos da natureza, podia também apelar-se a um Portugal sem insetos, não distinguindo aqueles que nos são tão úteis, como as abelhas, de outros que propagam doenças, como o nemátodo da madeira do pinheiro. E muitas outras analogias serviriam para ilustrar a pobreza de uma frase que, infelizmente, tem perdurado em campanhas sucessivas com a justificação de que o público não consegue perceber a diferença entre incêndio e fogo. Ou talvez sejam os próprios promotores da campanha que não o tenham percebido…

[…]»

Francisco Castro Rego. A Defesa da Floresta Contra Incêndios (DFCI). Agricultura, Floresta e Desenvolvimento Rural. Ed. IESE (Instituto de Estudos Sociais e Económicos), 2016, pp139.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:15
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

«mundos mudos» no papalagui

Gosto muito desta fotografia "roubada" a o papalagui (ver aqui):

20180710_155422.jpg

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:23
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Terça-feira, 24 de Julho de 2018

... fogos gregos

Grécia_fogos_02.jpg

 … e abre-se uma nova janela de oportunidades para uma enxameação dos experts em quase tudo. Vai ser (já está a ser em todas as tv's, jornais, ...) um rodopio de especialistas em fogos, florestas, prevenção, combate, agricultura, bombeiros, aviões, proteção civil, alterações climáticas…, a lista não tem fim!

É natural que seja assim? É, mas fede!

Fede, na maior parte dos casos, a oportunismo político, à defesa de interesses inconfessáveis, à mediocridade como forma de ser e de estar. Já não há paciência para tanta "sabedoria"!

 

(Que me perdoem os verdadeiros especialistas, os que não cedem a interesses, os que voltam as costas à mediocridade, os que se limitam a defender aquilo em que racionalmente e cientificamente acreditam…, e muito simplesmente nos dizem que este mundo não é nosso ou de cada um de nós, pois limitamo-nos a ser hóspedes por tempo muito reduzido. Esta transitoriedade é inerente à condição humana e quase sempre incompatível com o carácter perene e irresponsável da ação quotidiana. É o modus vivend deste quotidiano que deve ser regulado. Sem contemplações e sobretudo sem cedências a interesses de agentes facilmente identificáveis!)

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:10
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

Word Press Photo

De acordo com a "Visão" esta fotografia, de Ronaldo Schemidt ("homem em chamas na Venezuela"), é a vencedora da 61ª edição da Word Press Photo, realizada em Amesterdão.

WPP_V_S_Balza.jpg

Gosto particularmente desta ("The battle for Mossul", de Ivor Pricket), também vencedora de um prémio:

WPP_I_Pricket.jpg

 


publicado por Fernando Delgado às 00:12
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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

«Quando vier a primavera»

 

«Quando Vier a Primavera

 

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.»

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:55
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