Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

... à mesa do café...

«Se vires um cágado no cimo de uma árvore, foi porque alguém o pôs lá!»

- Provérbio umbundu -

cágado.jpg

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:02
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Quinta-feira, 28 de Março de 2019

«A natureza deixa sempre sobras...»

(Um texto infantil?...

Não sei, mas gostei de ler que

A natureza deixa sempre sobras, uma margem de segurança.

O MEC está a ficar maduro ou, como sempre, naif?...)

 

«Entram borboletas nas nossas vidas, joaninhas. Numa estação de serviço o verde duma bomba engana uma abelha. Chegam dois livros sobre as aves do mundo: a falta cada vez maior de insectos é o maior problema de todos.

Nas janelas e nas gavetas da minha casa nascem moscas para me comer o juízo, peixinhos de prata para me comer os livros, traças para me comer as camisolas.

São insectos também. Os insectos não se podem escolher. Os desagradáveis vêm como os giros. Se não houvesse insectos a voar por toda a parte não viriam as andorinhas e os andorinhões. Morreriam de fome. Não se reproduziriam. Entrariam em extinção. Extinguir-se-iam.

Sem as minhocas não crescia quase nada. Os pássaros também comem minhocas mas deixam minhocas que cheguem para fertilizar a terra. Em contrapartida não há andorinhas e andorinhões que cheguem para dar cabo das moscas e dos mosquitos.

A natureza deixa sempre sobras, uma margem de segurança. Nascem sempre mais bichos do que aqueles que podem viver. A morte é a maneira de distribuir o que há para comer.

Há menos andorinhões porque há menos insectos. O glifosato mata passarinhos — só que não se vê. Cada Primavera é menos primaveril por causa das mortes. Pesticida é a morte das ditas pestes, herbicida é a morte das plantas.

Matando insectos e plantas estamos a matar os animais que dependem deles. Conheço uma horta cheia de caracóis e ácaros onde as alfaces e as couves são esburacadas mas deliciosas. Disse-me a dona, Belmira Cosme: “Tem de dar para todos. Senão como é que havia de ser?”»

Miguel Esteves Cardoso. Público, 28.03.2019.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:44
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

«Deus e o Diabo»

D_Diabo.jpg

Nas televisões, para além de uma lógica comercial, suponho que existe uma lógica jornalística na concepção de programas informativos... É esta lógica jornalística que me assusta em "Deus e o Diabo". Este programa é o protótipo do populismo tal como o conhecemos hoje e que se alimenta sobretudo das "redes sociais". Agora chegou à televisão pela mão do mesmo jornalista que introduziu os reality shows na tvi,  e que volta a "inovar" com mais um programa lamentável e que se baseia em duas coisas muito simples: uma frase retirada do contexto e imediatamente valorizada - falsa, verdadeira, ... - e a opinião de público anónimo em direto sobre essa frase ou qualquer outra.

É assim que nascem os populismos: uma opinião que se transforma em realidade/verdade e o pseudo-contraditório sobre essa realidade/verdade... É a transposição direta das fake news das "redes sociais" para as tv's, para um público-alvo bem definido. Depois queixem-se!

O J. Eduardo Moniz não é obviamente ingénuo e diz ao que vem: “Não pensem que vou fazer um debate, uma entrevista, que vou fazer de moderador… Não é nada disso! Espero que os portugueses gostem, porque vão ver jornalismo sério, muito frontal, sem papas na língua, que chama as coisas pelos nomes. Vai ser interessante“.

J. E. Moniz imagina-se sentado numa poltrona moralista, entre as cadeiras monoteístas de Deus e do Diabo. Condiz com a personagem, mas não pense que somos estúpidos.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:16
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2018

Guião para um filme tragicómico - take 2

Local de filmagem: Terreiro do Paço

Ambiente: Urbano, agitado, multiracial, multicultural

Personagens: Ministro das Finanças e Secretário de Estado Adjunto e das Finanças

Take 2 (panorâmico sobre o Terreiro do Paço, com oTejo ao fundo, zoom para a estátua de D. José I, pormenor dos pombos sobre o cavalo e entrada pelas arcadas do ministério das finanças com alteração dos níveis de luz e ruído, passando do mundano ao reservado)

(Mourinho, nas escadas do ministério das finanças parece aguardar Centeno) - bom dia caro ministro..., a sua secretária tem uma carta urgente...

(Centeno) - uma carta, urgente? de quem?

(Mourinho) -  do sr. ministro, de si!

(Centeno) - de mim? (rugas fugidias na testa contrastam com o tom infantil da pergunta)

(Mourinho) - sim! diz que existem grandes riscos no orçamento..., o Primeiro já ligou a perguntar o que se passa...

(Centeno) - ah, já percebi, do presidente do Eurogrupo... (sorriso malandro, mas infantil). A carta é para o Secretário de Estado, é para si!

(Mourinho sem convicção) - ... mas está dirigida ao sr. ministro! 

(Centeno) - não...,  O presidente do Eurogrupo não escreve ao ministro das finanças, ouve-o, dorme com ele! E quando ouve, discorda dele... E quando dorme... (sorriso malandro, lascivo, mas infantil)

(Mourinho desalentado) - mas então o que faço, o que digo ao Primeiro?

(Centeno, com voz pausada, solene) – diz-lhe que o ministro das finanças ouve o presidente do eurogrupo e discorda dele e que o presidente do eurogrupo escreve ao ministro das finanças e ..., e vice-versa...

(Mourinho baralhado) - vice-versa?!...

(Centeno) - sim!, vice aqui, versa lá, em Bruxelas!... vice-versa...

(Mourinho, a morder o dedo mindinho e a olhar para a ponta dos sapatos lustrosos parece meditar e falar para si próprio...)

(Centeno numa decisão rápida) - deixa, eu falo com o Primeiro! Ele ouve-me (cala-se, sobe as escadas,... e ainda murmura para si próprio) - ... se calhar escrevo-lhe uma carta..., ou vice-versa...

Corta!!!

 


publicado por Fernando Delgado às 23:31
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Guião para um filme tragicómico - take 1

Local de filmagem: gabinete de reuniões do Conselho Europeu, em Bruxelas (como não existe sede do Eurogrupo, é escolhido um ao acaso)

Ambiente: Tipo clandestino - mobiliário austero e iluminação artificial, difusa, com lugares na penumbra.

Personagens: Todos os ministros das finanças do euro, vestidos de fato cinzento-escuro e gravata vermelha, e ainda o vice-presidente da CE, o comissário dos assuntos económicos e financeiros, o presidente do BCE e o diretor do MEE, estes vestidos de fato azul escuro e gravata branca.

Take 1 (travelling pela sala de reuniões antes do início da reunião. Especial atenção à austeridade do ambiente e às facies pálidas das personagens)

 (Centeno) - toca a sineta com um riso infantil…

(Centeno) - volta a tocar a sineta e olha com ar reprovador para Giovani Tria, ainda de pé junto da cadeira

(Giovani Tria para Centeno, com o olhar distante, fixo no vazio) – Estou como a torre de Pisa: ainda de pé! (esboça um sorriso, mas perante o silêncio dos restantes acaba por se sentar. Centeno sorri, sorriso infantil!)

(Centeno dá a palavra a Moscovici que inicia um longo discurso) – Sr. Presidente, caros colegas (sorri para os de gravata vermelha) temos que dar umas palmatoadas aqui no camarada Tria (volta a sorrir sem levantar os olhos e por isso não percebeu o esgar de dor do italiano). As regras são regras e como tal têm que ser cumpridas sob risco do três ser ultrapassado ou, na hipótese otimista, ficar mais de cinquenta por cento acima do dois. Coisa que não acredito, já que o dois é um número traiçoeiro que quando inchado se parece mais com o três. Temos que abater o três, custe o que custar…

(Tria, com voz colérica) – E sou só eu que valho menos cinquenta por cento que a diferença entre o dois e o três (faz uma pausa fazendo cálculos mentais). Este cenário não entra em consideração com a hipótese do três também poder inchar e ficar um oito ou um infinito (nova pausa) … um oito deitado…

(Scholz) – morto! (a luz ténue acentua o rosto hirto do personagem)

(Silêncio, longo silêncio… Luz ténue sobre rostos muito brancos, casacos escuros que apenas revelam a silhueta e gravatas berrantes – vermelhas e brancas - como cordas ao pescoço)

(Centeno) – então?!, não é preciso tanto dramatismo (sorriso cândido, infantil)

(Tria, outra vez com voz colérica) – E o senhor presidente, e Portugal? A raiz quadrada do três, somada à diferença do três com o dois, mesmo considerando o grau de liberdade que concede ao um, a si próprio, convenhamos, (e olha Centeno de frente) pelas minhas contas também tende para um oito deitado!

(Centeno sorri, sorriso infantil, ingénuo. Olha para o outro lado da mesa…)

(Mourinho, afagando com a mão direita a gravata vermelha e olhando-a com medo que a cor desbote) – Mas nós temos as contas certas! Um é um e menos o coeficiente de cagança…, perdão, de cagaço, fica quase zero…

(Tsakalotos) – Coeficiente de cagaço?!, mas isso é de engenheiro, camarada…  (a cadeira polaca rangeu, rosnar na noite sem lua e a sala ficou mais escura)  Aqui tratamos de finanças!

(Mourinho, enrubescido como as crianças repreendidas, afagando novamente a gravata vermelha, que parecia menos vermelha, ignorando o grego, dirigindo-se a Centeno e repetindo) – Sr. Presidente, as nossas contas estão certas: um é um e menos o coeficiente de … segurança (e repetiu) de segurança, fica quase zero! Quase zero, o número perfeito…, perfeito! Deitado ou não, é zero! Zero!

(Centeno, sorriso, sorriso infantil, babado com o bombom do Mourinho)

(Silêncio, longo silêncio. Travelling sobre a mesa iluminada, os copos cheios de água, cristalinos, e saída para um grande plano do quadro pendurado na parede - uma reprodução de um frame da Roma de Fellini. Saída lenta pela janela e zoom para Manneken Pis, ouvindo-se em fundo a sineta e a voz indecifrável de Centeno).

 


publicado por Fernando Delgado às 01:46
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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018

«... para uma geografia emocional do interior»

Transcrevo texto integral do “ensaio” de Álvaro Domingues no Público, pela espantosa síntese do Portugal de hoje, mas também porque a «teoria é quando sabemos tudo mas nada funciona; a prática é quando tudo funciona mas não sabemos porquê; aqui, juntamos teoria e prática: nada funciona e não sabemos porquê».

 

«Desamparados – para uma geografia emocional do interior

Chamam-lhe territórios de baixa densidade. Nada como uma boa expressão tecnocrata para tentar apaziguar este sentimento de que há uma espécie de maldição que caiu sobre o lado errado do mapa, o que se afasta do mar e, da Serra da Peneda ao Guadiana, se estende pela maior parte do território de Portugal.

Portugal, apesar da pequena dimensão, é constituído por um mosaico com variações e contrastes bruscos. Sempre foi. Não é tudo a mesma coisa nessas terras do dito interior. Percorrem-nas vias rápidas, redes de energia, telecomunicações; emergem nesse panorama depressivo uma mão cheia de centros urbanos de pequena dimensão, capitais de distrito quase todos, e um sem número de vilas, sedes de concelho que resistem enquanto não fecharem todos os postos dos CTT, os centros de saúde, as escolas básicas e secundárias, os tribunais, as casas da cultura ou câmaras municipais, quem sabe. A história de como aqui se chegou é conhecida e, resumidamente, pode-se contar assim.

Estávamos no início da década de 1960, governava uma ditadura arcaica e conservadora e a elite pensante e o poder aglomeravam-se em Lisboa, como sempre desde os afonsinhos. A modernização acontecia aos solavancos, descoordenada e na maior parte do território corria a debandada geral da emigração a fugir da pobreza dos campos, da vida rural e dos horizontes curtos. O mau viver desse interior empurrou a gente para o exterior. Nas lendas e narrativas do Portugal romântico e fantasioso, essa era a terra idílica dos camponeses, a mesma que enxameava os livros da Escola Primária, a propaganda do SNI, os concursos das aldeias mais portuguesas, os Guias de Portugal, ou os relatos pitorescos das viagens de férias da burguesia que ia à “província”, narrativas muito distintas daquelas dos que, simplesmente, iam “à terra” quando podiam. Apesar do regime tornar ilegal e dificultar essa sangria emigratória, tinha começado o último episódio do fim da pré-modernidade portuguesa. Algures em França, na Alemanha ou nas Américas organizava-se a vida, trabalhava-se, poupava-se, sonhava-se com o regresso à terra sem a escravatura do trabalho nos campos, os casebres a cheirar a fumo ou a sobranceria dos notáveis que gostavam do povo simples e, sobretudo, barato e submisso.

Quando apareceram os sinais desse regresso – as casas novas – a elite instalada alvoroçou-se. Aqueles novos-ricos estavam a construir umas casas exóticas, perturbadoras daquela paz onde o sino tocava e a torre da igreja branquejava no vale onde antes se cantava na vindima ou na ceifa e os carros de bois chiavam nos caminhos. No 10 de Junho, o da Raça que depois foi de Portugal, de Camões e das Comunidades, baixava o tom e mudava o registo: os emigrantes eram uns heróis que enviavam divisas, punham os filhos na escola e equilibravam a balança de pagamentos do país. No dia a seguir voltava tudo ao mesmo. Entretanto, os filhos deles também partiram, organizaram vida algures e agora os seus pais ou avós já passam mais tempo onde toda a vida trabalharam do que nas casas vazias que semeiam o território das origens.

Houve uma revolução entretanto. Já tardava. Passadas as convulsões iniciais, o país rapidamente integrou a então Comunidade Económica Europeia e o tempo acelerou. Em menos de trinta anos Portugal mudou mais do que em toda a sua longa história. A construção rápida do Estado Social distribuiu infraestruturas, bens e serviços públicos por toda a geografia nacional: estradas e auto-estradas, rede eléctrica, telecomunicações, água, esgoto, escolas, hospitais, universidades, politécnicos, equipamentos culturais e desportivos…, seguindo as políticas sectoriais do Estado Central e apoiando o novo municipalismo democrático.

A unanimidade acerca deste surto de investimento público era praticamente total. Como em qualquer política keynesiana, o Estado investiria, modernizaria o país e os privados viriam a reboque aproveitando essas vantagens e economias externas produzidas para uma sociedade mais desafogada e equilibrada, mais educada e com maior poder de compra, e um território finalmente tornado funcional, desencravado e equipado. Música celestial.

Lá fora o mundo acelerava com o capitalismo neoliberal em modo de desregulação global e a velha Europa entrava na cena a medir forças com os EUA ou as economias emergentes da Ásia. Rapidamente as vantagens da semi-periferia portuguesa (salários baixos, integração na UE e boas dotações infraestruturais) se foram diluindo na vertigem da economia a marchar ao clarim do sistema financeiro e do mundo aberto: algures, salários de miséria e fiscalidade nula; por perto, paraísos fiscais; em lugares remotos, Estados tomados de assalto por interesses privados; jogos sem fronteiras em todos os continentes. A fluidez da cibernética da globalização económico-financeira não se fez acompanhar de nenhum dispositivo político de regulação do que quer que seja à mesma escala.

Estado de coma

Portugal tinha-se democratizado e fundado, a contra-ciclo, um Estado Social. Passado o ímpeto dos investimentos públicos co-financiados pela UE, o tal investimento privado não veio e a saída da população também não parou. O processo de desruralização (a desconstrução do edifício da ruralidade tradicional, das economias familiares de auto-subsistência, das práticas agrícolas ancestrais, das tradições, dos ranchos de filhos, do abandono dos campos) aprofundou-se e ganhou velocidade, em alto contraste com o tempo longo em que permaneceu sem grandes sobressaltos até praticamente ao final dos anos de 1950’. Parece que foi ontem e por isso o país está cheio de presenças materiais desse longo ciclo que agora lentamente se esvaziam e arruínam: casas, caminhos, espigueiros, moinhos, muros, celeiros, campos. Das novas gerações que entraram no ensino superior (este que escreve também é o primeiro diplomado na família, como a maioria dos diplomados na casa dos cinquentas), as primeiras ainda saíram beneficiadas com o ciclo de desenvolvimento do Estado Social; as seguintes sentiram na pele a mudança brusca do clima económico, dos anos duros da troika e do Estado endividado metido na deriva neoliberal a “reestruturar” o sector público, a privatizar, a concessionar. Os governantes diziam aos jovens que emigrassem. Assim fizeram (como sempre, desde há séculos).

Neste turbilhão veloz de construção e desconstrução do Estado Social, de desenvolvimento seguido de crise prolongada, a geografia do país foi-se extremando. Entretanto, o estado ex-empreendedor foi desinvestindo, fechando ali um centro de saúde, acolá um tribunal ou uma escola. As mazelas do centralismo do Estado (e da Administração Pública) dividido pelas capelas ministeriais nem se deu conta que muitas das decisões sectoriais do emagrecimento coincidiam nos mesmos lugares. A folha de cálculo não estava georeferenciada. O certo é que entre o ciclo positivo do Portugal pós-adesão à UE e o país que hoje temos não aconteceu nenhuma reestruturação assinalável na estrutura fortemente hierárquica e polarizada da organização do estado/administração.

O ciclo vicioso — emigração, envelhecimento, quebra da natalidade, despovoamento, escassez de oferta de emprego —, deixou a maioria do país em estado de coma. A rapidez do processo provocou um certo atordoamento. Chega a haver escolas novas para alunos que não há; sem os serviços de apoio aos idosos que são cada vez mais, e mais fragilizados e ainda mais idosos. O paradoxo é que mesmo onde há investimentos agrícolas fortes — Douro Vinhateiro, perímetros de rega do Mira e do Alqueva —, a saída de população continua e o emprego não aparece. Para os trabalhos sazonais dessa nova agricultura hipertecnológica — o agro-negócio —, aparece gente do longínquo Nepal para jornas onde no tempo da miséria apareciam os trabalhadores das migrações internas, os “ratinhos” e as “rogas” da ceifa e da vindima. A globalização é a lei do dinheiro que faz dinheiro, seja com as tecnologias, com o trabalho, com as mercadorias, com o transporte, com a finança. São os mercados. A regulação dos sistemas económicos no contexto dos Estados-nação desbordou e explodiu. A centralidade do Estado na condução das políticas sectoriais ou territoriais afundou-se com a dívida, com o canto da sereia neoliberal, com uma exagerada distância entre governo central e municipal e respectivos orçamentos e competências. Com os sectores estratégicos privatizados — desde a energia, aos correios e às telecomunicações — e a penúria para financiar os sistemas básicos do Estado Social como a justiça, a saúde, o ensino e a segurança social, pouco fica para, através das políticas públicas, orientar o que quer que seja.

Futebol, sempre

Por isso o povo se sente desamparado. Umas vezes é cidadão e reclama direitos e Estado de Direito; outras vezes é utente, protesta e assina petições nas redes sociais; na maior parte das vezes é apenas cliente: se tem dinheiro, compra, se não tem, não tem. Na ditadura havia o Estado paternalista, autoritário e somítico; depois houve uma democracia generosa e agora há os governos com as finanças apertadas, ultracentralizados, burocráticos e distantes. Os orçamentos municipais continuam escassos e a descentralização emaranha-se em discussões inúteis. Pela política adentro entrou uma retórica poderosa que se perde em adjectivos e causas de que não se percebem as vantagens para a vida de todos os dias — tudo será sustentável, verde, património, resiliente, coeso, empreendedor, empoderado, comunidade, participado, ambientalmente saudável, descarbonizado, inteligente…, e tudo o mais que é articulado neste latim pastoso, no inglês andadeiro ou em algoritmos tecno-burocráticos. Para variar, um tema fracturante sobre género, sociedade da informação, protecção da natureza ou mobilidade suave. Futebol, sempre.

Por isso este mal-estar quando tudo arde, quando desabam estradas e barrancos, quando morrem famílias, quando a TV (cada vez mais irreal) vai ao país real, quando ao lado do último cosmopolitismo lisboeta do Web Summit ou de mais um escândalo envolvendo milhões, políticos profissionais, bancos e negócios, aparecem as notícias avulso da província, das aldeias, do interior, ou de qualquer outro nome que tenha esta geografia incerta do Portugal metido nas névoas ou amacacado em regionalismos e tipicismos para o turismo rural e para a vertigem da circulação das imagens nas redes e nas vidraças dos telemóveis.

Dissonância cognitiva é o nome que se dá a certas patologias psicológicas caracterizadas pelo conflito derivado da percepção de coisas ou situações que surgem em simultâneo e que parecem muitas, inconsistentes, contraditórias, anacrónicas, difíceis de ponderar ou de avaliar segundo os esquemas simplificados que existem para as entender.

É por isso que estou sempre a lembrar-me de um escrito que estava na porta do gabinete de uma minha professora: teoria é quando sabemos tudo mas nada funciona; a prática é quando tudo funciona mas não sabemos porquê; aqui, juntamos teoria e prática: nada funciona e não sabemos porquê (mas vamos fazer um inquérito, uma averiguação, uma nova legislação, umas multas, uma comissão parlamentar, uma política de mitigação de risco, um sistema de alerta, um abaixo-assinado, um dia nacional sem desastres, uma missa cantada, um site, um workshop…). Como dizia François Ascher a propósito da sociedade hiper-moderna, face a estes acontecimentos que nos ultrapassam, façamos de conta que os organizamos

Álvaro Domingues. Público, 25 novembro, 2018.

 

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Terça-feira, 27 de Novembro de 2018

Bertolucci

«Bertolucci morreu!», diz-me alguém do pequeno ecrã…

... ainda me persistem na memória as imagens de 1900 (mais de cinco horas de cinema comprometido - aquele comboio a sair da estação ao som da concertina é memorável...), do Último Tango em Paris (para além do “escândalo” da manteiga, as interpretações memoráveis de Brando e da então desconhecida Maria Schneider…), dos Sonhadores (a ingénua utopia do Maio 68, ou à margem dele…), da Estratégia da Aranha (o fascismo segundo Jorge Luis Borges…), o rigor de O Conformista ou mesmo o “grande cinema” de O Último Imperador.

Os filmes continuam aí e, juntamente com obras de Fellini, Pasolini, de Sica e Antonioni (agora não me lembro de mais ninguém…), fazem parte de uma short list do grande cinema italiano.

Que saudades, mas também que ingenuidade esta de achar que os acontecimentos têm em nós o mesmo impacto em épocas diferentes… Não, não têm e por isso não gosto de efemérides, e tento afastar alguma nostalgia - vi alguns destes filmes no Palácio Foz, em sessões à borla, promovidas não sei por quem… Eram dias/semanas de realizadores: Fellini, Godard, Bergman, Resnais, Truffaut, Buñuel, …

Enfim, velhos tempos..., a cultura não incluia discussões sobre touradas e desconfio que Robert de Niro já então (no filme1900) não gostava de Trump!

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:47
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018

«O Bode Expiatório»

Bode_Expiatorio_final.jpg

Como considero a expressão de opiniões atos legítimos e saudáveis, não tenho nada contra a divulgação de manifestos ou panfletos.

Confesso, no entanto, que me causa alguma perplexidade verificar que alguns académicos (e só estes, os outros nem me interessam...) subscrevem manifestos como este. Devem subscrever manifestos? Devem! Mas, digam-me, este texto faz algum sentido? A ciência e os interesses coincidem muitas vezes, mas é no mínimo desagradável ver a ciência aprisionada num labirinto de curtíssimo prazo? 

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:15
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Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

«BBB»

Não sabia (a ignorância tem pelo menos a virtude de temporariamente nos deixar mais descansados…) que o Congresso Nacional do Brasil tem a “bancada do Boi” a “bancada da Bala” e a “bancada da Bíblia”, também chamadas “Ruralista”, “Armamentista” e “Evangélica”, respetivamente. Ao conjunto parece que lhe chamam a bancada “BBB”.

Resisto à tentação de encontrar sinónimos nas bancadas parlamentares em Portugal - e há qualquer coisa que ri dentro da imaginação, mas que uma palmada suave afasta como se enxota uma mosca… É que há coisas que nem o riso atenua!

Parece claro que o Sr. Bolsonaro é adepto da “bancada da Bíblia” e da “bancada da Bala”. Estranho não encontrar nenhuma ligação evidente à “bancada do Boi”, mas temo que seja apenas uma questão de tempo, o tempo necessário para que a Amazónia entre no lote de bens transacionáveis…

Não há nada como pertencer a uma claque organizada em torno de um qualquer deus, de pistola em punho e nos cornos de um boi. O problema é que assim que se constroem os infernos deste mundo.

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:37
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

wildfire

«[…]

(…) a primeira constatação é a da grande confusão sobre os conceitos de “fogo” e de “incêndio”. Neste aspecto, como em outros, a língua inglesa torna tudo mais fácil: fogo é fire e incêndio é wildfire. Logo, os incêndios são um caso particular dos fogos, são aqueles que dificilmente se controlam, os fogos “selvagens”, que se distinguem por isso de outras categorias de fogos, aqueles que são utilizados de forma controlada, em geral designados na língua inglesa por prescribed fires e que, em Portugal, tornaram a designação quase equivalente de “fogos controlados”.

Parecia uma divisão simples, facilmente entendível pelo público em geral, por políticos, por jornalistas. Mas não! As campanhas mais mediáticas, com mais meios e mais responsabilidades continuam a não entender a diferença. E aí está o slogan, que até nem rima, do “Portugal sem fogos depende de todos”.

Sem caricaturar, mas usando apenas analogias com outros elementos da natureza, podia também apelar-se a um Portugal sem insetos, não distinguindo aqueles que nos são tão úteis, como as abelhas, de outros que propagam doenças, como o nemátodo da madeira do pinheiro. E muitas outras analogias serviriam para ilustrar a pobreza de uma frase que, infelizmente, tem perdurado em campanhas sucessivas com a justificação de que o público não consegue perceber a diferença entre incêndio e fogo. Ou talvez sejam os próprios promotores da campanha que não o tenham percebido…

[…]»

Francisco Castro Rego. A Defesa da Floresta Contra Incêndios (DFCI). Agricultura, Floresta e Desenvolvimento Rural. Ed. IESE (Instituto de Estudos Sociais e Económicos), 2016, pp139.

 

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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

«mundos mudos» no papalagui

Gosto muito desta fotografia "roubada" a o papalagui (ver aqui):

20180710_155422.jpg

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:23
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Terça-feira, 24 de Julho de 2018

... fogos gregos

Grécia_fogos_02.jpg

 … e abre-se uma nova janela de oportunidades para uma enxameação dos experts em quase tudo. Vai ser (já está a ser em todas as tv's, jornais, ...) um rodopio de especialistas em fogos, florestas, prevenção, combate, agricultura, bombeiros, aviões, proteção civil, alterações climáticas…, a lista não tem fim!

É natural que seja assim? É, mas fede!

Fede, na maior parte dos casos, a oportunismo político, à defesa de interesses inconfessáveis, à mediocridade como forma de ser e de estar. Já não há paciência para tanta "sabedoria"!

 

(Que me perdoem os verdadeiros especialistas, os que não cedem a interesses, os que voltam as costas à mediocridade, os que se limitam a defender aquilo em que racionalmente e cientificamente acreditam…, e muito simplesmente nos dizem que este mundo não é nosso ou de cada um de nós, pois limitamo-nos a ser hóspedes por tempo muito reduzido. Esta transitoriedade é inerente à condição humana e quase sempre incompatível com o carácter perene e irresponsável da ação quotidiana. É o modus vivend deste quotidiano que deve ser regulado. Sem contemplações e sobretudo sem cedências a interesses de agentes facilmente identificáveis!)

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:10
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Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

Word Press Photo

De acordo com a "Visão" esta fotografia, de Ronaldo Schemidt ("homem em chamas na Venezuela"), é a vencedora da 61ª edição da Word Press Photo, realizada em Amesterdão.

WPP_V_S_Balza.jpg

Gosto particularmente desta ("The battle for Mossul", de Ivor Pricket), também vencedora de um prémio:

WPP_I_Pricket.jpg

 


publicado por Fernando Delgado às 00:12
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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

«Quando vier a primavera»

 

«Quando Vier a Primavera

 

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.»

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:55
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018

A oeste nada de novo*

«A well regulated militia, being necessary to the security of a free State, the right of the People to keep and bear arms shall not be infringed

 - Second Amendment to the United States Constitution, 15 December 1791 -

TRUMP.jpg

( Receção de Trump a familiares das vitimas do tiroteio na escola secundária na Florida - ver vídeo aqui)

(* ... com recomendação de leitura ou releitura do livro de Erich Maria Remarque)

 

Trump - Alguém tem uma ideia para por fim a isto? O que recomendam que se faça para pôr fim a isto?

(O tipo calvo à esquerda de Trump e das duas meninas com ar enjoado) - Há muitos professores que têm licença de porte de arma. Que levantem as mãos para se voluntariarem, para receberem treino, para que quando algo de semelhante acontecer os primeiros a reagir já estarem no campo. [Trump abana a cabeça em concordância] E se não forem os professores podem ser outros funcionários.

Trump – Iremos fazer muitas coisas diferentes. Mas vamos certamente olhar para ideias como esta.

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:21
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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2018

Lili Artic Golden, sem limão

A wikipédia diz que o peeling é uma das técnicas de clareamento da pele, que utiliza, entre outras possibilidades, o laser, o ácido tricloroacético, o ácido retinoico ou o fenol. Lili Caneças terá usado um destes métodos. Quanto ao resultado…

Na maçã é bem mais simples – aparentemente basta inibir as polifenoloxidades e pronto: a maçã já não escurece depois de cortada em pedaços. A explicação científica não será tão simples, mas a história dos OGM’s é já tão longa que nem vale a pena tentar arranjar exemplos. Quanto ao resultado…, convenhamos que é difícil trocar o aroma da Bravo de Esmolfe, mesmo com alguma carepa e escurecimento rápido, por um "gene" de Chanel 5 injetado em qualquer Golden!

Agora a sério, mais a sério, transcrevo de seguida parte do artigo da Visão sobre a Arctic Golden, uma maça geneticamente modificada.

appple-2.jpg

 «Já chegou ao mercado americano a primeira maçã geneticamente modificada – não escurece depois de cortada. Será que sobrevive à má fama dos transgénicos?

(…)

A empresa canadiana Okanagan Specialty Fruits tem esperança que a vantagem estética da sua Arctic Golden se sobreponha às campanhas do medo. Afinal, quem não quererá uma maçã que, horas depois de cortada, mantém o seu aspeto fresco, sem o mais leve sinal da oxidação que torna as outras maçãs pouco apelativas? “Estudos demonstram que as crianças comem mais maçãs se estiverem fatiadas”, alega a empresa no seu site, piscando o olho aos pais que querem preparar lanches saudáveis para os seus filhos levarem para a escola.

Ao longo do ano se verá se a maçã se torna um sucesso – ou se tem o mesmo destino do Flavr Savr, um tomate geneticamente modificado para durar mais tempo, derrotado por uma oposição feroz de ativistas que conseguiu assustar os consumidores.

A Arctic Golden, em que foi “silenciado” um gene que produz a enzima responsável pelo escurecimento da fruta, representa um marco nos OGM. Até aqui, com a exceção do extinto tomate Flavr Savr (1994-1997), todos os transgénicos foram pensados exclusivamente para os agricultores: variedades mais resistentes e mais produtivas, na sua maioria. Mesmo o salmão da empresa americana AquaBounty, geneticamente modificado para crescer duas vezes mais depressa do que o normal (à venda no Canadá desde o ano passado), é uma mais-valia apenas para os produtores. A maçã, no entanto, tem os consumidores em mente. É o (re)início de um novo mundo.

(…)

Só o tempo dirá se a maçã Arctic Golden conseguirá vingar onde o tomate sucumbiu. Para já, o presidente da empresa canadiana que criou a maçã, contactado pela VISÃO, assegura que a reação dos consumidores tem sido “muito positiva”. “Além de a maioria preferir as nossas fatias de maçã a outras marcas, 95% dos que provaram as nossas Arctic Golden ficaram satisfeitos ou muito satisfeitos, e 92% disseram que as comprariam, se as encontrassem nas lojas”, atesta Neal Carter.

O alegado sucesso nos EUA é suficiente, diz o presidente da Okanagan Specialty Fruits, para estar já a preparar a expansão para o Canadá, e daí para outros países. Mas a Europa, onde a resistência aos OGM é muito maior do que do outro lado do Atlântico, continua fora do horizonte. “Não temos planos para pedir a aprovação da maçã em países europeus, embora seja uma possibilidade para o futuro.”

Até lá, podemos sempre usar um velho truque para evitar que a maçã escureça depois de cortada: umas gotas de limão. Não é alta tecnologia, mas também resulta.»

(Foto retirada de "Sustainable Pulse")

 

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publicado por Fernando Delgado às 22:14
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

Tejo nauseabundo

Esta é uma daquelas "guerras" em que os silêncios não contam. Já sabemos que o Sr. Presidente da República não tem afetos pelo Tejo, mas onde andam os deputados do distrito de Castelo Branco e de Portalegre (e de Santarém, e de Lisboa, e...).

Transcrevo texto completo do Blog Vida q.b.

 
 
 «A Espuma nauseabunda do chico-espertismo e do Trumpismo à portuguesa - Sobre a Poluição do Tejo
 
Tenho andado em silêncio à la "Uma Thurman"; tentando controlar a minha fúria antes que diga algo de que me arrependa; não sei se consegui, vós me direis. 

Nasci à beira Tejo. Um Tejo de águas limpas. Ainda que já existissem fábricas de celulose em Vila Velha de Rodão o impacto era, à vista (pelo menos) inexistente, e o Tejo era a nossa praia de sempre. 

Tudo isto acabou. Primeiro foi a selvajaria dos areeiros. A extração de inertes transformou os areais, onde antes estendiamos as toalhas, em pedregais; simultaneamente o leito do rio ia descendo ao ritmo a que os inertes iam sendo retirados tornando os pedregais cada vez mais extensos e o rio cada vez mais estreito. 

Depois veio a privatização do sector da energia electrica, a gestão de caudais nas barragens deixou de se "submeter" ao interesse público para se submeter à lógica mercantilista. De um momento para o outro não se discutia só o problema do caudal que os Espanhóis permitiam que passasse a fronteira mas também o caudal que as barragens da bacia hidrográfica do Tejo permitiam que as atravessasse.

A flutuação de caudais a jusante das Barragens ia de cheio a quase seco em segundos deixando peixe a morrer em seco para gáudio das cegonhas e desovas a secar ao sol, peixe que nunca iria nascer, e de quase seco a cheio a velocidade de corrida de qualquer incauto mais distraído à beira de água que de certo não se livrava de molhar pelo menos os calcanhares enquanto corria no pedregal. 

Entretanto veio a seca. A situação dos caudais agudizou-se. Eram baixos, extremamente baixos, o Tejo atravessava-se a vau sem que a água sequer chegasse ao joelho ou nos ameaçasse de desequilibrio em alguns locais. Não era já um dos três grandes rios ibéricos era sim um ribeiro um pouco maior do que o normal. 

E a água ficou negra. Já vai há mais de 3 ou 4 anos que um velho pescador, hoje já falecido, se entristecia ao ver o "seu" Tejo da cor do petróleo, sem um peixito que fosse a pular nas suas águas. E a espuma, meu Deus, a espuma, acastanhada, nauseabunda. 

O cheiro da água do rio "viajava" quilómetros, cheirava a morte mas as industrias de Vila Velha de Rodão votavam os "pedidos de ajuda" a devaneios de loucos no silêncio da sua "inocência". 

Desde que isto começou mudou o Governo. Deputados da AR, sempre os mesmos, todos os do distrito de Santarém com excepção dos do PS, se apresentaram a "gritar" connosco, ali ao lado do rio, em contexto de Governo PSD/PP e depois de Governo PS; mas nada além de "palavras" de circunstância e de autorizações e licenciamentos para coisas ainda piores vinha de Lisboa. 

Em Lisboa o Tejo é largo e a esmagadora maioria dos cidadãos à muito o considera apenas como uma boa imagem de fundo; não lhes interessa que com o baixo caudal do Tejo vem a salinização do Mar da Palha (para quem não sabe é esse o nome do "Mar" que o estuário do Tejo forma) e que essa salinização tem implicações gravissimas.

O Tejo ali não cheira pior do que cheirava antes, a água não é mais escura do que era antes (e mesmo que seja nem para ela olham), é navegável e atrai os turistas e isso é o que basta. 

Mas as coisas mudaram, muito, a Celtejo deu por findo o "Silêncio dos Inocentes" processando o Arlindo Consolado Marques.

O Arlindo tem sido extraordinário na divulgação de todos os crimes ambientais que vai detetando na bacia hidrográfica do Tejo; o que começou como um levantamento pessoal dos males que ia vendo e que publicava no seu YouTube e Facebook, encontrou eco naqueles que viam e sofriam pelo Tejo e pelas suas vidas despedaçadas em espuma e negridão de morte que não tinham os recursos de equipamentos e destria para publicar os videos mas queriam que as pessoas soubessem o que estava a acontecer.

Esta junção de saber de todos os habitantes e pescadores da beira-rio com literacia tecnológica fez do Arlindo o defensor do Tejo que hoje todos conhecem, mas também o colocou na mira de tentativas de homicidio e de processos judiciais. 

Mas a quebra do silêncio da Celtejo não correu como esperavam. Primeiro porque o Arlindo não se amedrontou nem se politizou, manteve-se fiel a si próprio e ao Tejo. O Tejo merece ser defendido e o Tejo é de todos nós, da nascente à Foz; ao longo das margens do Rio dos concelhos de Mação a Vila Franca de Xira os apoios, de Municipios, Associações, privados ao Arlindo foram-se multiplicando. Segundo porque se deu o descalabro.

Logo passado uma ou duas semanas Abrantes "acorda" com espuma acastanhada que atingia a altura de 1 metro sobre um Tejo negro retinto. O Arlindo chegou rapidamente e as imagens encheram telejornais. A incúria, o compadrio, o deixa andar, chocou Portugal especialmente quando se percebe que os Presidentes dos Municipios de Nisa e Vila Velha de Rodão estão ao lado do(s) poluidor(es) mesmo quando confrontados com as imagens chocantes da espuma em Abrantes e Mação. Do lado oposto os Presidentes dos Municipios de Abrantes e Mação. 

O Ministro do Ambiente, atabalhoa-se, como habitualmente, tropeçando em meias soluções e em chutos para o lado. Parece que a culpa, para o Sr. Ministro é da Natureza, que não teve capacidade de processar os efluentes poluidores; numa primeira fase de "justificação do injustificável" a culpa não é do facto de com efeitos a Maio de 2016 a APA ter licenciado a Celtejo a aumentar a poluição que deitava ao rio até 18 de dezembro de 2018. 

Não interessava nada que nessa altura a seca já estava a iniciar, que os baixos caudais que atravessavam a fronteira aliados ao nível de poluição que estava já autorizado (e que se disse na altura já estar a ser excedido impunemente) estavam já havia muito a causar problemas a quem vivia do Rio, há que autorizar o aumento até porque a actividade piscatória dá poucas receitas à Administração Local e Central e não tem tanta influência nem poder. 

Os meus leitores atentaram à data de 18 de dezembro de 2018 certo? Provavelmente estão a pensar o mesmo que eu. A Celtejo contou com a lentidão da Justiça. Processa o Arlindo agora, até que os Tribunais avancem, entre férias judiciais falta de pessoal e pilhas de processos, o caso chega a Tribunal já os níveis de poluição deles está mais baixo, o Arlindo perde pois não consegue provar que a poluição entre 2010/11 (sim leram bem) e 2018 veio da "inocente" Celtejo e, uma vez condenado este "ativista", servirá de aviso, nunca mais ninguém terá coragem de enfrentar os "Donos Disto Tudo". 

Duas notas: 

- O efeito inesperado de um processo desenhado para silênciar para sempre a Sociedade Civil foi juntar mais gente à "revolta" e obrigar o Ministério do Ambiente e a APA a agir como nunca agiram. Como? Pela primeira vez mergulhadores foram fazer levantamento das lamas à saida do tubo de descarga; Pela primeira vez os serviços da APA estão a tirar amostras diárias e o roubo de amostras junto à saída do tubo de descarga da Celtejo e a necessidade da Policia estar no local (e mesmo assim terem desaparecido parte das amostras) apenas faz aumentar ainda mais a convição geral de que algo está muito mal; 

- O uso da expressão "Donos Disto Tudo" é propositada e não diz apenas respeito ao Tejo. As celuloses encheram o país de eucalipto. Eucalipto que ardeu e expandiu o fogo através das suas cascas e das suas folhas em chama ajudando à rapida propagação dos fogos deste Verão. O eucalipto que seca os solos, sendo mesmo proibido plantá-lo junto a nascentes de água porque as seca (será que isto é fiscalizado?...Sim,pois...), vai tomando conta do país porque é o que interessa às Celuloses. As Celuloses "mandam" em terra e na água neste Jardim à Beira Mar plantado. 

O que me enfurece são várias coisas:

1. Apesar da gravidade da Poluição do Tejo já ter vários anos, da luta das populações ribeirinhas pelo Tejo ter anos parece que só agora é que aconteceu;

2. Que a APA e o Ministério do Ambiente andam à anos supostamente a tirar amostras cujos resultados foram sempre inócuos (nem me perguntem onde é que tiravam as amostras porque isso apenas me enfurece ainda mais, apenas uma nota, nem sempre era no Tejo). Isto quando começou a APA atirar amostras porque antes valiam as tiradas pelos Poluidores autorizados;

3. Que a Celtejo continua a alegar que nada tem a ver com a poluição vísivel no Tejo. Embora isso já seja uma evolução pois no processo contra o Arlindo afirma que nem poluidora é, o que é estranho dado que se não o fosse não necessitava de Licenciamento da APA para o ser; 

4. Que o Ministro do Ambiente é um aspirante a Donald Trump. Desde o transporte de água por comboio do Entroncamento para a zona de Viseu (dois problemas: O Entroncamento é na bacia hidrográfica do Tejo e não é boa ideia retirar água de onde ela já escasseia; vagões tanque de transporte de água existem apenas num país da Europa, que tem bitola europeia, mesmo que nos emprestassem os vagões teriam de chegar cá e ser ajustados para circular nas nossa bitola ibérica); a o "problema" é da água "do Tejo que nos últimos tempos parece ter saturado”; a o problema é da “natureza não está a conseguir depurar a quantidade de matéria orgânica que está a aparecer e se transforma em espuma quando passa em Abrantes”; tudo seria hilariante se não fosse tão triste. 

Remato ainda com outra afirmação do Sr. Ministro a de que “Estamos a fazer essas mesmas recolhas com a certeza de que o problema que temos à nossa frente é um problema com uma dimensão que não resulta certamente da descarga A ou da descarga B, o que não quer dizer que elas não possam ter existido” numa afirmação digna de La Palice; a culpa é de muitas descargas, anos delas, mas da mesma "fonte"; "Fonte" que tem passado incólume, intocada e intocável, sob a "proteção" de alguma Administração Local e da Administração Central, a "proteção" desta última eu até poderia considerar "inocente" incúria não fosse durar há tantos anos e atravessar Governos de diferentes quadrantes políticos.»

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:09
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Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2018

Lobbies

Tenho andado distraído ou o sr. Presidente da República ainda não disse uma palavra sobre a poluição no Tejo?

Admitindo a distração, procurei no sr. Google, mas nada, não encontrei uma palavra! Aparentemente S. Exª ainda não teve oportunidade para falar do assunto ou não o considera importante. Devo dizer que não esperava que S. Exª tomasse um banho nas Portas de Ródão (são outros tempos e a saúde está acima de tudo!), mas estava à espera de uma visita com passeio de barco no Tejo e umas dezenas de selfies - afinal há razões, muitas razões, para eu pensar que S. Exª não perde uma oportunidade de estar perto da notícia...

Nada!

Curiosamente (e voltei a procurar no sr. Google) também o Correio da Manhã, sempre ávido de escândalos, parece um crocodilo sem dentes: três ou quatro notícias que parecem retiradas de qualquer diário diocesano de província.

Ah, os lobbies...

 

P.S. Em vez de uma eventual multa ambiental, que não resolve coisa nenhuma, proponho que o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão (que silêncio, sr. presidente!) convide o CEO do grupo que detém a Celtejo para viver naquela vila durante um ano. E não estou a ser irónico, sr. presidente, já viu a importância de ter um CEO na sua terra?

 

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publicado por Fernando Delgado às 21:31
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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018

Bocejos

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Bocejos irritados entre zapping's:

1. E se a Celtejo, ali para os lados de Vila Velha de Ródão, fechasse as portas? Qual o custo? E qual o beneficio? Iamos ter saudade do odor a ovos podres? E do sabor do peixe pedrado?

2. E se a Comissão Europeia estabelecesse que o crescimento dos países membros deveria tender para zero? Um bom desempenho da economia mede-se pela taxa de crescimento económico? O crescimento não tem limites? Qual a implicação nos recursos? A noção ecocrescimento salvaguarda o necessário crescimento económico dos países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento evitando a sua estagnação e preservando os recursos?

3. A justiça de pelourinho é justiça? E se os media fossem obrigados a divulgar o resultado judicial das "notícias-escândalos" na mesma proporção e com a mesma visibilidade com que os anunciam? A Celtejo teria que produzir mais papel? E os telejornais teriam a duração dos programas de futebol?

4. As declarações de alguém no meio de uma catástrofe são racionais? São importantes? O individual e o privado têm interesse público? A exposição pública das desgraças alheias é informação? A ética e a moral são miscíveis?

5. Se um jogo de futebol dura 90 minutos, há alguma razão para os comentários se estenderem por 90 horas? E estes comentários são autópsias de faca na mão e sangue espalhado sobre a mesa porque o espetáculo acabou? Ou porque morreu?

6. Muito importante: amanhã não chove! Porra, porque não chove?

 

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publicado por Fernando Delgado às 22:22
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Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018

O envelhecimento é a acumulação de erros

a ave sobrevoou as águas calmas e de um ponto indecifrável cresceram círculos concêntricos que refletiam todo o explendor de cores vivas das asas do bico alongado da cauda em leque do universo de penas floridas e era o começo do dia do dia tão igual como desigual de tudo o que não vê não se toca cresce aparece e desaparece e aparentemente (não) e de certeza existe salta vive a partir de um ponto indecifrável

 

«Aurora era uma deusa grega da madrugada e de acordo com a mitologia apaixonou-se por um ser humano, um mortal chamado Titão. Ela queria que o amante mortal também fosse imortal. Então foi ter com Zeus, o pai dos deuses, e disse:  «Por favor, dá imortalidade ao meu amante.» Então Zeus disse: «Ok, ok, vou tornar o teu amante imortal.» Mas ela cometeu um erro enorme. Ao pedir a imortalidade, esqueceu-se de pedir a juventude eterna. Como consequência, o amante ficou cada vez mais velho, mais velho e mais velho sem nunca morrer.Quando tivermos a fonte da juventude, temos de garantir que, não só vamos viver para sempre, mas temos de aproveitar. Temos de viver para sempre num corpo que seja útil. E é aí que entra a loja do corpo humano...»

Michio Kaku – Físico. City College of New York. 10 segundos para o futuro – 2077. RTP1, 02.01.2018.

 

não era uma ave era um pássaro assustado que ia caindo na água e também não era um ponto indecifrável era o local exato em que o pássaro com medo defecou

 

«O envelhecimento é a acumulação de erros. Erros genéticos, erros celulares, erros moleculares. Mas erros do nosso corpo. Agora sabemos que sim, há mecanismos de correção dos erros, mas eventualmente também eles se desgastam. É por isso que morremos.»

Michio Kaku – Físico. City College of New York.  10 segundos para o futuro – 2077. RTP1, 02.01.2018.

 

e o pássaro voltou e poisou na beira do lago parecia cansado e assim de perto chamei-lhe ave e ele fugiu reconstruindo-se das cores vivas das asas do bico alongado da cauda em leque do universo de penas floridas sobre as águas

 


publicado por Fernando Delgado às 23:41
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