Domingo, 9 de Janeiro de 2022

...às portas do crepúsculo

«Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.»

Eugénio de Andrade, "Do outro lado" in Poesia e Prosa

O sétimo selo_08.jpg

A dança da morte in «O Sétimo Selo», de Ingmar Bergman.

 


publicado por Fernando Delgado às 23:59
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Sábado, 13 de Novembro de 2021

Adília Lopes

«Autobiografia sumária

Os meus gatos

gostam de brincar

com as minhas baratas»

Adília Lopes. Autobiografia sumária in A pão e água de Colónia. 1987.

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:50
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021

Um Reino Maravilhoso

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Há umas semanas estive em São Martinho de Anta…, no largo com a escultura de Torga feita na raiz do negrilho, no Espaço Miguel Torga e em muitos outros sítios onde se sente (de onde brotou!?...) a escrita de Miguel Torga. Um Reino Maravilhoso é um livro-objeto com um texto de Torga e pinturas de Graça Morais. As plavras unem-se aos traços e às cores num mar de pedras, tudo parado e mudo...

O texto começa assim:

«Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a espessura do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?

Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:

- Entre!

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.

[…]»

Miguel Torga. Graça Morais. Um Reino Maravilhoso. D. Quixote, 1ª ed., 2002.

 


publicado por Fernando Delgado às 23:45
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2021

O filho pródigo, segundo M. Torga

          «[...]

          A volta do meu herói a este velho continente faz-me sempre estremecer o coração.

          A história do filho pródigo nunca me deixou sereno. Quando em pequeno lia essa trágica novela do primeiro revoltado contra a palha puída da casota onde a vida nos mete, e onde medram, gordas as pulgas domésticas, comovia-me sempre. Já nesse tempo eu era capaz de ver o que há de legítimo em cada partida e de fatal em cada regresso. Com os anos, a rebeldia do primeiro capítulo e a alegria do último perderam muito da sua magia. Até que era bom não amar e não ser amado eu aprendi! E aquele jovem insubmisso a guardar porcos em casa alheia passou a ser a meus olhos um símbolo invejável e promissor de fecunda solidão. Depois, fui mudando de ideias. Comecei a achar graça aos próprios parasitas do ninho, e, sem de nenhum modo pensar que é um alto destino ser mordido por eles, aceitei sem relutância que o rapaz da Bíblia tornasse, arrependido, à casa paterna.

          Que é o caso do Senhor Ventura. O alentejano vem direito a Penedono. Traz às costas algumas mortes, um lar falhado, a certeza de um filho, e os olhos cheios de estranhas e sobrepostas imagens. Não foi, visivelmente, a castiça saudade nossa que o empurrou de oriente para ocidente, nem parece ter consciência de que há uma solidariedade que nada pode destruir entre a pedra rolada e a penedia de onde saiu. Mas vem. Milagrosamente, a mão do infortúnio lavou-o das nódoas mais essenciais. Entra no lar, não digo repeso de ter partido (nem era de desejar que assim acontecesse), mas instintivamente disposto a pagar o que deve à condição nativa. E toca-me cá por dentro.

          Como logo no princípio expliquei, toda a história do meu herói é-me conhecida já, e eu conto-a a mim próprio nas horas de melancolia. Em cada paragem não faço mais do que tentar uma pequena meditação sobre o destino que é mais colectivo que individual. Agora, desembaraçado nesta urbana Europa, e a caminho de casa, que é o Senhor Ventura senão o efeito irremediável dum tropismo que nos anda no sangue e nos chama em qualquer parte do mundo a este pobre redil lírico e desconfortável, ao mesmo tempo tão absurdo e humano? Ah, eu acredito que esta fidelidade inconsciente ao granito, ao luar e à urgueira encerra uma grande lição de vitalidade e de singularidade. Vejo nela uma prova do nosso destino nacional e universal. Mandado pelo governo chinês, ou pela sorte, ou até por um acaso onde não haja nem a hipótese duma razão, o alentejano, que foi do mundo inteiro, é outra vez daqui. A misteriosa e peregrina verdade é esta.

[...]»

Miguel Torga in O Senhor Ventura. D. Quixote, 6ªed., pp 117-118.

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:03
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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2021

Um texto de Fernando Paulouro

Sei que é feio fazer isto, mas não resisto a roubar este texto ao Fernando Paulouro, publicado no seu blog «Notícias do Bloqueio», e a colocá-lo aqui. 

«POR UM PAÍS MAIS HABITÁVEL

Agora, que andam por aí salazares empalhados, sujeitos que se alimentam no chafurdo da indignidade para se arvorarem em salvadores políticos, lendo aos seus apaniguados o catecismo do ódio e da intolerância, ameaçando uns e tentando agredir outros, apetece, mais do que nunca, quando a demagogia e a mentira andam à solta, evocar os tempos ominosos de um país amordaçado, e nessa evocação gritar: viva a liberdade! Obscuros interesses da extrema direita internacional deram palco a estes abencerragens do passado e é vê-los, hoje, também aqui, espertos e ladinos, nas televisões e nos jornais, confundindo-se com pessoas de bem, dando voz a tudo aquilo que há de mais primário e irracional na natureza humana. Alguns iludiram decerto a Justiça, ou a atenção dos carcereiros, sabe-se lá, para darem corpo aos populismos que trazem na ponta da língua e põem as ideias em estado de sítio, e que, na política dos votos, sabemos bem onde conduzem. A História já fez o registo desses dramas, mas há sempre aqueles que, apostando no esquecimento ou na rasura da memória, acreditam que os crimes do passado se podem repetir para proveito próprio.

Na situação portuguesa, diga-se, há responsáveis pela onda populista. O vazio da política, o abandono dos ideais e do ideário, a programação do unanimismo, convergem na indiferença. Por comodismo, digamos assim, o PS optou por falta de comparência nas Presidenciais, deixando ao abandono o território da política, como se fora terra de ninguém. Ora, é dos livros: quando nós não nos ocupamos da política, a política ocupa-se de nós permitindo que energúmenos racistas e xenófobos ergam bandeiras contra a fraternidade solidária das políticas sociais. É o que está a acontecer. A democracia, tão generosa a tratar os seus inimigos, não poucas vezes tem morrido às suas mãos.

Daí que o combate das ideias, a denúncia da cruz gamada oculta no catecismo xenófobo ou o braço estendido da saudação fascista disfarçada na apologia comicieira, sejam uma exigência inadiável na sociedade portuguesa. Por um país mais habitável.»

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:55
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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2021

Yuval Noah Harari

Não tenho por hábito correr a uma livraria para comprar um best seller - já fui enganado mais que uma vez: há livros que se vendem aos milhões e não se percebe muito bem porquê... -, mas por influência de alguns amigos lá fui à pressa comprar o Sapiens - História Breve da Humanidade.

Apesar das mais de 500 páginas, li-o em poucos dias, o que só por si revela que o autor sabe prender o leitor a um exercício possessivo que o empurra de página em página sem grande esforço (curiosamente foi esta a sensação que tive ao ler a Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson, um livro com uma forma narrativa muito semelhante).

Só uma dúvida, que não passa de curiosidade: as referências à cidade da Guarda, ao Benfica e ao Pêra Manca são o resultado de uma tradução com liberdade exemplificativa, ou constam mesmo do original? É que gosto tanto dos exemplos que nem sei se hei-de ir a correr comprar o Homo Deus - História Breve do Amanhã, do mesmo autor, ou se me fico por um copo de Pêra Manca (um sucedâneo, claro...) enquanto sofro com o Benfica e espreito o frio pela janela.

 

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Terça-feira, 17 de Novembro de 2020

O silêncio dos livros

Há quem diga que quando o tempo sobra há espaço para os livros que ficaram por ler... Era bom que assim fosse, mas não é! A pandemia ocupa o tempo e o espaço, não sobra nada (como na Tragédia de Hamlet, o resto é silêncio) .

A ausência de constantes compromissos profissionais, de agendas rígidas, de stress e, como se costuma dizer, do dia-a-dia preenchido, é uma ilusão. Não fomos feitos ou formatados (ou educados?!) para este nova realidade. Precisamos de compromissos, de agendas e de stress para ludibriar as rotinas e ganhar algum tempo para outras coisas, como ler livros. É assim a natureza humana - buscamos sofregamente algumas coisas como contraponto a outras coisas de que não gostamos, ou que, gostando, nos limitam o tempo e o espaço. Precisamos de não ter tempo para dar valor ao tempo. 

Sinto que a pandemia apagou da memória esta busca do contraponto emocional e os livros não escaparam a esta decapitação. A Crónica de Um Vendedor de Sangue, de Yu Hua e Magalhães, o homem e o seu feito, de Stefan Zweig, são algumas das leituras neste longo interregno, mas não passam de exceções num quotidiano longo, aborrecido e estupidamente inútil. Restam, como notas de rodapé, um retrato da revolução cultural de Mao - simples, sem adjetivos e juízos morais inúteis (no livro de Yu Hua) e uma biografia de Magalhães, com várias inexatidões históricas (?!...), ou apenas excesso de entusiasmo do autor (no livro de S. Zweig).

Pouco, muito pouco!

 

«[...]

Serviu rei e país sob todas as formas: por mar e por terra, em todas as estações do ano e em todas as zonas marítimas, no meio da geada e sob um céu tórrido. Porém, servir é coisa de jovens, e agora, com quase trinta e seis anos, Magalhães decide que já se sacrificou o suficiente pelos interesses e pela glória dos outros. Como acontece a qualquer criador, Magalhães sente media in vita a necessidade de se realizar pessoalmente, de ser responsável por si próprio. A pátria abandonou-o, desfez a ligação com as suas tarefas e obrigações - tanto melhor: agora está livre. Como tantas vezes sucede, o punho que tenta repelir um homem, impele-o, na verdade, para dentro de si mesmo. [...]»

Stefan Zweig in Magalhães, o homem e o seu feito. Assírio e Alvim, 2ª ed., pp 67-68.

 

 


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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2020

A infância...

Rascunhos de infância no imaginário entulhado da velhice!...

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«Mostrei a minha obra-prima às pessoas crescidas e perguntei-lhes se o meu desenho lhes metia medo.

Responderam-me: "Porque é que um chapéu haveria de meter medo?"

O meu desenho não representava um chapéu, mas sim uma jiboia a digerir um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, para que as pessoas crescidas pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações.»

 

Pintura de Joan Miro.

Texto de Antoine de Saint-Exupéry. O Principezinho, Ed. Livraria Lello, pp 12.

 


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Sexta-feira, 8 de Maio de 2020

Luis Sepúlveda

Há uns dias fomos surpreendidos pela notícia da morte de Luis Sepúlveda, nas condições conhecidas,… e o martelo bateu-me na cabeça: “porra, o que leste deste escritor? Que me lembre, nada!”

E abasteci-me on-line do que estava disponível: Diário de um killer Sentimental, Mundo do Fim do Mundo e Nome de Toureiro, todos da Porto Editora.

Escolhido um pouco ao acaso, li o Diário de um killer sentimental e, para lá do livro, sinto um certo apaziguamento – como é estranho ouvir a notícia da morte de um escritor e sentir que falta qualquer coisa. Esta “qualquer coisa”, este vazio incómodo, é o livro, a mensagem, o testemunho, o olhar cúmplice (ou pelo menos a sensação de proximidade…) do autor através das palavras.

 

... das palavras escritas:

«[…]

     - Adeus, filantropo – disse eu, aproximando-lhe o cano da boca.

     A detonação foi seca e curta. É assim que ladram os colts de trinta e oito. A minha pobre gata francesa tremia, de olhos muito abertos. Abraçei-a, amaldiçoando as malditas armadilhas da vida.

     - Tira-me daqui… - gemeu ela contra o meu peito.

     - Claro, meu amor – murmurei-lhe eu ao ouvido antes de disparar por baixo do seu lindo seio esquerdo.

     Sim, é verdade, eu amava-a, mas no meu último trabalho não podia atuar de outra maneira. Eu era um killer, e os profissionais não misturam trabalho com sentimentos.

[…]»

Luis Sepúlveda, in Diário de um Killer Sentimental. Porto Editora, 1ª ed., pp 52.

 

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Terça-feira, 9 de Abril de 2019

Floresta/paisagem...

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«[…] Lembremos que o ano de 2017 terminou com uma área queimada contínua que se estende desde o sul do Tejo quase até Viseu, no coração florestal do país, e que afetou de maneira indiferente pinhais e eucaliptais. Urge reconhecer que essas paisagens são insustentáveis e indefensáveis, sobretudo face ao processo de alterações climáticas que aumenta a frequência de situações de elevado risco meteorológico de incêndio e ao abandono rural, que retira capacidade de controlo sobre o território. O eucalipto faz parte deste problema, na medida em é já a espécie que maior extensão ocupa na floresta portuguesa, mas o problema é mais vasto e profundo. Resulta de grandes transformações do meio rural durante as últimas décadas, conjugadas com as nossas condições bioclimáticas cada vez mais favoráveis ao fogo. É ilusório pensar que se pode preencher apenas com floresta o grande vazio deixado pela perda de cerca de 1 500 000 hectares de terras agrícolas desde meados do século XX e o aumento recente do tamanho e frequência da ocorrência de mega-incêndios florestais elimina quaisquer dúvidas. […]»

José Miguel Cardoso Pereira in Eucaliptos, fogos e outras coisas mais. Cultivar, Cadernos de Análise e Prospetiva, nº 14. Ed. GPP, pp 21-22.

 


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Segunda-feira, 8 de Abril de 2019

«Não há paisagens para sempre»

[...]« Não há paisagens para sempre. A paisagem é o registo de uma sociedade que muda e, se a mudança é tanta, tão profunda e acelerada, haverá disso sinais, para além de pouco tempo e muito espaço para compreender ou digerir as marcas e formas como se vão atropelando mutuamente, ora relíquias, ora destroços. [...]»

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(Foto: Casa abandonada em Penafalcão)

«[...] Agora vai minguando o espaço para as histórias e as personagens líricas do mundo rural. As marcas e as memórias do Portugal profundo vão-se decompondo com a desruralização e o seu rasto de efeitos culturais: o despovoamento, o envelhecimento, o abandono da produção agrícola e dos campos, o desaparecimento de certos estilos de vida, saberes e práticas culturais - o interior, no dizer mais frequente sobre estas coisas. Os poucos que vão ficando vivem de uma economia assistida entre pensões, reformas, poupanças, ou remessas de familiares e quem pode sai porque são escassos os empregos. A miragem do bucolismo e dos paraísos perdidos é mais de quem está no exterior (do tal interior) e pensa que o rural e Natureza são lugares para passar férias. [...]»

Álvaro Domingues in Vida no Campo. Edições de Arquitetura. Dafne Editora, 1ª ed., pp 15 e 23.

 


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Sexta-feira, 1 de Março de 2019

Eugénio de Andrade

«Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim

o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,

pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela

que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.»

Eugénio de Andrade. Estou contente, não devo nada à vida. Branco no Branco (1984).

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:02
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018

«Uma narrativa para a paisagem»

«[…]

Como vem sendo corrente desde que deixámos de fazer castelos e apodreceram as caravelas que iam para além da Taprobana, estamos outra vez em crise, e as crises, por serem mundos cheios de oportunidades para os oportunistas das crises, tanto se prestam à melancolia, como à interrogação, à negação, ao conformismo ou à fuga.

O passado mítico é um bom lugar para tentar exorcizar tempos de angústia e de incompreensão sobre o que se passa. O discurso comum pretende transformar o presente numa inevitabilidade escondida na complexidade das crises sistémicas e globais, embrulhadas em ralhetes morais-liberais sobre o que acontece aos gastadores inveterados, organizando-o numa narrativa tecnocrática cheia de folhas de cálculo e discursos monocórdicos em “economês”. Perdido o Império, com a Europa feita em cacos e em vias de se transformar outra vez num saco de gatos, instaurado o casino financeiro (…) viciado em pôr a roleta do capitalismo global a alimentar os jogadores, vai-se perdendo o Estado e diluindo a Nação, já há muito espalhada nos quatro cantos do Mundo, ora festejando as glórias da bandeira portuguesa nos seus heróis populares ou eruditos, ora mirrando com saudades da família, dos amigos, do sol, dos pastéis e da boa comida.

Antes, eram os tipicismos regionais, longamente romanceados e ilustrados pelas suas paisagens, que forneciam um veneno doce e tóxico para ilustrar a invencível alma lusitana e os seus heróis. Agora, sem o xarope se ter esgotado, as paisagens desconstroem-se e atropelam-se nas suas próprias mitologias: a flor das amendoeiras do Algarve não é compatível com a praia, e a banalização do resort tropical ou do golfe triturador de falésias vai mal com ambientes protegidos, figos secos com amêndoas, shots, cataplanas, comida rápida, voos low-cost, parques aquáticos, vivendas a esmo e serras a arder. Um desassossego. Se a paisagem e as suas narrativas e representações são constitutivos poderosos da identidade, que identidade se construirá que não seja a própria sensação de perda de identidade?

[…]»

Álvaro Domingues in Volta a Portugal. Uma Narrativa para a Paisagem. Ed., Contraponto, pp 25-26.

 

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publicado por Fernando Delgado às 22:53
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

«A Invenção da paisagem»

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(Barragem Idanha-a-Nova)

«A paisagem não é uma metáfora para a natureza, uma maneira de evocá-la; ela é de fato a natureza. Aqui se poderia dizer: "Como? Se a paisagem não é a natureza, o que seria ela, então?". Falar, portanto, de uma construção retórica (de um artifício, desta vez linguístico) acerca da paisagem é crime de lesa-majestade. A natureza-paisagem: um só termo, um só conceito - tocar a paisagem, modelá-la ou destruí-la, é tocar a própria natureza.» (pp 39)

«Nessa ótica, a paisagem é um "monumento natural de caráter artístico"; a floresta, uma "galeria de quadros naturais, um museu verde". Essa definição, elaborada pelo Ministério da Instrução Pública e das Belas-Artes francês em 1930, destaca a ambiguidade; reúne em uma fórmula os dois aspectos antagônicos da noção de paisagem: o ordenamento construído e o princípio eterno; enuncia uma perfeita equivalência entre a arte (quadro, museu, caráter artístico) e a natureza.» (pp 41)

«A imagem não está voltada para manifestações territoriais singulares, mas para o acontecimento que solicita sua presença. E assim como o lugar (topos) é, segundo a definição aristotélica, o invólucro dos corpos que limita, a pretensa "paisagem" (lugarzinho: topion) nada é sem os corpos em ação que a ocupam.» (pp 49)

«A cor é subsidiária. O criador (a natureza) desenha primeiro os contornos, depois (hysteron), ele escolhe as cores...» (pp 60)

Anne Cauquelin. A Invenção da Paisagem, Ed. e-book (vers. brasileira)

 


publicado por Fernando Delgado às 22:49
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

A. Lobo Antunes

Fiz as pazes com a escrita de A. Lobo Antunes: desisti!

Desisti de tentar encontrar o fio à meada, de entender as personagens, de encontrar os caminhos, de decifrar a história contada.

Assumo, assim, que, ler Lobo Antunes é pressupor a existência de uma escrita anárquica, magistralmente anarca. Confesso que, para ler Lobo Antunes, é necessário esquecer que existem outras escritas, muito arrumadinhas, muito lógicas, muito cheias de conteúdo… Cedo à tentação de ler sem esperar encontrar nada para além do ato de leitura - é como caminhar sem partida ou chegada.

E como são suficientes as palavras!...

(Há uns bons anos, muitos anos, “aprendi” a gostar de jazz, e ainda hoje pressinto na anarquia dos sons – se calhar, apenas desconhecimento de leigo… - uma forma suprema de música!)

 

 

     «[…]

     Na altura do Natal a coluna de reabastecimento trouxe quatro mulheres metidas entre os caixotes da última mercedes, não muito novas, não muito bonitas, não muito limpas claro, de quico na cabeça e camuflados grandes demais para elas, olhando a medo o capim e as árvores dos dois lados da picada, o meu avô para o meu pai baixinho, sem levantar a arma, passando um dedo lento entre as orelhas da cadela

     - Não são perdizes aquilo é um ouriço a vigiar a toca

     com os primeiros besoiros já, as primeiras borboletas, aquela espécie de diferença na nuca que antecede o calor, soldados de ambos os lados no interior da mata e por vezes raminhos esmagados, protestos de caniços, dois ou três militares à frente a picarem, uma lata amolgada no chão, um céu de chuva a oeste muito longe ainda, a seguir à primeira curva a ladeira que conduzia ao arame onde se agitavam vespas num charco de água parada, a minha filha numa pedra de quintal sem falar comigo nem me olhar, em pequena sentava-a nos joelhos para cima e para baixo

     - Cavalinho cavalinho

     e ela a rir de prazer, de medo e do prazer do medo, ela contente, com o cabelo para um lado e para o outro e a falta de um dente de leite junto ao incisivo, nenhuma ruga meu Deus, ainda nenhuma ruga, a pele tão lisa, covinhas nas costas das mãos, covinhas nos cotovelos, covinhas nas bochechas

     - Mais

     os dedos dos pés pequeninos, redondos, os olhos castanhos, não bem castanhos, pintinhas verdes e agora infelizmente óculos, a boca séria, fechada, com um parêntesis de cada lado, o que te sucedeu, o que me sucedeu, a coluna entrou no arame camioneta a camioneta, com os pretos dos quimbos a espreitarem-na de longe e os soldados a saltarem da caixa, as gê três um som mais forte que as calaches, sempre que punha a minha filha às cavalitas despenteava-me

     - Corra

     e eu a segurar-lhe os tornozelos com medo de tropeçar na horta e cair, um lacrau apareceu numa pedra e esticou logo a cauda, os tropas espiavam as mulheres de longe enquanto o vagomestre ajudava a fixar, martelando-os, os paus de duas barracas de lona com colchões secos lá dentro a que faltava palha, na coluna um saquito de correio sem nenhuma carta para mim, a minha mulher escrevia-me uma vez por semana, envergonhada da letra

     - É tão feia

     onde contava não importa o quê para encher o papel comigo a pensar no seu corpo, será que ainda te lembras do meu, as mulheres que o capitão veio observar, com um alferes atrás, três morenas e uma quase albina, magríssima

     - Menos mal que o ano passado vá lá pelo menos nenhuma delas é preta

     despiram-se nas barracas enquanto um sargento distribuía senhas aos militares

     - Cinco minutos para despacharem o serviço que elas têm de se ir embora ainda hoje

     e o meu avô aborrecido porque nenhuma perdiz, a cadela pôs-se de pé, girou sobre si mesma e tornou a deitar-se, de focinho poisado num dos nossos sapatos, à espera, sentia-se a respiração dela entre a impaciência e o sono, notava-se-lhe uma carraça na orelha direita apesar da minha mãe às vezes pegar num desperdício e a esfregar com petróleo, tinha que se deixar uma noite lá fora porque o cheiro

     - Cavalinho cavalinho

     se pregava a tudo, até ao cesto da roupa, o meu avô a tossir

     - Raios partam o bicho

     dado que o pivete lhe incomodava os pulmões, os soldados formavam bicha diante das tendas com a senha numerada a lápis na mão

     - Ao fim de cinco minutos chegas aqui mesmo em pelo veste-te cá fora e pronto

     pergunto-me se a minha filha se lembra dos meus joelhos, se calhar sim, se calhar não, quase de certeza esqueceu-os, agora volta e meia doem-me no inverno, estou muito bem a andar e uma das pernas falta-me, desparece da tíbia para baixo e a seguir regressa mas mais fraca, a tremer, o meu filho preocupado

     - O que é isso?

[…]»

António Lobo Antunes. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. D. Quixote, 1ª ed. Pp 241-243.

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publicado por Fernando Delgado às 00:05
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Sábado, 18 de Agosto de 2018

«Cebola crua com sal e broa»

O Miguel decidiu escrever sobre pouco mais de uma dúzia de episódios datados, numa cronologia que ele próprio apelidou da infância para o mundo. Tudo bem, não só na revelação do seu mundo (do que ele quis revelar!), mas também na forma ligeira e escorreita da escrita (o livro lê-se em duas golfadas…).

O problema não está nas estórias e nas personagens, algumas bem conhecidas. O problema está em, a partir de cada uma das estórias, fazer generalizações e tirar conclusões de âmbito muito mais vasto. Uma estória não determina a história, é apenas um acontecimento que isolado significa muito pouco, embora esta tendência de generalização seja sobejamente conhecida nos comentários televisivos...

Porque gosto da escrita do Miguel (que vontade de reler No teu deserto), irrita-me esta forma abusivamente conclusiva de relatar fatos (um pouco à semelhança dos contos da escola em que no fim nos perguntavam “que lição tirar?” ou “qual é a moral da história?”), o que me leva a transcrever do livro uma simples receita culinária – a que posso chamar como assar e comer sardinhas -, que já conhecia, embora sem o pormenor dos bocados da tripa, mas que o MST, mais uma vez, não resistiu a considerar como "a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou" :

«[…]

o lume tem de doirar e não queimar, as sardinhas; não se acompanha com batatas, apenas salada, para desenjoar, de vez em quando; não há pratos nem talheres: as sardinhas comem-se em cima de pão, com os dedos retira-se a tripa do costado e a pele mais grossa, depois come-se metade de uma só dentada, até à espinha, virando-a a seguir para fazer o mesmo do outro lado; no fim, coloca-se o pão, untado do suco das sardinhas e com bocados de tripa, a torrar no lume e come-se a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou»

[…]»

Miguel Sousa Tavares. Cebola crua com sal e broa. Da infância para o mundo. Clube do autor, 1ª ed., maio, 2018,  pp 350.

 

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Domingo, 29 de Julho de 2018

Steinbeck

Tempo de releituras… Steinbeck, a natureza, a sua relação com deus e com o inconsciente e (dentro da minha leitura - ver também aqui), o limiar da razão – a gente faz sempre maldades quando é muito feliz (pp 21) -,enunciados inúteis - isso tudo são palavras para vestir uma coisa nua; e essa coisa, vestida, torna-se ridícula (pp 184) - e o desespero das longas esperas – vão rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos (pp 205).

 

 

«[…]

     Escuta, Juanito: primeiro havia a terra; depois, vim eu guardar a terra; e agora a terra está quase morta. Só restam este rochedo e eu. Eu sou a terra.

(…)

     A chuva varreu o vale. Dentro de breves horas regatos fervilhavam pelas encostas e caiam no rio de Nossa Senhora. A terra fez-se negra e bebeu água até mais não poder. O próprio rio rugia entre os penedos e precipitava-se na garganta dos montes.

     O padre Ângelo estava na sua casinha, sentado entre os livros de pergaminho e as imagens santas, quando a chuva começou. Lia La Vida de San Bartolomeo. Mas quando começou o chapinhar da chuva no telhado, pousou o livro. Durante horas ouviu o rugir da água sobre o vale e o clamar do rio. De vez em quando ia à porta espreitar lá fora. Passou a primeira noite acordado, a escutar, consolado, o barulho da chuva. E sentia-se feliz ao lembrar-se de que rezara por ela.

     Ao crepúsculo da segunda noite, a tempestade continuava com a mesma força. O padre Ângelo entrou na igreja, mudou as velas da Virgem e fez as suas devoções. Depois ficou-se no limiar escuro, a olhar a terra encharcada. Viu passar a correr o Manuel Gómez, carregado com um coiotezinho molhado. E logo a seguir o José Alvarez, com os chifres dum veado na mão. O padre Ângelo escondeu-se na sombra do portal. A Srª Gutiérrez passou depois, a patinhar nas poças, com os braços cheios duma velha pele de urso, comida da traça. O padre sabia o que se ia passar nesta noite de chuva. Ardeu nele uma ira que crescia. “Eles que comecem, que eu os faço parar”, disse ele.

     (…) O padre via mentalmente o povo a dançar, a patinhar na terra mole com os pés descalços. Via-os vestidos com peles de animais, embora nem eles soubessem porque as tinham posto. O ritmo cadenciado tornou-se cada mais forte e mais insistente e as vozes mais agudas e histéricas. “Vão despir a roupa toda”, murmurou o padre, “e rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos.”

[…]»

John Steinbeck. A um Deus Desconhecido. Publicações Europa-América. Livros de bolso, pp 21, 184, 205, 223-224.

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:20
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Segunda-feira, 16 de Julho de 2018

Stefan Zweig

À beira de uma Europa em crise..., ou como o espessamento oculto do transitório alimenta o populismo.

«[…]

     Mas continuávamos a não ver o perigo. Os poucos escritores que se deram ao verdadeiro trabalho de ler o livro de Hitler, troçavam do estilo pomposo da sua prosa de papel, em vez de se debruçarem sobre o seu programa. Os grandes jornais democráticos, em vez de alertarem, tranquilizavam diariamente os seus leitores, afiançando-lhes que o movimento, que só a custo conseguia financiar a sua enorme actividade propagandística com dinheiros da indústria pesada e com uma arrojada política de endividamento, haveria de sucumbir no dia seguinte ou dois dias depois. Mas talvez no estrangeiro nunca se tenha percebido inteiramente a razão por que a Alemanha, durante todos esses anos, subestimou e minimizou a tal ponto a pessoa e o poder crescente de Hitler: a Alemanha não só fora, desde sempre, um Estado estratificado em classes como, além disso, e de acordo com esse ideal de classe, também sobrestimava e divinizava cegamente a “cultura”. Exceptuando alguns generais, as posições mais elevadas do aparelho de Estado estavam exclusivamente reservadas a indivíduos com “formação académica”, como se dizia; enquanto em Inglaterra um Lloyd George, em Itália um Garibaldi e um Mussolini, em França um Briand tinham realmente saído das fileiras do povo para se elevarem até aos mais altos cargos do aparelho de Estado, o alemão não concebia que um homem que não tinha sequer terminado a escola e muito menos frequentado a universidade, que alguém que pernoitara em albergues nocturnos e que, anos a fio, ganhara a sua obscura vida de uma forma ainda hoje não muito clara, pudesse sequer aproximar-se de um cargo que fora outrora ocupado por um barão von Stein, por um Bismarck, por um príncipe Bulow. Nada induziu tanto em erro os intelectuais alemães, como esse arrogância cultural de teimar em ver em Hitler um agitador de cervejarias que nunca poderia tornar-se verdadeiramente perigoso, isto numa altura em que ele, graças aos que manobravam os cordelinhos invisíveis, já há muito tinham conquistado apoiantes de peso nos mais diversos círculos. E mesmo quando, naquele dia de Janeiro de 1933, Hitler se tornou chanceler, as grandes massas, e até os que o tinham colocado naquele lugar, consideraram-no, a ele, como alguém que ocupava um lugar transitório, e o domínio nacional-socialista, como um mero episódio.

[…]»

Stefan Zweig. O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu. Assírio & Alvim, pp 396-397.

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:25
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Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Hermann Hesse

Tempo de (re)leituras... Ler ou reler (ver também aqui e aqui) H. Hesse parece-me sempre um convite a explorar as rugosidades das coisas ditas perfeitas...

 

«[...]

     - Vives no convento?

     - Sou aluno da escola. Mas não fico lá mais. Posso vir ter contigo, Lise? Onde moras, onde é a tua casa?

     - Não moro em parte alguma, meu tesouro. Não me queres dizer o teu nome? Chamas-te Goldmundo? Dá-me mais um beijo, meu pequeno Goldmundo, depois podes ir.

     - Não moras em parte alguma? Onde dormes, então?

     - Durmo contigo, se quiseres, na floresta ou sobre o feno. Vens hoje à noite?

     - Venho. Mas aonde? Onde te encontro?

     - Sabes imitar o pio da coruja?

     - Nunca experimentei.

     - Experimenta. 

     Goldmundo tentou. Ela riu-se e achou que estava bem.

     - Sai esta noite do convento e imita o pio da coruja; ficarei aqui nas imediações. Gostas de mim, Goldmundo, meu menino?

 

[...]

 

     - E agora, diz-me lá – concluiu violentamente – que mundo é este em que vivemos? Não é um inferno? Não é odioso e abominável?

     - Sem dúvida, o mundo não é outra coisa.

     - Ah, sim – exclamou Gldmundo exaltado – e quantas vezes outrora me afirmaste que o mundo era divino, que era uma harmonia de esferas, no centro das quais se erguia o trono do Criador, que a existência era boa, etc. Dizias tu que o afirmavam Aristóteles ou S. Tomás. Estou curioso por ouvir-te esclarecer esta contradição.

     Narciso riu-se.

     - Tens uma memória espantosa, Goldmundo e, contudo, desta vez traiu-te um pouco. Sempre venerei a perfeição do Criador, mas nunca a da criação. Nunca esqueci o mal do mundo. Nenhum autêntico pensador, meu caro, jamais afirmou que a vida na terra fosse harmoniosa e justa ou que homem fosse bom. Pelo contrário, já na Sagrada Escritura vem expressamente dito que os desígnios e aspirações da alma humana são perversos, e todos os dias vemos essa asserção confirmada.

     - Muito bem. Descubro finalmente como é que vós, os homens doutos, concebeis as coisas. O homem é mau, a vida na terra é abominável e imunda; admitem-no. Mas, para além, algures nos vossos sistemas e tratados, há justiça e perfeição. Existem, podem demonstrar-se, mas não se faz uso delas.

[…]»

Hermann Hesse. Narciso e Goldmundo, pp. 74 e 259, Guimarães & C.ª Editores, 2ª ed., 1981.

 

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publicado por Fernando Delgado às 22:59
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

do res nulius ao black act

«[...]

A importância que os primeiros reis atribuíam à caça nos montes (montarias) prendia-se sobretudo com a necessidade de exercitar a preparação para a guerra. D. João I, no seu Livro da Montaria, dedica um capítulo a mostrar “como o jogo de andar no monte é melhor que todos os outros jogos para recrear o entender, e também corrigir o feito de armas”.

(…)

Esta situação estava regulada no direito romano pelo princípio de que a caça e pesca se consideravam coisas comuns (res nulius) que, por se deslocarem livremente, como a água ou o ar, não eram pertença do proprietário do terreno mas do primeiro que os capturasse.

No entanto, desde o estabelecimento dos Visigodos na Península a caça e a pesca “deixaram inteiramente de ser objeto de ocupação em terra alheia” e por isso, no início da nacionalidade, elas teriam representado “direitos inerentes ao domínio do solo”.

Os dois sistemas de direito cinegético, o Romano e o Visigótico, iriam vigorar em simultâneo, durante o Antigo Regime, o primeiro como suporte da legislação geral e o segundo aplicado ao regime da coutada, cuja criação foi direito exclusivo dos reis, desde D. João I até às Cortes Constituintes.

Para assegurar o poder real sobre os montes coutados, os reis nomeavam monteiros, cuja referência mais antiga parece datar do reinado de D. Afonso III para a serra do Soajo, havendo também documentos do século XIII referindo monteiros para as matas do Botão, localidade a norte de Coimbra junto do Buçaco, e já no século XIV para as matas do Ribatejo.

A sequência destas referências parece acompanhar a deslocação dos centros de poder político. De facto, o centro político do país tinha-se deslocado para Coimbra ao longo dos séculos XII e boa parte do XIII, mas durante a segunda metade desse século e durante o século XIV o centro propulsor do novo reino passaria para a Estremadura, com Lisboa e Santarém a ultrapassarem Coimbra como local de residência e passagem régia.

(...)

Por prerrogativa real iriam ser, a partir da segunda metade do século XIV, coutadas grandes extensões de território, o que suscitava fortes reacções populares invocando expressamente o princípio de que a caça e a pesca deveriam ser coisas comuns. Mas as reclamações mais frequentes dos povos eram sobre os prejuízos causados à agricultura pelos animais ("veação") que transpunham os limites das coutadas e que, por uma lei de D. Pedro I, estavam também protegidos. Diziam os representantes dos concelhos nas Cortes de Elvas de 1361 que "o lavrador pode castigar o homem que lhe causar prejuízo nas searas ou nas vinhas, mas há que respeitar a veação que lhe for aí fazer estragos." Este argumento parece ter convencido D. Pedro I que revoga então essa lei.

A área de coutada continuaria ainda assim a aumentar, como aumentariam as penas estabelecidas para os infractores e melhoraria a organização de guarda de montes coutados. Para tal foi criado por D. João I, em 1414, o ofício de monteiro-mor do Reino, dando-lhe "poder sobre todos os monteiros que temos posto pelas comarcas e outrossim sobre todos os monteiros que são postos por guardadores das matas que são por nós coutadas (...)".

Também no Regimento do Monteiro-mor de 1605, Filipe II para que "ache montaria e caças" nas suas "matas e coutadas" quando por sua "recreação nelas quiser ir montear" declara "as ditas montarias" e mantém penas de grande dureza: "que qualquer pessoa que dentro das ditas coutadas seja ousado de matar porco, porca, bácoro ou veação grande ou pequena, ou armar armadilhas, ou querer montear, sendo peão seja preso e pagará dois mil reais, e será degradado três anos para as galés, e sendo Fidalgo será preso até minha mercê e pagará duzentos cruzados para as coisas que declarar, e seja condenado em dois anos de degredo para África pela primeira vez."

Neste crescendo, D. João V decide, em 1773, e à semelhança do Black Act inglês, a aplicação da pena de morte aos indivíduos apanhados em flagrante "delito de caça", que resistam à prisão ou que fujam aos guardas das coutadas, situações em que podiam mesmo disparar para matar.

(...)

Seria o triunfo da Revolução Liberal, em 1821, que iria fazer com que a situação das coutadas de caça se modificasse radicalmente. A 30 de Janeiro desse ano procede-se à abertura das Cortes Constituintes e logo no dia 8 de Fevereiro, as mesmas Cortes, "considerando os males que da conservação das coutadas para a caça resultam à agricultura, aos direitos de propriedade dos vizinhos delas, à tranquilidade e segurança deles" decretam que todas as coutadas abertas e destinadas para a caça fiquem "inteiramente abolidas e devassadas, ficando salvos aos donos os direitos gerais da propriedade".

[...]»

Francisco Castro Rego. Florestas Públicas, 2001. pp 9-12.


publicado por Fernando Delgado às 23:26
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