Terça-feira, 9 de Abril de 2019

Floresta/paisagem...

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«[…] Lembremos que o ano de 2017 terminou com uma área queimada contínua que se estende desde o sul do Tejo quase até Viseu, no coração florestal do país, e que afetou de maneira indiferente pinhais e eucaliptais. Urge reconhecer que essas paisagens são insustentáveis e indefensáveis, sobretudo face ao processo de alterações climáticas que aumenta a frequência de situações de elevado risco meteorológico de incêndio e ao abandono rural, que retira capacidade de controlo sobre o território. O eucalipto faz parte deste problema, na medida em é já a espécie que maior extensão ocupa na floresta portuguesa, mas o problema é mais vasto e profundo. Resulta de grandes transformações do meio rural durante as últimas décadas, conjugadas com as nossas condições bioclimáticas cada vez mais favoráveis ao fogo. É ilusório pensar que se pode preencher apenas com floresta o grande vazio deixado pela perda de cerca de 1 500 000 hectares de terras agrícolas desde meados do século XX e o aumento recente do tamanho e frequência da ocorrência de mega-incêndios florestais elimina quaisquer dúvidas. […]»

José Miguel Cardoso Pereira in Eucaliptos, fogos e outras coisas mais. Cultivar, Cadernos de Análise e Prospetiva, nº 14. Ed. GPP, pp 21-22.

 


publicado por Fernando Delgado às 23:31
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Segunda-feira, 8 de Abril de 2019

«Não há paisagens para sempre»

[...]« Não há paisagens para sempre. A paisagem é o registo de uma sociedade que muda e, se a mudança é tanta, tão profunda e acelerada, haverá disso sinais, para além de pouco tempo e muito espaço para compreender ou digerir as marcas e formas como se vão atropelando mutuamente, ora relíquias, ora destroços. [...]»

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(Foto: Casa abandonada em Penafalcão)

«[...] Agora vai minguando o espaço para as histórias e as personagens líricas do mundo rural. As marcas e as memórias do Portugal profundo vão-se decompondo com a desruralização e o seu rasto de efeitos culturais: o despovoamento, o envelhecimento, o abandono da produção agrícola e dos campos, o desaparecimento de certos estilos de vida, saberes e práticas culturais - o interior, no dizer mais frequente sobre estas coisas. Os poucos que vão ficando vivem de uma economia assistida entre pensões, reformas, poupanças, ou remessas de familiares e quem pode sai porque são escassos os empregos. A miragem do bucolismo e dos paraísos perdidos é mais de quem está no exterior (do tal interior) e pensa que o rural e Natureza são lugares para passar férias. [...]»

Álvaro Domingues in Vida no Campo. Edições de Arquitetura. Dafne Editora, 1ª ed., pp 15 e 23.

 


publicado por Fernando Delgado às 23:54
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Sexta-feira, 1 de Março de 2019

Eugénio de Andrade

«Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim

o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,

pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela

que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.»

Eugénio de Andrade. Estou contente, não devo nada à vida. Branco no Branco (1984).

 

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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018

«Uma narrativa para a paisagem»

«[…]

Como vem sendo corrente desde que deixámos de fazer castelos e apodreceram as caravelas que iam para além da Taprobana, estamos outra vez em crise, e as crises, por serem mundos cheios de oportunidades para os oportunistas das crises, tanto se prestam à melancolia, como à interrogação, à negação, ao conformismo ou à fuga.

O passado mítico é um bom lugar para tentar exorcizar tempos de angústia e de incompreensão sobre o que se passa. O discurso comum pretende transformar o presente numa inevitabilidade escondida na complexidade das crises sistémicas e globais, embrulhadas em ralhetes morais-liberais sobre o que acontece aos gastadores inveterados, organizando-o numa narrativa tecnocrática cheia de folhas de cálculo e discursos monocórdicos em “economês”. Perdido o Império, com a Europa feita em cacos e em vias de se transformar outra vez num saco de gatos, instaurado o casino financeiro (…) viciado em pôr a roleta do capitalismo global a alimentar os jogadores, vai-se perdendo o Estado e diluindo a Nação, já há muito espalhada nos quatro cantos do Mundo, ora festejando as glórias da bandeira portuguesa nos seus heróis populares ou eruditos, ora mirrando com saudades da família, dos amigos, do sol, dos pastéis e da boa comida.

Antes, eram os tipicismos regionais, longamente romanceados e ilustrados pelas suas paisagens, que forneciam um veneno doce e tóxico para ilustrar a invencível alma lusitana e os seus heróis. Agora, sem o xarope se ter esgotado, as paisagens desconstroem-se e atropelam-se nas suas próprias mitologias: a flor das amendoeiras do Algarve não é compatível com a praia, e a banalização do resort tropical ou do golfe triturador de falésias vai mal com ambientes protegidos, figos secos com amêndoas, shots, cataplanas, comida rápida, voos low-cost, parques aquáticos, vivendas a esmo e serras a arder. Um desassossego. Se a paisagem e as suas narrativas e representações são constitutivos poderosos da identidade, que identidade se construirá que não seja a própria sensação de perda de identidade?

[…]»

Álvaro Domingues in Volta a Portugal. Uma Narrativa para a Paisagem. Ed., Contraponto, pp 25-26.

 

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publicado por Fernando Delgado às 22:53
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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

«A Invenção da paisagem»

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(Barragem Idanha-a-Nova)

«A paisagem não é uma metáfora para a natureza, uma maneira de evocá-la; ela é de fato a natureza. Aqui se poderia dizer: "Como? Se a paisagem não é a natureza, o que seria ela, então?". Falar, portanto, de uma construção retórica (de um artifício, desta vez linguístico) acerca da paisagem é crime de lesa-majestade. A natureza-paisagem: um só termo, um só conceito - tocar a paisagem, modelá-la ou destruí-la, é tocar a própria natureza.» (pp 39)

«Nessa ótica, a paisagem é um "monumento natural de caráter artístico"; a floresta, uma "galeria de quadros naturais, um museu verde". Essa definição, elaborada pelo Ministério da Instrução Pública e das Belas-Artes francês em 1930, destaca a ambiguidade; reúne em uma fórmula os dois aspectos antagônicos da noção de paisagem: o ordenamento construído e o princípio eterno; enuncia uma perfeita equivalência entre a arte (quadro, museu, caráter artístico) e a natureza.» (pp 41)

«A imagem não está voltada para manifestações territoriais singulares, mas para o acontecimento que solicita sua presença. E assim como o lugar (topos) é, segundo a definição aristotélica, o invólucro dos corpos que limita, a pretensa "paisagem" (lugarzinho: topion) nada é sem os corpos em ação que a ocupam.» (pp 49)

«A cor é subsidiária. O criador (a natureza) desenha primeiro os contornos, depois (hysteron), ele escolhe as cores...» (pp 60)

Anne Cauquelin. A Invenção da Paisagem, Ed. e-book (vers. brasileira)

 


publicado por Fernando Delgado às 22:49
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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

A. Lobo Antunes

Fiz as pazes com a escrita de A. Lobo Antunes: desisti!

Desisti de tentar encontrar o fio à meada, de entender as personagens, de encontrar os caminhos, de decifrar a história contada.

Assumo, assim, que, ler Lobo Antunes é pressupor a existência de uma escrita anárquica, magistralmente anarca. Confesso que, para ler Lobo Antunes, é necessário esquecer que existem outras escritas, muito arrumadinhas, muito lógicas, muito cheias de conteúdo… Cedo à tentação de ler sem esperar encontrar nada para além do ato de leitura - é como caminhar sem partida ou chegada.

E como são suficientes as palavras!...

(Há uns bons anos, muitos anos, “aprendi” a gostar de jazz, e ainda hoje pressinto na anarquia dos sons – se calhar, apenas desconhecimento de leigo… - uma forma suprema de música!)

 

 

     «[…]

     Na altura do Natal a coluna de reabastecimento trouxe quatro mulheres metidas entre os caixotes da última mercedes, não muito novas, não muito bonitas, não muito limpas claro, de quico na cabeça e camuflados grandes demais para elas, olhando a medo o capim e as árvores dos dois lados da picada, o meu avô para o meu pai baixinho, sem levantar a arma, passando um dedo lento entre as orelhas da cadela

     - Não são perdizes aquilo é um ouriço a vigiar a toca

     com os primeiros besoiros já, as primeiras borboletas, aquela espécie de diferença na nuca que antecede o calor, soldados de ambos os lados no interior da mata e por vezes raminhos esmagados, protestos de caniços, dois ou três militares à frente a picarem, uma lata amolgada no chão, um céu de chuva a oeste muito longe ainda, a seguir à primeira curva a ladeira que conduzia ao arame onde se agitavam vespas num charco de água parada, a minha filha numa pedra de quintal sem falar comigo nem me olhar, em pequena sentava-a nos joelhos para cima e para baixo

     - Cavalinho cavalinho

     e ela a rir de prazer, de medo e do prazer do medo, ela contente, com o cabelo para um lado e para o outro e a falta de um dente de leite junto ao incisivo, nenhuma ruga meu Deus, ainda nenhuma ruga, a pele tão lisa, covinhas nas costas das mãos, covinhas nos cotovelos, covinhas nas bochechas

     - Mais

     os dedos dos pés pequeninos, redondos, os olhos castanhos, não bem castanhos, pintinhas verdes e agora infelizmente óculos, a boca séria, fechada, com um parêntesis de cada lado, o que te sucedeu, o que me sucedeu, a coluna entrou no arame camioneta a camioneta, com os pretos dos quimbos a espreitarem-na de longe e os soldados a saltarem da caixa, as gê três um som mais forte que as calaches, sempre que punha a minha filha às cavalitas despenteava-me

     - Corra

     e eu a segurar-lhe os tornozelos com medo de tropeçar na horta e cair, um lacrau apareceu numa pedra e esticou logo a cauda, os tropas espiavam as mulheres de longe enquanto o vagomestre ajudava a fixar, martelando-os, os paus de duas barracas de lona com colchões secos lá dentro a que faltava palha, na coluna um saquito de correio sem nenhuma carta para mim, a minha mulher escrevia-me uma vez por semana, envergonhada da letra

     - É tão feia

     onde contava não importa o quê para encher o papel comigo a pensar no seu corpo, será que ainda te lembras do meu, as mulheres que o capitão veio observar, com um alferes atrás, três morenas e uma quase albina, magríssima

     - Menos mal que o ano passado vá lá pelo menos nenhuma delas é preta

     despiram-se nas barracas enquanto um sargento distribuía senhas aos militares

     - Cinco minutos para despacharem o serviço que elas têm de se ir embora ainda hoje

     e o meu avô aborrecido porque nenhuma perdiz, a cadela pôs-se de pé, girou sobre si mesma e tornou a deitar-se, de focinho poisado num dos nossos sapatos, à espera, sentia-se a respiração dela entre a impaciência e o sono, notava-se-lhe uma carraça na orelha direita apesar da minha mãe às vezes pegar num desperdício e a esfregar com petróleo, tinha que se deixar uma noite lá fora porque o cheiro

     - Cavalinho cavalinho

     se pregava a tudo, até ao cesto da roupa, o meu avô a tossir

     - Raios partam o bicho

     dado que o pivete lhe incomodava os pulmões, os soldados formavam bicha diante das tendas com a senha numerada a lápis na mão

     - Ao fim de cinco minutos chegas aqui mesmo em pelo veste-te cá fora e pronto

     pergunto-me se a minha filha se lembra dos meus joelhos, se calhar sim, se calhar não, quase de certeza esqueceu-os, agora volta e meia doem-me no inverno, estou muito bem a andar e uma das pernas falta-me, desparece da tíbia para baixo e a seguir regressa mas mais fraca, a tremer, o meu filho preocupado

     - O que é isso?

[…]»

António Lobo Antunes. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. D. Quixote, 1ª ed. Pp 241-243.

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publicado por Fernando Delgado às 00:05
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Sábado, 18 de Agosto de 2018

«Cebola crua com sal e broa»

O Miguel decidiu escrever sobre pouco mais de uma dúzia de episódios datados, numa cronologia que ele próprio apelidou da infância para o mundo. Tudo bem, não só na revelação do seu mundo (do que ele quis revelar!), mas também na forma ligeira e escorreita da escrita (o livro lê-se em duas golfadas…).

O problema não está nas estórias e nas personagens, algumas bem conhecidas. O problema está em, a partir de cada uma das estórias, fazer generalizações e tirar conclusões de âmbito muito mais vasto. Uma estória não determina a história, é apenas um acontecimento que isolado significa muito pouco, embora esta tendência de generalização seja sobejamente conhecida nos comentários televisivos...

Porque gosto da escrita do Miguel (que vontade de reler No teu deserto), irrita-me esta forma abusivamente conclusiva de relatar fatos (um pouco à semelhança dos contos da escola em que no fim nos perguntavam “que lição tirar?” ou “qual é a moral da história?”), o que me leva a transcrever do livro uma simples receita culinária – a que posso chamar como assar e comer sardinhas -, que já conhecia, embora sem o pormenor dos bocados da tripa, mas que o MST, mais uma vez, não resistiu a considerar como "a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou" :

«[…]

o lume tem de doirar e não queimar, as sardinhas; não se acompanha com batatas, apenas salada, para desenjoar, de vez em quando; não há pratos nem talheres: as sardinhas comem-se em cima de pão, com os dedos retira-se a tripa do costado e a pele mais grossa, depois come-se metade de uma só dentada, até à espinha, virando-a a seguir para fazer o mesmo do outro lado; no fim, coloca-se o pão, untado do suco das sardinhas e com bocados de tripa, a torrar no lume e come-se a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou»

[…]»

Miguel Sousa Tavares. Cebola crua com sal e broa. Da infância para o mundo. Clube do autor, 1ª ed., maio, 2018,  pp 350.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:52
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Domingo, 29 de Julho de 2018

Steinbeck

Tempo de releituras… Steinbeck, a natureza, a sua relação com deus e com o inconsciente e (dentro da minha leitura - ver também aqui), o limiar da razão – a gente faz sempre maldades quando é muito feliz (pp 21) -,enunciados inúteis - isso tudo são palavras para vestir uma coisa nua; e essa coisa, vestida, torna-se ridícula (pp 184) - e o desespero das longas esperas – vão rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos (pp 205).

 

 

«[…]

     Escuta, Juanito: primeiro havia a terra; depois, vim eu guardar a terra; e agora a terra está quase morta. Só restam este rochedo e eu. Eu sou a terra.

(…)

     A chuva varreu o vale. Dentro de breves horas regatos fervilhavam pelas encostas e caiam no rio de Nossa Senhora. A terra fez-se negra e bebeu água até mais não poder. O próprio rio rugia entre os penedos e precipitava-se na garganta dos montes.

     O padre Ângelo estava na sua casinha, sentado entre os livros de pergaminho e as imagens santas, quando a chuva começou. Lia La Vida de San Bartolomeo. Mas quando começou o chapinhar da chuva no telhado, pousou o livro. Durante horas ouviu o rugir da água sobre o vale e o clamar do rio. De vez em quando ia à porta espreitar lá fora. Passou a primeira noite acordado, a escutar, consolado, o barulho da chuva. E sentia-se feliz ao lembrar-se de que rezara por ela.

     Ao crepúsculo da segunda noite, a tempestade continuava com a mesma força. O padre Ângelo entrou na igreja, mudou as velas da Virgem e fez as suas devoções. Depois ficou-se no limiar escuro, a olhar a terra encharcada. Viu passar a correr o Manuel Gómez, carregado com um coiotezinho molhado. E logo a seguir o José Alvarez, com os chifres dum veado na mão. O padre Ângelo escondeu-se na sombra do portal. A Srª Gutiérrez passou depois, a patinhar nas poças, com os braços cheios duma velha pele de urso, comida da traça. O padre sabia o que se ia passar nesta noite de chuva. Ardeu nele uma ira que crescia. “Eles que comecem, que eu os faço parar”, disse ele.

     (…) O padre via mentalmente o povo a dançar, a patinhar na terra mole com os pés descalços. Via-os vestidos com peles de animais, embora nem eles soubessem porque as tinham posto. O ritmo cadenciado tornou-se cada mais forte e mais insistente e as vozes mais agudas e histéricas. “Vão despir a roupa toda”, murmurou o padre, “e rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos.”

[…]»

John Steinbeck. A um Deus Desconhecido. Publicações Europa-América. Livros de bolso, pp 21, 184, 205, 223-224.

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:20
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Segunda-feira, 16 de Julho de 2018

Stefan Zweig

À beira de uma Europa em crise..., ou como o espessamento oculto do transitório alimenta o populismo.

«[…]

     Mas continuávamos a não ver o perigo. Os poucos escritores que se deram ao verdadeiro trabalho de ler o livro de Hitler, troçavam do estilo pomposo da sua prosa de papel, em vez de se debruçarem sobre o seu programa. Os grandes jornais democráticos, em vez de alertarem, tranquilizavam diariamente os seus leitores, afiançando-lhes que o movimento, que só a custo conseguia financiar a sua enorme actividade propagandística com dinheiros da indústria pesada e com uma arrojada política de endividamento, haveria de sucumbir no dia seguinte ou dois dias depois. Mas talvez no estrangeiro nunca se tenha percebido inteiramente a razão por que a Alemanha, durante todos esses anos, subestimou e minimizou a tal ponto a pessoa e o poder crescente de Hitler: a Alemanha não só fora, desde sempre, um Estado estratificado em classes como, além disso, e de acordo com esse ideal de classe, também sobrestimava e divinizava cegamente a “cultura”. Exceptuando alguns generais, as posições mais elevadas do aparelho de Estado estavam exclusivamente reservadas a indivíduos com “formação académica”, como se dizia; enquanto em Inglaterra um Lloyd George, em Itália um Garibaldi e um Mussolini, em França um Briand tinham realmente saído das fileiras do povo para se elevarem até aos mais altos cargos do aparelho de Estado, o alemão não concebia que um homem que não tinha sequer terminado a escola e muito menos frequentado a universidade, que alguém que pernoitara em albergues nocturnos e que, anos a fio, ganhara a sua obscura vida de uma forma ainda hoje não muito clara, pudesse sequer aproximar-se de um cargo que fora outrora ocupado por um barão von Stein, por um Bismarck, por um príncipe Bulow. Nada induziu tanto em erro os intelectuais alemães, como esse arrogância cultural de teimar em ver em Hitler um agitador de cervejarias que nunca poderia tornar-se verdadeiramente perigoso, isto numa altura em que ele, graças aos que manobravam os cordelinhos invisíveis, já há muito tinham conquistado apoiantes de peso nos mais diversos círculos. E mesmo quando, naquele dia de Janeiro de 1933, Hitler se tornou chanceler, as grandes massas, e até os que o tinham colocado naquele lugar, consideraram-no, a ele, como alguém que ocupava um lugar transitório, e o domínio nacional-socialista, como um mero episódio.

[…]»

Stefan Zweig. O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu. Assírio & Alvim, pp 396-397.

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:25
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Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Hermann Hesse

Tempo de (re)leituras... Ler ou reler (ver também aqui e aqui) H. Hesse parece-me sempre um convite a explorar as rugosidades das coisas ditas perfeitas...

 

«[...]

     - Vives no convento?

     - Sou aluno da escola. Mas não fico lá mais. Posso vir ter contigo, Lise? Onde moras, onde é a tua casa?

     - Não moro em parte alguma, meu tesouro. Não me queres dizer o teu nome? Chamas-te Goldmundo? Dá-me mais um beijo, meu pequeno Goldmundo, depois podes ir.

     - Não moras em parte alguma? Onde dormes, então?

     - Durmo contigo, se quiseres, na floresta ou sobre o feno. Vens hoje à noite?

     - Venho. Mas aonde? Onde te encontro?

     - Sabes imitar o pio da coruja?

     - Nunca experimentei.

     - Experimenta. 

     Goldmundo tentou. Ela riu-se e achou que estava bem.

     - Sai esta noite do convento e imita o pio da coruja; ficarei aqui nas imediações. Gostas de mim, Goldmundo, meu menino?

 

[...]

 

     - E agora, diz-me lá – concluiu violentamente – que mundo é este em que vivemos? Não é um inferno? Não é odioso e abominável?

     - Sem dúvida, o mundo não é outra coisa.

     - Ah, sim – exclamou Gldmundo exaltado – e quantas vezes outrora me afirmaste que o mundo era divino, que era uma harmonia de esferas, no centro das quais se erguia o trono do Criador, que a existência era boa, etc. Dizias tu que o afirmavam Aristóteles ou S. Tomás. Estou curioso por ouvir-te esclarecer esta contradição.

     Narciso riu-se.

     - Tens uma memória espantosa, Goldmundo e, contudo, desta vez traiu-te um pouco. Sempre venerei a perfeição do Criador, mas nunca a da criação. Nunca esqueci o mal do mundo. Nenhum autêntico pensador, meu caro, jamais afirmou que a vida na terra fosse harmoniosa e justa ou que homem fosse bom. Pelo contrário, já na Sagrada Escritura vem expressamente dito que os desígnios e aspirações da alma humana são perversos, e todos os dias vemos essa asserção confirmada.

     - Muito bem. Descubro finalmente como é que vós, os homens doutos, concebeis as coisas. O homem é mau, a vida na terra é abominável e imunda; admitem-no. Mas, para além, algures nos vossos sistemas e tratados, há justiça e perfeição. Existem, podem demonstrar-se, mas não se faz uso delas.

[…]»

Hermann Hesse. Narciso e Goldmundo, pp. 74 e 259, Guimarães & C.ª Editores, 2ª ed., 1981.

 

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publicado por Fernando Delgado às 22:59
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

do res nulius ao black act

«[...]

A importância que os primeiros reis atribuíam à caça nos montes (montarias) prendia-se sobretudo com a necessidade de exercitar a preparação para a guerra. D. João I, no seu Livro da Montaria, dedica um capítulo a mostrar “como o jogo de andar no monte é melhor que todos os outros jogos para recrear o entender, e também corrigir o feito de armas”.

(…)

Esta situação estava regulada no direito romano pelo princípio de que a caça e pesca se consideravam coisas comuns (res nulius) que, por se deslocarem livremente, como a água ou o ar, não eram pertença do proprietário do terreno mas do primeiro que os capturasse.

No entanto, desde o estabelecimento dos Visigodos na Península a caça e a pesca “deixaram inteiramente de ser objeto de ocupação em terra alheia” e por isso, no início da nacionalidade, elas teriam representado “direitos inerentes ao domínio do solo”.

Os dois sistemas de direito cinegético, o Romano e o Visigótico, iriam vigorar em simultâneo, durante o Antigo Regime, o primeiro como suporte da legislação geral e o segundo aplicado ao regime da coutada, cuja criação foi direito exclusivo dos reis, desde D. João I até às Cortes Constituintes.

Para assegurar o poder real sobre os montes coutados, os reis nomeavam monteiros, cuja referência mais antiga parece datar do reinado de D. Afonso III para a serra do Soajo, havendo também documentos do século XIII referindo monteiros para as matas do Botão, localidade a norte de Coimbra junto do Buçaco, e já no século XIV para as matas do Ribatejo.

A sequência destas referências parece acompanhar a deslocação dos centros de poder político. De facto, o centro político do país tinha-se deslocado para Coimbra ao longo dos séculos XII e boa parte do XIII, mas durante a segunda metade desse século e durante o século XIV o centro propulsor do novo reino passaria para a Estremadura, com Lisboa e Santarém a ultrapassarem Coimbra como local de residência e passagem régia.

(...)

Por prerrogativa real iriam ser, a partir da segunda metade do século XIV, coutadas grandes extensões de território, o que suscitava fortes reacções populares invocando expressamente o princípio de que a caça e a pesca deveriam ser coisas comuns. Mas as reclamações mais frequentes dos povos eram sobre os prejuízos causados à agricultura pelos animais ("veação") que transpunham os limites das coutadas e que, por uma lei de D. Pedro I, estavam também protegidos. Diziam os representantes dos concelhos nas Cortes de Elvas de 1361 que "o lavrador pode castigar o homem que lhe causar prejuízo nas searas ou nas vinhas, mas há que respeitar a veação que lhe for aí fazer estragos." Este argumento parece ter convencido D. Pedro I que revoga então essa lei.

A área de coutada continuaria ainda assim a aumentar, como aumentariam as penas estabelecidas para os infractores e melhoraria a organização de guarda de montes coutados. Para tal foi criado por D. João I, em 1414, o ofício de monteiro-mor do Reino, dando-lhe "poder sobre todos os monteiros que temos posto pelas comarcas e outrossim sobre todos os monteiros que são postos por guardadores das matas que são por nós coutadas (...)".

Também no Regimento do Monteiro-mor de 1605, Filipe II para que "ache montaria e caças" nas suas "matas e coutadas" quando por sua "recreação nelas quiser ir montear" declara "as ditas montarias" e mantém penas de grande dureza: "que qualquer pessoa que dentro das ditas coutadas seja ousado de matar porco, porca, bácoro ou veação grande ou pequena, ou armar armadilhas, ou querer montear, sendo peão seja preso e pagará dois mil reais, e será degradado três anos para as galés, e sendo Fidalgo será preso até minha mercê e pagará duzentos cruzados para as coisas que declarar, e seja condenado em dois anos de degredo para África pela primeira vez."

Neste crescendo, D. João V decide, em 1773, e à semelhança do Black Act inglês, a aplicação da pena de morte aos indivíduos apanhados em flagrante "delito de caça", que resistam à prisão ou que fujam aos guardas das coutadas, situações em que podiam mesmo disparar para matar.

(...)

Seria o triunfo da Revolução Liberal, em 1821, que iria fazer com que a situação das coutadas de caça se modificasse radicalmente. A 30 de Janeiro desse ano procede-se à abertura das Cortes Constituintes e logo no dia 8 de Fevereiro, as mesmas Cortes, "considerando os males que da conservação das coutadas para a caça resultam à agricultura, aos direitos de propriedade dos vizinhos delas, à tranquilidade e segurança deles" decretam que todas as coutadas abertas e destinadas para a caça fiquem "inteiramente abolidas e devassadas, ficando salvos aos donos os direitos gerais da propriedade".

[...]»

Francisco Castro Rego. Florestas Públicas, 2001. pp 9-12.


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Quarta-feira, 22 de Março de 2017

Eduardo Mendoza

«[...]

     Dubslav tossicou e disse: "Majestade, excelentíssimos membros do júri, distinto público, quero antes de mais nada expressar o meu agradecimento por me haver sido outorgado este Prémio Europeu de Realização Científica pelas minhas investigações no campo da oftalmologia. Nestas ocasiões costuma-se dizer: por me ter sido outorgado imerecidamente este magnífico prémio. Eu não o direi. Em primeiro lugar, este prémio não é magnífico. Na realidade é uma ridicularia. Todos os prémios o são, mas este seguramente leva a palma. E no meu caso não é sequer um prémio imerecido. Eu não sou um especialista em oftalmologia; não sei nada de oftalmologia, nem sequer sou médico. Por este motivo, ao levar o prémio não faço mal a ninguém; em definitivo, o prémio consiste nesta estatueta honrosa e numa certa publicidade. Esta publicidade a mim de nada me vai servir. A verdadeira destinatária do prémio investigou realmente no campo da oftalmologia, mas já não voltará a fazê-lo, nem beneficiará da publicidade, nem verá a estatueta. Mas não se assustem: não sou um impostor. Como filho único e herdeiro universal da vencedora, tenho pleno direito ao prémio. Em consequência, levarei a estatueta, e se além da estatueta o prémio tem uma dotação económica, também a levarei. Talvez a entregue a um centro de investigação oftalmológica ou talvez a destine a outros fins; actuarei conforme me agrade e não darei explicações a ninguém. Se gastar o dinheiro em coisas horríveis, tanto melhor.

     Quanto a mim, pouco vos posso dizer. Sou um homem absurdo. Fui concebido de um modo absurdo e criado de um modo absurdo. Sem o saber, estava a preparar-me para esta cerimónia. Vejam, nem sequer o smoking é meu. Um homem morreu para mo poder emprestar. <agora deveria ele estar ele de smoking e eu deveria estar aqui, diante de todos vós, coberto de farrapos pestilentos. Mas isso teria feito a minha presença exemplar, para não dizer simbólica. talvez por isso o destino preferiu fazer fazer chegar às minhas mãos este smoking. Na realidade os farrapos também não são a minha indumentária habitual: não sou um anacoreta. Sou apenas um viajante, um excursionista. As viagens não instruem, mas estragam muito a roupa. De qualquer modo o smoking é melhor.

     Tenho passado a vida a falar sozinho e explico-me mal. Quando procuro teorizar vou do trivial para o confuso. Seguramente a minha bagagem intectual compõe-se destas duas variedades do saber.

[...]»

Eduardo Mendoza. O fim de Dubslav in Três vidas de santos. Sextante Editora, 1ª ed., pp 116-117.

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:23
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Arturo Pérez-Reverte

É sempre com um pé atrás que compro livros de jornalistas, embora admita que se trata de um preconceito construído à volta dos escritos de um jornalista-escritor português que insiste em piscar-me o olho no fim de cada telejornal...

Apesar das 512 páginas, "Homens Bons" permitem limpar um pouco aquele preconceito... O texto das duas primeiras páginas, uma espécie de resumo ou de enquadramento da narrativa, parece-me confundir-se com o subtítulo a bold de um artigo de opinião:

  

     «Imaginar um duelo ao amanhecer, na Paris de finais do século XVIII, não é difícil. Basta ter lido alguns livros e visto uns quantos filmes. Contá-lo por escrito é algo mais complexo. E utilizá-lo para o arranque de um romance tem os seus riscos. A questão é conseguir que o leitor veja o que o autor vê, ou imagina. Converter-se em olhos alheios, os do leitor, e desaparecer discretamente para que seja ele a entender-se com a história que lhe narraram. A destas péginas precisa de um prado coberto pela geada da manhã e de uma luz difusa, acizentada, para a qual seria útil recorrer a uma neblina suave, não muito espessa, daquela que brotava frequentemente nos bosques dos arredores da capital francesa – hoje muitos desses arvoredos desapareceram ou estão incorporados nela – com a primeira claridade do dia.

     A cena precisa também de umas personagens. Na luz incerta do sol que ainda não desponta devem notar-se, um pouco esbatidas entre a bruma, as silhuetas de dois homens. Um pouco mais retiradas, debaixo das árvores, junto a três carruagens ali paradas, há outras figuras humanas, masculinas, envoltas em capas e com chapéus de três bicos enfiados sobre o disfarce. São meia dúzia, mas não interessam para a cena principal; por isso podemos prescindir deles por agora. O que deve atrair a nossa atenção são os dois homens imóveis em frente um do outro, de pé sobre a erva húmida do prado. Vestem calções justos e estão em mangas de camisa. Um é magro, alto para a época, e tem o cabelo grisalho apanhado num rabicho curto sobre a nuca. O outro é de estatura média e tem o cabelo encaracolado nas têmporas, emproado como era próprio da moda mais requintada do seu tempo. Nenhum dos dois parece novo, ainda que estejamos a demasiada distância para apreciar isso. Portanto, aproximemo-nos um pouco deles. Observemo-los melhor.

     O que cada um segura na mão é uma espada. Ou uma espada parecida com um florete, se repararmos nos pormenores. O assunto, portanto, parece sério. Grave. Os dois homens estão a três passos um do outro, ainda imóveis, olhando-se com atenção. Quase pensativos. Todos concentrados no que vai acontecer. Têm os braços caídos ao longo do corpo e as pontas de aço roçam na erva do chão, coberta de geada. O mais baixo, que de perto também parece mais novo, tem uma expressão altaneira, talvez teatralmente desdenhosa. Dir-se-ia que, embora estude o seu adversário, está à espera de mostrar uma figurabem composta aos que o observam dos limites do prado. O outro homem, mais alto e de mais idade, possui uns olhos azuis aquosos e melancólicos que aparentam ser contagiados pela humidade ambiental. À primeira impressão parece que aqueles olhos fixam o homem que tem à frente, mas se repararmos bem neles, notaremos que não é assim. Na verdade encontram-se absortos, ou distraídos. Ausentes. Talvez, se naquele momento, o homem que têm em frente mudasse de posição, aqueles homens continuassem a olhar para o mesmo lugar, indiferentes a tudo, atentos a imagens distantes que só eles conhecem.

     Do grupo reunido debaixo das árvores chega uma voz, e os dois homens que estão no prado levantam os espadins devagar. Cumprimentam-se brevemente, levando um deles a guarnição à altura do queixo, e depois põem-se em guarda. O mais baixo apoia a mão livre na anca, adotando uma elegantíssima postura de esgrima. O outro, o homem alto de olhos aquosos e curto rabicho grisalho, estende a arma e ergue a outra mão, com o braço e antebraço quase em ângulo reto, com os dedos relaxados e ligeiramente descaídos para a frente. Os ferros, ao tocarem-se com suavidade pela primeira vez, produzem um tilintar metálico que ecoa nítido, argênteo, no ar frio do amanhecer.

     Continuemos a escrever, agora. Contemos a história. Saibamos o que troxe estas personagens até aqui.»

 

Arturo Pérez-Reverte. Homens Bons. ASA, 1ª ed, pp 9-10.

 

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Quinta-feira, 26 de Maio de 2016

A Seiva da Raíz

De vez em quando convidam-me para ir "falar" a alguns sítios - não é bem um convite, é uma obrigação profissional,... - e oferecem-me coisas, sempre simbólicas, mas que às vezes são boas surpresas. Ainda não cheguei ao fim, mas "A Seiva da Raiz", um livro de contos de António Arnaut, editado pela Câmara Municipal de Penela, que me foi oferecido num Seminário neste concelho, é uma boa descoberta.

Alguns textos lembram-me Miguel Torga, sem a intensidade telúrica e etnográfica deste, mas com o mesmo desespero humanista. "A Mariana" ou o "Alma Grande" só podem ser de Torga, mas "Os dois barbeiros" de Arnaut lembram-me esse tropismo angustiado no Portugal profundo.

Aqui ficam alguns excertos desse conto:

 

«Os Dois Barbeiros

(...)

     Nas aldeias perdidas no fundo das montanhas, onde o tempo parou na pedra seca das casas e nos hábitos estereotipados por séculos de abandono, a paz bucólica que tanto impressiona os visitantes citadinos, não assenta apenas na harmonia dos homens com a natureza, mas na harmonia conjugada dos habitantes. Foi esta harmonia que exigiu, por razões de sobrevivência, a repartição dos ofícios principais e a consequente eliminação de concorrência. Por isso existiu sempre em Valmatos um único alfaiate, um único sapateiro, uma única taberna e um único barbeiro.

(...)

     Ora, um dia, o destino ou o acaso - nunca se sabe que força nos guia os passos - fê-los encontrar numa curva recatada do caminho, a coberto da curiosidade da aldeia. Ao vê-la aproximar-se, com um molho de erva à cabeça e aquele andar saracoteado que tanto o perturbava, um pensamento temerário percorreu-lhe o corpo como um formigueiro. Refreou o passo e aventurou-se a sondar o passado:

     - Bons olhos te vejam, rapariga!

     Ela parou surpreendida, mas não se deu por achada:

     - E a ti também, Alfredo!

     Aquela voz alegre, a soletrar de novo o seu nome, sonora e cantante como um hino à vida, acicatou-lhe o sangue e deu corpo à ideia que tanto o atormentava. Que melhor vingança do que fazer ao outro o mesmo que lhe fizera?!

     - Sabes, Josefina, continuo a gostar de ti...

     Ela hesitou. Parecia tolhida, a respiração ofegante, os olhos pregados nos trilhos do caminho, as mãos nervosas a tactearem o carrego.

     - Vou dizer-te, Alfredo, mas que fique só entre nós, também ainda me lembro de ti...

     - Podíamos combinar um encontro para falarmos mais à vontade - sugeriu ele com voz alanceada por pensamentos contraditórios, ou justapostos, o ódio e o amor a fazerem de pedras irmãs da mesma muralha da vida.

     - Vai na quinta-feira, de madrugada, à minha sorte das Chãs - respirou fundo, a despedir-se e a vincar o segredo da mensagem - é o meu dia de rega, estaremos à vontade...

(...)

     Na quinta-feira de madrugada, mal a claridade indecisa acariciou a janela do quarto e sorriu nos seus olhos ansiosos, Alfredo levantou-se, vestiu o fato domingueiro e partiu apara a sua aventura com a emoção incontida de um adolescente que se preparasse para uma grande viagem. A viagem do Alfredo era curta, porque as Chãs ficavam a meia hora de longada, pelo vale, junto à ribeira, num sítio ermo, propício a todos os encontros. O barbeiro atravessou a aldeia, ainda adormecida, meteu pelo trilho da encosta e quando estava a meio caminho lembrou-se que não tinha trazido a bicicleta, o que sempre fazia quando ia à vila, a duas léguas de distância. Parou, a equacionar o dilema, a mulher podia desconfiar, pois não era natural que ele fizesse a suposta viagem a pé. Era alta madrugada, o sol nem sequer mandara ainda um raio extraviado a anunciar a sua chegada do outro lado da montanha. Fez um cigarro, vagarosamente, o pensamento dividido como o tempo, também indeciso, entre a fronteira da noite e do dia, e resolveu voltar a casa em passo acelerado, para trazer a bicicleta e reforçar o alibi. A aldeia dormia ainda. Só um cão insone se lhe atravessou no caminho, a ladriscar de tédio.

Alcançou a casa, no coice do lugar, entre pinheiros ainda sonolentos. Abriu cautelosamente a cancela e aporta da loja, onde estava o velocípede. Sentiu vozes abafadas, um gemer de feno acordado, o coração deu-lhe um baque, acendeu um fósforo, e à luz frouxa dos seus olhos incrédulos, viu a mulher descomposta entre os braços roliços do Petinga.»

A Seiva da Raiz. Contos. António Arnaut. Ed. da Câmara Municipal de Penela, 2002, pp 73-80.

 

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Sexta-feira, 13 de Maio de 2016

Regresso à «Tabacaria»

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu

(come chocolates, pequena; come chocolates!)

 

«Tabacaria

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.»

Tabacaria. Álvaro de Campos.

 

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Sábado, 23 de Janeiro de 2016

«Esplanada»

esplanada.jpg

 «Naquele tempo falavas muito de perfeição,

da prosa dos versos irregulares

onde cantam os sentimentos irregulares.

Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

 

agora lês saramagos & coisas assim

e eu já não fico a ouvir-te como antigamente

olhando as tuas pernas que subiam lentamente

até um sítio escuro dentro de mim.

 

O café agora é um banco, tu professora do liceu;

Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,

e não caminhos por andar como dantes.»

 

Manuel António Pina. Esplanada in Um Sítio onde Pousar a Cabeça.

Desenho de FlyOnSketch.

 

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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2016

textos de inverno

Sei que a repetição é uma sintoma de falta de imaginação, ou mesmo o primeiro grau de uma preguiça que nestas longas e frias noites de inverno teima em sentar-se ao meu lado e adormecer, adormecendo-me... Sei que este é o tempo das leituras, mas até os livros se cansam nas mãos...

Por isso aqui fica mais um texto retirado do blog ana de amsterdan. O motivo não é apenas, ou sobretudo, a preguiça. Não! - é a sua qualidade, mesmo sabendo que a minha opinião é irrelevante.

 

«Intimidade

Usarei a melhor blusa, os sapatos vermelhos, os brincos de ouro que herdei da avó goesa. Caminharei ao seu lado. Colocarei um pé a seguir ao outro. Em cada passo sentirei o peso exacto do meu corpo. Hei-de mostrar-lhe a estátua de Hanuman, as suásticas, as hortas em redor, o auditório forrado a alcatifa verde, a cantina escura. Chamarei a sua atenção para o tom das cadeiras de plástico do templo. É pela cor do plástico das cadeiras, a mostrar a fraca qualidade do material, que se percebe o embuste: o templo hindu não está localizado em Lisboa. Fica numa rua barulhenta dos subúrbios de Bangalore. Desceremos ao poço. Ao contrário do habitual, comerei com gosto, sobretudo as chamuças ainda quentes. Estarei atenta à maneira como come. Mostrar-lhe-ei como se partem aos pedaços os rotis e se misturam com o resto da comida. Hei-de rir quando provar o caril de legumes, aguado e sensaborão. Fará uma careta engraçada. Evitaremos temas pessoais. A intimidade nunca é por nós partilhada. Falaremos mal de escritores, críticos literários, jornalistas, editores. Para além da ausência e do falso desprendimento, a maledicência é o que nos une. Falarei com entusiasmo do conto do Dylan Thomas que li, sem nunca lhe confessar que, quando o li pela primeira vez, me imaginei deitada na cama ao seu lado. Numa intimidade de velhos, os óculos na ponta do nariz, os nossos pés a tocarem-se por baixo dos cobertores, imaginei-me a ler para ele aquele preciso conto. Maravilhoso conto. Ler em voz alto para alguém é sinal de amor. Leio em voz alta para os meus filhos. É uma outra forma de lhes dizer que os amo. Escutar-me-á falar e intimamente lamentará não me amar. No final, à despedida, um beijo apressado, a boca dele mal me tocando no rosto. Sentirei o seu cheiro. Seguirá pela rua, sem nunca olhar para trás. Ficarei a vê-lo, enfiado num casaco feio, caminhando apressado na direcção da biblioteca.»

Ana Cássia Rebelo. ana de amsterdan.

 


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Sábado, 24 de Outubro de 2015

Cansaço

Há sem dúvida quem ame o infinito, há sem dúvida quem deseje o impossível, há sem dúvida quem não queira nada - três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: porque eu amo infinitamente o finito, porque eu desejo impossivelmente o possível, porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder ser...

 

«O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
 
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
 
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
 
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...»
 
Álvaro de Campos, in "Poemas".1934.
 
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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

Esquecimento

«[...]

     Haviam combinado encontrar-se ali cinco anos antes. Ele não fora. Não tivera coragem para começar uma vida nova. Compreendera depois que não ter ido era uma rendição, uma aceitação de velhice. Guardara o endereço electrónico dela. Escrevera-lhe. Escreveu-lhe meses a fio. Não recebeu resposta alguma. Silêncio. Sim, o silêncio é uma resposta. A única que não se pode contestar.

     Abriu os olhos e deu com uma mulher parada diante dele. Sorria. Não era a mulher por quem esperava. Ou talvez fosse.

     - Conhecemo-nos?

     A mulher voltou a sorrir:

     - Não tenho a certeza - disse, numa voz de seda. - Passei por um rio.»

 

José Eduardo Agualusa. O Livro dos Camaleões. Esquecimento. Quetzal, 1ª ed., pp 30.

 

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Domingo, 2 de Agosto de 2015

Rentes de Carvalho

«Não sou como sou, nem como me quero, nem como me julgo.Sou como os outros me veêm. Um eu que desconheço.»

J. Rentes de Carvalho. Pó, Cinza e Recordações. Quetzal, 1ª ed, pp 212.

 

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