Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

Recomeços

Esta é a estação das chuvas! É preciso embriagar-nos de água e rebolar na cinza lamacenta. É preciso crescer com as ervas e deixar a natureza encher as mãos. É urgente erguer os olhos e agarrar o arco-íris que se desprende do relâmpago. É tempo de abandonar a morte. 

É tempo de regressar a este país..., e mesmo que o improviso teime em sinalizar o caminho, é sempre nesse instante que tudo recomeça, que tudo vale a pena.

E não há espaço para absolvições porque não há nenhuma necessidade de perdão!

 

publicado por Fernando Delgado às 00:40
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Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2016

mim

Não, não sou poeta! As palavras são duras, cheias de arestas e limito-me a colocá-las ao lado da intransigência dos sentidos, sem o necessário polimento da memória - roubo-as não sei onde (minto propositadamente - às vezes sei e também sei para que as quero!) e com mãos inseguras atiro-as como pedras lançadas aos pássaros (acerta, não acerta?!, normalmente não acerta, mas nem isso é importante).

Não, não sou pintor! Espalho tintas sobre telas como quem atira água sobre rosas brancas à espera que se tornem vermelhas (muitas vezes consigo perceber um ligeiro e inesperado perfume, mas as rosas brancas continuam brancas...). Às vezes as cores e os perfumes surpreendem-me, mas só eu posso perceber isso, o que nunca chega para tornar uma tela colorida numa pintura.

Não, não sou fotógrafo! Apontar e disparar não é suficiente para captar a realidade e muito menos percebê-la (a luz nem sempre me ajuda a ver melhor).

Sim, sou um leitor de mil palavras, um ouvinte de algumas canções e um apreciador de muitos vinhos (sim, e tintos de preferência). Sim, gosto da espuma dos dias (sim, sim, gosto de coisas inúteis). E do silêncio, e da solidão…

Sim, sou pescador e já fui caçador (a morte é desinteressante, mas só agora descobri isso).

(A que propósito escrevo eu sobre mim?)

 


publicado por Fernando Delgado às 01:25
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Terça-feira, 11 de Novembro de 2014

«O resto é silêncio»

 

IMG_8064.jpg 

 (Quinta dos Loridos, Bombarral)

  

 [...]Hamlet: O resto é silêncio! (Hamlet morre)

Horácio: Partiu-se um nobre coração. Boa noite amado príncipe e que os anjos do céu venham em coro embalar-te o sono [...]»

W. Shakespeare, Hamlet. Cena II. Acto V.

Desertificação: «[…] A ameaça de desertificação está hoje claramente associada às alterações climáticas. Mas a desertificação não pode ser entendida como um mero fenómeno biofísico. Está normalmente também associada à regressão demográfica e aos usos do solo. Estes vários factores interagem e agravam-se mutuamente nas suas consequências. Há por isso que encontrar formas de mitigar os efeitos dos fenómenos climáticos, adaptando as actividades humanas ao território e mantendo níveis e modos de utilização compatíveis com a conservação e valorização dos recursos naturais e territoriais. O combate à desertificação é, por isso, também um problema de ordenamento do território.[…]» Combate à Desertificação: Orientações para os Planos Regionais de Ordenamento do Território. DGOTU, 2006.

 

Desenvolvimento sustentável: «Um modelo de desenvolvimento que permite às gerações presentes satisfazer as suas necessidades sem que com isso ponham em risco a possibilidade de as gerações futuras virem a satisfazer as suas próprias necessidades». Brundtland (WCED, 1987).

 

Vivo no interior, naquele pedaço da jangada de pedra de onde se avistam terras de Espanha e areias de Portugal. Não é por obrigação, é por opção! Opção por muitas coisas que, conscientemente sobrevalorizadas, são suficientes para suportar algumas angústias… Nada de determinante, quando o mundo é o mundo que escolhemos.

Mas este mundo também é de mudança, muitas vezes com tropia própria, mas demasiadas vezes influenciado por um tropel ruidoso vindo do exterior, qual vendaval que de repente tudo arrasta e tudo destrói: encerramento de escolas, de repartições públicas, dos ‘correios’, de empresas,... O vendaval é quase sempre precedido de uma homilia sobre as “contas” e as “reformas” e, passado o temporal, uma oração sobre a desertificação e o desenvolvimento sustentável

(Amén)

Vem a acalmia e eles vão-se, orgulhosos do oráculo, cientes de que não só acabaram de ganhar uma batalha, como essa batalha era uma boa batalha de uma guerra misteriosamente regeneradora. Deixemo-los em paz, emproados e pobrezitos regressar ao seu burgo dourado.

Falemos de nós, dos que ficam, dos que sempre aqui estiveram, dos que resistiram e resistem a cada vendaval. Falemos então de qualidade de vida, das escolas, das repartições públicas, das empresas - da desertificação e do desenvolvimento sustentável e também, porque não, dos falsos poderes. Daqueles poderes muito apreciados e disputados por meia dúzia de adeptos dos clubes partidários, mas que não passam de fachadas de um poder longínquo que ostensivamente os ignora. É verdade que alguns não merecem mais que a ignorância e algum desprezo do poder central, tão grande é o seu egoísmo de pedestal, mas há outros que me custa olhar o seu olhar - um olhar impotente de quem não consegue dar um murro na mesa.

Todos sabemos, ainda que apenas em alguma da sua amplitude, que a desertificação tem múltiplas facetas e é condicionada por inúmeros factores. Mas, curiosamente, nunca inclui o esvaziamento e a degradação do poder que visivelmente se verifica nestes territórios! Provavelmente porque este esvaziamento não condiciona nada de essencial para as gerações futuras e, portanto, para um desenvolvimento sustentável, ainda que admita que se trata de uma profecia ingénua, certeira para todos (todos!) os representantes do poder central, mas talvez pouco justa para alguns (poucos!) autarcas.

Tenderia a concordar com esta tese se este caminho para uma ausência de poder fosse simples, consciente, natural e, portanto, em última análise, a génese de uma sociedade autónoma, adulta, feliz. Mas não é! Esta ausência é imposta e protagonizada por um grupo de pobres vaidosos inconscientemente atarefados em inutilidades práticas. Neste sentido, temo que no sentido real, é apenas um caminho para o vazio. O resto é silêncio.

 


publicado por Fernando Delgado às 01:08
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Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

E se...

 

(Foto da manifestação em Lisboa, 15 de Setembro, retirada daqui)

 

Se amanhã, como sempre, o relógio despertar à mesma hora, a água do duche estiver meio-fria, os olhos teimarem em piscar do sono curto, o primeiro café e o primeiro cigarro souberem mal e a espreitadela pela janela me revelar um sol igual a todos os outros, de todos os outros dias?

 

E se o segurança, como de costume, se levantar ligeiramente da cadeira, com uma vénia - bom dia, sr. engº - e a sra. da limpeza me cumprimentar  - atão, por cá outra vez? -, sorriso enigmático, ainda com o pano do pó na mão?

 

E se...

 

E se isto tem a ver com a liberdade, a minha liberdade?


publicado por Fernando Delgado às 01:10
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Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Depois do ontem

(e depois do ontem)

De vez em quanto volto aqui, é verdade que cada vez menos, mas há muito, muito tempo... Não é o lugar, que nem sequer existe, mas as palavras que me impelem neste tropismo insconsciente. E como é bom regressar às palavras, ao provisório, ao que é só meu por instantes, mesmo sabendo que são pedaços roubados sabe-se lá onde. A memória é um vão de escada cheio dessas coisas roubadas, algumas partilhadas, outras esquecidas, a maioria inúteis. Estão ali, no vão de escada, acessíveis a todos os que passam, apenas dependentes de um olhar ou de um gesto.

 

(o mundo aconhegado no seu egoísmo)

Não sinto qualquer angústia pela indiferença, pelo passar por aqui sem deixar rasto. O homem é provavelmente o único animal com capacidade de rejeição - as coisas funcionam assim, há que ser realista -, mas a ausência perturba-me. O vazio não é um lugar, não é uma palavra, não é um gesto ou um olhar, é nada. Assim, sem mais.

 

(é o vento e alguma chuva?)

Longe, longe deste frenético quotidiano de coisas aparentemente sérias, mas de duvidosa utilidade e que nos põem cada vez mais longe de nós próprios. Num mundo cheio de urgências, de necessidades injustificadas, de solicitações incompreensíveis é preciso reaprender a sermos justos connosco próprios. É uma questão de auto-estima.

  

(aqueles passos apressados na rua significam o quê?)

E esta página em branco que de repente me fez remexer no lixo do vão de escada à procura de um pedaço amarrotado de memória. Como é bom regressar às palavras!


publicado por Fernando Delgado às 01:03
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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

... à volta de um olhar

(... porque fogem as aves quando nos aproximamos?)

 

Era um desejo

um tropismo inconsciente

um breve brilho nos olhos.

Sem dizer nada

fugiste

levando-o contigo.

Regressas agora

e o teu olhar incompleto revela essa ausência.

Nunca mais aprendes que não há desejo sem corpo!


publicado por Fernando Delgado às 23:42
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Ecossistemas

Dizem que as três maiores agências de rating – Fitch, Moody’s e Standard & Poor’s – prevêem uma acalmia dos mercados em relação à economia nacional, como resultado das previstas medidas do Orçamento de Estado…

 

São uns crentes, estes politólogos – qualquer caçador sabe que a acalmia dos predadores de topo, seja qual for o ecossistema em que existam, é sempre passageira, muitas vezes uma simples estratégia de caça…

  

Por muito chocante que possa parecer, as vitimas também são sempre as mesmas. Há momentos em que a única estratégia é mudar de vida, ou de selva… (já que tudo indica que o predador é imortal!)


publicado por Fernando Delgado às 23:18
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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

Um minuto

O pragmatismo transformou-se em doutrina. Não sei se é bom ou mau… Sei que me irrita esta espécie de apelo ao realismo a preto e branco, esta obrigação de enveredar pelo mal menor, esta opção pelo mais evidente e sobretudo pelo mais imediato. O deslumbramento aliado ao exibicionismo, às aparências, ao faz de conta, dá sempre nisto. No fundo, a mediocridade (como a verdade) acaba por vir sempre ao de cima. Não é uma questão de saber se há bruxas ou não, mas apenas a constatação de que muitas vezes as sombras não nos acompanham, perseguem-nos… O mundo ficou assim, está cada vez mais assim. Pouco me importa - ainda me permito vigiar o sonho!


publicado por Fernando Delgado às 23:43
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Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

Saramago

«Um descanso no caminho

O viajante está feliz. Nunca na vida teve tão pouca pressa. Senta-se na beira de um destes túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo. É uma ilusão que o assalta de longe em longe, não lho levem a mal.

In Viagem a Portugal, Ed. Caminho, 21.ª ed., p. 137»

 

Em Outros Cadernos de Saramago.

 

(Só a morte provoca a unanimidade - nem imaginas como dizem bem de ti! Não lhes leves a mal. Senta-te na beira de um desses túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que te vão compreender)


publicado por Fernando Delgado às 23:40
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Domingo, 6 de Junho de 2010

Hoje

Poderia escrever sobre a crise, mas que sei eu da crise, que sei eu do sistema financeiro? Nada, zero! Mas as pessoas… De repente ficaram tristes; riem, mas não sorriem; andam de um lado para o outro, parece que andam; às vezes choram. Se ao menos houvesse alguém por perto a quem dar uma bofetada. Mas não, é o sistema, qualquer coisa sem cabeça (e sem corpo onde assentar um valente pontapé).

  

 (Lembram-se do Chaplin, em O Grande Ditador, a "brincar" com o mundo? Se Chaplin fosse vivo, que personagem encarnaria? Qual o rosto para o sistema financeiro? Um polvo? Os polvos têm rosto?)

    

Ah, os políticos! Não, não cairei na velha e estafada lenga-lenga de que os culpados são os políticos. É verdade que muitas vezes são medíocres, mas também quem quer ser político? Direi apenas que não estou nem nunca estarei à espera que resolvam os meus problemas. Já seria bom que não atrapalhassem!

 

Poderia escrever sobre o TGV, mas não sei nada de comboios, a não ser que nos levam ou trazem de qualquer sítio. Parece que é muito caro, mas a pressa, a necessidade de estar em qualquer lugar uns segundos antes dos outros, sempre teve um preço muito elevado. E eu que sempre gostei mais da viagem, do caminho, do que da partida ou chegada…

  

Poderia escrever sobre o petróleo da BP que jorra do fundo do mar algures no Golfo do México. Mas dizer o quê? Que é irónico o maior consumidor de energia fóssil do mundo de repente ver-se chafurdar numa imensa maré de crude?

 

Poderia escrever sobre a selecção nacional que partiu hoje para a África do Sul. Não digo nada!

  

(No fundo, no fundo, não me apetece escrever. Do que preciso mesmo é de uma tela e tintas para reinventar uma ou duas cores do arco-íris.)


publicado por Fernando Delgado às 00:30
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

O Muro

 

        (imagens retiradas da internet)

 

    

 

Dizem que este tipo de acontecimentos precisa de um certo tempo (tempo histórico) para se poder dar uma depuração da(s) realidade(s), uma espécie de separação das diferentes mentiras e das diferentes verdades...

Devo confessar que pouco me importa esta exigência de distanciamento que, pelos vistos, a história necessita para efectuar a sua leitura imparcial... Sempre achei os impulsos e as emoções, a indignação e a revolta, o sim e o não, assim como os respectivos actos, símbolos da genuinidade humana e, como tal, improváveis objectos de uma leitura e de uma análise distanciadas. Pouco me importa que a futura leitura histórica, a leitura objectiva, tenha uma imensidão de factos bem arrumadinhos em milhões de palavras... Para mim, tudo se resumiu, desde sempre, a uma única palavra: liberdade! De resto, os muros, quaisquer que eles sejam, sempre se deram mal com a liberdade…


publicado por Fernando Delgado às 00:54
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Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

O Dedo de Galileu

Há a idéia de que os cientistas são uns tipos fechados, metidos nos seus laboratórios ou imersos nos seus pensamentos, carrancudos, sem grande disponibilidade para o mundo quotidiano. Não me parece que seja bem assim! A ciência é exigente, avessa a facilidades e a generalidades, mas os seus intérpretes perceberam há muito tempo que o mundo depende deles, muito simplesmente porque não se pode viver nesse mundo sem alguém se dar ao trabalho do compreender. Aliás, por alguma razão as universidades são hoje, em todo o mundo, os centros do poder, embora o seu exercício seja delegado, por muito que custe a alguns políticos de trazer por casa (este é um bom tema de reflexão...).

 

Por estes motivos (não encontro agora outra razão objectiva…), habituei-me a ler alguns livros de divulgação científica, não na vã esperança de perceber os complexos mecanismos dessa ciência (sejamos claros: a ciência não é matéria de consumo fácil…), mas simplesmente na tentativa de perceber o que vai na cabeça de cada um daqueles génios. E o resultado é simplesmente deslumbrante: afinal aqueles tipos são geniais, mas gostam de coisas simples e, sobretudo, conseguem consumir a vida, vivendo-a, e não apenas decifrando-a, como se poderia suspeitar. No fundo, jogam aos dados, e têm imenso gozo nisso!
Para os menos atentos, ou os mais curiosos, aqui ficam alguns dos livros que ao longo dos anos me ajudaram a viver um pouco esse espaço de deslumbramento da ciência (livros de leitura breve, alguns com reduzida exigência de conhecimento prévio):
- O Acaso e a Necessidade, de Jacques Monod e François Jacob
- Diálogos sobre Física Atómica, de W. Heisenberg
- O Relojoeiro Cego e o Gene Egoísta, de Richard Dawkins
- Cosmos, de Carl Sagan
- O Macaco Nú e A Essência da Felicidade, de Desmond Morris
- Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson
… e, já agora, transcrevo um breve trecho da última leitura (um livro mais exigente – ainda não foi desta que compreendi aquela história de Einstein de que alguém pode viver dez anos e o seu amigo em viagem viver apenas cinco ou seis anos…), relativo ao capítulo do ADN, onde se revela esta coisa enigmática do nosso código genético ser fundamentalmente lixo, assim como um bilhete de identidade onde a única coisa verdadeiramente relevante é o insignificante número que o distingue de todos os outros:
 
«[…]
Uma grande parte do nosso ADN é lixo de intrões, já que a natureza, no seu modo elegante e económico mas no fundo esquálido, não se preocupa com deitar fora o lixo que cai em desuso, arrastando-o através de gerações sucessivas. O que é estranho, porque implica que grande parte do precioso recurso que é a energia seja canalizada para a propagação da inutilidade. Talvez o lixo tenha uma função que ainda não identificámos. Talvez seja a forma perfeita de assegurar a propagação da informação através das gerações, sem esta se expor aos perigos que acompanham a actividade patente. O ADN lixo poderá ser informação pura, eterna e não expressa com nenhum outro propósito que não uma existência sem propósito. Este ADN sem propósito é altamente bem sucedido, já que cerca de 98 por cento do ADN que arrastamos é lixo. Apenas 2 por cento é útil, ou seja, codifica proteínas.
[…]»
 
Peter Atkins in O Dedo De Galileu. Gradiva.

publicado por Fernando Delgado às 01:19
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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

... no fim do dia!

Vai-te cansaço!
Deixa-me com as palavras imóveis,
Pedras suspensas no nevoeiro.
Deixa-me usá-las,
Para que este caminho se torne límpido,
Para que estas águas cheguem ao mar.
 
Falta tempo, sobra tudo... 
Vai-te! Vai-te!...
 
A realidade não é o que faço.
A realidade sou eu!

publicado por Fernando Delgado às 00:25
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Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

O Banqueiro Anarquista

(As explicações de Oliveira e Costa na comissão de inquérito da AR sobre o BPN, são uma peça inesquecível… Com o amargo de ter assistido a uma aula de gestão de mercearia, refugiei-me na releitura de algumas páginas do Banqueiro Anarquista, vá lá saber-se porquê… Aqui ficam alguns parágrafos desse texto de Fernando Pessoa, que não consta tivesse conhecido Oliveira e Costa, embora seja certo que conheceu muito bem a gestão de merceeiro, competente e eficiente, no seu âmbito, diga-se…)

 
«(…)
Vieram-me momentos de descrença; e V. compreende que era justificada… Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei-de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, a todas as ficções sociais porque elas não são naturais, porque carga d’água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta.
(…)
- Ora veja como ficaram resolvidas… As dificuldades eram estas: não é natural trabalhar para qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta: e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter uma compensação de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas: ora repare como ficaram resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro… O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa o conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que, como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social, e eu, só por mim, não posso fazer a revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso, porque, é claro, não posso conseguir a que não posso… E veja V.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o facto que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro.
Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei a processos - confesso-lhe, meu amigo, que não olhei a processos;
(…)»
 Fernando Pessoa in O Banqueiro Anarquista. Antígona.

publicado por Fernando Delgado às 00:38
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Sábado, 25 de Abril de 2009

Abril

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
 

(Utopia, José Afonso)

(25 Abril 1974, Vieira da Silva)

 


publicado por Fernando Delgado às 00:56
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Sábado, 21 de Março de 2009

No meio do caminho

 «No meio do caminho

 

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
 
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.»
 
 
Carlos Drummond de Andrade

publicado por Fernando Delgado às 23:47
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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Darwin

Darwin nasceu há 200 anos - e agora compreendo a dificuldade de deus em reconhecer-se ao espelho esta manhã!...


publicado por Fernando Delgado às 23:49
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Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Palestina

 

Não sei quem tem razão nesta guerra sem fim. Nem sequer sei se existe alguma coisa de racional em toda aquela luta por qualquer coisa que não se entende muito bem qual é – parece-me mais um espectáculo com actores ridículos para espectadores hipócritas, sejam eles ditadores árabes ou eminentes democratas ocidentais. No fundo, bem no fundo, pouco importa quem morre e porque se morre: calados ou não, defendem sobretudo os interesses, os seus interesses, numa atitude de pura hipocrisia política.
Não sou ingénuo – o mundo é assim! Não ignoro que existem causas, pelas quais às vezes se morre e que, em última análise, a morte faz parte da vida, uma espécie de epílogo… Mas não adianta: esta repulsa nem sequer é racional, é quase orgânica, porque a verdade, ainda mais verdade em guerras santas, é que não há nada de transcendente, divino ou belo num corpo que arrefece!

 


publicado por Fernando Delgado às 01:26
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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Avaliação

 

Na avaliação de funcionários públicos, sejam eles professores ou quaisquer outros, há que reconhecer que existe muito corporativismo, mas noto também um leve fio ideológico que, nestes tempos de ausência da dita, não deixa de ser muito interessante.
De facto, quando se coloca na mão de um determinado número de pessoas, sem grande escrutínio público, a decisão da valia profissional de um trabalhador, estamos não só perante uma situação geradora de conflitos, mas também perante um acto de evidente desvio democrático.
Claro que nas empresas privadas é o chefe que avalia a performance dos seus trabalhadores, sabe-se lá às vezes com que critérios, mas na função pública este acto deve ser democraticamente validado, sob pena de não haver distinção entre uma função de estado e uma função privada, isto é, correndo o risco da autoridade do dirigente (público, sob escrutínio) se confundir com a autoridade do chefe (privado, sem escrutínio).
E é esta distinção que é ideologicamente interessante. No fundo, os funcionários públicos parecem opor-se à autoridade discriminatória do dirigente no acto de avaliação, não necessariamente porque esse dirigente seja mau ou injusto, mas porque essa avaliação não está sujeita a escrutínio (valha a verdade que qualquer funcionário público pode recorrer para milhentos sítios, mas na prática não passa de burocracia interna, de ciclos viciosos de uma decisão anunciada…).
Se é assim (eu gostava que fosse assim...), se o que está em causa é uma revolta dos funcionários públicos contra uma legislação que confere poderes ao avaliador muito para além do que o bom senso democrático aconselha, curvo-me respeitosamente perante este acto de maturidade democrática e não deixo de me sentir feliz pela raiz ideológica da consciência colectiva do mesmo. E como é bom passar da defesa dos interesses à defesa dos princípios!...
 
(Interessam-me muito pouco os pormenores desta avaliação - burocracia, fichas, quem faz o quê, etc. É o costume quando se faz uma reforma e é normal a resistência à mudança - é uma lei da física. Não é por aí!... Aliás, muita gente gosta de discutir estas pequenas minudências, de uma forma quase obcessiva, nalguns casos porque confundem o essencial com o acessório, mas noutros claramente para não terem de admitir que erraram... 
E o erro, - qual erro, se foi deliberado? - em toda esta estória da avaliação dos funcionários públicos, é a ausência na respectiva legislação do único instrumento de avaliação verdadeiramente escrutinável e democrático – o concurso público. Com avaliação anual ou sem ela, com cotas ou sem elas, nas suas múltiplas formas, não seria muito mais fácil abrir um concurso de três em três anos, ou de quatro em quatro, para um determinado grupo profissional, indicando o número de vagas existentes..., com nomeação de um júri, com critérios claros e objectivos, com provas, com afixação de resultados, …? Que sei eu?...)

publicado por Fernando Delgado às 00:46
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

AMI

 

Detesto encontros de angariação fundos para qualquer grupo, para qualquer causa, para qualquer um dos infernos deste mundo. Na maior parte dos casos não passam de convívios de gente vaidosa, com interesses inconfessáveis, que se empanturra à custa de qualquer grupo de famintos. Depois do evento, lá regressam aos seus pequenos mundos (verdadeiramente nunca de lá saíram), aos seus afazeres e aos seus interesses quase sempre opostos àqueles que pretenderam ajudar. Não quero exagerar, mas não me comovem por aí além as manifestações de solidariedade com os desgraçados da sociedade... Apesar de tudo, prefiro a bofetada a oferecer a outra face…
Mas reconheço que neste mundo há gente diferente... O que mais me impressiona no Dr. Fernando Nobre (que estava a ouvir na televisão, a propósito do lançamento do livro Imagens Contra a Indiferença…), é a disponibilidade para os outros, quaisquer que eles sejam. Não sei se isto traduz a bondade de alguém, nem sei se da sua acção resulta a solução de qualquer conflito. Também não me parece que isso seja sequer importante: se entendo este homem espantoso, ele não quer resolver nenhum conflito, não quer ser a solução para nada. Quer limitar-se a ajudar pessoas, anónimas, de qualquer cor, em qualquer sítio do mundo, porque há muito que entendeu que apenas o ser humano enquanto indivíduo pode depender dele, o resto baloiça perigosamente entre uma miríade de interesses inconfessáveis.
É esta descoberta das suas limitações e a rigorosa actuação em conformidade com as mesmas, que me impressiona. Não há nenhuma utopia que supere este realismo. Não há nada de mais genuíno do que resistir há tentação do pedestal. Também por isso, a AMI é hoje, provavelmente, uma das poucas instituições de que Portugal se pode orgulhar. Não sei se Portugal faz muito por ela. Mas talvez seja melhor ser assim!...
 
(... e porque os velhos da minha geração quando falam destas coisas ainda sentem o leve perfume da utopia, porque não ouvir a velha canção de Geraldo Vandré Para não Dizer que não Falei de Flores, na voz de Simone, no YouTube...)

 

«Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontece»

- Geraldo Vandré -

 


publicado por Fernando Delgado às 22:40
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Julho 2019

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