Sexta-feira, 17 de Abril de 2020

O pandemineiro

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O feireiro (1) voltou!

O feireiro voltou para nos explicar a pandemia do coronavírus. Agora sem chapéu de palha ou boina de agricultor, mas com gravata de seda, botões doirados no casaco e sapato lustroso bicudo (se me lembro era assim que o Mário Zambujal caracterizava um dos seus bons malandros, acrescentando “e escarreta no chão”, que obviamente não se aplica a tão ilustre personagem).

Com gráficos retirados de jornais, de publicações, da net, ou muito simplesmente juntando imagens a números de diversas fontes. Não há um raciocínio que se possa seguir (as frases terminam abruptamente em «bom…», como o martelo do juiz na bancada, ressoa a fim) a não ser aquele que já se esperava: idolatrando o trabalho de alguns (Taiwan, Singapura, Alemanha, …), ignorando muitos outros (EUA, Brasil, Holanda, Itália, …) e batendo nos restantes (China, Espanha, Portugal, …).

O José Alberto Carvalho às vezes tenta introduzir um pauzinho naquele discurso (mas nos EUA…; no Brasil…), mas é inútil – o guião está definido e não há como sair dele. A conclusão não depende de uma interpretação dos gráficos, é predefinida e os números são apenas um adereço. Não subestimem o pandemineiro, ele sabe que os números, por muito que os torturem, não se confessam...

São assim os intrujões: remetem-nos sempre para o universo do logro, da burla e da encenação patética. Não há nada mais comovente do que ver um pantomineiro a explicar uma pandemia!

(1) Não confundir com feirante: feireiro é aquele que frequenta feiras e se faz notado porque a única coisa que vende é a sua própria imagem – também conhecido por espalha-borralhos – enquanto o feirante é um trabalhador como qualquer outro…

 

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publicado por Fernando Delgado às 02:00
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