Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

O bom malandro

«Saúdo a Lua cheia levantando o copo com o vinho branco gelado que me há-de refrescar as ideias. Aí a tenho, por cima do terraço, vaidosa e exigente de contemplação. O ladrar dos cães na travessa confirma que a influência dela não se limita às marés, inspiração de poetas românticos, ao balouçar dos signos, etecétera. Sente-a todo o ser vivo, mexe com a gente. Uma crença antiga (felizmente prescrita) considerava que observar a Lua no quarto crescente impunha o castigo de se ser corneado ou corneada. Só mais tarde se concluiu que situações dessas podem acontecer em qualquer das fases da Lua. Mesmo no quarto minguante. Ou noutro quarto. Até sem quarto. Um relvado, areal de praia, banco de trás do automóvel podem animar-se pelo poder do luar. Estudei o assunto em profundidade, o nome da Lua foi a primeira das maiores conquistas das mulheres. Já não há tempos imemoriáveis, hoje sabe-se tudo. Inclusive que antigamente, muito antigamente, baptizaram o astro por Luno, deus protector da masculinidade. O bom do Luno afiançava aos devotos machos que seriam sempre eles a mandar lá em casa. Mas saltaram elas, com aqueles jeitinhos e teimosias que vêm de longe, e acabaram por feminilizar o Luno. Passaram-no a Luna, deusa prometedora de inverter os papéis. Vai-se notando.

Neste momento fito a Lua e vejo-a como um desejável refúgio. Bem me saberia passar uns tempos longe das confusões terrenas que me surgem a cada passo. Todo o passo ameaça revelar-se um mau passo.»

Mário Zambujal. Serpentina. Odisseia de um crédulo em demanda da bela sem senão. Clube de Autor, SA., 1ª ed., pp 19-20.

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publicado por Fernando Delgado às 23:54
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