Sexta-feira, 8 de Maio de 2020

Luis Sepúlveda

Há uns dias fomos surpreendidos pela notícia da morte de Luis Sepúlveda, nas condições conhecidas,… e o martelo bateu-me na cabeça: “porra, o que leste deste escritor? Que me lembre, nada!”

E abasteci-me on-line do que estava disponível: Diário de um killer Sentimental, Mundo do Fim do Mundo e Nome de Toureiro, todos da Porto Editora.

Escolhido um pouco ao acaso, li o Diário de um killer sentimental e, para lá do livro, sinto um certo apaziguamento – como é estranho ouvir a notícia da morte de um escritor e sentir que falta qualquer coisa. Esta “qualquer coisa”, este vazio incómodo, é o livro, a mensagem, o testemunho, o olhar cúmplice (ou pelo menos a sensação de proximidade…) do autor através das palavras.

 

... das palavras escritas:

«[…]

     - Adeus, filantropo – disse eu, aproximando-lhe o cano da boca.

     A detonação foi seca e curta. É assim que ladram os colts de trinta e oito. A minha pobre gata francesa tremia, de olhos muito abertos. Abraçei-a, amaldiçoando as malditas armadilhas da vida.

     - Tira-me daqui… - gemeu ela contra o meu peito.

     - Claro, meu amor – murmurei-lhe eu ao ouvido antes de disparar por baixo do seu lindo seio esquerdo.

     Sim, é verdade, eu amava-a, mas no meu último trabalho não podia atuar de outra maneira. Eu era um killer, e os profissionais não misturam trabalho com sentimentos.

[…]»

Luis Sepúlveda, in Diário de um Killer Sentimental. Porto Editora, 1ª ed., pp 52.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:35
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