Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Hermann Hesse

Tempo de (re)leituras... Ler ou reler (ver também aqui e aqui) H. Hesse parece-me sempre um convite a explorar as rugosidades das coisas ditas perfeitas...

 

«[...]

     - Vives no convento?

     - Sou aluno da escola. Mas não fico lá mais. Posso vir ter contigo, Lise? Onde moras, onde é a tua casa?

     - Não moro em parte alguma, meu tesouro. Não me queres dizer o teu nome? Chamas-te Goldmundo? Dá-me mais um beijo, meu pequeno Goldmundo, depois podes ir.

     - Não moras em parte alguma? Onde dormes, então?

     - Durmo contigo, se quiseres, na floresta ou sobre o feno. Vens hoje à noite?

     - Venho. Mas aonde? Onde te encontro?

     - Sabes imitar o pio da coruja?

     - Nunca experimentei.

     - Experimenta. 

     Goldmundo tentou. Ela riu-se e achou que estava bem.

     - Sai esta noite do convento e imita o pio da coruja; ficarei aqui nas imediações. Gostas de mim, Goldmundo, meu menino?

 

[...]

 

     - E agora, diz-me lá – concluiu violentamente – que mundo é este em que vivemos? Não é um inferno? Não é odioso e abominável?

     - Sem dúvida, o mundo não é outra coisa.

     - Ah, sim – exclamou Gldmundo exaltado – e quantas vezes outrora me afirmaste que o mundo era divino, que era uma harmonia de esferas, no centro das quais se erguia o trono do Criador, que a existência era boa, etc. Dizias tu que o afirmavam Aristóteles ou S. Tomás. Estou curioso por ouvir-te esclarecer esta contradição.

     Narciso riu-se.

     - Tens uma memória espantosa, Goldmundo e, contudo, desta vez traiu-te um pouco. Sempre venerei a perfeição do Criador, mas nunca a da criação. Nunca esqueci o mal do mundo. Nenhum autêntico pensador, meu caro, jamais afirmou que a vida na terra fosse harmoniosa e justa ou que homem fosse bom. Pelo contrário, já na Sagrada Escritura vem expressamente dito que os desígnios e aspirações da alma humana são perversos, e todos os dias vemos essa asserção confirmada.

     - Muito bem. Descubro finalmente como é que vós, os homens doutos, concebeis as coisas. O homem é mau, a vida na terra é abominável e imunda; admitem-no. Mas, para além, algures nos vossos sistemas e tratados, há justiça e perfeição. Existem, podem demonstrar-se, mas não se faz uso delas.

[…]»

Hermann Hesse. Narciso e Goldmundo, pp. 74 e 259, Guimarães & C.ª Editores, 2ª ed., 1981.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 22:59
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