Sexta-feira, 1 de Março de 2019

Eugénio de Andrade

«Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim

o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,

pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela

que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.»

Eugénio de Andrade. Estou contente, não devo nada à vida. Branco no Branco (1984).

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:02
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