Quarta-feira, 22 de Março de 2017

Eduardo Mendoza

«[...]

     Dubslav tossicou e disse: "Majestade, excelentíssimos membros do júri, distinto público, quero antes de mais nada expressar o meu agradecimento por me haver sido outorgado este Prémio Europeu de Realização Científica pelas minhas investigações no campo da oftalmologia. Nestas ocasiões costuma-se dizer: por me ter sido outorgado imerecidamente este magnífico prémio. Eu não o direi. Em primeiro lugar, este prémio não é magnífico. Na realidade é uma ridicularia. Todos os prémios o são, mas este seguramente leva a palma. E no meu caso não é sequer um prémio imerecido. Eu não sou um especialista em oftalmologia; não sei nada de oftalmologia, nem sequer sou médico. Por este motivo, ao levar o prémio não faço mal a ninguém; em definitivo, o prémio consiste nesta estatueta honrosa e numa certa publicidade. Esta publicidade a mim de nada me vai servir. A verdadeira destinatária do prémio investigou realmente no campo da oftalmologia, mas já não voltará a fazê-lo, nem beneficiará da publicidade, nem verá a estatueta. Mas não se assustem: não sou um impostor. Como filho único e herdeiro universal da vencedora, tenho pleno direito ao prémio. Em consequência, levarei a estatueta, e se além da estatueta o prémio tem uma dotação económica, também a levarei. Talvez a entregue a um centro de investigação oftalmológica ou talvez a destine a outros fins; actuarei conforme me agrade e não darei explicações a ninguém. Se gastar o dinheiro em coisas horríveis, tanto melhor.

     Quanto a mim, pouco vos posso dizer. Sou um homem absurdo. Fui concebido de um modo absurdo e criado de um modo absurdo. Sem o saber, estava a preparar-me para esta cerimónia. Vejam, nem sequer o smoking é meu. Um homem morreu para mo poder emprestar. <agora deveria ele estar ele de smoking e eu deveria estar aqui, diante de todos vós, coberto de farrapos pestilentos. Mas isso teria feito a minha presença exemplar, para não dizer simbólica. talvez por isso o destino preferiu fazer fazer chegar às minhas mãos este smoking. Na realidade os farrapos também não são a minha indumentária habitual: não sou um anacoreta. Sou apenas um viajante, um excursionista. As viagens não instruem, mas estragam muito a roupa. De qualquer modo o smoking é melhor.

     Tenho passado a vida a falar sozinho e explico-me mal. Quando procuro teorizar vou do trivial para o confuso. Seguramente a minha bagagem intectual compõe-se destas duas variedades do saber.

[...]»

Eduardo Mendoza. O fim de Dubslav in Três vidas de santos. Sextante Editora, 1ª ed., pp 116-117.

 

Tags:
Publicado por Fernando Delgado às 00:23
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

«Tempo»

«Uma narrativa para a pai...

Guião para um filme tragi...

Guião para um filme tragi...

«... para uma geografia e...

Bertolucci

«O Bode Expiatório»

«A Invenção da paisagem»

«BBB»

wildfire

granum

A. Lobo Antunes

«Cebola crua com sal e br...

«mundos mudos» no papalag...

Steinbeck

... fogos gregos

Stefan Zweig

Hermann Hesse

«Mudar de Vida»

Os "interiores"

Função social da propried...

Word Press Photo

Contributos para uma inte...

A terra do Capuchinho Ver...

Contributos para uma inte...

Tags

aprender

canções

esboços

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

rural

todas as tags

Arquivos