Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

do res nulius ao black act

«[...]

A importância que os primeiros reis atribuíam à caça nos montes (montarias) prendia-se sobretudo com a necessidade de exercitar a preparação para a guerra. D. João I, no seu Livro da Montaria, dedica um capítulo a mostrar “como o jogo de andar no monte é melhor que todos os outros jogos para recrear o entender, e também corrigir o feito de armas”.

(…)

Esta situação estava regulada no direito romano pelo princípio de que a caça e pesca se consideravam coisas comuns (res nulius) que, por se deslocarem livremente, como a água ou o ar, não eram pertença do proprietário do terreno mas do primeiro que os capturasse.

No entanto, desde o estabelecimento dos Visigodos na Península a caça e a pesca “deixaram inteiramente de ser objeto de ocupação em terra alheia” e por isso, no início da nacionalidade, elas teriam representado “direitos inerentes ao domínio do solo”.

Os dois sistemas de direito cinegético, o Romano e o Visigótico, iriam vigorar em simultâneo, durante o Antigo Regime, o primeiro como suporte da legislação geral e o segundo aplicado ao regime da coutada, cuja criação foi direito exclusivo dos reis, desde D. João I até às Cortes Constituintes.

Para assegurar o poder real sobre os montes coutados, os reis nomeavam monteiros, cuja referência mais antiga parece datar do reinado de D. Afonso III para a serra do Soajo, havendo também documentos do século XIII referindo monteiros para as matas do Botão, localidade a norte de Coimbra junto do Buçaco, e já no século XIV para as matas do Ribatejo.

A sequência destas referências parece acompanhar a deslocação dos centros de poder político. De facto, o centro político do país tinha-se deslocado para Coimbra ao longo dos séculos XII e boa parte do XIII, mas durante a segunda metade desse século e durante o século XIV o centro propulsor do novo reino passaria para a Estremadura, com Lisboa e Santarém a ultrapassarem Coimbra como local de residência e passagem régia.

(...)

Por prerrogativa real iriam ser, a partir da segunda metade do século XIV, coutadas grandes extensões de território, o que suscitava fortes reacções populares invocando expressamente o princípio de que a caça e a pesca deveriam ser coisas comuns. Mas as reclamações mais frequentes dos povos eram sobre os prejuízos causados à agricultura pelos animais ("veação") que transpunham os limites das coutadas e que, por uma lei de D. Pedro I, estavam também protegidos. Diziam os representantes dos concelhos nas Cortes de Elvas de 1361 que "o lavrador pode castigar o homem que lhe causar prejuízo nas searas ou nas vinhas, mas há que respeitar a veação que lhe for aí fazer estragos." Este argumento parece ter convencido D. Pedro I que revoga então essa lei.

A área de coutada continuaria ainda assim a aumentar, como aumentariam as penas estabelecidas para os infractores e melhoraria a organização de guarda de montes coutados. Para tal foi criado por D. João I, em 1414, o ofício de monteiro-mor do Reino, dando-lhe "poder sobre todos os monteiros que temos posto pelas comarcas e outrossim sobre todos os monteiros que são postos por guardadores das matas que são por nós coutadas (...)".

Também no Regimento do Monteiro-mor de 1605, Filipe II para que "ache montaria e caças" nas suas "matas e coutadas" quando por sua "recreação nelas quiser ir montear" declara "as ditas montarias" e mantém penas de grande dureza: "que qualquer pessoa que dentro das ditas coutadas seja ousado de matar porco, porca, bácoro ou veação grande ou pequena, ou armar armadilhas, ou querer montear, sendo peão seja preso e pagará dois mil reais, e será degradado três anos para as galés, e sendo Fidalgo será preso até minha mercê e pagará duzentos cruzados para as coisas que declarar, e seja condenado em dois anos de degredo para África pela primeira vez."

Neste crescendo, D. João V decide, em 1773, e à semelhança do Black Act inglês, a aplicação da pena de morte aos indivíduos apanhados em flagrante "delito de caça", que resistam à prisão ou que fujam aos guardas das coutadas, situações em que podiam mesmo disparar para matar.

(...)

Seria o triunfo da Revolução Liberal, em 1821, que iria fazer com que a situação das coutadas de caça se modificasse radicalmente. A 30 de Janeiro desse ano procede-se à abertura das Cortes Constituintes e logo no dia 8 de Fevereiro, as mesmas Cortes, "considerando os males que da conservação das coutadas para a caça resultam à agricultura, aos direitos de propriedade dos vizinhos delas, à tranquilidade e segurança deles" decretam que todas as coutadas abertas e destinadas para a caça fiquem "inteiramente abolidas e devassadas, ficando salvos aos donos os direitos gerais da propriedade".

[...]»

Francisco Castro Rego. Florestas Públicas, 2001. pp 9-12.


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Quarta-feira, 22 de Março de 2017

Eduardo Mendoza

«[...]

     Dubslav tossicou e disse: "Majestade, excelentíssimos membros do júri, distinto público, quero antes de mais nada expressar o meu agradecimento por me haver sido outorgado este Prémio Europeu de Realização Científica pelas minhas investigações no campo da oftalmologia. Nestas ocasiões costuma-se dizer: por me ter sido outorgado imerecidamente este magnífico prémio. Eu não o direi. Em primeiro lugar, este prémio não é magnífico. Na realidade é uma ridicularia. Todos os prémios o são, mas este seguramente leva a palma. E no meu caso não é sequer um prémio imerecido. Eu não sou um especialista em oftalmologia; não sei nada de oftalmologia, nem sequer sou médico. Por este motivo, ao levar o prémio não faço mal a ninguém; em definitivo, o prémio consiste nesta estatueta honrosa e numa certa publicidade. Esta publicidade a mim de nada me vai servir. A verdadeira destinatária do prémio investigou realmente no campo da oftalmologia, mas já não voltará a fazê-lo, nem beneficiará da publicidade, nem verá a estatueta. Mas não se assustem: não sou um impostor. Como filho único e herdeiro universal da vencedora, tenho pleno direito ao prémio. Em consequência, levarei a estatueta, e se além da estatueta o prémio tem uma dotação económica, também a levarei. Talvez a entregue a um centro de investigação oftalmológica ou talvez a destine a outros fins; actuarei conforme me agrade e não darei explicações a ninguém. Se gastar o dinheiro em coisas horríveis, tanto melhor.

     Quanto a mim, pouco vos posso dizer. Sou um homem absurdo. Fui concebido de um modo absurdo e criado de um modo absurdo. Sem o saber, estava a preparar-me para esta cerimónia. Vejam, nem sequer o smoking é meu. Um homem morreu para mo poder emprestar. <agora deveria ele estar ele de smoking e eu deveria estar aqui, diante de todos vós, coberto de farrapos pestilentos. Mas isso teria feito a minha presença exemplar, para não dizer simbólica. talvez por isso o destino preferiu fazer fazer chegar às minhas mãos este smoking. Na realidade os farrapos também não são a minha indumentária habitual: não sou um anacoreta. Sou apenas um viajante, um excursionista. As viagens não instruem, mas estragam muito a roupa. De qualquer modo o smoking é melhor.

     Tenho passado a vida a falar sozinho e explico-me mal. Quando procuro teorizar vou do trivial para o confuso. Seguramente a minha bagagem intectual compõe-se destas duas variedades do saber.

[...]»

Eduardo Mendoza. O fim de Dubslav in Três vidas de santos. Sextante Editora, 1ª ed., pp 116-117.

 

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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Arturo Pérez-Reverte

É sempre com um pé atrás que compro livros de jornalistas, embora admita que se trata de um preconceito construído à volta dos escritos de um jornalista-escritor português que insiste em piscar-me o olho no fim de cada telejornal...

Apesar das 512 páginas, "Homens Bons" permitem limpar um pouco aquele preconceito... O texto das duas primeiras páginas, uma espécie de resumo ou de enquadramento da narrativa, parece-me confundir-se com o subtítulo a bold de um artigo de opinião:

  

     «Imaginar um duelo ao amanhecer, na Paris de finais do século XVIII, não é difícil. Basta ter lido alguns livros e visto uns quantos filmes. Contá-lo por escrito é algo mais complexo. E utilizá-lo para o arranque de um romance tem os seus riscos. A questão é conseguir que o leitor veja o que o autor vê, ou imagina. Converter-se em olhos alheios, os do leitor, e desaparecer discretamente para que seja ele a entender-se com a história que lhe narraram. A destas péginas precisa de um prado coberto pela geada da manhã e de uma luz difusa, acizentada, para a qual seria útil recorrer a uma neblina suave, não muito espessa, daquela que brotava frequentemente nos bosques dos arredores da capital francesa – hoje muitos desses arvoredos desapareceram ou estão incorporados nela – com a primeira claridade do dia.

     A cena precisa também de umas personagens. Na luz incerta do sol que ainda não desponta devem notar-se, um pouco esbatidas entre a bruma, as silhuetas de dois homens. Um pouco mais retiradas, debaixo das árvores, junto a três carruagens ali paradas, há outras figuras humanas, masculinas, envoltas em capas e com chapéus de três bicos enfiados sobre o disfarce. São meia dúzia, mas não interessam para a cena principal; por isso podemos prescindir deles por agora. O que deve atrair a nossa atenção são os dois homens imóveis em frente um do outro, de pé sobre a erva húmida do prado. Vestem calções justos e estão em mangas de camisa. Um é magro, alto para a época, e tem o cabelo grisalho apanhado num rabicho curto sobre a nuca. O outro é de estatura média e tem o cabelo encaracolado nas têmporas, emproado como era próprio da moda mais requintada do seu tempo. Nenhum dos dois parece novo, ainda que estejamos a demasiada distância para apreciar isso. Portanto, aproximemo-nos um pouco deles. Observemo-los melhor.

     O que cada um segura na mão é uma espada. Ou uma espada parecida com um florete, se repararmos nos pormenores. O assunto, portanto, parece sério. Grave. Os dois homens estão a três passos um do outro, ainda imóveis, olhando-se com atenção. Quase pensativos. Todos concentrados no que vai acontecer. Têm os braços caídos ao longo do corpo e as pontas de aço roçam na erva do chão, coberta de geada. O mais baixo, que de perto também parece mais novo, tem uma expressão altaneira, talvez teatralmente desdenhosa. Dir-se-ia que, embora estude o seu adversário, está à espera de mostrar uma figurabem composta aos que o observam dos limites do prado. O outro homem, mais alto e de mais idade, possui uns olhos azuis aquosos e melancólicos que aparentam ser contagiados pela humidade ambiental. À primeira impressão parece que aqueles olhos fixam o homem que tem à frente, mas se repararmos bem neles, notaremos que não é assim. Na verdade encontram-se absortos, ou distraídos. Ausentes. Talvez, se naquele momento, o homem que têm em frente mudasse de posição, aqueles homens continuassem a olhar para o mesmo lugar, indiferentes a tudo, atentos a imagens distantes que só eles conhecem.

     Do grupo reunido debaixo das árvores chega uma voz, e os dois homens que estão no prado levantam os espadins devagar. Cumprimentam-se brevemente, levando um deles a guarnição à altura do queixo, e depois põem-se em guarda. O mais baixo apoia a mão livre na anca, adotando uma elegantíssima postura de esgrima. O outro, o homem alto de olhos aquosos e curto rabicho grisalho, estende a arma e ergue a outra mão, com o braço e antebraço quase em ângulo reto, com os dedos relaxados e ligeiramente descaídos para a frente. Os ferros, ao tocarem-se com suavidade pela primeira vez, produzem um tilintar metálico que ecoa nítido, argênteo, no ar frio do amanhecer.

     Continuemos a escrever, agora. Contemos a história. Saibamos o que troxe estas personagens até aqui.»

 

Arturo Pérez-Reverte. Homens Bons. ASA, 1ª ed, pp 9-10.

 

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Quinta-feira, 26 de Maio de 2016

A Seiva da Raíz

De vez em quando convidam-me para ir "falar" a alguns sítios - não é bem um convite, é uma obrigação profissional,... - e oferecem-me coisas, sempre simbólicas, mas que às vezes são boas surpresas. Ainda não cheguei ao fim, mas "A Seiva da Raiz", um livro de contos de António Arnaut, editado pela Câmara Municipal de Penela, que me foi oferecido num Seminário neste concelho, é uma boa descoberta.

Alguns textos lembram-me Miguel Torga, sem a intensidade telúrica e etnográfica deste, mas com o mesmo desespero humanista. "A Mariana" ou o "Alma Grande" só podem ser de Torga, mas "Os dois barbeiros" de Arnaut lembram-me esse tropismo angustiado no Portugal profundo.

Aqui ficam alguns excertos desse conto:

 

«Os Dois Barbeiros

(...)

     Nas aldeias perdidas no fundo das montanhas, onde o tempo parou na pedra seca das casas e nos hábitos estereotipados por séculos de abandono, a paz bucólica que tanto impressiona os visitantes citadinos, não assenta apenas na harmonia dos homens com a natureza, mas na harmonia conjugada dos habitantes. Foi esta harmonia que exigiu, por razões de sobrevivência, a repartição dos ofícios principais e a consequente eliminação de concorrência. Por isso existiu sempre em Valmatos um único alfaiate, um único sapateiro, uma única taberna e um único barbeiro.

(...)

     Ora, um dia, o destino ou o acaso - nunca se sabe que força nos guia os passos - fê-los encontrar numa curva recatada do caminho, a coberto da curiosidade da aldeia. Ao vê-la aproximar-se, com um molho de erva à cabeça e aquele andar saracoteado que tanto o perturbava, um pensamento temerário percorreu-lhe o corpo como um formigueiro. Refreou o passo e aventurou-se a sondar o passado:

     - Bons olhos te vejam, rapariga!

     Ela parou surpreendida, mas não se deu por achada:

     - E a ti também, Alfredo!

     Aquela voz alegre, a soletrar de novo o seu nome, sonora e cantante como um hino à vida, acicatou-lhe o sangue e deu corpo à ideia que tanto o atormentava. Que melhor vingança do que fazer ao outro o mesmo que lhe fizera?!

     - Sabes, Josefina, continuo a gostar de ti...

     Ela hesitou. Parecia tolhida, a respiração ofegante, os olhos pregados nos trilhos do caminho, as mãos nervosas a tactearem o carrego.

     - Vou dizer-te, Alfredo, mas que fique só entre nós, também ainda me lembro de ti...

     - Podíamos combinar um encontro para falarmos mais à vontade - sugeriu ele com voz alanceada por pensamentos contraditórios, ou justapostos, o ódio e o amor a fazerem de pedras irmãs da mesma muralha da vida.

     - Vai na quinta-feira, de madrugada, à minha sorte das Chãs - respirou fundo, a despedir-se e a vincar o segredo da mensagem - é o meu dia de rega, estaremos à vontade...

(...)

     Na quinta-feira de madrugada, mal a claridade indecisa acariciou a janela do quarto e sorriu nos seus olhos ansiosos, Alfredo levantou-se, vestiu o fato domingueiro e partiu apara a sua aventura com a emoção incontida de um adolescente que se preparasse para uma grande viagem. A viagem do Alfredo era curta, porque as Chãs ficavam a meia hora de longada, pelo vale, junto à ribeira, num sítio ermo, propício a todos os encontros. O barbeiro atravessou a aldeia, ainda adormecida, meteu pelo trilho da encosta e quando estava a meio caminho lembrou-se que não tinha trazido a bicicleta, o que sempre fazia quando ia à vila, a duas léguas de distância. Parou, a equacionar o dilema, a mulher podia desconfiar, pois não era natural que ele fizesse a suposta viagem a pé. Era alta madrugada, o sol nem sequer mandara ainda um raio extraviado a anunciar a sua chegada do outro lado da montanha. Fez um cigarro, vagarosamente, o pensamento dividido como o tempo, também indeciso, entre a fronteira da noite e do dia, e resolveu voltar a casa em passo acelerado, para trazer a bicicleta e reforçar o alibi. A aldeia dormia ainda. Só um cão insone se lhe atravessou no caminho, a ladriscar de tédio.

Alcançou a casa, no coice do lugar, entre pinheiros ainda sonolentos. Abriu cautelosamente a cancela e aporta da loja, onde estava o velocípede. Sentiu vozes abafadas, um gemer de feno acordado, o coração deu-lhe um baque, acendeu um fósforo, e à luz frouxa dos seus olhos incrédulos, viu a mulher descomposta entre os braços roliços do Petinga.»

A Seiva da Raiz. Contos. António Arnaut. Ed. da Câmara Municipal de Penela, 2002, pp 73-80.

 

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Sexta-feira, 13 de Maio de 2016

Regresso à «Tabacaria»

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu

(come chocolates, pequena; come chocolates!)

 

«Tabacaria

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.»

Tabacaria. Álvaro de Campos.

 

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Sábado, 23 de Janeiro de 2016

«Esplanada»

esplanada.jpg

 «Naquele tempo falavas muito de perfeição,

da prosa dos versos irregulares

onde cantam os sentimentos irregulares.

Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

 

agora lês saramagos & coisas assim

e eu já não fico a ouvir-te como antigamente

olhando as tuas pernas que subiam lentamente

até um sítio escuro dentro de mim.

 

O café agora é um banco, tu professora do liceu;

Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,

e não caminhos por andar como dantes.»

 

Manuel António Pina. Esplanada in Um Sítio onde Pousar a Cabeça.

Desenho de FlyOnSketch.

 

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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2016

textos de inverno

Sei que a repetição é uma sintoma de falta de imaginação, ou mesmo o primeiro grau de uma preguiça que nestas longas e frias noites de inverno teima em sentar-se ao meu lado e adormecer, adormecendo-me... Sei que este é o tempo das leituras, mas até os livros se cansam nas mãos...

Por isso aqui fica mais um texto retirado do blog ana de amsterdan. O motivo não é apenas, ou sobretudo, a preguiça. Não! - é a sua qualidade, mesmo sabendo que a minha opinião é irrelevante.

 

«Intimidade

Usarei a melhor blusa, os sapatos vermelhos, os brincos de ouro que herdei da avó goesa. Caminharei ao seu lado. Colocarei um pé a seguir ao outro. Em cada passo sentirei o peso exacto do meu corpo. Hei-de mostrar-lhe a estátua de Hanuman, as suásticas, as hortas em redor, o auditório forrado a alcatifa verde, a cantina escura. Chamarei a sua atenção para o tom das cadeiras de plástico do templo. É pela cor do plástico das cadeiras, a mostrar a fraca qualidade do material, que se percebe o embuste: o templo hindu não está localizado em Lisboa. Fica numa rua barulhenta dos subúrbios de Bangalore. Desceremos ao poço. Ao contrário do habitual, comerei com gosto, sobretudo as chamuças ainda quentes. Estarei atenta à maneira como come. Mostrar-lhe-ei como se partem aos pedaços os rotis e se misturam com o resto da comida. Hei-de rir quando provar o caril de legumes, aguado e sensaborão. Fará uma careta engraçada. Evitaremos temas pessoais. A intimidade nunca é por nós partilhada. Falaremos mal de escritores, críticos literários, jornalistas, editores. Para além da ausência e do falso desprendimento, a maledicência é o que nos une. Falarei com entusiasmo do conto do Dylan Thomas que li, sem nunca lhe confessar que, quando o li pela primeira vez, me imaginei deitada na cama ao seu lado. Numa intimidade de velhos, os óculos na ponta do nariz, os nossos pés a tocarem-se por baixo dos cobertores, imaginei-me a ler para ele aquele preciso conto. Maravilhoso conto. Ler em voz alto para alguém é sinal de amor. Leio em voz alta para os meus filhos. É uma outra forma de lhes dizer que os amo. Escutar-me-á falar e intimamente lamentará não me amar. No final, à despedida, um beijo apressado, a boca dele mal me tocando no rosto. Sentirei o seu cheiro. Seguirá pela rua, sem nunca olhar para trás. Ficarei a vê-lo, enfiado num casaco feio, caminhando apressado na direcção da biblioteca.»

Ana Cássia Rebelo. ana de amsterdan.

 


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Sábado, 24 de Outubro de 2015

Cansaço

Há sem dúvida quem ame o infinito, há sem dúvida quem deseje o impossível, há sem dúvida quem não queira nada - três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: porque eu amo infinitamente o finito, porque eu desejo impossivelmente o possível, porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder ser...

 

«O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
 
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
 
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
 
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...»
 
Álvaro de Campos, in "Poemas".1934.
 
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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

Esquecimento

«[...]

     Haviam combinado encontrar-se ali cinco anos antes. Ele não fora. Não tivera coragem para começar uma vida nova. Compreendera depois que não ter ido era uma rendição, uma aceitação de velhice. Guardara o endereço electrónico dela. Escrevera-lhe. Escreveu-lhe meses a fio. Não recebeu resposta alguma. Silêncio. Sim, o silêncio é uma resposta. A única que não se pode contestar.

     Abriu os olhos e deu com uma mulher parada diante dele. Sorria. Não era a mulher por quem esperava. Ou talvez fosse.

     - Conhecemo-nos?

     A mulher voltou a sorrir:

     - Não tenho a certeza - disse, numa voz de seda. - Passei por um rio.»

 

José Eduardo Agualusa. O Livro dos Camaleões. Esquecimento. Quetzal, 1ª ed., pp 30.

 

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Domingo, 2 de Agosto de 2015

Rentes de Carvalho

«Não sou como sou, nem como me quero, nem como me julgo.Sou como os outros me veêm. Um eu que desconheço.»

J. Rentes de Carvalho. Pó, Cinza e Recordações. Quetzal, 1ª ed, pp 212.

 

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Quinta-feira, 4 de Junho de 2015

Miguel S. Tavares e o Stradivarius de Joshua

«[...] Eu sou uma testemunha, um contador de histórias, um homem que passa a palavra. E, ao passá-la, ao contar tudo o que vi, vivo duas vezes.

Sempre tive esta, chamemos-lhe assim, deformação jornalística: tentar transformar tudo o que acontece, tudo o que vejo, tudo o que viajo e tudo o que vivo, numa utilidade literária ou jornalística concreta. Nunca viajei sem escrever: ir para ver e não contar a ninguém mais, aos que não foram e não poderão nunca ir, sempre me pareceu um desperdício, uma oportunidade não merecida. [...]» pp 13-14

 

É deste Miguel que eu gosto. Do Miguel na primeira pessoa, das histórias que conta, da escrita do real, mesmo ficcionado... (ver aqui).

 

«A escrita ensina-nos e convoca-nos à responsabilidade de entender que estar vivo não é um acaso inútil nem um almoço grátis. Toda a criação artística, de que a escrita faz parte, é uma responsabilidade indeclinável e não somente um dom de autocontemplação. Escrevemos, para celebrar a vida, não para resgatarmos a própria morte; escrevemos para os outros, não para nós próprios.[...]» pp 15.

 

É este Miguel que me convoca à leitura, mesmo quando a história é conhecida:

 

«[...] Um violinista tocou durante quarenta e cinco minutos à porta de uma estação de metro em Washington, enquanto o jornal [Washington Post] filmava toda a cena. Enquanto tocou, teve seis espectadores que pararam um pouco para o ouvir e recolheu trinta e dois dólares de gorjetas. O homem chamava-se Joshua Bell e é um dos maiores violinistas contemporâneos; o seu violino era um Stradivarius, avaliado em três milhões e meio de dólares; e o que tocou foram seis peças de Bach para violino, de dificílima execução e espantosa beleza. Eram o mesmo homem, o mesmo violino e as mesmas composições que, dois dias antes, tinham enchido a sala de concertos de Boston, com o bilhete mais barato a cem dólares. (...) Será que as pessoas só estão atentas à beleza das coisas no momento e no lugar previamente marcado para tal? Teria eu parado ao escutar o violino de Joshua Bell? Quero crer que sim, mas, na verdade, nenhum de nós o pode garantir.[...]» pp. 166-167.

 

Miguel Sousa Tavares. Não se encontra o que se procura. Clube do Autor, 1ª Ed.

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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

O bom malandro

«Saúdo a Lua cheia levantando o copo com o vinho branco gelado que me há-de refrescar as ideias. Aí a tenho, por cima do terraço, vaidosa e exigente de contemplação. O ladrar dos cães na travessa confirma que a influência dela não se limita às marés, inspiração de poetas românticos, ao balouçar dos signos, etecétera. Sente-a todo o ser vivo, mexe com a gente. Uma crença antiga (felizmente prescrita) considerava que observar a Lua no quarto crescente impunha o castigo de se ser corneado ou corneada. Só mais tarde se concluiu que situações dessas podem acontecer em qualquer das fases da Lua. Mesmo no quarto minguante. Ou noutro quarto. Até sem quarto. Um relvado, areal de praia, banco de trás do automóvel podem animar-se pelo poder do luar. Estudei o assunto em profundidade, o nome da Lua foi a primeira das maiores conquistas das mulheres. Já não há tempos imemoriáveis, hoje sabe-se tudo. Inclusive que antigamente, muito antigamente, baptizaram o astro por Luno, deus protector da masculinidade. O bom do Luno afiançava aos devotos machos que seriam sempre eles a mandar lá em casa. Mas saltaram elas, com aqueles jeitinhos e teimosias que vêm de longe, e acabaram por feminilizar o Luno. Passaram-no a Luna, deusa prometedora de inverter os papéis. Vai-se notando.

Neste momento fito a Lua e vejo-a como um desejável refúgio. Bem me saberia passar uns tempos longe das confusões terrenas que me surgem a cada passo. Todo o passo ameaça revelar-se um mau passo.»

Mário Zambujal. Serpentina. Odisseia de um crédulo em demanda da bela sem senão. Clube de Autor, SA., 1ª ed., pp 19-20.

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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

Bosão de Higgs

(Mais uma achega para o meu smarties amarelo... (aqui, aqui e aqui).  Para quem gosta destas coisas, este texto do físico Carlos Fiolhais no livro “Deus ainda tem futuro?”, com coordenação de Anselmo Borges e editado pela Gradiva, pode ser lido na íntegra em De Rerum Natura)

 

 

«A 4 de Julho de 2012 era anunciado no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), em Genève, na Suíça, a descoberta de uma nova partícula, chamada “partícula de Higgs”, ou “bosão de Higgs”,  a quem alguns chamam “partícula de Deus”.

 

O nome “partícula de Deus” parece inadequado a muita gente, a começar logo pelo físico escocês Peter Higgs, ateu confesso, que, em Outubro de 2013, foi distinguido com o Prémio Nobel da Física, pela sua proposta no ano de 1964 de uma partícula com as características daquela que o CERN, quase meio século depois, haveria de identificar. O prémio foi partilhado com o seu colega belga François Englert, que professa a religião judaica (circunstância que o obrigou a manter-se largos anos escondido durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda era um rapazinho). De facto, a designação “partícula de Deus” apenas surgiu por uma decisão editorial. Trata-se do título de um livro que se revelou um sucesso de vendas no mundo anglo-saxónico, embora não tenha conhecido tradução em português. Os autores do livro The God’s particle, saído em 1993, o físico norte-americano Leon Lederman e o escritor de divulgação científica Dick Teresi, quiseram intitular a sua obra, que descrevia a ideia de Higgs e de outros, The Goddamn particle (“A partícula maldita”) com base nas dificuldades na sua detecção e foi o editor norte-americano que propôs a alteração, logo aceite pelos autores, para The God Particle, “Partícula de Deus” [1]. Como, a haver Deus, todas as partículas são d’Ele, será pouco defensável baptizar assim uma partícula, singularizando-a como criação divina relativamente a todas as outras... Mas o certo é que a palavra Deus tem efeitos mediáticos e o nome pegou. Decerto que a partícula não teria sido tão badalada se tivesse um outro nome.

 

Mas o que é afinal a partícula de Higgs? Não é uma das partículas normais de matéria nem de energia. É uma partícula associada a um campo (o campo descreve a presença de uma grandeza física numa certa região do espaço), cuja existência foi postulada para explicar por que razão as partículas de matéria e energia, que preenchem todo o Universo, têm massas muito diferentes entre si.  Partículas de matéria, por ordem decrescente de massa, são os quarks, os electrões e os neutrinos. Todas as coisas, em todo o vasto mundo, são feitas de quarks, electrões e neutrinos. Os quarks formam os protões e os neutrões. Os protões e os neutrões formam os núcleos atómicos. Os núcleos atómicos e os electrões formam os átomos. Os átomos formam as moléculas, os cristais ou sólidos e a chamada “matéria mole”,  como por exemplo um gel. E as partículas de energia são, pela mesma ordem decrescente de massa, os bosões W e Z, os fotões, os gluões e os gravitões (na verdade, só os primeiros, os bosões W e Z, intermediários da força nuclear fraca, têm massa, pois todos os outros têm massa nula). As forças entre as partículas de matéria devem-se à troca de partículas de energia: por exemplo, a atracção eléctrica entre protões e electrões deve-se à troca de fotões.  Sem o campo de Higgs e, portanto, sem a partícula de Higgs, que está associada às excitações desse campo, o conjunto das partículas de matéria e de energia não poderiam ter a massa que têm, permanecendo todas com a massa nula. O mundo seria, nesse caso, indiferenciado e, por isso, informe: não teria havido a possibilidade de formação de estruturas, ainda que simples, e não haveria no mundo a extraordinária variedade de coisas que observamos.

 

As partículas de matéria e de energia conhecidas estão organizadas hoje no quadro do chamado modelo-padrão da física de partículas. Os físicos do CERN têm procurado responder à questão: Estará o modelo-padrão certo? E estará ele completo? Se a primeira pergunta, pelo menos até ver, tem sido respondida positivamente (a descoberta do Higgs é uma excelente confirmação do modelo-padrão no sentido em que foi confirmada uma peça que faltava nele), há, porém, boas razões para suspeitar que a resposta à segunda pergunta é negativa. O modelo revela-se insatisfatório do ponto de vista teórico e não consegue explicar alguns mistérios da astrofísica moderna como os problemas da matéria negra e da energia escura. Note-se que o mecanismo de criação de massa proposto por Higgs e seus colegas não passa de um mecanismo matemático que, aparentemente, a Natureza concretizou conforme o modelo-padrão descreve. Foi proposto quando ainda não se conheciam muitas partículas desse modelo. Mas, ao revelar-se certa uma hipótese matemática, cumpriu-se mais uma vez o dito do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642) contido no seu livro O Ensaiador de 1623: “O Livro da Natureza está escrito em caracteres matemáticos.”

 

A partícula de Higgs e o eventual quiproquo teológico à volta do nome “partícula de Deus” (será que se está perante uma prova da existência de Deus?) servem aqui de introdução para uma breve digressão sobre os elos entre a ciência, a nossa investigação do mundo usando o método experimental e de raiz matemática que Galileu introduziu, e Deus, ou, mais em geral, os fenómenos do divino. Tanto a ciência como a religião são actividades humanas, que são  completamente compatíveis, pelo menos a avaliar após uma consulta às biografias de alguns dos maiores cientistas. Ao longo da história, a maior parte dos maiores físicos acreditaram em Deus, para resumir numa só palavra (e uma palavra com muita força!) a crença numa realidade que transcende o “O Livro da Natureza” que a ciência indaga [2].

[…]»

Carlos Fiolhais. A Ciência e o Divino in De Rerum Natura.

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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

A. Gedeão

IMG_6430.jpg

Praia de Carvalhais, Comporta.

(Vê Moinhos? São Moinhos. Vê gigantes? São gigantes.)

 

«Os meus olhos são uns olhos.

E é com esses olhos uns

que eu vejo no mundo escolhos

onde outros, com outros olhos,

não vêem escolhos nenhuns.

 

Quem diz escolhos diz flores.

De tudo o mesmo se diz.

Onde uns vêem luto e dores,

uns outros descobrem cores

do mais formoso matiz.

 

Nas ruas ou nas estradas

onde passa tanta gente,

uns vêem pedras pisadas,

mas outros gnomos e fadas

num halo resplandescente.

 

Inútil seguir vizinhos,

que ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.

 

Vê moinhos? São moinhos.

Vê gigantes? São gigantes.»

 

António Gedeão. Impressão digital.

 


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Sábado, 23 de Agosto de 2014

Kandinsky

Wassily Kandinsky. "Gelb, Rot, Blau" (1925). 

 

«[…]

         Um edifício de grandes, muito grandes, de pequenas ou médias dimensões, dividido em salas. As paredes das salas ocultas sob telas pequenas, grandes ou médias, por vezes alguns milhares de telas. Através da cor, pedaços da “natureza” são reproduzidos: animais iluminados ou na sombra, sobre a erva ou junto à água; ao lado, um Cristo na cruz representado por um pintor que não é crente; flores, figuras humanas sentadas, de pé, caminhando, por vezes nuas, uma multidão de mulheres nuas (frequentemente em apontamentos breves e vistas de costas), maçãs e bandejas de prata (…).Tudo isto cuidadosamente impresso num livro: nomes dos artistas, títulos dos quadros. As pessoas, com o livro na mão, passeiam-se de uma tela para a outra; folheiam-no e lêem os nomes. Depois, retiram-se tão ricas ou tão pobres como quando entraram, e imediatamente são reabsorvidos pelas suas preocupações tão alheias à arte. Que vieram aqui fazer?

[…]»

Wassily Kandinsky. Do Espiritual na Arte. D. Quixote, 8ª ed., pp 23-24.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Lobo Antunes

(… a arte de escrever!)

 

«CRÓNICA DO CHINÊS

 

Ando agora a fazer exercício e dieta, apetece-me ficar bonito. Três vezes por semana um amigo meu, chamado José Francisco, leva-me para junto do rio, em Belém, onde procedo a manobras físicas complexas, tal como andar. Ando quilómetros e quilómetros, quer dizer, talvez seja exagero, ando até me doerem muito as pernas e é um pau, a barriga diminui a olhos vistos, não tarda nada eis um Apolo Musageta ou, no mínimo, a Modona da Caldeirinha. Pelo menos vejo os pescadores, às vezes converso com eles, faço perguntas, examino os peixes que continuam a agitar-se cá fora, interminavelmente. O meu favorito é um chinês, sempre a rir, nunca conheci ninguém tão contente, que nem isco usa, atira aquilo, faz um movimento em u, levanta aquilo e aparece um peixe na ponta do anzol, preso pela barriga, pela cauda, por uma guelra, pelo que calha, aos saltos, que ele poisa na pedra, ainda a rir mais para nós. A uns vinte metros o patrão, gordo, plácido, velho, sentado num banco, vai orientando um chinês em gestozinhos mansos, de longe em longe levanta-se para corrigir pormenores, muda o anzol, regressa ao banco numa lentidão tranquila, olha os barcos, a água, não deixando de espiar o chinês, desabotoa a camisa para coçar os pêlos do peito, escarafuncha a orelha com a unha do mindinho, avalia os resultados, recomeça a limpeza, não sorri para nós ao contrário do chinês, cuja alegria, não entendo porquê, aumenta até ao êxtase, a felicidade do chinês torna-me invejoso, raios partam aquele júbilo e, no entanto, quando não encontro o chinês murcho um bocadinho, o chinês que dança neste pé, dança naquele, se volta para nós com os cromados todos ao léu, de cara dividida ao meio pelo tamanho da boca, ele e o patrão pobres, roupas muito velhas, sapatos de defunto que caminharam milhas, camisolas sobrepostas, desbotadas, no fio, um certo cheiro a pouca água, um certo cheiro a alho, ou então é o Tejo com problemas de hálito, os cabelos deles mais poeira que cabelo, na relva atrás de nós um par de namorados em beijos sedentos, mastigando-se as línguas, beijos sedentos é horrível, em beijos tipo desentupidor de retretes, bocas que emitem um

         - Plop

         de borracha ao afastarem-se, penso que vêm os intestinos atrás do

         - Plop

         mas lá se aguentam, felizmente, imagino um desentupidor na minha boca e eu a sair todo de mim, estômago, pâncreas, ideias, a namorada senta-se na relva para atender o telefone e enquanto conversa introduz os dedos no nariz do homem, manobra que ambos acham excitantísssima e se calhar é, quando o fazia em pequeno levava uma palmada imediata no pulso, a minha mãe, decerto conhecedora daquela manobra afrodisíaca, tentava castrar-me

         - Que porcaria

         e por isso fiquei esta coisa mole, sem vivacidade nem encanto, um chocho desinteressante, um maçador, tenho o aperto de mão desprovido de energia, duas esponjazinhas de cuspo nos cantos dos lábios a falar, a ponta da língua emergindo a cada duas palavras, a expressão parada, os olhos vazios

         - Repare para mim, senhora

         e a alegria do pescador chinês permanece, não fala, diz sílabas que não entendo, guturais, faz acenos estranhos, estica-se, dobra-se, torce-se a explicar-me o mundo e o mundo que me explica não o conheço, vim aqui fazer exercício não para entrar em universos diferentes

         - Adeus chinês

         e o chinês a aproximar-se de mim escorregando nos limos, mais pescadores a cinquenta metros, cem metros, todos tão pobres quanto este, pescam para comer que tudo tão caro e o dinheiro não chega, um peixinho cru no pão, isso vi, mais algum peixinho para a patroa que trabalha a dias e não a querem agora, para os filhos a arrumarem os automóveis nos parques, pedindo moedas, cigarros

         - Um cigarrinho amigo

         de vez em quando uns roubos por esticão a velhotas, de vez em quando um canivetezito num pescoço de turista

         Money money

         uns tempitos na cadeia, uns tempitos cá fora, uma criança feita uma agarrada que durante a gravidez continuava a injectar-se e temos de andar, Zé Francisco, tenho de perder a barriga, apetece-me ser elegante, bonito, Apolo Musageta ou Madona da Caldeirinha, tanto faz, mas bonito, andar até me doerem muito as pernas, não poder com as pernas, fale-me do seu pai, gosto quando me fala do seu pai e do amor que lhe tinha, se sonhasse como o invejo, se soubesse da minha vida comigo, a sua mão no meu ombro

         - António

         a sua mão nas minhas costas

         - Amigo

         a profundeza da sua amizade e eu

         - Obrigado

         eu do coração do coração

         e o chinês continuando a rir-se, afectuoso, aos pulinhos, feliz sei lá com quê, feliz sei lá porquê, passa por nós um barco de oito remadores a treinarem, ouve-se o treinador, num barco ao lado, a dar ordens por um megafone

         - O número três blá blá blá

         - O número cinco blá blá blá

         o rio cheio de peixes sujos quase à tona, um cargueiro a subir a barra, cheiros confusos na água, um senhor muito gordo a ler o jornal numa esplanada, os namorados, sem ventosas, estendidos lado a lado, não me dói nada agora, rio para o chinês, daqui a nada, sem que me aperceba, estamos a falar a mesma língua, vontade de contar-lhe que na segunda-feira fui ao dentista e, como sempre que me sento naquela cadeira, os meus pés não paravam, sou um peixe, vou morder o isco da broca, vou acabar no pão de um pescador que me come, acabar na goela do chinês

         - Mastigue-me com cuidado, senhor

         no dentista falei ao telefone com o senhor Bastos, guarda-redes do Benfica de quando eu era pequeno e fiquei feliz por conhecê-lo, tinha a fotografia da equipa inteira na parede do quarto, a alegria que me deu ele dizer que, no sítio onde morava, me via brincar com os meus irmãos no quintal dos meus pais, obrigado senhor Bastos, obrigado por me ter visto brincar, obrigado por se lembrar de mim, ganhei o dia, sabe, palavra de honra que ganhei o dia, explicar ao chinês

         - Ganhei o dia, senhor chinês

         e, palavra de honra, por momentos quase tive a certeza, qual por momentos quase tive a certeza, tive a certeza, por momentos tive a certeza, o que são as coisas, que o chinês ia largar a cana de pesca, e os peixes, e o rio, e abraçar-me.»

 

António Lobo Antunes. Crónica do Chinês. Quinto Livro de Crónicas. D. Quixote, 2ª ed., pp 119-122

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Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

António Lobo Antunes

«A MINHA COLEÇÃO DE MOMENTOS

 

         Não gosto de escrever em lugares confortáveis nem com vista bonita da janela: é numa cadeira dura, virada para a parede, que dou o dó de peito. Agrada-me trabalhar em cozinhas, desvãos, quartos de hotel com mesas tortas e gravuras o mais feias possível: tanto me faz o lugar desde que não seja agradável. Durante anos escrevi num tampo de mármore partido, agora faço-o num tampo de vidro, graças a Deus nem sempre limpo, num lugar gelado no inverno e cheio de correntes de ar no verão: até hoje driblei a pneumonia. Também não me rala onde moro, nem o que como, nem o que visto. O que me importa então? Assim de repente importou-me quando o comboio em que ia, na Alemanha, parou à noite numa estaçãozinha deserta e escutei, na chuva, um clarinete a tocar numa cave invisível: pareceu-me que de repente entendia a vida e o mundo. Que música seria aquela, quase sem nexo, aflita entre as copas das árvores, a explicar-me a mim mesmo? Ou antes não música: um fiozinho de som. Ainda deve estar, perto de Dortmund, sempre que um comboio fica por ali à espera, no inverno, e a chuva aumenta a sombra dos abetos. Importam-me os corvos da Ucrânia sobre os campos de milho. Uma criança descalça, com dois cavalos coxos, entrevista perto de uma igreja antiga, na Roménia, o descer uma colina na direcção de um riacho: de quando em quando um dos cavalos lambia o pescoço da criança. Um bêbado do Cazaquistão a cantar sozinho, amparado a um muro, e a barba dele, comprida. Uma senhora de idade numa esplanada de Paris, em cuja cara permaneciam ainda, aqui e ali, esquecidos, fragmentos de uma beleza irrecuperável, semelhante aos restos de cartazes que vão empalidecendo e rasgando-se até muito depois das eleições. Certas vitrinas suburbanas que nos oferecem bonecos de loiça

         (pastoras, anjinhos, Dons Quixotes)

         poeirentos e patéticos, alinhados numa orfandade de abandono. Esses cães que se deixaram longe e voltam passados muitos dias, humildes, magros, à casa onde moraram, demorando-se no quintal sem coragem de entrar. Um urso de peluche, meio vazio de recheio, a convidar-nos

         - Abraça-me

         com o olho de vidro que sobeja. As ancas vaidosas, para cá e para lá, dos barquinhos ancorados, tão femininos nos seus meneios de cintura e, já agora, certas ondas que não acabam nunca e nos levam com elas. A  poetisa argentina Alfonsina Storni, cansada de esperá-las, resolveu entrar no mar ao seu encontro: que remédio tiveram as ondas senão ficar-lhe com a boina, com o resto todo, com os versos que não teve tempo de compor: se calhar os meneios de um dos barquinhos são seus. E podia continuar a lista do que me importa durante horas, mencionando, é claro, a frase, que sempre me comoveu, de Charlotte Bronte na agonia, a apertar a mão do marido

         - Não vou morrer pois não? Temos sido tão felizes…

         ou Columbano Bordalo Pinheiro, um dos meus pintores, a emergir, por instantes, da sonolência final, espantado

         - Ainda estou vivo?

         coisas destas, amargas ou alegres, que me têm ajudado a entender o que sou, como sou, quem sou, e me iluminam quando escrevo: bastam-me como lâmpadas, e também permitem ver para dentro fundos de poço, caves, baús, o gramofone de campânula a que se dava corda com uma manivela empenada, colocava-se a agulha romba, de aço, no disco riscado, e a voz de Caruso, entre guinchos e estalos, a tremelicar a Bohème, enquanto a tia Madalena, lá em baixo, regava o jardim. Jack Dempsey, pugilista miraculoso, numa revista amarela. Um busto de Chopin, quebrado. Um exemplar sem capa do diário da escritora George Sand, informando a certa altura, a propósito do também escritor Merimé

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         (No original: «J’ai eu Merimé ce soir: C’est pas grand-chose…»)

         e o cheiro da relva molhada a subir até mim ao fim da tarde. Copos azuis facetados onde me ofereciam um golinho

         (com recomendação

         - Só um golinho)

         do anis que eu rondava na despensa como um gatuno. Deviam poder guardar-se estes momentos no banco, a render juros. E receber o extrato ao fim do mês: em lugar do dinheiro um clarinete à chuva, uma onda, a boina de Alfonsina Storni e o cheiro da erva molhada, o pobre Caruso a tentar soltar-se do disco. Se o gestor da conta fosse esperto informava-me «este mês tem mais uma onda», «até ao fim do ano espero conseguir-lhe dois clarinetes», ou «em seis meses, tal como os mercados estão, o tal Merimé não vai desiludir a senhora». E no exemplar sem capa do diário, em lugar de

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         lerei

         «Tive-o esta noite. É do caneco!»

 

António Lobo Antunes. Quinto Livro de Crónicas. D. Quixote,  2ª ed. pp 241-243.

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Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Sousa Tavares

«[…]

         Quando ela se foi, o padre Anselmo andaria pelos seus quarenta e tal anos, e continuou a exercer o seu sacerdócio por Medronhais e aldeias vizinhas da serra, aqui e além ungindo de Deus outras paroquianas tão devassas quanto a minha frustrada professora Fátima. Nada, porém, que as condenasse ao apedrejamento: felizmente, já não somos mouros, mas sim cristãos, e dizia-se que mulher manchada por padre é manchada por Deus. Essa foi a primeira lição que aprendi: o pecado depende do sujeito, não do predicado.

[…]»

Miguel Sousa Tavares in Madrugada Suja. Clube do Autor, 1ª ed., pp 34.

 

 

(...para além disto..., gosto muito das crónicas de S. Tavares. Das crónicas, dos contos, dos "quase romance"..., do Não te Deixarei Morrer David Crockett, do Sul do No Teu Deserto.  Gosto muito pouco, ou não gosto mesmo nada, dos romances, dos "grandes" romaces... Até me apetece dizer porquê, mas também não quero ser injusto: escrever dá muito trabalho e há que aprender a ler mesmo os livros que rapidamente se arrumam na estante e a que não se regressa mais...)

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Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Montedidio

É um livro espantoso. Parecem posts. São fragmentos de uma imensa integridade, escritos num rolo de papel que se vai enrolando e desenrolando numa desconcertante simplicidade: “Aproveito o candeeiro da rua para escrever encostado ao parapeito da janela, o ruído do lápis no papel faz o resumo do barulho do dia.” E lê-se em duas golfadas!...

 

 

«[… pp 57]

Mestre Errico franze os olhos por causa do pó, do perigo das farpas, e tem um esguicho de rugas ao pé dos olhos de tanto os fechar. Os olhos de Rafaniello são húmidos, limpa-os com o dorso da mão. Ganhei alguma confiança com ele: dom Rafaniè, parece que estais a chorar. “É o ar de cá de dentro, diz, é a cola, é Montedidio que me dá cabo dos olhos.” E limpa-os. Diz que todos os olhos para verem precisam de lágrimas, caso contrário tornam-se como os dos peixes que fora de água não veem nada e ficam secos e cegos. São as lágrimas, diz, que permitem ver. […]

 

[… pp 78] Maria diz que eu existo e assim eis que eu também me apercebo de que existo. Pergunto-me: não podia aperceber-me sozinho de que existo? Parece que não. Parece que é preciso que seja outra pessoa a avisar. […]

 

[… pp 85-86]

Enrijecem os músculos do lançamento, agora eu estou aqui para ti, somos namorados, digo e já agora, Maria, o que é que fazem os namorados? “Fazem amor, casam, fogem juntos”, diz sem hesitar. Não pergunto mais, basta-me que seja ela a saber. Olhamo-nos, os olhos estão largos por causa da escuridão. Ela abre o sorriso e a ponta da pila move-se sozinha. Quando abre a boca e aparecem os dentes pica-me e fico com calor ali mesmo. Passo-lhe o braço à volta do ombro, aperto um pouco. É a primeira vez que sou eu a tocá-la, que um gesto começa por mim. Maria apoia toda a cabeça no braço, deixo de lhe ver a cara, acalma-se a comichão na pila. Sinto uma força descomunal, a força dos lançamentos formou também o músculo para segurar Maria. Levanta-se, apanha contra o peito a roupa estendida e para se despedir estica o pescoço para a frente num beijo. Então vou com a boca directamente ao encontro da sua, assim fica igual. Os namorados fazem gestos iguais. […]

 

[… pp 90]

Rafaniello fica contente, diz que as bênçãos valem mais que o dinheiro porque são ouvidas no céu. E também as maldições são ouvidas, diz e cospe no chão para enxaguar a boca da palavra triste.

 

[… pp 97]

Rafaniello diz que de tanto insistir Deus é obrigado a existir, de tantas orações se forma o seu ouvido, de tantas lágrimas nossas os seus olhos veem, de tanta alegria surge o seu sorriso. Como o bumeramgue, penso: de tanto treinar prepara-se o lançamento, mas pode a fé sair de um treino? […]

 

[… pp 196]

Escrevo as suas palavras porque as ouço repetir, não por as recordar. […]»

 

Erri de Luca. Montedidio. Bertrand, 1ª ed., Nov, 2012.

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publicado por Fernando Delgado às 02:46
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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

Hemingway

«[…] De súbito uma multidão entrou na rua. Vinham todos a correr apertados uns contra os outros. Passaram e subiram a rua em direcção à praça de touros, e atrás deles vinham mais homens a correr mais depressa, e depois alguns farroupilhas que corriam de verdade. Atrás deles havia um pequeno espaço vago e, logo os touros, a galope, com as cabeças abaixo e acima. Tudo se sumiu ao virar da esquina. Um homem caiu, rebolou para a valeta e deixou-se estar quieto, mas os outros touros foram a direito e não deram por ele. Corriam todos juntos.

      Depois de se terem sumido, um grande clamor veio da praça. E manteve-se. Depois, enfim, o estoiro do morteiro que significava terem os touros atravessado a massa de gente na arena e entrado para o touril.

(…)

      O touro que matara Vicente Girones chamava-se Bocanegra, tinha o número 118 da ganadaria de Sánchez Taberno, e foi morto por Pedro Romero, como terceiro touro dessa mesma tarde. A orelha foi-lhe cortada por aclamação do povo e dada a Pedro Romero, que, por seu turno, a deu a Brett, que a embrulhou num lenço que me pertencia e deixou orelha e lenço, juntamente com uma data de beatas de Muratti, no fundo da gaveta da mesinha-de-cabeceira que estava ao lado da cama dela no Hotel Montoya, em Pamplona.

(…)

      O touro estava especado nas quatro patas para ser morto, e Romero matou-o memo por baixo de nós. Matou-o, não como fora forçado a isso pelo último touro, mas como quis. Perfilou-se mesmo diante do touro, tirou a espada das pregas da muleta e bafejou a lâmina. O touro observava-o. Romero falou com o touro e bateu com um dos pés. O touro correu e Romero esperou por ele, a muleta baixa, bafejando a lâmina, os pés firmes. Depois, sem dar um passo em frente, uniu-se ao touro, o estoque estava no alto entre as espáduas, o touro seguiu a flanela ondulada baixa, que desapareceu ao desviar-se Romero para a esquerda, e tudo acabara.

(…)

      Levantei-me e fui para a varanda e pus-me a ver as danças na praça. O mundo já não andava à roda. Estava até muito límpido e luminoso, apenas com tendência a esfumar-se nos contornos. Lavei-me, penteei o cabelo. Achei-me estranho e desci à sala de jantar.

      - Aqui está ele! – disse Bill. – Meu velho Jake! Eu bem sabia que tu não esticavas desta.

      - Olá, meu borracho – disse Mike.

      - Tinha fome e acordei.

      - Come sopa – disse Bill.

      Sentámo-nos os três à mesa, e era como se faltassem seis pessoas.

[…]»

 

Ernest Hemingway. O Sol Nasce Sempre (Fiesta). Editora Livros do Brasil, pp 163/164, 198, 218 e 221/222.

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publicado por Fernando Delgado às 01:19
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