Sábado, 4 de Abril de 2009

(pequenas) decisões

No PÚBLICO, de ontem, uma notícia que pode ter repercussões a médio prazo...

 

«Governo investe 700 milhões de euros para actualizar cadastro das propriedades

Nos próximos sete anos, o Governo vai investir 700 milhões de euros para actualizar o cadastro das propriedades, muito desactualizado, noticia hoje a rádio TSF. A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) estima que 20 por cento do território não tem dono conhecido.

A identificação dos proprietários de milhares de terrenos sem construção vai começar este mês em sete concelhos com alto risco de incêndio: Paredes, Penafiel, Oliveira do Hospital, Seia, Loulé, São Brás de Alportel e Tavira. Segundo a rádio, os protocolos de cooperação são assinados na próxima semana e os trabalhos arrancam depois do Verão.
João Ferrão, secretário de Estado do Ordenamento do Território, comentou à TSF que este levantamento é uma tarefa muito cara, que está atrasada, mas que é urgente concretizar por causa dos incêndios e para aumentar a receita fiscal.
Quando for impossível descobrir os proprietários, os terrenos ficam para o Estado.
Na verdade, acrescentou, Portugal é praticamente um caso único na Europa por ter tantas propriedades sem dono.
De acordo com um estudo da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), 20 por cento do território português não tem dono conhecido. “Não sabermos as propriedades que temos e a quem pertencem é uma situação absolutamente caricata”, comentou Joaquim Sande-Silva, dirigente da associação.»
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publicado por Fernando Delgado às 23:55
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Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

A problemática do rural está prenha

«(…)

O mundo vai dando as suas voltas e parece que quer as representações do espaço rural quer dos seus habitantes têm vindo a actualizar-se em articulação com a própria dinâmica da sociedade contemporânea. Ao espaço rural parecem competir agora novas funções, novos usos e mais diversificados, na medida em que tendencialmente ele parece estar a ser alvo de novas procuras que vão para além das tradicionais (fornecimento de produtos alimentares ou de mão de obra), como sejam as de espaço de lazer, segunda residência, descentralização produtiva, reserva ecológica, etc.
É claro que ao longo desse processo, o espaço rural viu decompor-se toda a sua estrutura social e económica bem como sofreu uma forte descaracterização na diversidade das suas culturas e tradições, subordinado à afirmação dominante do espaço urbano-industrial. Paradoxalmente (ou não), foi esta influência urbana que mais terá contribuído para invalidar em absoluto aquela imagem estereotipada, o que, no limite, suscita a questão se ainda existe rural.
As relações de sociabilidade entre os vizinhos que acompanhavam a vida uns dos outros foram boicotadas pelas telenovelas e reality shows (como é que isto se diz em português?) da TVI, a solidariedade intergeracional ficou irremediavelmente comprometida com o surto migratório e com a invenção dos lares de terceira idade, até a agricultura já não é a grande aliada do espaço rural, enfraquecida pelas regras de mercado ditadas pelas grandes superfícies, pelo abandono, e até pelo clima.
Quanto às “tradições” do mundo rural, são cada vez menos participadas pelos verdadeiros actores e mais por mirones infectados com o vírus urbano da perspectiva folclórica. A grande maioria das que são participadas e adquirem visibilidade, pouco ou nada têm a ver com o ritual original – veja-se o exemplo do madeiro de Penamacor, o “maior” do país. Os nostálgicos do bom velho mundo rural esforçam-se por continuar a alimentar a velha representação estereotipada de algo que já não existe.
Indiscutivelmente, deixou de fazer qualquer sentido falar do mundo rural em tom depreciativo conotando-o com subdesenvolvimento, atraso ou pobreza, o que indicia que provavelmente, ou estaremos perante uma nova noção de ruralidade ou, estaremos perante uma nova realidade para a qual será preciso inventar um novo conceito. Os geógrafos já lhes chamam, apropriadamente, “territórios de baixa densidade”, e não é apenas à dimensão demográfica que eles se referem. Os sociólogos vão argumentando que a nova “ruralidade” integrou uma dimensão simbólica que anteriormente era marginalizada, motivando assim novas práticas sociais, as quais, presume-se, se estão traduzir num acréscimo de procura da ruralidade, quer no sentido físico quer simbólico. Há uma socióloga que já fala em McRural, querendo com isto significar que essa procura se dirige a um mundo mais ou menos estilizado que ofereça, a um tempo, ambiente não poluído, paisagem colorida, natureza florida, campos pouco intervencionados, produtos típicos, e, se possível, algumas manifestações tradicionais e autóctones ostentatórios da sua identidade e da sua diferença. Não importa muito se estamos na Baságueda, nos montes Cantábricos, na Aquitânia ou na Toscânia, importa é que os requisitos se verifiquem, daí o McRural. O caminho lógico para combater a homogeneidade desta procura só pode residir na diferença da oferta. E aqui, a questão que se coloca é se essa diferença deverá assentar no mundo rural que parece, ou no mundo rural que é (ou quer ser). A problemática do mundo rural está prenha.
(…)»
 Ler texto integral no Baságueda

publicado por Fernando Delgado às 00:08
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Domingo, 29 de Março de 2009

Serviços dos ecossistemas florestais

«(...)

A espécie humana, apesar de resguardada pela cultura e pela tecnologia face a efeitos imediatos do ambiente, está, em última análise, dependente de uma série de serviços dos ecossistemas (Millenium Ecosystem Assessment, 2003). Neste contexto, os serviços dos ecossistemas não são mais do que os benefícios que as pessoas retiram dos ecossistemas, incluindo os serviços de fornecimento de bens, como alimentos, fibras e água; os serviços de regulação, por exemplo, do clima, das cheias, das doenças e da qualidade da água; os serviços culturais (imateriais), relacionados com experiências estéticas, espirituais ou recreativas; e, por último, os serviços de suporte, tais como os ciclos biogeoquímicos, a formação do solo ou a produção primária dos ecossistemas, os quais asseguram a estrutura ecossistémica necessária à prestação dos restantes serviços (Millenium Ecosystem Assessment 2003).
Os quatro tipos de serviços referidos são assegurados pelos funcionamento dos ecossistemas, o qual é movido a energia solar e depende de uma diversidade de componentes bióticas (biodiversidade) acumulada ao longo de milhares de milhões de anos de evolução. A biodiversidade é, assim, a pedra angular do edifício ecossistémico do qual flúem todos os serviços dos ecossistemas.
O Homem e o seu bem-estar têm sempre dependido de serviços dos ecossistemas. O que é relativamente novo é a aceleração da transformação dos ecossistemas pelas actividades humanas, sob pressão do crescimento demográfico, do aumento dos níveis de vida e da mudança dos padrões de consumo.
(...)
… a determinação das funções de produção dos serviços e a valoração económica dos mesmos permitem seleccionar a melhor opção de gestão para um determinado ecossistema (ver exemplo da bacia das montanhas Caiskill, Nova Iorque); ou seja, permitem identificar a opção que maximiza o bem-estar social possível naquele contexto ecológico e económico, mas não permitem geralmente, só por si, implementá-la.
Para compreender esta questão da implementação (ou da valorização), há que perceber primeiro porque é que as decisões dos agentes gestores conduzem geralmente a uma afectação não óptima dos serviços dos ecossistemas ou seja, há que analisar a falha de mercado.
(...)
Qualquer serviço dos ecossistemas florestais, seja ele a redução do risco de incêndio ou a mitigação das alterações climáticas, depende do estado do ecossistema florestal – por exemplo, a quantidade e tipo de biomassa acima e abaixo do solo, o teor de matéria orgânica do solo, ou a vulnerabilidade da paisagem ao fogo. Por sua vez, o estado do ecossistema florestal depende da gestão florestal (modelo de silvicultura), isto é: da escolha do tipo de povoamento e da espécie, do regime de desbastes e desramações, e do período de tempo até ao corte final.
Importa, pois, identificar as influências que conduzem o agente gestor nas escolhas conducentes ao modelo de gestão florestal adoptado (modelo de silvicultura). Neste sentido, é relevante notar que, geralmente, não existem mercados para muitos serviços dos ecossistemas florestais, embora existam mercados para alguns dos produtos lenhosos ou não, extraídos da floresta. Neste contexto o gestor da floresta toma as suas decisões essencialmente em função dos preços dos produtos florestais. Daí resulta um determinado estado do ecossistema florestal e, portanto, determinados níveis de serviços do ecossistema florestal (risco de incêndio, carbono sequestrado ou conservação da biodiversidade). Os níveis dos serviços são assim um efeito lateral de decisões de gestão tomadas em função de outros critérios. Portanto, só por acaso coincidirão com os níveis mais adequados à satisfação das necessidades humanas relevantes. O mercado falha assim em dar os sinais adequados aos gestores da floresta para que eles conduzam o ecossistema florestal de modo a que este forneça os níveis óptimos dos diversos serviços do ecossistema. Os economistas chamam a este tipo de fenómeno uma falha de mercado.
(...)
Que fazer, pois, quando não é possível criar mercados para os serviços ambientais. Existem duas alternativas: uma consiste em resignar-se com os níveis inadequados de serviços dos ecossistemas florestais que resultam da falha do mercado; a outra consiste em ver que, para além da "criação de mercados", o Estado continua a dispor de modalidades de intervenção, eventualmente mais tradicionais e menos inovadoras para corrigir a falha de mercado: a regulamentação, o ordenamento do território, as taxas verdes, os pagamentos públicos por serviços ambientais ou responsabilidade civil por danos ambientais.»
 
J. Lima Santos in Serviços dos ecossistemas florestais: produção, valoração e valorização
Floresta Viva. Património de Futuro. C. M. Proença-a-Nova. Centro Ciência Viva da Floresta.

publicado por Fernando Delgado às 02:00
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Domingo, 7 de Setembro de 2008

Frádigas

IMG_2957.jpg

fradigas.jpg

Às vezes ainda me espanto com a natureza e com o que os homens fizeram dela. O rio de Alvôco da Serra corre entre vales profundos, serpenteando entre rochas e margens sem pé na encosta Oeste da Serra da Estrela, entre Alvôco e a Barriosa, perto de Vide. Há várias aldeias no seu percurso, mas é entre as Frádigas e a Barriosa que surgem umas "obras" estranhas, mas evidentes no seu objectivo.

Basicamente consistem no corte do rio, obrigando-o a seguir em frente e libertando-o de um braço, que assim fica disponível para a agricultura. As áreas roubadas ao leito do rio são obviamente pequenas, mas percebe-se a importância que tiveram para as populações locais, embora hoje estejam praticamente abandonados, mesmo que algum milho regional, algum feijão e algumas videiras teimem em evidenciar o que as encostas abruptas e recentamente ardidas parecem desmentir.
O ano, década, século destas “obras”, a que alguns chamam frádigas, nome da aldeia, é uma incógnita. Terão mais de duzentos anos, dizem-me, mas sim, sem dúvida, nada!
(Na imagem do Google Earth está desenhada a verde a área agrícola, onde corria o antigo leito do rio, agora obrigado a seguir em frente pela garganta rochosa, assinalada a vermelho. Na fotografia, referente a outra frádiga, próximo do viveiro de trutas, pode ver-se essa garganta rochosa e o antigo leito do rio com culturas agrícolas. Já agora, numa eventual visita - isto é publicidade -, vale a pena almoçar ou jantar no Guarda-Rios, um lagar transformado em restaurante, ali mesmo por baixo da frádiga, junto à Barriosa.)
 

publicado por Fernando Delgado às 02:24
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Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Biocombustíveis-2

(A edição de Novembro da National Geographic tem um artigo com interesse para uma compreensão genérica da problemática dos biocombustíveis. Aqui ficam algumas transcrições do texto, uma tabela com uma tentativa de sistematização da informação fornecida e um convite para a leitura integral na NG).
 
“Há um século, o primeiro automóvel de Henry Ford funcionava a álcool, enquanto Rudolf Diesel alimentava o motor baptizado com o seu nome a óleo de amendoim. Em brve, porém, os dois inventores descobriram que o óleo de rocha, quando ligeiramente refinado, proporcionava muito mais energia por litro do que o óleo vegetal ou o álcool e além disso era mais barato.
(…)
É fácil perder a fé nos biocombustíveis se a única solução ponderada for o etanol de milho. (…) Contrariamente ao milho, no qual o amido contido nos grãos precisa de ser decomposto em açúcar por meio de enzimas antes de fermentar, o caule de cana-do-açúcar já é, em si mesmo, 20 % de açúcar (…). A cana rende 5700 a 7600 litros de etanol por hectare – mais do dobro do milho.
(…)
O princípio subjacente ao etanol celulósico é simples, mas torná-lo barato como a gasolina não. Até ao momento, apenas um punhado de fábricas-piloto nos EUA, Canadá ,Suécia, Dinamarca e Espanha produzem etanol a partir de celulose. Uma das fábricas (…) tem capacidade para converter uma tonelada de biomassa em 265 litros de etanol, em cerca de uma semana.
(…)
Não existe nenhuma cultura mágica utilizável como combustível capaz de resolver os problemas energéticos sem prejudicar o ambiente, dizem praticamente todos os cientistas que estudam o assunto. Mas a maioria diz que as algas são as que mais se aproximam desse objectivo, uma vez que podem crescer em águas residuais, até mesmo na água do mar, e precisam de pouco mais do que luz solar e dióxido de carbono para se desenvolverem. (…) Algumas algas fabricam amido, que pode ser transformado em etanol; outras produzem minúsculas goats de óleo que podem gerar biodiesel ou mesmo combustível para aviões. E, em condições correctas, as algas conseguem duplicar de massa no prazo de poucas horas. Enquanto um ha de milho produz cerca de 2500 litros de etanol por ano e um ha de soja cerca de 560 litros de biodiesel, cada ha de algas pode, em teoria, render mais de 45000 litros de biocombustível por ano. O milho e a soja dão uma colheita por ano. As algas colhem-se todos os dias.”
Combustível
Situação actual
Custo de produção
Balanço energético*
Emissão de gases de estufa**
Etanol de milho
Quase todo o etanol dos EUA é destilado a partir de milho. A maior parte é vendida como aditivo para gasolina ou como E85 (85% de etanol, 15% de gasolina).
0,21 €/litro
(EUA)
1/1,3
- 21 % que gasolina
Etanol de cana-de-açúcar
No Brasil, a cana sacarina rende 5700 a 7600 litros por ha. O caule contém 205 de açúcar (fermentado para fabricar álcool) e os resíduos de cana podem ser queimados para fornecer energia à destilaria, baixando o consumo de combustíveis fósseis.
0,17 €/litro
(Brasil)
1/8
- 56 % que gasolina
Etanol celulósico
Pode ser obtido a partir de resíduos agrícolas (restos de culturas), resíduos florestais (pedaços de madeira, troncos, serradura), resíduos urbanso (lixo doméstico e produtos de papel), pata de papel e vegetação de crescimento rápido
-
1/2 a 36
- 91% que gasolina
Biodiesel de oleaginosas
A Alemanha é o principal produtor mundial, utilizando óleo de colza. Podem ser utilizadas outras oleaginosas como a soja, o girassol ou a palma
-
1/2,5
- 68 % que gasóleo
* Energia em combustível fóssil usada para produzir o combustível/energia do combustível
** Produção e uso
Notas: O conteúdo energético do etanol relativamente à gasolina é de 67 % e o do biodiesel relativamente ao gasóleo é de 86 %.

publicado por Fernando Delgado às 00:35
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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Biocombustíveis-1

A propósito da notícia no Público Biocombustíveis podem ser piores para o clima do que o petróleo, cujo texto se transcreve, vale a pena ir lendo alguma coisa sobre esta matéria...  É que as coisas nunca são tão evidentes como parecem... Porque não começar por aqui..., ou por aqui...
 
"As dúvidas sobre o impacto positivo do uso de biocombustíveis crescem a cada dia que passa. Acusados de destruir as florestas tropicais e de contribuir para o aumento do preço dos alimentos, agora é a sua própria razão de ser que é posta em causa. Um estudo do Prémio Nobel da Química, Paul J. Crutzen, indica que estes podem ser piores para o clima do que os combustíveis fósseis.
A acusação não é nova. Já muitos fizeram as contas à energia gasta para os produzir, comparando-a com aquela que geram, concluindo que, nalguns casos, o balanço era negativo. Desta vez, Crutzen, do Instituto Max Planck de Química (Alemanha), com colegas americanos, austríacos e britânicos, avança que o óxido nitroso libertado pelo uso de fertilizantes nas culturas energéticas tem piores efeitos que os gases emitidos pelo uso de petróleo.
Segundo o estudo, publicado na revista Atmospheric Chemistry and Physics, a colza, muito usada na Europa para o biodiesel, e o milho, que nos EUA está na base do etanol, produzem entre 50 a 70 por cento mais gases com efeito de estufa do que os combustíveis fósseis. Isto por causa das emissões de óxido nitroso - um subproduto dos fertilizantes à base de nitrogénio usados na agricultura -, que tem 296 vezes mais potencial de aquecimento global que o dióxido de carbono.
A investigação liderada por Crutzen chega a resultados três a cinco vezes mais graves do que anteriores análises de ciclo de vida feitas sobre os biocombustíveis. Isto sem terem incluído nas contas a energia gasta para transformar os materiais agrícolas em combustíveis, sublinham os autores, que podem ainda tornar mais evidentes os efeitos negativos do seu uso.
De todos os materiais agrícolas usados na produção de biocombustíveis, o que continua a surgir como o que oferece mais benefícios é a cana-de-açúcar. Mas como estas culturas estão situadas nos trópicos, crescem os receios sobre o seu impacto em relação às florestas. Mesmo que não sejam as causadoras directas da destruição, são acusadas de, na ânsia de procurar novos terrenos, empurrar outras culturas, como a soja e as pastagens, para dentro da mancha verde.
Os autores aconselham a mais estudos sobre o ciclo de vida dos biocombustíveis e defendem que os cientistas e os agricultores devem apostar em culturas e métodos de cultivo menos intensivos. Mas, neste momento, tal como está a ser produzido, "o etanol feito a partir do milho não passa de um exercício inútil", disse um dos autores, Keith Smith, à Reuters.
A febre do etanol nos EUA está a atingir o seu pico, relata o New York Times. A corrida, com preços nunca vistos do milho e o aumento do preço dos alimentos, provocou excesso de oferta, que não encontra escoamento e está a pressionar os preços em baixa. O ritmo a que foram construídas as destilarias não foi acompanhado pela distribuição e a abundância de etanol no mercado assusta os investidores. O problema é que este biocombustível é corrosivo e permeável à água e impurezas, pelo que não pode ser distribuído pela rede de oleodutos, o que satura os outros meios de transporte, inundados pelo novo produto."

publicado por Fernando Delgado às 00:03
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Terça-feira, 14 de Novembro de 2006

Pequenos mundos...

(Parque Natural do Alvão)


publicado por Fernando Delgado às 00:56
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Sábado, 4 de Novembro de 2006

Pequenos mundos...

“(…)
Cada pessoa não está só ligada aos outros, à terra, e àquilo que a transcende. Cada um de nós constrói consigo mesmo uma relação. Falamos silenciosamente para os nossos próprios botões. Ouvimos depois as suas réplicas. E vemo-nos através das perguntas que lançamos à terra, aos céus, aos infernos. E vemo-nos ainda através do modo como os olhos dos outros nos vêem. O mesmo sucede, claro, com os agricultores que perguntam: entre o ontem e o amanhã, onde estou? o que se passa e passará à minha volta? o que fui? o que sou? o que serei?
Dos campos, das estradas cortadas, e das manifestações de rua colhemos a impressão que muitos agricultores estão perplexos e confusos com o que se passa à sua volta. Não sabem onde estão. O mundo está hoje mais complexo e incerto. Ventos de fora, de longe, fustigam-lhes a casa, os campos, e há forças misteriosas e incontroláveis a determinar absurdos. Por exemplo, a simulação do cultivo agrícola: semear, receber o subsídio, mas não colher, ou colher aqui para enterrar acolá, quando mais além há fome. Para além das flutuações e riscos dos ciclos biológicos e dos mercados agrícolas, os produtores têm agora de lidar com os altos e baixos, mais os imprevistos, dos ciclos das políticas comunitárias e nacionais.
(…)
Olhando o espelho cada agricultor vê-se com pele mudada, ou com mais camadas de epiderme. Já não é mais, e só, um cultivador do solo, um zelador de culturas, um tratador de animais, um vendedor de alimentos. Em pouco mais, de uma década, o agricultor apostado em sobreviver teve de passar a vestir o fato curto e apertado do burocrata. Teve de se tornar tele-ouvinte atento e bem informado, leitor de regulamentos, apresentador de projectos (estes têm de ser tidos como viáveis), gestor de pilhas de papéis e impressos, especialista em relações públicas (lidar com o INGA, o IFADAP, a banca é preciso), e um recebedor de subsídios. Face ao exterior, ou melhor, a gabinetes muito distantes e sem rosto, multiplicou os papéis. Multiplicou também os riscos de incompreensão, dependência, vulnerabilidade e endividamento. O agricultor honesto sente-se constrangido pelo que vem de fora. Inquieto e inseguro pelo que lhe chega de dentro de si. Desagradado, ou, quiçá, humilhado com a imagem que os olhares dos outros reflectem. No fundo da alma está a novidade e, quiçá, a perversidade da subsídio-dependência.
(…)”
José Portela, in “O Meio Rural em Portugal: entre o ontem e o amanhã”. Comunicação apresentada no Seminário Internacional A Revitalização do Mundo Rural e o Ordenamento do Território. 1997.

publicado por Fernando Delgado às 23:55
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

Fogos

(Na busca de outras coisas – à procura da 'ecologia da paisagem', que não é propriamente outra coisa… - encontrei este texto de Henrique Pereira dos Santos, de Agosto de 2005, que aqui reproduzo. Sei que estamos quase no Inverno, a “malhar em ferro frio”, mas vale a pena ler com atenção…)
 
“Falar de fogos no Verão nunca é grande ideia, é como decidir de cabeça quente. Falar de fogos no Inverno não é muito eficaz, é como malhar em ferro frio. Como o tolo na ponte sem saber para que lado ir, pensei ficar calado. Mas fui visitar áreas do Pinhal Interior que arderam em 2003. Já no ano passado as tinha visitado em Maio, não como os condutores que abrandam para ver os desastres dos outros ou os jornalistas que procuram sangue, escândalo, lágrimas e miséria em cada época de fogos, mas à procura de sinais de vida depois da primeira Primavera passar. Já anunciados em 2004 e claramente visíveis em 2005, vi sinais de vida na recuperação de que poderia vir aqui dar testemunho, falando das ervas, dos matos, do grau de cobertura do solo, da resistência do sistema às desgraças sempre anunciadas da erosão e empobrecimento. E poderia ainda dar testemunho das intervenções que vão aparecendo aqui e ali, sobretudo florestações pesadas de eucalipto, opção racional do ponto de vista do dono do terreno convencido da sua vocação florestal: florestar com uma espécie que produza antes que arda. Mas prefiro procurar perceber o que continua a ser para mim um mistério: por que razão se considera ser do âmbito florestal a questão dos fogos? Por que razão quando arderam 400 000 ha de território, se criou um fundo florestal e não um fundo rural?
O que vi não foi nenhum território de vocação florestal, mesmo que um dia tivesse sido a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa e se chame "pinhal interior". O que vi foi um território, uma paisagem, um espaço sem vocação, sem destino, sem Norte. O que vi foi a vitalidade de uma paisagem que insiste em recuperar com as urzes, os medronhos, as giestas, as carquejas, as herbáceas anuais e uma intervenção que insiste na fatalidade de uma florestação tornada evidente por falta de comparência da mínima ideia coerente sobre o mundo rural. O que fazer com aquele espaço difícil, sem água e sem solo, naturalmente marginal para as produções agrícolas mais ricas?
Talvez valha a pena olhar um bocadinho para trás, perceber que o pinhal não predominava ainda há menos de cem anos, vale a pena perceber que a ocupação daquele território se fez a partir de umas hortitas no fundo dos vales e de cabras e cabras pelos montes acima, rapando tudo, apagando a importância natural do sobreiro na região. O pinheiro foi a forma encontrada para ocupar o espaço deixado vago pela emigração maciça dos que fugiam da fome e da miséria de uma economia da cabra, suportada na utilização sistemática do fogo de elevada frequência característica da pastorícia de percurso, deixando para trás um território cansado e sem capacidade produtiva. Esta florestação à base de pinheiro, que claramente não contou com os efeitos de longo prazo do abandono agrícola, foi acompanhada de um programa de correcção torrencial ainda hoje com testemunhos muito interessantes no terreno, e outras medidas de gestão territorial, admitindo que a floresta poderia suportar uma economia alternativa à da cabra e recuperar os solos.
Os limites desta opção são agora bem evidentes na violência dos fogos que vemos. Mais esforço neste caminho, trará mais de resultados que conhecemos: alguma riqueza criada pelo sector florestal, custos elevadíssimos, económicos e sociais, provocados pela necessidade de defesa em relação ao fogo.
Haverá alternativa? Talvez sim, mas implica tomar decisões agora, muitas delas bem fora da esfera das políticas florestais. Implica pensar que território alternativo poderemos ter naqueles quase ermos que pouca gente em Portugal conhece sem ser pelos nomes dos incêndios. Implica admitir que a gestão do fogo é um problema de gestão de paisagem, que o fogo é um dos modeladores das nossas paisagens, como são a agricultura, a pastorícia, a floresta, as infra-estruturas, etc. Quando um qualquer serviço público que trata de agricultura entende que os regulamentos comunitários não nos permitem apoiar a pastorícia de percurso nos locais e com a intensidade que a gestão do fogo ou a conservação de natureza exigirem, apesar dos espanhóis com os mesmos regulamentos o fazerem, não é apenas um problema de afectação dos recursos da PAC que está em causa, é todo um conceito de gestão de paisagem que é posto em causa. Ou de maneira mais geral, enquanto os recursos da política agrícola forem vistos apenas como instrumentos de gestão da produção agrícola e não também como instrumentos de modelação do território que queremos, enquanto o problema dos fogos for visto apenas como uma questão florestal e de produtividade da floresta ou de protecção de pessoas e bens e não também como uma componente do mundo rural que construímos, dificilmente haverá futuro para os nossas áreas mais marginais se não o de manterem um padrão de fogo crescentemente consumidor de recursos, sem contrapartidas positivas visíveis para as economias locais e nacional.
Partamos da ideia de recuperação territorial que estava subjacente ao programa de controlo torrencial executado pelos serviços florestais no hoje chamado pinhal interior. Redesenhemos as funções do território, começando por centrar todo o esforço de recuperação dos solos e da vegetação onde é mais fácil, no fundo dos vales, incluindo aqui todas as pequenas depressões em que só corre água quando chove.
É bem possível que num prazo relativamente curto consigamos um objectivo central: aumentar a diversidade paisagística, com a consequente valorização cénica da paisagem e aumento da diversidade biológica e desencadeando um processo de recuperação que se irá estendendo das áreas mais favoráveis para as áreas mais inóspitas. Se simultaneamente apoiarmos uma nova pastorícia de menor intensidade, usando o território numa lógica de gestão do fogo e não na lógica ancestral de alimentar o maior número de pessoas, se apoiarmos uma gestão florestal já não exclusivamente assente na ideia de vocação florestal do território, mas com objectivos de produção, incluindo o eucalipto, em algumas áreas, e objectivos de conservação e diversificação noutras, tirando partindo da excelente regeneração natural do sobreiro e do medronho, teremos definido um caminho mais sustentável.
E a prazo, talvez mais curto do que seria de supor, é bem possível que tenhamos resultado económicos bem interessantes: na valorização turística, actualmente fortemente limitada pela monotonia paisagística existente, na valorização do medronho e do sobreiro e, provavelmente o mais interessante no curto prazo, na possibilidade de ter resultados interessantes com a exploração cinegética. E, no que aos fogos diz respeito, ouviremos com certeza falar deles, mas provavelmente numa escala já socialmente aceitável.”

publicado por Fernando Delgado às 00:09
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Domingo, 23 de Abril de 2006

Inovação

"(...) Importa desfazer alguns equívocos relacionados com o conceito de inovação. Inovação não deve ser confundida com: (i) alta tecnologia, dado que  uma inovação nem sempre advém do recurso às novas tecnologias e pode ser um simples produto novo, vendável, resultante da utilização de tecnologias tradicionais; (ii) investigação e desenvolvimento (I&D), porque esta actividade, conceptualizando o modelo de geração da inovação pelo lado da oferta, é apenas uma fase do processo, encontrando-se a montante da inovação que supõe implantação no mercado; (iii) invenção, uma vez que esta é apenas uma idéia nova que requer posterior transformação em novo produto ou processo e o seu casamento com o mercado.
(...) Há, portanto, que salientar que a invenção decorre de um processo altamente criativo, dependendo, crescentemente das actividades de I&D, podendo no entanto existir sem qualquer vínculo a laboratório ou centro de I&D. A inovação segue, contudo, de um modo geral, uma tramitação económica, cujo conceito sugere que se trata da entrada da invenção no mercado. Quando se dá a primeira transação comercial concretiza-se a inovação, ou seja, só se verifica a inovação quando um novo produto ou processo é comercializado. (...)"
Maria João Simões in Dinâmicas de Inovação em Territórios de Baixa Densidade

publicado por Fernando Delgado às 02:30
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Segunda-feira, 10 de Abril de 2006

Ruralidades

 "A manutenção da actividade agrícola não garante a viabilidade da comunidade rural, uma vez que a agricultura pode realizar-se desligada da comunidade local. Da mesma forma, o abandono agrícola não implica necessariamente o abandono da terra ou das áreas rurais. Da terra, porque outros usos não agrícolas podem ocupá-la. Das áreas rurais, porque a sua dinâmica pode basear-se noutras actividades que não a agricultura. A forma como a agricultura interage, ou poderá interagir, no conjunto do rural, prende-se assim com uma dimensão de uso do solo e construção da paisagem, mas também com uma dimensão económica e uma dimensão social, que podem não ser convergentes. (…) 

Os desafios da multifuncionalidade do território rural, levantam novas exigências, assim como novas oportunidades ao sector agrícola – que podem significar a sua sobrevivência, em algumas áreas, embora com outras funções que não a produtiva. Por funções entendem-se a utilização e capacidade de resposta de um território, ou paisagem, face às necessidades, procuras e objectivos da comunidade humana num sentido lato. Estas funções podem corresponder a bens, que podem ser retirados, ou ser considerados removíveis, ou serviços, que não o são, e portanto cuja utilização tem que ser local. Por multifuncionalidade entende-se a integração de várias funções no mesmo espaço e no mesmo tempo, a uma escala determinada. (…).
Todas as paisagens ou unidades espaciais são multifuncionais, mas o grau de multifuncionalidade pode ser muito variável, uma vez que a vocação por uma ou várias funções é altamente contextualizada – nem todas as unidades espaciais têm capacidade ou vocação para assegurar todas as funções. (…) Ou seja, pretende-se compreender não o sector agrícola em si, mas o sector agrícola na sua interligação com a paisagem e a sociedade no espaço rural. Esta abordagem, onde o território é uma categoria central, considera na realidade o espaço como um ponto de encontro entre a agricultura e a sociedade em geral. Assumindo que as áreas rurais deixaram de estar automaticamente ancoradas ao sector agrícola, mas cada vez mais representam realidades múltiplas, nas quais a agricultura tem que co-existir com outros usos do solo e outros interesses, torna-se necessário desenvolver novas abordagens (...)".
in "Estudo sobre o Abandono em Portugal Continental. Análise das Dinâmicas da Ocupação do Solo, do Sector Agrícola e da Comunidade Rural". Teresa Pinto Correia e colaboradores. Universidade de Évora, 2006".

publicado por Fernando Delgado às 01:15
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Sexta-feira, 24 de Março de 2006

Sustentabilidade

“(…) O conceito de sustentabilidade surgiu e divulgou-se a nível mundial em iniciativas e relatórios, promovidos pelas Nações Unidas e outras organizações internacionais – World Conservation Strategy (1981), Brutland Report (1987), Carring for da Earth (1992), Conferência do Rio (1992) -, como resposta ao modo considerado insustentável, excessivo e com desperdício, como o ambiente e os recursos naturais vinham sendo utilizados. Desenvolvimento sustentável, segundo Brutland Report (1987), será o desenvolvimento que vai de encontro às necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras para ir de encontro às suas próprias necessidades.
 
Lowe (1998) defende, por sua vez, que o conceito de sustentabilidade deseja não só estabelecer a ponte entre o desenvolvimento económico e protecção ambiental, mas também abarcar a viabilidade dos espaços sociais locais, para os quais a manutenção de ambos, a actividade económica e o ambiente, são cruciais. Caso particular dos espaços sociais rurais. Nesta óptica, o ambiente e o meio natural deixaram de ser considerados apenas em termos de limitações que era necessário colocar ao uso excessivo e com desperdício dos recursos, para passarem a serem tomados também como um atributo, um atributo específico de um território sobre o qual é possível fundar estratégias de valorização e desenvolvimento económico e social. O ambiente passou a ser tomado como um quadro físico de vida das populações.
 
(…) Daqui decorrem novas dimensões para o conceito de sustentabilidade que se podem sintetizar na resposta às questões: que escolhas e que tipo de cálculos introduz a sustentabilidade no processo de desenvolvimento? A resposta envolve duas componentes: a primeira, é que a sustentabilidade tornou necessária a introdução de questões ambientais na elaboração da política económica, reconhecendo o facto que a qualidade ambiental é uma componente chave do bem estar humano; a segunda, decorrente da primeira, é que a sustentabilidade introduz a questão das prioridades sociais do desenvolvimento económico, as consequências distributivas do desenvolvimento.
 
Sustentabilidade implica assim um compromisso com uma distribuição mais justa da riqueza e dos recursos dentro da geração presente (equidade intrageracional) e com a conservação dos recursos para o uso das futuras gerações (equidade intergeracional).
(…)”
 
J. F. Ferragolo da Veiga, in Território e Desenvolvimento Local

publicado por Fernando Delgado às 00:03
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

Miguel Sousa Tavares

(Com a devida vénia - nem sei se isto se pode fazer... - aqui fica um texto que poderia e deveria ser enviado a todos os Presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia do País. É de uma simplicidade tão grande que o próprio autor acha que pode ser “absurdo”, embora me pareça que este “absurdo” não passa de uma desculpa face a alguns leitores: “desculpem lá, apeteceu-me dizer isto!”. Por mim, que por obrigação profissional tenho que pensar nestas coisas, vou lembrar-me sempre deste exemplo, e, sempre que puder, vou atirá-lo à cara de alguns autarcas, especialistas em rotundas, fachadas com triângulos coloridos e outras coisas estranhamente geométricas... E que simples seria “fazer” um mercado de Campo de Ourique na maioria das cidades deste país...)
 
 “Viva Campo de Ourique
Tarde na manhã de sábado vou ao mercado de Campo de Ourique, um quadrado ocupando todo um quarteirão e com entradas por cada um dos lados dos pontos cardeais. Cheira a fruta e a legumes, ainda orvalhados da terra, cheira a cebolas, a coentros, a maçãs e a laranjas: nenhum supermercado cheira assim. Uma peça de fruta nunca é igual à outra, há que escolhê-las uma a uma, porque algumas têm bicho e outras não, algumas estão maduras de mais e outras ainda verdes. Saboreio este prazer de escolher peça a peça a fruta e os legumes, as saladas e os temperos, sem ter de levar, e sem poder escolher, embalagens já prontas de fruta asséptica e normalizada, legumes de sabor sempre igual trazidos de Espanha em camiões TIR pelas auto-estradas que construímos para lhes facilitar a vida. Aqui, até há pêras de Alcobaça, grandes e castanhas, em que se tem de pegar delicadamente para que o seu sumo não escorra pelas mãos, há tangerinas e laranjas que não vêm de Israel já com o selo colado na casca, mas dos pomares que ainda restam à volta de Lisboa, há uvas tardias, mas moscatel ou D. Maria genuínas, e não aquelas uvas monstruosas e que não sabem rigorosamente a nada, que vêm da África do Sul e que encontramos inevitavelmente, como sinal de boas-vindas nos quartos de hotel em qualquer paragem do mundo. E há frutos secos a granel e a peso: figos, passas castanhas, ameixas, amendoins, pinhões, nozes. E azeitonas verdadeiras e tremoços, meu Deus!
Depois vou até às bancas de mármore das peixeiras, onde o peixe vindo de madrugada de Sesimbra ou de Peniche brilha com uma humidade prateada, misturada com uma quase imperceptível camada de gordura ainda à flor da pele, sinal iniludível da frescura do dia. O sol da manhã de Outono entra disfarçado pelas janelas altas do mercado e reflecte-se nos olhos dos peixes, que repousam nas bancas como se ainda estivessem vivos. E eis o peixe mais fantástico do mundo, esse verdadeiro luxo que ainda nos resta: pregados, linguados, imperadores, salmonetes, besugos, carapau francês, peixe-galo, garoupa, cherne, lulas e choquinhos com tinta: tenho pena do resto do mundo dito civilizado, onde nem se quer se conhecem os peixes pelo nome!
Um bairro para viver tem de começar assim: com um mercado que é uma festa para os sentidos, um regresso aos sabores e aos cheiros que nos educaram. Campo de Ourique começa assim e continua depois, com tudo aquilo que faz deste bairro quase um milagre de espaço urbano perfeito: ruas largas, onde se passeiam casais, carrinhos de crianças e empregados no intervalo do almoço; comércio tradicional e personalizado, com algumas lojas ainda conhecidas pelo nome dos donos – a florista, o cabeleireiro, a loja de comida feita, o electricista, o oculista, a loja de ferragens, a papelaria-tabacaria, a casa das fechaduras, a loja de surf; e os cafés, com esplanadas conquistadas ao passeio e ao Millenium-BCP, com os seus quiosques de jornais cujos donos nos conhecem já tão bem que os dias nem sequer começariam sem o bom-dia deles. Campo de Ourique tem tudo isso, mais o jardim central, os seus pequenos restaurantes de culto, os seus excêntricos ou loucos já familiares a todos. Outras coisas felizmente não tem e muito do prazer de andar nestas ruas deve-se a essas ausências: prédios em altura e de fachadas preconceituosas, porteiros e seguranças de prédios, polícias de trânsito a tentar tornar a vida impossível. Aqui funciona como que uma auto-regulação da via pública, com um sentido natural de comunidade, em que ninguém se mete com os outros e toda a autoridade se torna dispicienda graças ao respeito mútuo pela liberdade de cada um. O melhor exemplo deste espírito de liberdade e tolerância mútua que aqui presenciei é um exemplo muito politicamente incorrecto, ocorrido manhã cedo, no café onde sempre tomo o pequeno-almoço. Uma senhora, cliente habitual, pediu um café e acendeu um cigarro. Nesta altura, um sujeito que eu nunca ali tinha visto e nunca voltei a ver, empertigou-se todo e, rico de novos conhecimentos adquiridos, interpelou-a: “Minha senhora, o cheiro do seu cigarro está-me a incomodar! E ela, sem sequer se voltar, soltou de lado, mas alto e bom som: “Olhe, também o seu cheiro me está a incomodar, mas eu não lhe ia dizer nada”. E o intruso saiu, de rabo entre as pernas e perante os sorrisos cúmplices dos habituées (oh, eu sei, um bando de selvagens!).
Pensando na explosão de ódio e de revolta que agora se vive à volta das cidades francesas, naquelas comunidades inteiras de populações imigrantes que não se sentem ligadas cultural e afectivamente aos locais onde vivem, que vêem o bairro como uma prisão e a rua como um terreno de confronto, dou-me conta até que ponto Campo de Ourique (não sei se por gestação espontânea, se porque alguém planeou e previu bem as coisas) é um bairro modelar, em termos de integração social interclassista e intergeracional, de justo equilíbrio entre comércio, serviços e habitação, entre espaços públicos e privados. E, afinal, este tão raro exemplo de harmonia e qualidade de vida urbana não precisa de nenhuma grande construção de referência, nenhuma urbanização de encher o olho, nenhum centro comercial (antes pelo contrário, o segredo é não o ter), nenhuma piscina municipal nem pavilhão gimnodesportivo, nenhuma rotunda com canteiros e estátuas pseudomodernas, enfim, nada que encha o olho e que mostre dinheiros públicos ou fortunas privadas. Apenas bom senso, sentido de equilíbrio e proporção humana. Depois, as pessoas fazem o resto: andam na rua sem pressa nem atropelos, param para conversar à porta das lojas, saúdam-se nas esquinas, passeiam as crianças, os velhos ou os cães, namoram ou lêem o jornal nas esplanadas, almoçam a horas certas na sua mesa de sempre dos seus pequenos restaurantes, numa palavra, vivem a cidade, não se limitam a sofrê-la ou a passar por ela. Certamente que aqui também há gente triste, sozinha, com vidas terríveis. Mas, pelo menos, a rua não os agride: conforta-os, distrai-os e, acima de tudo, dá-lhes um sentido de pertença a uma comunidade - que hoje é coisa tão rara e tão precisa numa cidade, como são o peixe, a fruta e os legumes do Mercado de Campo de Ourique.
Sei que este texto pode parecer um bocado absurdo, no meio desta eterna agitação em que vivemos. Mas trata-se de uma dívida de gratidão com o “meu” bairro, que eu precisava de saldar um dia. E também, já agora e aproveitando a oportunidade, trata-se igualmente de um apelo que faço a quem manda e a quem pode: por favor, não estraguem Campo de Ourique! Não é preciso muito: basta não fazerem nada.”
 
Miguel Sousa Tavares, Público, 11.11.2005

publicado por Fernando Delgado às 00:30
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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2005

Emparcelamento

Ainda o emparcelamento


«[...]

A primeira questão prende-se com o objectivo que se deve atribuir ao emparcelamento, discussão que condiciona as restantes. Posto de outra forma, o emparcelamento serve prioritariamente uma estratégia de modernização dos sectores mais competitivos da agricultura portuguesa ou deve procurar ser um instrumento de gestão do território, como sugerido pelo conceito de 'emparcelamento rural integrado'? Naturalmente a resposta a esta questão não pode deixar de ter em conta o elevado custo destas operações, que as tornaram dependentes da disponibilidade de verbas nos sucessivos QCA, nem a sua longa duração (em nenhuma das operações iniciadas no início da década de 90 se chegou ainda ao fim da fase de elaboração de projecto), bem como o facto da agricultura portuguesa não ter ultrapassado ainda os seus problemas de ajustamento estrutural. Dentro deste contexto, não parece possível continuar a defender uma política que considera desejável a realização do emparcelamento em todo o território, aparentemente sem grande critério na selecção das áreas a emparcelar. Levanta-se, em consequência, a segunda questão: como fazer a selecção dessas mesmas áreas? Este é, como se compreende, um aspecto central de qualquer processo que pretenda devolver algum sentido à política de emparcelamento, entendida como parte de uma política agrícola nacional. A resposta a esta pergunta relaciona-se, de forma próxima, com a de outras, a saber: qual a importância da redução da dispersão da propriedade para o funcionamento da exploração agrícola e quais podem ser as alternativas ao emparcelamento? Em relação à primeira destas questões (...), bastaria prestar mais atenção ao retrato da realidade fornecido por alguns estudos prévios, onde se demonstra como à reduzida dimensão da propriedade não corresponde uma reduzida dimensão da exploração: existe um mercado de arrendamento de terra, que muitas vezes não cumpre os requisitos formais, mas que funciona e permite solucionar alguns dos problemas que a reduzida dimensão da propriedade poderia colocar. Se tal solução se fez à custa de uma maior dispersão das parcelas, tal apenas demonstra que este não é o problema central para o funcionamento das explorações. (...) à segunda destas questões há que prestar atenção a um vício de linguagem (...): o de equiparar o termo emparcelamento com o que a actual legislação designa como emparcelamento integral, isto é, com um processo de troca de terras num perímetro bem delimitado. Este equívoco leva, naturalmente, a menorizar a importância de todas as outras modalidades de emparcelamento, o que conduziu ao seu total esquecimento (...). A este respeito parece necessário reafirmar a importância das iniciativas de emparcelamento que privilegiaram o funcionamento da exploração, em detrimento da exclusividade dispensada às trocas de propriedade.[...]»



Paulo Santos in Aspirações e Realidades do Emparcelamento em Portugal

publicado por Fernando Delgado às 17:04
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Terça-feira, 12 de Julho de 2005

Outros Olhares

Pic9050.jpg

("Refugiados" no Tejo Internacional.)

publicado por Fernando Delgado às 01:52
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Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Ruralidades

Olhemos para o fenómeno mais visto neste quotidiano de Julho: os incêndios. Qual é o ponto de partida? Não sei, mas excluo, porque não me interessa, o aspecto mediático da questão. Vamos ao que me parece essencial, ao ponto de partida, às políticas rurais do Estado Novo, às migrações das décadas de 60 e 70 e às políticas erráticas das últimas três décadas. Estamos a falar de um período muito longo que é o que mais me assusta em tudo isto. Assusta porque demonstra que os desequilíbrios levam muito tempo a consolidarem-se e a revelarem as suas consequências e, mais dramático, os "novos" equilibrios levarão ainda mais tempo a emergirem deste "caldo" instável. Este é um período de caos, em que a previsibilidade relativamente ao que acontecerá ao mundo rural é quase nula. Depende do ponto de partida e este é fluído, reflecte apenas as contradições do passado e as incertezas do presente. Mas há duas notas de optimismo em tudo isto. A primeira exprime a convicção de que o rural é o único sistema que se consegue autoregular à revelia do "regulador". Demora é demasiado tempo a "revoltar-se". O segundo traduz a vontade de participar nesse sistema de autoregulação, mesmo sabendo que o meu tempo de acção é ínfimo, quase nada. Por muito que a afirmação seja chocante, este inferno de chamas faz parte deste longo percurso. Triste e inevitável, apesar de imprevisível. O surgimento de novos equilíbrios depende de uma gestação longa e conturbada, que não exclui a acção quotidiana, mas claramente a limita à sua verdadeira dimensão.
(Embora não o diga, talvez por medo de assumir o pessimismo que o pensamento em si encerra, recorro muitas vezes ao princípio da incerteza e à teoria do caos para justificar algumas das perplexidades que o meu olhar distraído vorazmente capta de alguns fenómenos que aparentemente se repetem. Não se trata de acreditar ou não na capacidade da ciência e dos homens para explicar e resolver os fenómenos. Trata-se tão só de admitir que, apesar da matemática, da física, da biologia, dos computadores..., do dinheiro, a previsibilidade tem limites, isto é, o futuro depende do ponto de partida e este foi ignorado ou é incerto, e a capacidade de detectar e alterar o rumo das coisas encerra sempre uma enorme probabilidade de erro).

publicado por Fernando Delgado às 23:53
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2005

Emparcelamento

Pic0088.jpg 

O mito do emparcelamento
"Pode-se, assim, afirmar que, na generalidade das situações que caracterizam actualmente a pequena agricultura em Portugal, o recurso ao emparcelamento não constitui um factor determinante para o aumento da competitividade agrícola deste tipo de explorações agrícolas, sendo muito pouco provável que os reduzidos benefícios económicos alcançados compensem os relativamente elevados custos económicos normalmente associados com as operações de emparcelamento. (...)
Na situação mais usual das pequenas explorações agrícolas familiares (sobrequipamento e subemprego), os ganhos económicos alcançáveis com o aumento da área das explorações agrícolas são significativamente superiores aos esperados com o respectivo emparcelamento, mesmo que tal crescimento na dimensão implique uma maior fragmentação da exploração. Justifica-se, portanto, em nosso entender, que as políticas em vigor que condicionam os incentivos ao aumento da área das explorações à verificação de condições favoráveis no contexto do respectivo emparcelamento, deverão ser alteradas. (...) O aumento da área das explorações deverá ser incentivado através de alterações nas políticas fundiárias e de crédito de forma a eliminar exigências relacionadas, quer com a dimensão mínima das parcelas, quer com a sua contiguidade.(...)"
 Avillez, F; Nina Jorge, M. "Algumas reflexões sobre a racionalidade económica das políticas de emparcelamento da propriedade rústica em Portugal" in Terra e Tecnologia, Século e Meio de Debates e Políticas de Emparcelamento.

publicado por Fernando Delgado às 23:44
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Terça-feira, 28 de Junho de 2005

Ruralidades

"Metade de uma aldeia da Guarda está à venda na Internet
Amadeu Eiras está a leiloar nove casas de granito. Comprou-as para um projecto turístico, mas os apoios não apareceram. A base de licitação vai nos 121 mil euros. Tudo porque Amadeu Eiras decidiu alienar nove casas pelo melhor preço. O lugar chama-se Gonçalveiros e fica perdido entre as freguesias do Codeceiro e Guilhafonso. "Aldeia calma com dois habitantes, a dez quilómetros da Guarda", publicita o site de leilões onde o proprietário procura compradores. Gonçalveiros é hoje um cenário de casas abandonadas, muitas delas em ruína. Nas ruelas, as pessoas foram substituídas pelas ervas daninhas e o mato, que vai tomando conta de uma localidade esquecida no final de um caminho sinuoso e de terra batida. Mas era a "aldeia dos sonhos" de Amadeu Eiras, que a descobriu por acaso e foi comprando casas para concretizar um pequeno aldeamento de turismo rural. Só que as "rasteiras da vida" e a crise puseram termo à iniciativa, apesar de, entretanto, ter tirado um curso de gestão hoteleira. "O investimento é muito avultado e não consigo suportá-lo sozinho, mas é com o coração despedaçado que me vejo na obrigação de me desfazer destas casas", lamenta-se, considerando que os projectos turísticos "já não são apoiados como antigamente". A ideia do leilão na Internet surgiu depois de ver uma reportagem sobre um grupo alemão que comprou uma aldeia portuguesa. Um amigo fez o resto e colocou as casas de Gonçalveiros na net, onde a base de licitação vai nos 121 mil euros. Apesar de já ter recebido algumas propostas, Amadeu Eiras ainda não concretizou o negócio. "Todos querem comprar individualmente, só que eu não vendo em separado porque o conjunto está vocacionado para o aldeamento turístico. Para além de que assim desprendo-me logo de tudo", explica. O negócio implica nove casas de granito, de várias dimensões, que necessitam de reparações, e a antiga propriedade do senhorio da aldeia. Mas também um terreno com cerca de 10 hectares para onde Amadeu Eiras tinha idealizado um campo de golfe e uma piscina. Dez quilómetros separam Gonçalveiros da capital do distrito. O acesso faz-se pela EN 221 (Guarda-Pinhel) e vira-se em Guilhafonso. Depois segue-se por uma estrada em terra batida..."
(Jornal de Notícias, 28-06-2005)

publicado por Fernando Delgado às 10:25
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2005

Ruralidades

Pic1092.jpg

As opções político-institucionais têm uma clara influência nas dinâmicas dos espaços rurais e consequentemente no seu futuro, mesmo que aparentemente se restrinjam a aspectos de natureza mais sectorial. Por exemplo a recente reforma da PAC é frequentemente alvo de críticas muito profundas, com o argumento de que o desligamento das ajudas promove o abandono agrícola. Sendo a agricultura uma essência dos espaços rurais, tudo indica que estamos de facto perante um incentivo político-institucional a um processo que, só por si, já tinha tendências de seguir este rumo, alterando-se assim apenas o ritmo com que se chegaria a essa aparente inevitabilidade. Tenho grandes dificuldades em compreender este ponto de vista, muito pessimista, ainda que reconheça que é muito difícil contrariá-lo, sobretudo quando se assiste a uma erosão muito acentuada dos principais factores que influenciam o rural. De facto, a par do despovoamento humano verificou-se uma forte queda da densidade de actividades e de actores, quebrando-se as dinâmicas sociais, culturais e económicas que, por definição, sustentam o rural. Mas defender que a reforma da PAC e o desligamento das ajudas são responsáveis por este problema, no que à agricultura diz respeito, é ignorar o que foi a agricultura com as ajudas directas (não desligadas). É ignorar que existia uma pseudo-agricultura baseada num conjunto de decisões subsídio-dependentes, na maior parte dos casos afastadas de qualquer racionalidade técnico-económica e ambiental. É ignorar que esta agricultura fragilizava o rural, na medida em que tendia a marginalizar-se num dogma de dimensão física, desfazendo-se da dimensão do trabalho e, por isso, dum conjunto de relações de vizinhança indispensáveis à sustentabilidade do rural. Mas obviamente existem consequências que deverão ser analisadas e avaliadas ao nível do território, constituindo a agricultura, nas suas funções económica, ambiental, patrimonial e cultural, entre outras, apenas um elemento dessa análise, ainda que determinante. Isto é, o que me preocupa não são as consequências directas na agricultura de uma contestada reforma da PAC, mas os efeitos que poderão ter nas dinâmicas rurais e na consequente arquitectura dos seus valores, imprescindíveis a um coerente ordenamento do território. Também por isso, voltarei aqui...

publicado por Fernando Delgado às 02:00
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Terça-feira, 21 de Junho de 2005

Agricultura e territórios

(...) "Hoje, como no último século e meio, em Portugal como nos outros países da Europa, a acção do Estado marca decisivamente o percurso da agricultura, do espaço e do rural. O lugar que os actuais habitantes do rural vierem a ter no futuro que agora se está a construir depende, sobretudo, das opções do Estado e, em particular, do modo como as políticas destinadas à agricultura e à floresta favorecerem os equilíbrios do rural, e de como o Estado apoiar a apropriação dos mercados ambiental e local pelas comunidades rurais. Para se avançar neste sentido não podem continuar a afastar-se questões como: a fixação de limites acentuados à quantia máxima que cada beneficiário pode receber em subsídios e ajudas da Política Agrícola Comum; articular a concessão destes apoios ao trabalho e não apenas à dimensão física das unidades; privilegiar as iniciativas dos que ainda habitam o rural na constituição de novos mercados; estimular a participação local e criar as condições institucionais para que se possa traduzir em actos e realizações; intervir na estrutura fundiária de molde a impedir que haja uma crescente dissociação entre a propriedade fundiária e o trabalho; etc. A alternativa é a manutenção da orientação actual, que se traduziria, por exemplo, no possível surgimento de um capitalismo agrícola assente em trabalho barato e clandestino (como poderá suceder no futuro regadio do Alqueva) e na progressiva erosão do rural, cuja presença continuaria a declinar na mediação da sociedade com o seu espaço." (...)

Fernando O. Baptista in Agriculturas e Territórios.

publicado por Fernando Delgado às 11:18
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