Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

O Bom Malandro

(O que mais gosto no Mário é a linguagem simples e directa, o humor certeiro e aquele ar malandro depurado pela idade. Lembra-me um pouco Clint Eastwood e os seus filmes, com imagens cruas e diálogos mínimos, sem adjectivos inúteis)

  

«[...]

O meu irmão apareceu-me no consultório, problema de laringite, nada de grave. Conversámos.

- Tenho uma namorada nova - revelou ele.

- Bravo. E é bonita?

- Não tanto como a Mau. Cheguei a contar-te porque nos separámos?

- Nunca, Heitor.

- Ela tinha um caso com a nossa prima Li.»

 

Mário Zambujal in Longe É Um Bom Lugar. Clube do Autor, 2ª ed. pp 49.

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publicado por Fernando Delgado às 23:58
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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Tulipas de Pingo Doce

(A notícia é recente: "Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal". Não me apetece tecer grandes comentários, mas de repente lembrei-me de um texto, já com uns bons anos, de A. Barreto - quem diria... Aqui fica, apesar de já antes me ter referido a ele.)

 

 

«A minha pátria é uma conta bancária


Crimes, casamentos e luta entre poderosos: eis três dos mais atraentes condimentos da crónica que excita toda a gente. Nem as misérias humanas, que as televisões transformaram em notícias, destronam aqueles clássicos. Apesar disso, a ficção vem desvalorizando o crime. E o casamento, por causa do sexo, já não é o que era. Só a luta entre os ricos mantém toda a sua potencialidade. As disputas entre a família Champalimaud, o Govemo, os banqueiros portugueses e um banco espanhol estão nesse caso.

É interessante verificar como os argumentos, de qualquer lado, são comuns. A palavra dada, os compromissos, a honra, a liberdade, a transparência, a legalidade e o interesse nacional são invocados por todos. Rapidamente se percebe que a querela é política. O que está em causa é o poder. E, como nos filmes, a vingança. Depressa se compreende que os participantes neste enredo têm as suas interpretações dos valores em causa. A família Champalimaud, por exemplo, cujas contribuições para a história contenciosa portuguesa são famosas, tem ideias próprias sobre a palavra, a honra e a pátria. E todos os restantes têm as suas ideias sobre tais vocábulos e realidades.

As profissões têm códigos de conduta. Os estados e as condições também. Da ética empresarial, por exemplo, não fazem parte a palavra, a honra e o patriotismo. Pode um empresário, como ser humano, cultivar tais valores. É melhor que assim seja. Mas, como profissional, não é o que se Ihe pede. Exige-se-lhe, isso sim, que ganhe. Podemos não gostar. Mas as coisas são assim.

Compare-se com a ética política, por exemplo. Ou com a do desporto. Para já não dizer a militar. Diferentes umas das outras, integrando valores diversos, têm princípios afins. Entre eles: ganhar. É sabido como, na guerra, se perdoa tudo ao nosso soldado, enquanto tudo se condena ao adversário. Ou como, no desporto, o fim justifica os meios. Ou ainda como, na política, para uma vitória eleitoral, vale tudo.

É infeliz que assim seja. Gostamos mais de um “cavalheiro”. Admiramos o fair play. Elogiamos quem, a ganhar mal, prefira perder bem. Apreciamos os que respeitam regras de generosidade. E sublinhamos o princípio moral de que os fins não justificam os meios. Eis valores que nos permitem viver numa meIhor sociedade do que aquela onde apenas vigorem as éticas do sucesso e da vitória.

Mas muito disso é literatura. Aos nossos soldados perdoa-se e exige-se tudo, sobretudo em campo de guerra, onde todos os princípios morais estão suspensos. As hordas desportistas estão quase sempre à beira do massacre do inimigo, literalmente. À procura da vitória, os militantes políticos estão geralmente prontos para tudo. À espera de lucros, empresários e accionistas “não olham a meios”. Um empresário não tem de ter palavra e honra. Um homem sim. Mas um empresário tem de ter balanços e cash flow.

Previsivelmente, bairristas ou seguidores, soldados ou accionistas, evitam argumentar com os seus interesses: eles sabem que, fora das profissões, algures no património de uma comunidade, há valores mais universais que poderão formar uma moral comum. Ou uma cultura. Por isso os argumentos são sempre gerais e abstractos. Para defender o seu interesse, o aficionado, o guerreiro ou o capitalista afirmarão sempre a sua honra, a palavra, o interesse nacional, a justiça e a ética.

Estamos pois no reino de uma semântica social e de códigos de conduta privados. Não duvido de que Champalimaud seja patriota, com a sua ideia própria de pátria, urna pátria cujo governo lhe deixe fazer o que quer. No exercício da sua profissão, para que tem, dizem, excepcional talento, fez o que sabe: negócios, bluffs, ousadias, manobras de diversão e mais-valias. Pôs em prática, no seu interesse, os desejos de internacionalização tão apregoados pelas autoridades. Se faltou a regras de cortesia, a compromissos e a palavra dada, terá sido em nome da sua empresa, que é a sua pátria.

A este propósito, o argumento que defende o capitalismo nacional é débil. Com efeito, a vontade de preservar em mãos nacionais o capital de um grande grupo não resiste à primeira prova. E se o interesse desse capitalista nacional é o de vender a quem melhor paga? E se o interesse do grupo é o de se submeter a um mais poderoso? Será que a decisão de vender a estrangeiros, tomada por um reputadamente bom empresário português, faz dele um traidor?

Quanto ao Governo, aos governos, sobretudo o actual, mas também o anterior, o que lhes critico é de não saberem o que querem. Ou antes, de quererem tudo. Investimento estrangeiro e capitalismo nacional. Multinacionais e capitalistas portugueses. Grupos fortes e controlo político. Internacionalização e nacionalismo económico. Grandes barões e capitalismo popular. Centros de racionalidade e democracia económica. Livre iniciativa e selecção dos bons capitalistas. Das leis gerais sobre privatizações, aos diplomas de alienação, raramente os governos foram precisos quanto aos papéis respectivos do Estado e do mercado. E nas negociações concretas, sempre o Estado demonstrou querer guardar, informalmente, prerrogativas que não assumia explicitamente. O que em resumo se diz: não sabem o que querem.

Aprendi, há muitos anos, que a neutralidade pode ser um defeito. Houve até quem dela fizesse o “último círculo do inferno”. Mas a vida também me ensinou a reconhecer que há combates que não nos dizem respeito. E que, nesses, só tomam partido os interessados, os fanáticos e os parvos. Pela sucessão de gestos de um e de outro, entre o Governo e Champalimaud, venha o Diabo e escolha. E que tenha bom proveito.

Completamente bêbedo, um tenor de ópera deu, em Londres, conferência de imprensa. Ladeado de dois membros do Governo português, que ali se deslocaram de propósito, defendeu a realização de um campeonato de futebol em Portugal. Tendo-lhe alguém perguntado porquê, respondeu: “Porque o Governo português foi o primeiro a pedir.” Também aqui, pelos vistos, vale tudo.

(20. 6. 1999)

 

António Barreto. Uma Década. Retrato da semana 1991-1999. Relógio d'água. pp 499-502.

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Kundera

«[...]

Nunca acabaremos de criticar os que nos deformam o passado, o reescrevem, o falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, calam a de outro; estas críticas são justas (não podem deixar de sê-lo), mas não têm grande importância se não forem precedidas de uma crítica mais elementar: a crítica da memória humana enquanto tal. Porque que pode esta, pobre dela, na verdade? Não é capaz de reter o passado mais do que uma miserável parcelazinha, sem que ninguém saiba por que motivo justamente esta e não outra, uma vez que tal escolha, em cada um de nós, se faz misteriosamente, à margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: uma realidade, tal como existia enquanto existia, já não existe; a sua restituição é impossível.

(...)

Imagino a emoção de dois seres que voltam a ver-se passados anos. Outrora frequentaram-se, e pensaram por isso estar ligados pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. As mesmas recordações? É aqui que o mal-entendido começa: não têm as mesmas recordações; os dois guardam do passado duas ou três pequenas situações, mas cada um tem as suas; as suas recordações não são parecidas; não se encontram; e nem sequer quantitativamente são comparáveis: um recorda-se do outro mais que o outro se recorda dele; primeiro porque a capacidade de memória difere de um indivíduo para outro (o que seria ainda uma explicação aceitável para cada um deles), mas também (e é mais penoso admiti-lo) porque não têm a mesma importância um para o outro. Quando Irena viu Josef no aeroporto, lembrava-se de cada pormenor da aventura passada de ambos; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro segundo, o seu encontro assentava numa desigualdade injusta e revoltante.

[...]»

 

Milan Kundera in A Ignorância. D. Quixote, 1ª ed. pp 101-103.

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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

... (ainda) Lobo Antunes

(O Expresso publica cinco textos de cinco "criticos literários" sobre o livro "Comissão das Lágrimas", de Lobo Antunes. Parece que não sou o único leitor angustiado...)

 

 

«[...] Os acontecimentos de 1977 são tão trágicos e fortes que se fica com a vontade de que "Comissão das Lágrimas" fosse um romance sobre a Comissão das Lágrimas; porém, Lobo Antunes afasta-se desse caminho, o que lhe interessa são as vozes que vivem na cabeça da narradora, cujo pai foi um dos torcionários, e que explica agora pecados alheios dando voz a mortos e vivos. O texto, torrencial mas elíptico, cruza tempos e testemunhos, repete frases e estribilhos, comentários racistas, memórias de família, conversas de seminaristas e coristas, associações livres, confusas e poderosamente poéticas. [...]

Pedro Mexia

 

«[...] E ainda que seja justo reconhecer que conseguimos isolar frases, excertos, páginas que têm uma grande força e densidade, logo somos obrigados a verificar que eles são submetidos a um dispositivo que os evazia e tudo devolve, transformado no artifíco gratuito de uma hiperliteratura deslumbrada consigo mesmo.»

António Guerreiro

 

«[...] Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é aqui também que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo que maravilhados). [...]»

José Mário Silva

 

«[...] E mais uma vez em Lobo Antunes seria preciso regressar à inocência da infância, no pressuposto de que tal coisa possa existir.»

Ana Cristina Leonardo

 

«[...] O mesmo Lobo Antunes criou uma persona que inventou a literatura como "evento" e o escritor como "personagem literária" e vagamente angustiada, pendente dos grandes temas, enquanto nos convida a torpedear a vexata quaestia: o livro presta? Nem sempre. Os títulos continuam soberbos e as entrevistas também. Lobo Antunes é um virtuoso do florete e do floreado e pratica uma esgrima que prescinde das perguntas piedosas dos jornalistas. Há anos que não consigo acabar um livro dele. Acabei este. Monólogos da consciência, fragmentos de memória e passado, destruição de tempo e lugar que passam a unidades imateriais da escrita, nomes que não existem na economia narrativa nem na voz narrativa. Aparecem e desaparecem. [...]»

Clara Ferreira Alves

 

Expresso. Suplemento Actual. Nº 2033. 15.10.2011.

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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

António Lobo Antunes

(Ó António, começa a ser quase impossível ler o que escreves. Não é que espere uma história escorreita e simples - até porque sei que não gostas de contar histórias, mas de estar perto do coração da vida, signifique isso o que significar…-, mas apenas uma escrita que não me canse, não me deixe de rastos ao fim de uma hora de leitura. Já foi difícil com Ontem Não Te Vi Em Babilónia e com Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, os teus dois últimos livros que li, mas agora é quase insuportável. Admito que esta não seja a noite para ler mas, que diabo, estar mais perto do coração da vida é estar mais longe da compreensão da escrita?

Transcrevo, mas transcrevo mesmo, palavra a palavra, sem scanner, numa tentativa de melhor entender essas palavras, o iníco do terceiro capítulo do teu livro, prometendo que amanhã farei outra tentativa de leitura).

 

 

«Se as vozes não voltam não se escreve este livro: que dizia ela, que digo eu que não seja ditado pelas folhas e as coisas ou então desconhecidos na minha cabeça a discorrerem sem fim, sementes de avenca falando de nós, eu a convocar ambulâncias e joelhos doentes, a repeli-los

         - Enganei-me

         enquanto a minha mãe coxeia a sua desgraça, feita de granito em labaredas, e o meu pai, atrás dos cavalos e bispos de xadrez, à espera que o matem quando sou eu que desejam matar, bem lhes sinto as ameaças desde Moçâmedes

         - Ai Cristina

         assim que o mar de um lado, e o deserto do outro, principiaram a empurrar-me para o interior do meu corpo em que fui tão grande em pequena e me limito agora a um cubículo onde explodem granadas que me desfazem osso a osso, não olho para ninguém, não respondo, permaneço quieta na Clínica e quieta na sala, no desejo que não dêem  por mim nem pela minha mãe na província, diante do espantalho da horta

         - Qual de nós dois é a Alice?

         enquanto o avô tacteia o mundo com a cabeça ao alto dos cegos, convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes

         - Rapariga

         um espantalho de boina e sobretudo, com restos de luvas nas canas dos braços, que os tordos não respeitam, tronco de palha com um seixo a imitar o coração a contrair-se lá dentro, foi o avô quem introduziu o coração na palha

         - Deixem-no viver como a gente

         e no de a mãe se aproximar a pedra viva latia, como tudo late também em África incluindo os defuntos, era necessário perguntar antes de os enterrar

         - Tem a certeza que faleceu?

         eles a pensarem na resposta, apesar de cheirarem a cinzas e capim ardido, e todas aquelas moscas passeando na pele

         - Acho que sim mas não tenho a certeza

porque convém medirmo-nos com atenção a fim de saber como estamos, avaliar o pulso, colocar um espelho na boca e notar se embacia ou não embacia, sugerir

         - Mete-se na sepultura a ver

         e no caso de ser incómoda a terra na cara eles previnem

         - Afinal enganei-me

         porque em Angola é assim, tudo ao contrário do que se imagina, chuva para cima em lugar de para baixo e os rios não no sentido do mar, direitinhos à gente, damos pelos finados à mesa, cruzamo-los nas ruas, empregam-se nas estradas a nivelar o alcatrão, o avô da minha mãe desconfiado

         Não andas a mentir?

         e a prova de que não ando a mentir está em que você a disfarçar as ternuras

         - Rapariga

         depois de séculos à conversa com os choupos […]»

 

António Lobo Antunes in Comissão das Lágrimas, pp 49-50. D. Quixote, 3ª ed.

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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Hermann Hesse

«[…]

         Ficará para sempre na minha memória a imagem das caudas dos pavões brilhando nas árvores altas ao luar, e das sereias resplandecendo numa doçura prateada ao emergirem das águas, à beira-mar sombreada entre os rochedos. E de como, solitariamente, sob o castanheiro junto da fonte, o magro Dom Quixote estava de primeira sentinela da noite, enquanto os últimos foguetes do fogo-de-artifício caíam tão suavemente na noite de luar e o meu colega Pablo, coroado de rosas, tocava a charamela para as raparigas.

         Ah, qual de nós teria imaginado que o círculo mágico se iria quebrar em tão pouco tempo. Que quase todos nós – e também eu, também eu! – nos iríamos tornar a perder nos ermos monótonos da realidade rotineira e rotulada, curvando-se, como funcionários públicos e empregados de balcão depois de uma patuscada ou de um passeio de domingo, nova e insipidamente no dia-a-dia do trabalho!

[…]»

 

Herman Hesse in Viagem ao País da Manhã. Cavalo de Ferro, 1ª ed., pp 26-27.

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Terça-feira, 26 de Julho de 2011

valter hugo mãe

«[…]

a teresa diaba já não era filha de ninguém. por muito tempo que se defendeu de bicho e instinto, a diaba era só bicho e instinto, como coisa que veio do mato para se amigar da vida das pessoas. era assim como um animal selvagem com muita vontade de ser doméstico. presa às atitudes dos homens viciara-se em homens, e nada do que fizesse seria honra para qualquer pai que a tivesse. assim era como se dizia, já não era filha de ninguém, se até os pais se recusavam a recordar o nascimento de tão atrofiada mulher, parida entre pernas como feita para alívio, nunca para viver. era disforme em pequeno, ponto pequeno, já feia para assustar as pessoas, e menina, diziam, vai ser bicho do diabo a distribuir o pecado em carne tão azarada. e era nos azares da sua carne que se rejeitava a filiação, para isso se deitou a teresa diaba às sortes, e como vingou não se imagina senão por forças demoníacas que a alimentaram. diaba, grunhindo e zurzindo em busca de prazer, pendurada em galho de homem o dia inteiro, batendo os raquíticos braços como asas, sem poder voar, sem andar direito, nada. todos lho diziam, anda, animal, some-te daqui a ver se te enfias numa toca e não levas uma pedrada. e ela sorria na sua meia loucura e rondava quem lhe falasse. como tive de lhe falar quando a vi, ou se calava do que viu, ou punha-lhe lâmina ao pescoço para a calar de vida. era assim simples, se abres a boca para espalhar o que ouviste sais deste mundo para outro. ela, saia levantada, grunhia risos e pedia-me que entrasse, entra aqui como de costume, estou com saudades tuas, meu amor.

 

o aldegundes duvidava da bondade de se aliviar na rapariga. era das coisas que ouvia na igreja, que humilhante seria fazer dos outros algo impensável. como pô-la de costas quando deus as fizera de frente. e nada de costas, como assim lhe dava prazer, talvez porque tão novo não lhe tivesse crescido o suficiente que enchesse à frente o que era a mulher, e pelas costas melhor se sentia. mas nada tinha importância, como lhe explicava, a ela cumpriam-lhe as forças negativas mais do que as positivas, e ao pôr-se nela havia que temer muito pela própria alma, mais do que pela dela. mas não por deus, que despreza as mulheres e as manchou de pecado, mas pelo diabo, à espreita no corpo delas a tentar agarrar-nos a alma a partir da ponta do badalo, dizia-lhe. ele olhou-me sem felicidade nem amargura, apenas resignado como o seu tempo de crescer, ultrapassado da sarga, olhando-a como a vaca velha e desnatural que não devia nunca parecer-lhe bela.

 

com alguns receios voltei ao corpo da teresa diaba eu também. […]»

 

valter hugo mãe in o remorso de baltazar serapião. Ed. Alfaguara, pp.75-76.

 

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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Gonçalo Tavares

«[…]

      O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem podia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe.

      Quem iria contestar a “vida imoral” de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas.

      Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação.

      Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim.

      De certa maneira, era isso que Buchmann desejava: ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima.

[…]»

 

Gonçalo M. Tavares in Aprender a rezar na Era da Técnica. Caminho, 5ª ed., pp 235-236.

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Domingo, 1 de Maio de 2011

"Ilha sem Barcos"

         «Lembro-me de um tempo em que, na leitura excessiva de metáforas com que então se iludia a realidade, se falar da Beira Interior como se fosse uma “ilha sem barcos”. Essa imagem fugidia era, penso eu, agora, a procura de identificação breve de uma região à escala do país, da sua secular subalternidade cívica e social de pequena pátria, na espessura temporal do seu isolamento, na persistência imutável da realidade que parecia elevar-se da espessura dos dias. Interioridades…

         Era uma insularidade cercada de terra, configurada à solidão do campo e das montanhas, atormentada por um isolamento secular, que a imutabilidade da paisagem parecia ter petrificado. Monsanto, com o seu micro-cosmos arcaico, “nave de pedra”, onde, dizia Namora, “a fraga se torna pesadelo””, é simbolicamente imagem dessa realidade cósmica, retrato de uma portugalidade com séculos de desterro e de mágoas, cuja persistência se tornou num tempo longo de servidão vivido até ao século passado.

         Muitas vezes subi ao cimo dessa montanha de onde se vê a raia, e ao redor da qual se materializam paisagens de tão grande diversidade (“manta de retalhos”, chamou Orlando Ribeiro à Beira Baixa) que espicaçam a imaginação, como naqueles filmes que cavalgam os territórios à procura de paraísos perdidos, com as imagens a galope, rio impetuoso de vida, criando a ilusão de o tempo acelerar para a invenção da felicidade.

         Olhar ao redor, lá do cimo do castelo, até onde os olhos alcançam, quando o céu fica azul da cor do mar e o sol coado do fim da tarde poisa súbita nitidez nas coisas, é ter a percepção da lonjura da Beira na sua continuidade transfronteiriça, velhos castelos, onde aldeias e vilas se acolhiam à protecção, praças fortes de defesa colectiva, lugares que arvoravam ao alto a bandeira da independência, quando as gentes daqui eram insubstituíveis na sua condição de “carne para canhão”. Hoje, essa linha territorial da fronteira dissipou-se e está povoada de silêncios e de vazio humano, estigmatizada como espaço periférico de “baixa densidade”.

         Mas Monsanto guarda memórias e imaginários dessas guerras e do seu carácter inexpugnável, como a lenda que regista a resistência da população, durante anos refugiada no castelo. Conta-se: face ao cerco implacável, e à beira de esgotados todos os mantimentos, decidiram os sitiados atirar encosta abaixo uma bezerra engordada com o último trigo, para dizer aos sitiantes que não se rendiam pela fome. Todos os anos, em Maio, eleva-se no ar o som dos adufes e dos cantares, em tons vagamente árabes de funda inquietação. É a população que sobe ao castelo para atirar das muralhas potes de barro enfeitados com flores – “remake” possível do sacrifício da bezerra engordada com o trigo da fome.

         Neste regresso à memória do imaginário de Monsanto, parece-me ouvir Catarina Chitas com a sua voz belíssima, como pranto magoado de séculos, cantar a imemorial gesta da resistência de um povo, memória fragmentada de um Portugal que morreu.

[…]»

 

Excerto do texto Da “Ilha sem Barcos” ao Coração da Europa de Fernando Paulouro das Neves.

Interioridade/Insularidade Despovoamento/Desertificação. Paisagens, Riscos Naturais, e Educação Ambiental em Portugal e Cabo Verde. (Coord. Rui Jacinto e Lucio Cunha). Colecção Iberografias - 17. Centro de Estudos Ibéricos.


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Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Fado

«O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série de fotografias do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.

Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.

O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador»

 

Fernando Pessoa in Portugal Sebastianismo e Quinto Império. Publicações Europa-América (org. António Quadros).

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Domingo, 20 de Março de 2011

Silvicultura da Biodiversidade

(Ler texto integral na Naturlink, aqui.)

 

«[…]

E os outros 3.6 milhões de hectares?

Parece razoável assumir que Portugal Continental poderá gerar, no máximo,1.7 a 2 milhões de hectares ocupados com o crescimento lenhoso para a indústria do papel e da madeira, produção de cortiça, superfícies de pinheiro–manso e castanheiro.

Existindo 5.3 milhões de hectares ocupados com floresta e matos restam3.3 a3.6 milhões de hectares (38 – 40% do território Nacional), incluindo o meio milhão de hectares onde se incluem a azinheira e outros carvalhos, espaço para o qual poderá ser adequada a antiga designação de “Bravio”, que será o espaço principal da Silvicultura da Biodiversidade.

Biomassa florestal, produção de energia e biodiversidade

A utilização de biomassa é considerada importante para o cumprimento das metas relativas à utilização de energias renováveis. O programa existente para a construção de centrais de biomassa tomou como base inicial a exploração dos resíduos da exploração florestal e da rede de faixas de controlo de combustível.

A produção de biomassa específica para produção de energia, e mesmo a própria utilização dos resíduos, serão limitados e determinados pelo preço da energia eléctrica. Poderão hipoteticamente existir situações de competição entre a produção para a indústria do papel, para a indústria da madeira e para a produção de energia, nos terrenos onde a produtividade potencial for suficiente. A produção de biomassa para energia não parece ser uma alternativa onde a produção de lenho também não o for.

Não parece também viável a desmatação para biomassa, não só atendendo à dimensão dos custos de exploração, mas também ao impacto ambiental potencial. De facto, a programação de centrais de biomassa com base no aproveitamento de resíduos de culturas florestais e faixas de combustível, é diferente do aproveitamento generalizado de arbustos para a produção de energia. A ser considerada esta última hipótese seria seguramente necessário avaliar o seu impacto ambiental.

A biomassa para energia não parece constituir uma opção de exploração para uma fracção significativa dos 3.6 milhões de hectares do “Bravio”.

(…)

Gestão da Biodiversidade Florestal – uma nova dinâmica
(…)

O pagamento com dinheiros públicos de serviços ambientais através de fundos da política de desenvolvimento rural ou de conservação não parece ser um caminho com dimensão ou sustentação futura suficiente para gerir o espaço Bravio.

É necessário que exista um rendimento associado para estimular a gestão activa e os incrementos em abundância e diversidade nas espécies e habitat que aumentam o valor natural do território florestal.

Actualmente o mercado deste tipo de valores é incipiente mas não inexistente, mas um pouco por todo o mundo estão em desenvolvimento rápido mercados para serviços associados à conservação:

Compra de acesso exclusivo a territórios

- Eco–turismo ou outras formas de turismo associado a espaços florestais
- Caça, Pesca, produtos não lenhosos
- Contratos de prospecção de novas espécies em florestas tropicais e equatoriais

Compra de terrenos exclusivamente dedicados a acções de conservação

- Acções de conservação com financiamento privado associadas ao posicionamento de empresas e suas marcas.

- Serviços de eco–compensação (tendencialmente offsets - offset de biodiversidade: actividade de conservação destinada a compensar, com impacto líquido positivo, impactos negativos inevitáveis) decorrentes de obrigações legais associadas ao licenciamento de actividades económicas.
- Serviços de eco–compensação voluntária.

 

(…)

Alguns destes mercados já existem há muito tempo com efeitos interessantes na conservação, dos quais um exemplo é o mercado da caça, com os efeitos benéficos para a conservação que o desenvolvimento deste sector teveem Portugal. Existeevidência de que a melhoria do habitat e a gestão das populações cinegéticas tiveram um efeito globalmente positivo na conservação, quando comparadas as zonas com e sem gestão cinegética.

(…)


No Brasil, uma Lei Federal em vigor desde 2000, determina que 0.5% dos custos de projectos com impacto na conservação do ambiente sejam obrigatoriamente aplicados em medidas de mitigação e compensação.

No estado da Califórnia (EUA) as medidas de compensação de impacto sobre a biodiversidade podem ser implementadas em territórios geridos precisamente com essa finalidade e que são colocados no mercado - “Conservation Banking” – regulado pela administração do Estado. Isto é, os gestores florestais vendem superfícies com características específicas (habitats e espécies), durante o período de tempo necessário a cumprir as obrigações de compensação decorrentes de projectos de investimento dos seus clientes.

Em Victoria na Austrália, o BushBroker é um mercado de créditos de vegetação natural, regulado pelo Estado, que permite aos proprietários florestais serem produtores de vegetação natural, vendendo os créditos de vegetação a empresas que necessitem de obter espaço livre de vegetação para a sua actividade.

Em Portugal o Decreto – Lei 142/2008 de 22 de Julho estabelece um novo regime jurídico da conservação da biodiversidade. Neste novo regime institui-se o princípio da compensação pelo utilizador dos efeitos negativos causados pelo uso de recursos naturais, regula-se em geral os instrumentos de compensação ambiental e cria-se a base legal para a constituição do Fundo para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade. Isto é, criam-se as bases legais para uma abordagem de mercado da biodiversidade, no que diz respeito à floresta abre-se caminho à Silvicultura da Biodiversidade.

[…]»

Silvicultura da Biodiversidade. Carlos Rio de Carvalho.


publicado por Fernando Delgado às 22:50
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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

O movimento do pião

O livro tem um título (porventura) pretensioso – 10 Anos de Política Ambiental -, mas como em todos os livros que arrumamos na estante depois de meia hora de leitura, acaba por haver qualquer coisa de importante, nem que seja uma pequena ideia.

Neste caso gosto da ideia do movimento do pião. Diz o autor na introdução (datada de Maio de 2002):

         Com o presente livro procura-se sintetizar dez anos da Política Ambiental em Portugal. A sua leitura torna claro que o nosso País avança, mas a passos muito pequenos, com muita energia, mas com fracos resultados – como um pião, que gasta toda a sua energia a rodar.

Isto faz-me lembrar outras políticas, mas agora, aqui, cansado, depois de um dia de muita energia gasta e de fracos resultados, sinto-me como esse pião, quase a parar de rodar, prestes a cair para o lado. Consola-me a ideia da criança que amanhã enrolará o cordel e o porá novamente a rodar. Sim, só aos olhos ingénuos de uma criança este milagre é possível…

João de Quinhones Levy in 10 Anos de Política Ambiental. Oficina do Livro.

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Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Cohn-Bendit

(Apesar de tudo, este velho do Maio de 68, diz coisas – dizia em 1999, ano da recolha destas conversas … -, que parecem novas. Ou é esta realidade parte do futuro de que ele falava? Se é, há que reconhecer que ainda anda por aí muito chefe de estação sem comboio, ou incapaz de perceber que o comboio chegou ao fim da linha há muito tempo…)

 

«[…]

Qual é então o papel de um líder político?

É certamente procurar agir sobre o futuro. Ele não é apenas um chefe de estação das “tendências pesadas” da sociedade, que se contentaria em manobrar a agulha, segundo horários definidos noutro lado. Mas ele também é um homem todo-poderoso que, pela sua simples vontade, determinaria o futuro, como o pretende a concepção antiga da política, fundada sobre a delegação total da autoridade: a sociedade dá mandato a um homem político, e em seguida ela aprova ou desaprova, reelegendo-o ou despedindo-o, como os romanos no circo saudavam ou condenavam os gladiadores, levantando ou baixando o polegar.

As sociedades mudaram. Hoje – é uma banalidade, mas é a realidade -, a transformação do mundo é tão rápida que desorienta os cidadãos. O que parecia imutável torna-se em pouco tempo ultrapassado, ou mesmo arcaico. A história da unificação alemã é um exemplo desta evolução fantástica. A tecnologia oferece outros. Hoje o presidente da República Francesa, quando fala dos jovens, sente-se obrigado a falar de computadores, mesmo se, visivelmente, não percebe nada disso, porque não se pode falar da sociedade sem evocar a informática, o que há vinte anos não interessava a ninguém.

(…)

A crise actual vem também do facto de, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, as sociedades europeias recearem ser no futuro mais pobres que hoje e que no passado. É uma ruptura dramática com a evolução anterior. A força dos projectos conservadores ou sociais-democratas dos últimos quarenta anos consistia em poder garantir uma melhoria a prazo. É o que explica o fracasso das ideologias de alternativa radical, quer se trate do comunismo autoritário, ou dos revolucionários “bem pensantes”: frente a uma melhoria constante das condições de vida, a sua crítica não tinha credibilidade. Hoje é muito mais difícil garantir um tal futuro. Por isso, é necessário fazer política de outro modo.

[…]»

O Prazer da Política. Daniel Cohn- Bendit. Conversas com Lucas Delattre e Guy Herzlich. Notícias Editorial. Colecção Sinal dos Tempos.

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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Erri De Luca

«[…]

      No Verão acordo cedo, vou aos rochedos de Santa Lúcia com a rede apanhar ouriços-do-mar e, se houver, um ou outro polvo. Estou lá um par de horas antes de o sol ultrapassar a encosta do vulcão. Saem dos clubes os senhores que regressam vindos de alguma festa nocturna. Com os seus fatos de noite expostos à primeira luz do dia, apressam-se a ir para o escuro como os morcegos atrasados. Vejo também sair o conde que mora no prédio e joga a propriedade nas mesas do clube. Não me vê. Os senhores têm uma vista diferente da nossa, que somos obrigados a ver tudo. Eles só vêem o que querem ver. Arregaço as calças até aos joelhos e desço os escolhos. Um golpe de sorte faz-me encontrar algo para põr na mesa. Antes de regressar a casa passo por Dom Raimondo para lhe devolver o livro. Faz-me encontrar um novo, escolhido por ele. Dom Raimondo é um livreiro aventuroso, recupera bibliotecas até da lixeira. Amiúde, é chamado a casas em luto que libertam o espaço do defunto.

      - Mais que a roupa e os sapatos, os livros é que trazem a marca da pessoa. Os herdeiros libertam-se deles por exorcismo, para se libertarem do fantasma. A desculpa é que precisam de espaço, sufoca-se de livros. Mas o que é que põem no seu lugar, encostado às paredes com a marca da forma deles?

      Dom Raimondo diz-me a mim o que não pode dizer a eles.

      - O vazio na parede deixado por uma biblioteca vendida é o vazio mais profundo que conheço. Trago comigo os livros mandados para o exílio, dou-lhes uma segunda vida. Tal como a segunda demão numa pintura, que serve para o retoque final, a segunda vida de um livro é a melhor.

      Recuperou a biblioteca de uma apaixonado pela literatura americana. Estou a ler belas aventuras sobre aquela terra para onde muitos napolitanos foram viver. Mas vê-se que não escrevem livros.

[…]»

Erri De Luca in O Dia Antes da Felicidade. Bertrand Editora.

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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

Atiq Rahimi

(É um texto pequenino que encontrei numa daquelas bancas em que se misturam livros sem qualquer critério... Este, como outros textos, mostram que há qualquer coisa de místico no povo afegão. Aquela árvore, que não para de crescer, também faz parte da outra face deste povo...)

 

«[…]

Estás completamente nu, de pé, num ramo espesso de jujubeira. Trepaste para sacudir os ramos para Yassin. Lá em baixo, ele apanha os frutos. Involuntariamente começas a urinar. Chorando, Yassin afasta-se da árvore e vai sentar-se junto de outra. Retira as maçãs da trouxa, para lá depositar os senjets. Depois, fecha-a, dando-lhe um nó. Esgravata a terra com as suas pequeninas mãos e descobre uma porta à superfície do solo, munida de uma grande fechadura. Abre-a com a ajuda de um caroço de senjet e esconde-se debaixo da terra. Tu gritas:

       - Yassin, onde estás? Espera por mim, já venho!

       Yassin não ouve nada, vai-se embora e a porta fecha-se atrás dele. Procuras descer da árvore, mas esta não para de crescer. Cais, sem nunca alcançar o solo…

[…]»

 

Atiq Rahimi in Terra e Cinzas. Teorema.

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Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Zafón

Muitas vezes as contracapas dos livros têm pequenos textos, tipo resumo ou apenas pequenas transcrições de algumas frases mais emblemáticas que sempre me pareceram servir para uma de duas coisas: ou para determinar a opção de compra, em momentos de dúvida, ainda na livraria - o que designaria por uma operação de marketing, perfeitamente natural, pelo menos aceitável face à natureza de bem de consumo em causa; ou, segunda hipótese, para satisfazer gostos literários voyeuristas, típicos de uma sociedade em que as aparências são determinantes nos respectivos status sociais e que se traduzem em conhecimentos literários de inúmeros livros e respectivos autores exclusivamente pelos títulos dos livros e, na melhor das hipóteses, pelo tal resumo da contracapa – como semanalmente, de forma exuberante, nos demonstra o professor Marcelo…

 

Felizmente Zafón foge da contracapa, remetendo para as primeiras páginas deste livro um texto que, para além de me parecer uma provocação a estes voyeuristas, é acima de tudo um sublime exercício de escritor. Aqui fica:

 

      «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.

      Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro. Amigos, companheiros, professores e até a polícia lançaram-se na busca daquele fugitivo que alguns já julgavam morto ou perdido pelas ruas da má fama como num lapso de amnésia.

      Uma semana mais tarde, um polícia à paisana julgou reconhecer aquele rapaz; a descrição condizia. O suspeito vagueava pela estação de Francia como uma alma perdida numa catedral forjada de ferro e nevoeiro. O agente aproximou-se de mim com ar de romance negro. Perguntou-me se o meu nome era Óscar Drai e se era o rapaz que desaparecera sem deixar rasto do internato onde estudava. Assenti sem descerrar os lábios. Recordo o reflexo da abóbada da estação no vidro dos seus óculos.

      Sentámo-nos no banco do cais. O polícia acendeu um cigarro com calma. Deixou-o queimar sem o levar aos lábios. Disse-me que havia uma grande quantidade de pessoas à espera de me fazer muitas perguntas para as quais era conveniente que tivesse boas respostas. Assenti de novo. Olhou-me nos olhos estudando-me. “Às vezes contar a verdade não é uma boa ideia, Óscar”, disse. Estendeu-me umas moedas e pediu-me que telefonasse ao meu tutor no internato. Assim fiz. O polícia esperou que tivesse feito a chamada. Depois, deu-me dinheiro para um táxi e desejou-me sorte. Perguntei-lhe como sabia que não ia desaparecer de novo. Observou-me longamente. “Só desaparecem as pessoas que têm algum lugar para onde ir”, respondeu apenas. Acompanhou-me até à rua e ali se despediu, sem perguntar onde tinha estado. Vi-o afastar-se pelo Paseo Colón. O fumo do seu cigarro intacto seguia-o como um cão fiel.

      Naquele dia, o fantasma de Gaudí esculpia no céu de Barcelona nuvens impossíveis sobre um azul que fundia o olhar. Apanhei um táxi até ao internato, onde supus que me esperaria o pelotão de fuzilamento.

      Durante quatro semanas, professores e psicólogos escolares atormentaram-me para que revelasse o meu segredo. Menti e ofereci a cada um aquilo que queria ouvir ou o que podia aceitar. Com o tempo, todos se esforçaram por fingir que tinham esquecido aquele episódio. Segui o seu exemplo. Nunca expliquei a ninguém a verdade do que sucedera.

      Não sabia então que o oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca.

      Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»

 

Carlos Ruiz Zafón in Marina. Planeta.

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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Vargas Llosa

«[…] Era um ser pequenino e miúdo, mesmo no limite entre o homem de baixa estatura e o anão, com um nariz grande e uns olhos extraordinariamente vivos, onde bulia algo excessivo. Vestia de negro, um fato que se notava ser muito usado, e a camisa e o laço tinham nódoas, mas, ao mesmo tempo, na maneira como andava com essas peças havia nele algo de sóbrio e composto, de rígido, como os cavalheiros das velhas fotografias que parecem presos nas suas sobrecasacas engomadas, nos seus chapéus altos, tão justos. Podia ter uma idade qualquer, entre trinta e cinquenta anos, e luzia uma cabeleira oleosa e negra que lhe chegava aos ombros. A sua postura, os seus movimentos, a sua expressão pareciam o próprio desmentido do espontâneo e natural, faziam pensar imediatamente no boneco articulado, nos fios de títere. Fez-nos uma reverência cortês e com uma solenidade tão inusitada como a sua pessoa apresentou-se assim:

            - Venho furtar-lhes uma máquina de escrever, senhores. Agradecia que me ajudassem. Qual das duas é a melhor?

            O seu indicador apontava alternadamente para a minha máquina e para a de Pascual. Apesar de estar habituado aos contrastes entre a voz e o físico devido às minhas escapadas à Rádio Central, espantou-me que de uma figurinha tão mínima, de feitura tão desvalida, pudesse brotar uma voz tão firme e melodiosa, uma dicção tão perfeita. Parecia que nessa voz não só desfilara cada letra, sem uma só delas ficar mutilada, nem tão-pouco as partículas e os átomos de cada uma, os sons do som. Impaciente, sem dar-se conta da surpresa que a sua cara, a sua audácia e a sua voz nos provocavam, pusera-se a esquadrinhar e como que a farejar as duas máquinas de escrever. Decidiu-se pela minha veterana e enorme Regmington, uma carrinha funerária sobre a qual não passavam os anos. Pascual foi o primeiro a reagir:

            - O senhor é um ladrão, ou quê? – increpou-o e eu apercebi-me que me indemnizava pelo terramoto de Ispahan. – Passa-lhe pela cabeça levar assim sem mais nem menos as máquinas do Serviço de Informação?

            - A arte é mais importante que o seu Serviço de Informação, seu trasgo – o personagem fulminou-o, deitando-lhe um olhar parecido com o que merece o animal espezinhado, e prosseguiu na sua operação.

[…]»

 

Mario Vargas Llosa in A tia Júlia e o Escrevedor. D. Quixote.

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publicado por Fernando Delgado às 23:57
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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Sándor Márai

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; f/6,30; 1/200s;ISO 400; 200 mmm)

«[…] Ela tinha vinte anos; tu já eras juiz. Estavas solteiro. O resto… o resto já tu sabes, claro. Agora já sabes. Não te ofendas: não há razão nenhuma. Ninguém te acusa de nada. Não tens culpa de nada… talvez ninguém tenha. Sim, tenho uma pergunta a fazer-te. Uma só, já ta fiz antes. Mas pergunto novamente… Talvez… agora, que já sabes… agora, talvez entendas a pergunta. Alguma vez sonhaste, nestes oito, dez anos, com Anna?

A voz é humilde, suplicante, quase apaziguadora; é a voz onde se mesclam o mendigo e o médico. Kómives bate três vezes na mesa com o corta-papéis; seguidamente, põe de lado o objecto.

- Sonhar… O que é isso? – diz, rouco, em tom de desprezo. – Não são os sonhos a determinar a vida.

- Oh, não – apressa-se o médico a sossegá-lo. – Os sonhos, tens razão, não significam grande coisa. Não têm força capaz de modelar a existência… pelo menos, é raro terem efeito na vida diurna. Salvo, quando servem de exemplo, na ciência, na arte e na literatura. Mas, na maioria dos casos, tens razão, os sonhos só trazem confusão. Não têm sentido. E, com efeito, o sonho raramente tem uma causa, é quase sempre um efeito. Olha – diz em tom humilde e suplicante -, foi por isso que vim. Não te peço grande coisa. Simplesmente… antes de tomar uma decisão… Gostava de saber a verdade. É o mínimo que um homem na minha situação pode querer. Como se desses uma esmola a um mendigo, na rua. Ora, eu satisfaço-me com essa esmola. Confessa… não, é um termo excessivo e trivial. Tem piedade de mim, reflecte, lembra-te e dá-me como óbolo essa verdade confusa, inútil e sem interesse. Sonhaste, nestes anos, com Anna? – repete, obstinado.

O juiz tem um calafrio, estica os membros intumescidos: imóvel há horas, tem frio, e um arrepio desce-lhe pelas costas.

- Sonhar – diz, muito lentamente, como se precisasse de arrancar esta palavra de algures, de algum magma primitivo onde as palavras se confundem. – Sonhar é loucura – conclui penosamente, em tom arrastado.

- Sim, sim – apressa-se o médico a sossegar. – Os sonhos são uma insensatez. Não chegam a ser uma bruma. E não podemos fazer nada. São sombras que brincam connosco. Sonhaste?...

O juiz olha para o escuro.

- Dez anos – considera ele. – Dez anos, dizes tu… Não me lembro.

O médico apressa-se a sossegá-lo:

- Acredito, claro que acredito. Que atrevimento, julgar que… Ninguém se lembra de todos os sonhos insignificantes. E se eu não tivesse vindo aqui, esta noite, talvez nunca te tivesse ocorrido… A alma, às vezes, obra milagres. Consegue encerrar e isolar por completo um pensamento, uma recordação, um desejo… e fá-lo na perfeição. Vês, Anna não soube durante muito tempo. E quando, por fim, se encontrou a si mesma e compreendeu tudo, como alguém que descobre a realidade, que tem pés e mãos… aí, não percebeu onde haurira essa capacidade, a força para evitar durante dez anos enfrentar a realidade. Afirmou que os seus mecanismos de defesa tinham funcionado quase na perfeição. Claro, com os sonhos… com os sonhos já não tinha sido tão perfeito, mas de dia, durante esses dez anos, conseguiu, e estava quase sempre comigo, entre os meus braços. Ela amava-me, ou não teria sido possível. Mas, por outro lado, estava ligada a ti. Não é fácil acreditar. Eu não acreditava… e nem agora acredito, talvez. Por isso, estou aqui. Agora já não tem sentido prático, pois Anna morreu… sim, matei-a. O meu interesse é puramente teórico. Uma contraprova científica. Claro, também me interessa do ponto de vista pessoal… justamente porque Anna está morta. Sabes, ela contou-me, ontem à noite, que se encontrou contigo há dez anos, e foi como um terramoto, como se terra e céu se abrissem; foi “isso” para ela; o encontro foi “isso”… Parecia-lhe uma ordem. Não podia fazer ouvidos de mercador, pondo-se ao largo, nem esquivar uma interpretação. Ela creditava, e disse-mo ontem à noite, que tu também deves ter ouvido essa ordem. Era impossível não a ouvir, porque essa ordem era mais forte do que um trovão, e ninguém era tão surdo para não reagir. Um encontro desses acontece uma vez na vida. A vida segue o seu curso… e o homem… às vezes, passa ao largo. Não se pode explicar. Não é culpa de ninguém. A vida continua […]»

Sándor Márai in Divórcio em Buda. D. Quixote.

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publicado por Fernando Delgado às 02:07
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Domingo, 14 de Novembro de 2010

opening hours

(Gosto deste texto, na Controversa Maresia)

 

«Falas-me de amor platónico mas perguntas-me a que horas abrem as minhas pernas. E eu respondo-te que sou como aquele barbeiro de província que tinha um papel sebento no vidro a dizer que abria a horas indeterminadas. Ah! e ser feliz: pois, também me falas disso. Cada umas das criaturas nesta esplanada envelhece ao segundo, mais um vestígio de rugas, uma vontade de desistir. O tempo passa por todos menos por nós mas é preciso que nos fitemos para além do que aparentamos, furar a pele. Entretanto olhamos a alforreca que dispersa as tainhas, translúcida como os teus olhos, e achamos que ainda ontem estávamos por aqui, iguais, as minhas pernas platónicas, o teu andar gingão. O nosso passado está presente em nós porque é o nosso presente: temos direito a pouco mais, há muito que o comboio saiu da estação, embora na verdade às vezes ainda me pergunte se já chegou ao destino. Sei lá quanto de ti não se imagina a tentacular-me enquanto molho o pão no molho. Quanto de ti é resistir a não fazer ou não fazer por não quereres fazer, apenas. Decifro-te em mim e o que dizes é como meu, deve ser das encruzilhadas da idade: ambos sem rumo, somos aquela alforreca que foi parar ao lodo e que agora não sabe como sair do cais, presa no meio das tainhas, que são muitas e vorazes. Além disso ainda não decidi se isso do platónico é um elogio ou uma ofensa. Mas contradiz sem dúvida o interesse demonstrado no meu horário de abertura.»

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publicado por Fernando Delgado às 02:48
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Sábado, 16 de Outubro de 2010

Testamento

«Após a morte de Deus

abriremos o testamento

para saber

a quem pertence o mundo

e aquela grande armadilha

de homens.»

 

Testamento de Ewa Lipska. Rosa do Mundo. Assírio & Alvim.

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publicado por Fernando Delgado às 23:58
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