Quinta-feira, 4 de Junho de 2015

Miguel S. Tavares e o Stradivarius de Joshua

«[...] Eu sou uma testemunha, um contador de histórias, um homem que passa a palavra. E, ao passá-la, ao contar tudo o que vi, vivo duas vezes.

Sempre tive esta, chamemos-lhe assim, deformação jornalística: tentar transformar tudo o que acontece, tudo o que vejo, tudo o que viajo e tudo o que vivo, numa utilidade literária ou jornalística concreta. Nunca viajei sem escrever: ir para ver e não contar a ninguém mais, aos que não foram e não poderão nunca ir, sempre me pareceu um desperdício, uma oportunidade não merecida. [...]» pp 13-14

 

É deste Miguel que eu gosto. Do Miguel na primeira pessoa, das histórias que conta, da escrita do real, mesmo ficcionado... (ver aqui).

 

«A escrita ensina-nos e convoca-nos à responsabilidade de entender que estar vivo não é um acaso inútil nem um almoço grátis. Toda a criação artística, de que a escrita faz parte, é uma responsabilidade indeclinável e não somente um dom de autocontemplação. Escrevemos, para celebrar a vida, não para resgatarmos a própria morte; escrevemos para os outros, não para nós próprios.[...]» pp 15.

 

É este Miguel que me convoca à leitura, mesmo quando a história é conhecida:

 

«[...] Um violinista tocou durante quarenta e cinco minutos à porta de uma estação de metro em Washington, enquanto o jornal [Washington Post] filmava toda a cena. Enquanto tocou, teve seis espectadores que pararam um pouco para o ouvir e recolheu trinta e dois dólares de gorjetas. O homem chamava-se Joshua Bell e é um dos maiores violinistas contemporâneos; o seu violino era um Stradivarius, avaliado em três milhões e meio de dólares; e o que tocou foram seis peças de Bach para violino, de dificílima execução e espantosa beleza. Eram o mesmo homem, o mesmo violino e as mesmas composições que, dois dias antes, tinham enchido a sala de concertos de Boston, com o bilhete mais barato a cem dólares. (...) Será que as pessoas só estão atentas à beleza das coisas no momento e no lugar previamente marcado para tal? Teria eu parado ao escutar o violino de Joshua Bell? Quero crer que sim, mas, na verdade, nenhum de nós o pode garantir.[...]» pp. 166-167.

 

Miguel Sousa Tavares. Não se encontra o que se procura. Clube do Autor, 1ª Ed.

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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

O bom malandro

«Saúdo a Lua cheia levantando o copo com o vinho branco gelado que me há-de refrescar as ideias. Aí a tenho, por cima do terraço, vaidosa e exigente de contemplação. O ladrar dos cães na travessa confirma que a influência dela não se limita às marés, inspiração de poetas românticos, ao balouçar dos signos, etecétera. Sente-a todo o ser vivo, mexe com a gente. Uma crença antiga (felizmente prescrita) considerava que observar a Lua no quarto crescente impunha o castigo de se ser corneado ou corneada. Só mais tarde se concluiu que situações dessas podem acontecer em qualquer das fases da Lua. Mesmo no quarto minguante. Ou noutro quarto. Até sem quarto. Um relvado, areal de praia, banco de trás do automóvel podem animar-se pelo poder do luar. Estudei o assunto em profundidade, o nome da Lua foi a primeira das maiores conquistas das mulheres. Já não há tempos imemoriáveis, hoje sabe-se tudo. Inclusive que antigamente, muito antigamente, baptizaram o astro por Luno, deus protector da masculinidade. O bom do Luno afiançava aos devotos machos que seriam sempre eles a mandar lá em casa. Mas saltaram elas, com aqueles jeitinhos e teimosias que vêm de longe, e acabaram por feminilizar o Luno. Passaram-no a Luna, deusa prometedora de inverter os papéis. Vai-se notando.

Neste momento fito a Lua e vejo-a como um desejável refúgio. Bem me saberia passar uns tempos longe das confusões terrenas que me surgem a cada passo. Todo o passo ameaça revelar-se um mau passo.»

Mário Zambujal. Serpentina. Odisseia de um crédulo em demanda da bela sem senão. Clube de Autor, SA., 1ª ed., pp 19-20.

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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

Bosão de Higgs

(Mais uma achega para o meu smarties amarelo... (aqui, aqui e aqui).  Para quem gosta destas coisas, este texto do físico Carlos Fiolhais no livro “Deus ainda tem futuro?”, com coordenação de Anselmo Borges e editado pela Gradiva, pode ser lido na íntegra em De Rerum Natura)

 

 

«A 4 de Julho de 2012 era anunciado no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), em Genève, na Suíça, a descoberta de uma nova partícula, chamada “partícula de Higgs”, ou “bosão de Higgs”,  a quem alguns chamam “partícula de Deus”.

 

O nome “partícula de Deus” parece inadequado a muita gente, a começar logo pelo físico escocês Peter Higgs, ateu confesso, que, em Outubro de 2013, foi distinguido com o Prémio Nobel da Física, pela sua proposta no ano de 1964 de uma partícula com as características daquela que o CERN, quase meio século depois, haveria de identificar. O prémio foi partilhado com o seu colega belga François Englert, que professa a religião judaica (circunstância que o obrigou a manter-se largos anos escondido durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda era um rapazinho). De facto, a designação “partícula de Deus” apenas surgiu por uma decisão editorial. Trata-se do título de um livro que se revelou um sucesso de vendas no mundo anglo-saxónico, embora não tenha conhecido tradução em português. Os autores do livro The God’s particle, saído em 1993, o físico norte-americano Leon Lederman e o escritor de divulgação científica Dick Teresi, quiseram intitular a sua obra, que descrevia a ideia de Higgs e de outros, The Goddamn particle (“A partícula maldita”) com base nas dificuldades na sua detecção e foi o editor norte-americano que propôs a alteração, logo aceite pelos autores, para The God Particle, “Partícula de Deus” [1]. Como, a haver Deus, todas as partículas são d’Ele, será pouco defensável baptizar assim uma partícula, singularizando-a como criação divina relativamente a todas as outras... Mas o certo é que a palavra Deus tem efeitos mediáticos e o nome pegou. Decerto que a partícula não teria sido tão badalada se tivesse um outro nome.

 

Mas o que é afinal a partícula de Higgs? Não é uma das partículas normais de matéria nem de energia. É uma partícula associada a um campo (o campo descreve a presença de uma grandeza física numa certa região do espaço), cuja existência foi postulada para explicar por que razão as partículas de matéria e energia, que preenchem todo o Universo, têm massas muito diferentes entre si.  Partículas de matéria, por ordem decrescente de massa, são os quarks, os electrões e os neutrinos. Todas as coisas, em todo o vasto mundo, são feitas de quarks, electrões e neutrinos. Os quarks formam os protões e os neutrões. Os protões e os neutrões formam os núcleos atómicos. Os núcleos atómicos e os electrões formam os átomos. Os átomos formam as moléculas, os cristais ou sólidos e a chamada “matéria mole”,  como por exemplo um gel. E as partículas de energia são, pela mesma ordem decrescente de massa, os bosões W e Z, os fotões, os gluões e os gravitões (na verdade, só os primeiros, os bosões W e Z, intermediários da força nuclear fraca, têm massa, pois todos os outros têm massa nula). As forças entre as partículas de matéria devem-se à troca de partículas de energia: por exemplo, a atracção eléctrica entre protões e electrões deve-se à troca de fotões.  Sem o campo de Higgs e, portanto, sem a partícula de Higgs, que está associada às excitações desse campo, o conjunto das partículas de matéria e de energia não poderiam ter a massa que têm, permanecendo todas com a massa nula. O mundo seria, nesse caso, indiferenciado e, por isso, informe: não teria havido a possibilidade de formação de estruturas, ainda que simples, e não haveria no mundo a extraordinária variedade de coisas que observamos.

 

As partículas de matéria e de energia conhecidas estão organizadas hoje no quadro do chamado modelo-padrão da física de partículas. Os físicos do CERN têm procurado responder à questão: Estará o modelo-padrão certo? E estará ele completo? Se a primeira pergunta, pelo menos até ver, tem sido respondida positivamente (a descoberta do Higgs é uma excelente confirmação do modelo-padrão no sentido em que foi confirmada uma peça que faltava nele), há, porém, boas razões para suspeitar que a resposta à segunda pergunta é negativa. O modelo revela-se insatisfatório do ponto de vista teórico e não consegue explicar alguns mistérios da astrofísica moderna como os problemas da matéria negra e da energia escura. Note-se que o mecanismo de criação de massa proposto por Higgs e seus colegas não passa de um mecanismo matemático que, aparentemente, a Natureza concretizou conforme o modelo-padrão descreve. Foi proposto quando ainda não se conheciam muitas partículas desse modelo. Mas, ao revelar-se certa uma hipótese matemática, cumpriu-se mais uma vez o dito do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642) contido no seu livro O Ensaiador de 1623: “O Livro da Natureza está escrito em caracteres matemáticos.”

 

A partícula de Higgs e o eventual quiproquo teológico à volta do nome “partícula de Deus” (será que se está perante uma prova da existência de Deus?) servem aqui de introdução para uma breve digressão sobre os elos entre a ciência, a nossa investigação do mundo usando o método experimental e de raiz matemática que Galileu introduziu, e Deus, ou, mais em geral, os fenómenos do divino. Tanto a ciência como a religião são actividades humanas, que são  completamente compatíveis, pelo menos a avaliar após uma consulta às biografias de alguns dos maiores cientistas. Ao longo da história, a maior parte dos maiores físicos acreditaram em Deus, para resumir numa só palavra (e uma palavra com muita força!) a crença numa realidade que transcende o “O Livro da Natureza” que a ciência indaga [2].

[…]»

Carlos Fiolhais. A Ciência e o Divino in De Rerum Natura.

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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

A. Gedeão

IMG_6430.jpg

Praia de Carvalhais, Comporta.

(Vê Moinhos? São Moinhos. Vê gigantes? São gigantes.)

 

«Os meus olhos são uns olhos.

E é com esses olhos uns

que eu vejo no mundo escolhos

onde outros, com outros olhos,

não vêem escolhos nenhuns.

 

Quem diz escolhos diz flores.

De tudo o mesmo se diz.

Onde uns vêem luto e dores,

uns outros descobrem cores

do mais formoso matiz.

 

Nas ruas ou nas estradas

onde passa tanta gente,

uns vêem pedras pisadas,

mas outros gnomos e fadas

num halo resplandescente.

 

Inútil seguir vizinhos,

que ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.

 

Vê moinhos? São moinhos.

Vê gigantes? São gigantes.»

 

António Gedeão. Impressão digital.

 


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Sábado, 23 de Agosto de 2014

Kandinsky

Wassily Kandinsky. "Gelb, Rot, Blau" (1925). 

 

«[…]

         Um edifício de grandes, muito grandes, de pequenas ou médias dimensões, dividido em salas. As paredes das salas ocultas sob telas pequenas, grandes ou médias, por vezes alguns milhares de telas. Através da cor, pedaços da “natureza” são reproduzidos: animais iluminados ou na sombra, sobre a erva ou junto à água; ao lado, um Cristo na cruz representado por um pintor que não é crente; flores, figuras humanas sentadas, de pé, caminhando, por vezes nuas, uma multidão de mulheres nuas (frequentemente em apontamentos breves e vistas de costas), maçãs e bandejas de prata (…).Tudo isto cuidadosamente impresso num livro: nomes dos artistas, títulos dos quadros. As pessoas, com o livro na mão, passeiam-se de uma tela para a outra; folheiam-no e lêem os nomes. Depois, retiram-se tão ricas ou tão pobres como quando entraram, e imediatamente são reabsorvidos pelas suas preocupações tão alheias à arte. Que vieram aqui fazer?

[…]»

Wassily Kandinsky. Do Espiritual na Arte. D. Quixote, 8ª ed., pp 23-24.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Lobo Antunes

(… a arte de escrever!)

 

«CRÓNICA DO CHINÊS

 

Ando agora a fazer exercício e dieta, apetece-me ficar bonito. Três vezes por semana um amigo meu, chamado José Francisco, leva-me para junto do rio, em Belém, onde procedo a manobras físicas complexas, tal como andar. Ando quilómetros e quilómetros, quer dizer, talvez seja exagero, ando até me doerem muito as pernas e é um pau, a barriga diminui a olhos vistos, não tarda nada eis um Apolo Musageta ou, no mínimo, a Modona da Caldeirinha. Pelo menos vejo os pescadores, às vezes converso com eles, faço perguntas, examino os peixes que continuam a agitar-se cá fora, interminavelmente. O meu favorito é um chinês, sempre a rir, nunca conheci ninguém tão contente, que nem isco usa, atira aquilo, faz um movimento em u, levanta aquilo e aparece um peixe na ponta do anzol, preso pela barriga, pela cauda, por uma guelra, pelo que calha, aos saltos, que ele poisa na pedra, ainda a rir mais para nós. A uns vinte metros o patrão, gordo, plácido, velho, sentado num banco, vai orientando um chinês em gestozinhos mansos, de longe em longe levanta-se para corrigir pormenores, muda o anzol, regressa ao banco numa lentidão tranquila, olha os barcos, a água, não deixando de espiar o chinês, desabotoa a camisa para coçar os pêlos do peito, escarafuncha a orelha com a unha do mindinho, avalia os resultados, recomeça a limpeza, não sorri para nós ao contrário do chinês, cuja alegria, não entendo porquê, aumenta até ao êxtase, a felicidade do chinês torna-me invejoso, raios partam aquele júbilo e, no entanto, quando não encontro o chinês murcho um bocadinho, o chinês que dança neste pé, dança naquele, se volta para nós com os cromados todos ao léu, de cara dividida ao meio pelo tamanho da boca, ele e o patrão pobres, roupas muito velhas, sapatos de defunto que caminharam milhas, camisolas sobrepostas, desbotadas, no fio, um certo cheiro a pouca água, um certo cheiro a alho, ou então é o Tejo com problemas de hálito, os cabelos deles mais poeira que cabelo, na relva atrás de nós um par de namorados em beijos sedentos, mastigando-se as línguas, beijos sedentos é horrível, em beijos tipo desentupidor de retretes, bocas que emitem um

         - Plop

         de borracha ao afastarem-se, penso que vêm os intestinos atrás do

         - Plop

         mas lá se aguentam, felizmente, imagino um desentupidor na minha boca e eu a sair todo de mim, estômago, pâncreas, ideias, a namorada senta-se na relva para atender o telefone e enquanto conversa introduz os dedos no nariz do homem, manobra que ambos acham excitantísssima e se calhar é, quando o fazia em pequeno levava uma palmada imediata no pulso, a minha mãe, decerto conhecedora daquela manobra afrodisíaca, tentava castrar-me

         - Que porcaria

         e por isso fiquei esta coisa mole, sem vivacidade nem encanto, um chocho desinteressante, um maçador, tenho o aperto de mão desprovido de energia, duas esponjazinhas de cuspo nos cantos dos lábios a falar, a ponta da língua emergindo a cada duas palavras, a expressão parada, os olhos vazios

         - Repare para mim, senhora

         e a alegria do pescador chinês permanece, não fala, diz sílabas que não entendo, guturais, faz acenos estranhos, estica-se, dobra-se, torce-se a explicar-me o mundo e o mundo que me explica não o conheço, vim aqui fazer exercício não para entrar em universos diferentes

         - Adeus chinês

         e o chinês a aproximar-se de mim escorregando nos limos, mais pescadores a cinquenta metros, cem metros, todos tão pobres quanto este, pescam para comer que tudo tão caro e o dinheiro não chega, um peixinho cru no pão, isso vi, mais algum peixinho para a patroa que trabalha a dias e não a querem agora, para os filhos a arrumarem os automóveis nos parques, pedindo moedas, cigarros

         - Um cigarrinho amigo

         de vez em quando uns roubos por esticão a velhotas, de vez em quando um canivetezito num pescoço de turista

         Money money

         uns tempitos na cadeia, uns tempitos cá fora, uma criança feita uma agarrada que durante a gravidez continuava a injectar-se e temos de andar, Zé Francisco, tenho de perder a barriga, apetece-me ser elegante, bonito, Apolo Musageta ou Madona da Caldeirinha, tanto faz, mas bonito, andar até me doerem muito as pernas, não poder com as pernas, fale-me do seu pai, gosto quando me fala do seu pai e do amor que lhe tinha, se sonhasse como o invejo, se soubesse da minha vida comigo, a sua mão no meu ombro

         - António

         a sua mão nas minhas costas

         - Amigo

         a profundeza da sua amizade e eu

         - Obrigado

         eu do coração do coração

         e o chinês continuando a rir-se, afectuoso, aos pulinhos, feliz sei lá com quê, feliz sei lá porquê, passa por nós um barco de oito remadores a treinarem, ouve-se o treinador, num barco ao lado, a dar ordens por um megafone

         - O número três blá blá blá

         - O número cinco blá blá blá

         o rio cheio de peixes sujos quase à tona, um cargueiro a subir a barra, cheiros confusos na água, um senhor muito gordo a ler o jornal numa esplanada, os namorados, sem ventosas, estendidos lado a lado, não me dói nada agora, rio para o chinês, daqui a nada, sem que me aperceba, estamos a falar a mesma língua, vontade de contar-lhe que na segunda-feira fui ao dentista e, como sempre que me sento naquela cadeira, os meus pés não paravam, sou um peixe, vou morder o isco da broca, vou acabar no pão de um pescador que me come, acabar na goela do chinês

         - Mastigue-me com cuidado, senhor

         no dentista falei ao telefone com o senhor Bastos, guarda-redes do Benfica de quando eu era pequeno e fiquei feliz por conhecê-lo, tinha a fotografia da equipa inteira na parede do quarto, a alegria que me deu ele dizer que, no sítio onde morava, me via brincar com os meus irmãos no quintal dos meus pais, obrigado senhor Bastos, obrigado por me ter visto brincar, obrigado por se lembrar de mim, ganhei o dia, sabe, palavra de honra que ganhei o dia, explicar ao chinês

         - Ganhei o dia, senhor chinês

         e, palavra de honra, por momentos quase tive a certeza, qual por momentos quase tive a certeza, tive a certeza, por momentos tive a certeza, o que são as coisas, que o chinês ia largar a cana de pesca, e os peixes, e o rio, e abraçar-me.»

 

António Lobo Antunes. Crónica do Chinês. Quinto Livro de Crónicas. D. Quixote, 2ª ed., pp 119-122

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Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

António Lobo Antunes

«A MINHA COLEÇÃO DE MOMENTOS

 

         Não gosto de escrever em lugares confortáveis nem com vista bonita da janela: é numa cadeira dura, virada para a parede, que dou o dó de peito. Agrada-me trabalhar em cozinhas, desvãos, quartos de hotel com mesas tortas e gravuras o mais feias possível: tanto me faz o lugar desde que não seja agradável. Durante anos escrevi num tampo de mármore partido, agora faço-o num tampo de vidro, graças a Deus nem sempre limpo, num lugar gelado no inverno e cheio de correntes de ar no verão: até hoje driblei a pneumonia. Também não me rala onde moro, nem o que como, nem o que visto. O que me importa então? Assim de repente importou-me quando o comboio em que ia, na Alemanha, parou à noite numa estaçãozinha deserta e escutei, na chuva, um clarinete a tocar numa cave invisível: pareceu-me que de repente entendia a vida e o mundo. Que música seria aquela, quase sem nexo, aflita entre as copas das árvores, a explicar-me a mim mesmo? Ou antes não música: um fiozinho de som. Ainda deve estar, perto de Dortmund, sempre que um comboio fica por ali à espera, no inverno, e a chuva aumenta a sombra dos abetos. Importam-me os corvos da Ucrânia sobre os campos de milho. Uma criança descalça, com dois cavalos coxos, entrevista perto de uma igreja antiga, na Roménia, o descer uma colina na direcção de um riacho: de quando em quando um dos cavalos lambia o pescoço da criança. Um bêbado do Cazaquistão a cantar sozinho, amparado a um muro, e a barba dele, comprida. Uma senhora de idade numa esplanada de Paris, em cuja cara permaneciam ainda, aqui e ali, esquecidos, fragmentos de uma beleza irrecuperável, semelhante aos restos de cartazes que vão empalidecendo e rasgando-se até muito depois das eleições. Certas vitrinas suburbanas que nos oferecem bonecos de loiça

         (pastoras, anjinhos, Dons Quixotes)

         poeirentos e patéticos, alinhados numa orfandade de abandono. Esses cães que se deixaram longe e voltam passados muitos dias, humildes, magros, à casa onde moraram, demorando-se no quintal sem coragem de entrar. Um urso de peluche, meio vazio de recheio, a convidar-nos

         - Abraça-me

         com o olho de vidro que sobeja. As ancas vaidosas, para cá e para lá, dos barquinhos ancorados, tão femininos nos seus meneios de cintura e, já agora, certas ondas que não acabam nunca e nos levam com elas. A  poetisa argentina Alfonsina Storni, cansada de esperá-las, resolveu entrar no mar ao seu encontro: que remédio tiveram as ondas senão ficar-lhe com a boina, com o resto todo, com os versos que não teve tempo de compor: se calhar os meneios de um dos barquinhos são seus. E podia continuar a lista do que me importa durante horas, mencionando, é claro, a frase, que sempre me comoveu, de Charlotte Bronte na agonia, a apertar a mão do marido

         - Não vou morrer pois não? Temos sido tão felizes…

         ou Columbano Bordalo Pinheiro, um dos meus pintores, a emergir, por instantes, da sonolência final, espantado

         - Ainda estou vivo?

         coisas destas, amargas ou alegres, que me têm ajudado a entender o que sou, como sou, quem sou, e me iluminam quando escrevo: bastam-me como lâmpadas, e também permitem ver para dentro fundos de poço, caves, baús, o gramofone de campânula a que se dava corda com uma manivela empenada, colocava-se a agulha romba, de aço, no disco riscado, e a voz de Caruso, entre guinchos e estalos, a tremelicar a Bohème, enquanto a tia Madalena, lá em baixo, regava o jardim. Jack Dempsey, pugilista miraculoso, numa revista amarela. Um busto de Chopin, quebrado. Um exemplar sem capa do diário da escritora George Sand, informando a certa altura, a propósito do também escritor Merimé

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         (No original: «J’ai eu Merimé ce soir: C’est pas grand-chose…»)

         e o cheiro da relva molhada a subir até mim ao fim da tarde. Copos azuis facetados onde me ofereciam um golinho

         (com recomendação

         - Só um golinho)

         do anis que eu rondava na despensa como um gatuno. Deviam poder guardar-se estes momentos no banco, a render juros. E receber o extrato ao fim do mês: em lugar do dinheiro um clarinete à chuva, uma onda, a boina de Alfonsina Storni e o cheiro da erva molhada, o pobre Caruso a tentar soltar-se do disco. Se o gestor da conta fosse esperto informava-me «este mês tem mais uma onda», «até ao fim do ano espero conseguir-lhe dois clarinetes», ou «em seis meses, tal como os mercados estão, o tal Merimé não vai desiludir a senhora». E no exemplar sem capa do diário, em lugar de

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         lerei

         «Tive-o esta noite. É do caneco!»

 

António Lobo Antunes. Quinto Livro de Crónicas. D. Quixote,  2ª ed. pp 241-243.

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Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Sousa Tavares

«[…]

         Quando ela se foi, o padre Anselmo andaria pelos seus quarenta e tal anos, e continuou a exercer o seu sacerdócio por Medronhais e aldeias vizinhas da serra, aqui e além ungindo de Deus outras paroquianas tão devassas quanto a minha frustrada professora Fátima. Nada, porém, que as condenasse ao apedrejamento: felizmente, já não somos mouros, mas sim cristãos, e dizia-se que mulher manchada por padre é manchada por Deus. Essa foi a primeira lição que aprendi: o pecado depende do sujeito, não do predicado.

[…]»

Miguel Sousa Tavares in Madrugada Suja. Clube do Autor, 1ª ed., pp 34.

 

 

(...para além disto..., gosto muito das crónicas de S. Tavares. Das crónicas, dos contos, dos "quase romance"..., do Não te Deixarei Morrer David Crockett, do Sul do No Teu Deserto.  Gosto muito pouco, ou não gosto mesmo nada, dos romances, dos "grandes" romaces... Até me apetece dizer porquê, mas também não quero ser injusto: escrever dá muito trabalho e há que aprender a ler mesmo os livros que rapidamente se arrumam na estante e a que não se regressa mais...)

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Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Montedidio

É um livro espantoso. Parecem posts. São fragmentos de uma imensa integridade, escritos num rolo de papel que se vai enrolando e desenrolando numa desconcertante simplicidade: “Aproveito o candeeiro da rua para escrever encostado ao parapeito da janela, o ruído do lápis no papel faz o resumo do barulho do dia.” E lê-se em duas golfadas!...

 

 

«[… pp 57]

Mestre Errico franze os olhos por causa do pó, do perigo das farpas, e tem um esguicho de rugas ao pé dos olhos de tanto os fechar. Os olhos de Rafaniello são húmidos, limpa-os com o dorso da mão. Ganhei alguma confiança com ele: dom Rafaniè, parece que estais a chorar. “É o ar de cá de dentro, diz, é a cola, é Montedidio que me dá cabo dos olhos.” E limpa-os. Diz que todos os olhos para verem precisam de lágrimas, caso contrário tornam-se como os dos peixes que fora de água não veem nada e ficam secos e cegos. São as lágrimas, diz, que permitem ver. […]

 

[… pp 78] Maria diz que eu existo e assim eis que eu também me apercebo de que existo. Pergunto-me: não podia aperceber-me sozinho de que existo? Parece que não. Parece que é preciso que seja outra pessoa a avisar. […]

 

[… pp 85-86]

Enrijecem os músculos do lançamento, agora eu estou aqui para ti, somos namorados, digo e já agora, Maria, o que é que fazem os namorados? “Fazem amor, casam, fogem juntos”, diz sem hesitar. Não pergunto mais, basta-me que seja ela a saber. Olhamo-nos, os olhos estão largos por causa da escuridão. Ela abre o sorriso e a ponta da pila move-se sozinha. Quando abre a boca e aparecem os dentes pica-me e fico com calor ali mesmo. Passo-lhe o braço à volta do ombro, aperto um pouco. É a primeira vez que sou eu a tocá-la, que um gesto começa por mim. Maria apoia toda a cabeça no braço, deixo de lhe ver a cara, acalma-se a comichão na pila. Sinto uma força descomunal, a força dos lançamentos formou também o músculo para segurar Maria. Levanta-se, apanha contra o peito a roupa estendida e para se despedir estica o pescoço para a frente num beijo. Então vou com a boca directamente ao encontro da sua, assim fica igual. Os namorados fazem gestos iguais. […]

 

[… pp 90]

Rafaniello fica contente, diz que as bênçãos valem mais que o dinheiro porque são ouvidas no céu. E também as maldições são ouvidas, diz e cospe no chão para enxaguar a boca da palavra triste.

 

[… pp 97]

Rafaniello diz que de tanto insistir Deus é obrigado a existir, de tantas orações se forma o seu ouvido, de tantas lágrimas nossas os seus olhos veem, de tanta alegria surge o seu sorriso. Como o bumeramgue, penso: de tanto treinar prepara-se o lançamento, mas pode a fé sair de um treino? […]

 

[… pp 196]

Escrevo as suas palavras porque as ouço repetir, não por as recordar. […]»

 

Erri de Luca. Montedidio. Bertrand, 1ª ed., Nov, 2012.

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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

Hemingway

«[…] De súbito uma multidão entrou na rua. Vinham todos a correr apertados uns contra os outros. Passaram e subiram a rua em direcção à praça de touros, e atrás deles vinham mais homens a correr mais depressa, e depois alguns farroupilhas que corriam de verdade. Atrás deles havia um pequeno espaço vago e, logo os touros, a galope, com as cabeças abaixo e acima. Tudo se sumiu ao virar da esquina. Um homem caiu, rebolou para a valeta e deixou-se estar quieto, mas os outros touros foram a direito e não deram por ele. Corriam todos juntos.

      Depois de se terem sumido, um grande clamor veio da praça. E manteve-se. Depois, enfim, o estoiro do morteiro que significava terem os touros atravessado a massa de gente na arena e entrado para o touril.

(…)

      O touro que matara Vicente Girones chamava-se Bocanegra, tinha o número 118 da ganadaria de Sánchez Taberno, e foi morto por Pedro Romero, como terceiro touro dessa mesma tarde. A orelha foi-lhe cortada por aclamação do povo e dada a Pedro Romero, que, por seu turno, a deu a Brett, que a embrulhou num lenço que me pertencia e deixou orelha e lenço, juntamente com uma data de beatas de Muratti, no fundo da gaveta da mesinha-de-cabeceira que estava ao lado da cama dela no Hotel Montoya, em Pamplona.

(…)

      O touro estava especado nas quatro patas para ser morto, e Romero matou-o memo por baixo de nós. Matou-o, não como fora forçado a isso pelo último touro, mas como quis. Perfilou-se mesmo diante do touro, tirou a espada das pregas da muleta e bafejou a lâmina. O touro observava-o. Romero falou com o touro e bateu com um dos pés. O touro correu e Romero esperou por ele, a muleta baixa, bafejando a lâmina, os pés firmes. Depois, sem dar um passo em frente, uniu-se ao touro, o estoque estava no alto entre as espáduas, o touro seguiu a flanela ondulada baixa, que desapareceu ao desviar-se Romero para a esquerda, e tudo acabara.

(…)

      Levantei-me e fui para a varanda e pus-me a ver as danças na praça. O mundo já não andava à roda. Estava até muito límpido e luminoso, apenas com tendência a esfumar-se nos contornos. Lavei-me, penteei o cabelo. Achei-me estranho e desci à sala de jantar.

      - Aqui está ele! – disse Bill. – Meu velho Jake! Eu bem sabia que tu não esticavas desta.

      - Olá, meu borracho – disse Mike.

      - Tinha fome e acordei.

      - Come sopa – disse Bill.

      Sentámo-nos os três à mesa, e era como se faltassem seis pessoas.

[…]»

 

Ernest Hemingway. O Sol Nasce Sempre (Fiesta). Editora Livros do Brasil, pp 163/164, 198, 218 e 221/222.

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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

...só uma linha

O aniversário passou. As sentinelas do palácio advertiram que o poeta não trazia manuscrito. (…) Eu dou-te o valor que te faz falta – declarou o Rei. O poeta disse o poema. Era só uma linha.

«[…]

No final o Rei falou.

         - Aceito o teu labor. É outra vitória. Atribuíste a cada vocábulo a sua genuína aceção e a cada nome substantivo o epíteto que lhe deram os primeiros poetas. Não há em toda a loa uma só imagem que não tenha usado os clássicos. A guerra é o formoso tecido de homem e a água da espada é o sangue. O mar tem o seu deus e as nuvens predizem o provir. Manejaste com destreza a rima, a aliteração, a assonância, as quantidades, os artifícios da douta retórica, a sábia alteração dos metros. Se viesse a perder-se toda a literatura da Irlanda – omen absit – ela poderia reconstruir-se sem prejuízo com a tua clássica ode. Trinta escribas vão trancrevê-la doze vezes.

         Houve um silêncio e prosseguiu:

         - Tudo está bem e não obstante nada se passou. Nos pulsos não corre mais depressa o sangue. As mãos não buscaram os arcos. Ninguém empalideceu. Ninguém proferiu um grito de batalha, ninguém opôs o peito aos viquingues. Dentro do prazo de um ano aplaudiremos outra loa, poeta. Em sinal da nossa aprovação, toma este espelho que é de prata.

         - Dou graças e compreendo – disse o poeta.

         As estrelas do céu retomaram o seu claro rumo. Outra vez cantou o rouxinol nos bosques dos saxões e o poeta regressou com o seu códice, menos longo que o anterior. Não o repetiu de memória; leu-o com visível insegurança, omitindo certas passagens, como se ele próprio não as entendesse de todo ou não quisesse profaná-las. A página era estranha. Não era a descrição da batalha, era a batalha. Na sua desordem bélica agitavam-se o Deus que é Três e é Uno, os numes pagãos da Irlanda e os que combateriam, centenas de anos depois, no princípio da Edda Maior. A forma não era menos curiosa. Um substantivo singular podia reger um verbo plural. As preposições eram alheias às normas comuns. A aspereza alternava com a doçura. As metáforas eram arbitrárias ou assim o pareciam.

         O Rei trocou algumas palavras com os homens de letras que o rodeavam e falou desta maneira:

         - Da tua primeira loa pude afirmar que era um feliz resumo de quanto se há cantado na Irlanda. Esta supera todo o anterior e também o aniquila. Suspende, maravilha e deslumbra. Não a merecerão os ignaros, mas sim os doutos, os raros. Um cofre de marfim será a custódia do único exemplar. Da pena que produziu obra tão eminente podemos esperar uma obra ainda mais elevada.

         Acrescentou com um sorriso:

         - Somos figuras de uma fábula e é justo recordar que nas fábulas prima o número três.

         O poeta atreveu-se a murmurar:

         - Os três dons do feiticeiro, as tríadas e a indubitável Trindade.

         O Rei prosseguiu:

         - Como prenda da nossa aprovação, toma esta máscara de ouro.

         - Entendi e agradeço – disse o poeta.

         O aniversário passou. As sentinelas do palácio advertiram que o poeta não trazia manuscrito. Não sem espanto o Rei fitou-o; era quase outro. Algo, que não era o tempo, havia sulcado e transformado as suas feições. Os olhos pareceiam olhar muito longe ou ter ficado cegos. O poeta rogou-lhe que trocasse umas palavras com ele. Os escravos abandonaram a câmara.

         - Não executaste a ode? – perguntou o Rei.

         - Sim – disse tristemente o poeta. – Oxalá Cristo Nosso Senhor mo tivesse proibido.

         - Podes repeti-la?

         - Não me atrevo.

         - Eu dou-te o valor que te faz falta – declarou o Rei.

         O poeta disse o poema. Era só uma linha.

[…]»

Jorge Luis Borges. O Livro de Areia. Quetzal, pp 76-79.

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Domingo, 18 de Novembro de 2012

«Um Sonho», de Umberto Eco

     «Quando alguém diz «sonho com» ou «sonhei que», normalmente entende-se que esse sonho materializou ou revelou os seus desejos. Mas um sonho pode ser também um pesadelo, que nos anuncia aquilo que não desejamos de modo nenhum, ou um sonho revelador, que precisa da intervenção de um intérprete autorizado, que nos explique o que é que o sonho anunciava, quais eram as suas promessas ou ameaças.

      O meu sonho é desta terceira natureza, e conto-o tal como o sonho, sem me perguntar antecipadamente se corresponde aos meus desejos ou aos meus medos.

      Sonho que há um black-out global, que deixa todo o mundo civilizado completamente parado, e que numa tentativa desenfreada de se atribuírem responsabilidades, na tentativa de se reagir a urna ameaça, rebenta urna bela guerra planetária. Mas urna daquelas guerras sensacionais, não um incidente marginal ao estilo da Segunda Guerra Mundial, que só fez cinquenta e cinco milhões de mortos. Uma guerra verdadeira, daquelas que hoje a técnica permite travar, com áreas inteiras do planeta desertificadas pela radiação, com o desaparecimento de pelo menos metade da população mundial por entre fogo amigo, fome, pestes, em suma, uma coisa como deve ser, levada a cabo por generais competentes e responsáveis, à altura dos tempos que correm.

      Naturalmente (também somos egoístas nos sonhos), sonho que eu e os meus familiares e amigos vivemos numa zona do planeta (possivelmente a nossa) em que a situação ainda não se tomou completamente desesperada.

      Não haverá televisão, para já não falar da Internet, visto que as linhas telefónicas também foram pelos ares. Restará urna ou outra comunicação via rádio, através dos velhos aparelhos a galena. As linhas eléctricas também serão destruídas, mas remendando aqui e ali uns quantos painéis solares, sobretudo nas casas de campo, conseguiremos ter algumas horas de luz; para o resto, teremos de ir ao mercado negro comprar petróleo para os candeeiros, tanto mais que já ninguém vai perder tempo a refinar gasolina para os automóveis que, a existirem, já não terão estradas por onde andar. Na melhor das hipóteses, restarão carroças e caleches puxadas por cavalos.

      A esta escassa luz, e possivelmente junto a uma lareira alimentada a lenha com parcimónia, poderei então ler aos meus netos, órfãos da televisão, velhos livros de fábulas encontrados no sótão, ou contar-lhes como era o mundo antes da guerra.

      Ao fim da tarde, vamos sentar-nos à volta do rádio e captaremos uma ou outra transmissão distante, que nos dirá como estão a correr as coisas no resto do mundo e nos prevenirá dos perigos que se adensam à nossa volta. Vamos voltar a treinar pombos-correios para podermos comunicar, e será agradável desprender das suas patas urna mensagem acabada de chegar, dizendo-nos que a nossa tia sofre de ciática mas lá se vai aguentando, ou encontrar o jornal do dia anterior no stencil.

      Pode até ser que nos tenhamos refugiado no campo, onde se salvou uma velha escola, e nesse caso eu daria o meu contributo à comunidade ensinando Gramática ou História - nunca Geografia, porque entretanto o território teria mudado de tal maneira que falar de Geografia seria o mesmo que falar da História Antiga. Se não houvesse a escola, juntaria os meus netos e os amigos deles, e dava aulas em casa, primeiro uns rabiscos, para ganharem mão, e não só na escrita como também nos numerosos trabalhos manuais que terão de desempenhar, e em seguida coisas mais sérias; se houvesse alunos mais crescidos poderia até dar-lhes umas boas lições de Filosofia.

      Pode ser que também se tenha salvo o pátio da paróquia, com um pequeno campo de futebol (onde os rapazes irão jogar com uma bola de trapos), talvez descubramos na cantina um velho jogo de matraquilhos, e talvez o pároco peça ao carpinteiro para construir urna mesa de pingue-pongue, que os jovens vão achar mais apaixonante e mais criativo do que todos os videojogos de antigamente.

      Vamos comer muita verdura, se a zona não tiver sido contaminada pelas radiações, e as urtigas cozidas saberão tão bem que vamos pensar que estamos a comer espinafres. Como se multiplicam por vocação, os coelhos não hão-de faltar, e talvez até um frango aos domingos, o peito para a filha mais nova, para a mais velha uma coxa, as asas para o pai, a outra coxa para a mãe, e para a avó, que é um bom garfo, o pescoço, a cabeça e a mitra, que nos frangos caseiros é a parte mais saborosa.

      Redescobriremos o prazer dos passeios a pé, o aconchego dos velhos casacões fora de moda, e das luvas de lã, com as quais vamos poder atirar bolas de neve.

      Não pode faltar o velho médico de província, capaz de misturar os restos de aspirina com quinino. É claro que, sem as câmaras hiperbáricas, as tacs e as ecografias, a esperança média de vida vai baixar para cerca de sessenta anos, o que no fim de contas não será nada mau, dada a média noutros pontos do globo.

      As colinas voltarão a estar salpicadas de moinhos de vento. Em frente aos braços dos moinhos, os velhos contarão a história de Dom Quixote, e as crianças vão achá-la fascinante. Haverá música, e todos aprenderão a tocar um velho instrumento redescoberto; por muito má que seja a situação, bastam uma faca e uma cana para se fazerem orquestras inteiras de flautas, aos domingos vamos dançar nas praças, e talvez ainda se encontre um acordeonista que tenha conseguido sobreviver e saiba tocar a Migliavacca.

      Jogaremos de novo as cartas nos bares e nas tabernas, enquanto bebemos champanhe e vinho novo. O bobo da aldeia, obrigado a abandonar a vida política, vai voltar a circular por aí. Os jovens desmotivados vão procurar consolo nos vapores de camomila com uma toalha na cabeça, e dirão que se sentem nas nuvens.

      Vamos voltar a ver animais a saltitarem de um lado para o outro nas montanhas, texugos, fuinhas, raposas e lebres até mais não, e até os defensores dos animais vão concordar em ir à caça de vez em quando, para arranjar alimentos com proteínas; usaremos velhas espingardas, se as houver, ou podemos sempre socorrer-nos de arcos e flechas, e zarabatanas vibráteis.

      Nos vales, à noite, ouviremos o ladrar dos cães, que andarão sempre bem alimentados e serão estimados, porque se descobrirá que substituem os sistemas electrónicos de alarme a baixo custo. Ninguém voltará a abandoná-los nas auto-estradas, em primeiro lugar porque adquiriram valor comercial, e em segundo porque já não há auto-estradas, e mesmo que as houvesse ninguém estaria disposto a utilizá-las, porque levariam demasiado depressa a uma zona que é melhor evitar, ubi sunt leones.

      A leitura reflorescerá, porque os livros, excepto em caso de incêndio, sobrevivem a muitos desastres, e havemos de reencontrá-los em armazéns abandonados, subtraídos as grandes bibliotecas citadinas arruinadas. Vão voltar a circular por empréstimo, serão oferecidos no Natal, far-nos-ão companhia durante os longos Invernos e até no Verão, quando fizermos as nossas necessidades debaixo de uma árvore.

      Apesar das vozes inquietantes da rádio, os mais poéticos de entre nós vão manter a esperança e dar graças aos céus todas as manhãs por ainda estarmos vivos e porque o Sol brilha, dizendo que, bem vistas as coisas, está a nascer uma nova Idade de Ouro.

      Ao fazer as contas e me aperceber de que estes renovados prazeres têm de ser pagos com um mínimo de três biliões de mortos, com o desaparecimento das pirâmides e da Basílica de São Pedro, do Louvre e do Big Ben (de Nova Iorque nem se fala, será um imenso Bronx), e que eu estarei condenado a fumar palha (se todas estas desgraças não me fizerem perder o vício), quando acordo do meu sonho sinto-me bastante inquieto e - dizendo a verdade - espero que nunca se venha a tomar realidade.

      Em todo o caso, fui consultar um sujeito que se dedica a adivinhação e que até sabe interpretar as vísceras dos animais e o voo dos pássaros, e ele disse-me que o meu sonho não prenuncia apenas fenómenos horríveis: também sugere que todo este horror que descrevi pode ser evitado se conseguirmos refrear os nossos consumos, se nos abstivermos da violência e não excitarmos em demasia a violência alheia, e se voltarmos a saborear de vez em quando os antigos ritos e os costumes desusados - porque, no fim de contas, hoje ainda podemos desligar o computador e a televisão e, em vez de voarmos num charter para as Maldivas, ficar a conversar sobre qualquer assunto ao pé da lareira; só precisamos de força de vontade.

      Mas, disse ainda o meu oniromante, até isto é um sonho, e é preciso que tenhamos a coragem de parar de vez em quando, para evitarmos que os sonhos se tomem em algo pior. E como tal, continuou o meu oniromante (que é sábio mas irritadiço, como todos os profetas a quem ninguém presta atenção), vão todos dar uma curva, porque em parte estes problemas também são culpa vossa.»

 

Umberto Eco. A Passo de Carangueijo. Difel, 2ª ed., pp 355-359.

(O livro é uma recolha de intervenções e artigos escritos entre 2000 e 2005. «Um Sonho» foi publicado no L'Espresso, em 2003.)

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Terça-feira, 24 de Julho de 2012

Rentes de Carvalho

(Apetece-me recomendar este livro!)

 

«[…]

       Na sexta-feira a aldeia encheu-se de gente, caras estranhas, amigos, parentes com a família toda, garotos lambuzados a chorar da caminhada. O forno não parava e as mulheres saíam cobrindo os tabuleiros, lá dentro tinham-se invejado, medido os doces, espiado quantos ovos a outra punha, as comadres a entenderem-se com piscadelas, cheias de raiva, a acusar.

        Na rua os ciganos largaram um burro inteiro e o animal, doido de cio, não sabia escolher, a mula do Bigodes apanhou-o em cheio na barriga, os rapazes em roda para que não escapasse, contando os coices, a atiçar a mula que de repente se voltou contra eles, disparada para os olivais, o burro atrás, as galinhas a cacarejar espavoridas com a cavalaria, as mulheres à janela e o Raposo encostado à bengala, a gozar, a moer entre os dentes.

         - Tem vergonha, porcalhão! – disse-lhe a mulher, empurrando-o, e o Marques, parado à entrada da loja, ouviu e desatou a rir.

         O veterinário mandara os carimbos pelo criado. O regedor que veja se os animais estão sãos. Diz-lhe que não tenho tempo. E o rapaz, julgando que fazia bem, pegou nos que encontrara sobre a escrivaninha, já que era para a festa levo os maiores! mas o regedor experimentou primeiro sobre papel, desconfiado da tinta que era vermelha. – Aqui há engano!

         Havia. Mataram os porcos diante do lagar, dez, uns atrás dos outros, um gritar dos diabos, ninguém tinha pensado que era preciso chamuscá-los e os foguetes estavam guardados nas pias do lagar, bastava uma faúlha…

         Levaram-nos para as eiras, os cães atrás, o rastro de sangue logo negro de moscas. Os ciganos tinham pedido as tripas e sentaram-se no muro à espera, tão mortiços que as galinhas lhe vinham debicar os pés, mas também era o último grão, o pescoço quebrava com um barulho de noz e os casacos abafavam tudo.

[…]»

J. Rentes de Carvalho in O Rebate. Quetzal, 2ª ed., pp 131.

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Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

Tiago Patrício

 

«[…]

A lua subia contrariada e ganhava uma cor branca, os grilos faziam-se ouvir com mais intensidade, um dos homens que fumava atirou com uma beata para o chão, uma das mulheres assomou à porta e abriu as pernas para urinar e um ribeiro escorreu pela valeta. Outra mulher queimou-se no fogão enquanto fervia água e veio até à rua gritar palavrões para os homens sentados em silêncio. Um mocho pousado numa árvore próxima piou e duas pinhas tombaram sobre o telhado da casa de pedra rente ao chão. Um dos homens mais novos foi ter com os cães encostados à cerca e começou a provocá-los até eles começarem a lutar, depois continuou a dar-lhes pontapés para que eles não parassem. Entretanto procurou uma pedra na base do muro e levantou-a. Tirou lá de baixo umas folhas enroladas e abriu-as várias vezes até encontrar o que procurava, depois pousou-as em cima do muro e, quando parecia que ia urinar, começou a fazer movimentos lentos e depois cada vez mais rápidos até que se vergou sobre o muro, apoiado na mão esquerda, enquanto a direita terminava o assunto. Esperou alguns instantes até que se ouviu um fio de urina escorrer sobre as pedras. Abotoou-se e acendeu um cigarro depois de voltar a guardar a revista debaixo da mesma pedra.

[…]»

Tiago Patrício in Trás-os-Montes. Gradiva, 1ª ed., pp.49-50.

Prémio Literário Agustina Bessa-Luís, 2011

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Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Teolinda Gersão

«[...]

      Ouvir era um segredo. Ela ouvia muitas coisas, algumas impossíveis. Por exemplo, bastava-lhe olhar a pauta para ouvir a música lá escrita. Acontecera-lhe a primeira vez com Mozart, mas verificara depois que podia ouvir qualquer música olhando apenas a partitura. Como se dentro dela alguém tocasse. Não apenas um instrumento, violino ou piano, tinha a certeza de que poderia ouvir toda uma orquestra a partir da música escrita.

(...)

      Ouvir era deixar o mundo entrar em si. Ficava sem defesa, escutando. O som seguia o seu curso e ela deixava de existir separadamente, tornava-se parte do que acontecia. O que era também um risco. Quase de morte, pensava às vezes. Porque a música, de algum modo, estilhaçava-a, fazia-a sair de si mesma e arrastava-a para um estádio, não humano, contra o qual a música finalmente triunfava. Um triunfo imperfeito, contudo, porque a música tinha sempre que recomeçar, de acontecer de novo, para que o caos não se instalasse. Enquanto durava (mas nunca duraria para sempre), a música era uma forma de ultrapassar o caos, obrigando-o a caber numa medida. Ouvir era talvez isso: tomar parte na luta entre a medida e o caos.

[...]»

 

Teolinda Gersão in Os teclados. Sextante, 1ª ed., pp 13-15.

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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Lidl

Tem uma única luz, monocolor, triste. Não tem produtos, tem um produto, simples e barato. Não tem adereços, tem outras coisas igualmente inúteis, mas tristes, acabrunhadas, escondidas em caixas desengonçadas ou despudoradamente abertas e expostas. Não tem "rapariguinhas do shoping", tem empregados e empregadas, vestidos de um azul-oficina, na mais crua encenação do assalariado. Não me importava, se não gostasse de cores, muitas cores, de "rapariguinhas do shoping" e de adereços inúteis... e, sobretudo, se do olhar do meu casebre de trabalho não estivesse plantado o Lidl, o "meu Lidl", como um enorme madeiro seco entre as casas a lembrar-me que as sociedades de consumo são também sociedades de ansiedade.

 

 

«[...] Pensa bem no Lidl, e verás como funciona a analogia para o ponto em que todos os princípios básicos da desumanização estão em movimento, e declaradamente ao ataque. É uma máquina que agride furiosamente o teu sentido estético, apresentando-te sistematicamente a mais feia e desoladora das paisagens acessíveis ao alcance dos teus olhos. Como acabas por não ter outro remédio senão voltares lá muitas vezes, é o teu respeito básico pela estética que começa a enevoar-se, até que, um dia, já nem o vejas. Mas imagina que és forte. Sim, Ana Maria, imagina que és a mulher que nós sabemos que tu és. És corajosa, és teimosa, tens toda a força do mundo dentro de ti, e nada te assusta. Por isso o teu sentido estético é incorruptível. Nesse caso, a Grande Máquina humilha-te e é assim que te degrada, porque o Lidl vende tudo realmente tão barato, e tu para seres quem és tens realmente tão pouco dinheiro, que por muito que aquela paisagem assumida e prepositadamente feia te faça doer os sentidos, tu não podes deixar de lá voltar. Uma vez, e mais outra, e mais outra. E, de cada vez, ficas um bocadinho de nada menos brilhante. Um bocadinho de nada mais cansada. Um bocadinho de nada mais triste. E, em consequência, um bocadinho de nada menos humana. Agora conta isto por semanas, multiplica as semanas por meses, soma os meses em anos, e pensa bem quanto do teu coração já ficou enterrado por baixo dos caixotes do Lidl. Ainda por cima não te esqueças desta parte fundamental do Plano: para cada produto só tens uma escolha. Certo? Então o que acontece ao teu livre-arbítrio? Para onde vai a tua capacidade de escolheres tu quem queres ser, e como, e porquê, e quando? O que fazes da alma racional e consciente que te mantém o sexto sentido desperto? [...]»

 

Clara Ferreira Alves in A Primeira Luz da Madrugada. Oficina do Livro, 1ª ed., pp 114-115.

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Zafón

«[...] No outro dia vi uma menina que corria pela rua com um giz na mão deixando o rasto de uma linha na parede e tive a impessão de que, aos cinco anos, descobrira o sentido da vida. [...]»

 

Carlos Ruiz Zafón no prólogo de O Principe da Neblina. Planeta, 1ª ed., pp 11.

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

O Bom Malandro

(O que mais gosto no Mário é a linguagem simples e directa, o humor certeiro e aquele ar malandro depurado pela idade. Lembra-me um pouco Clint Eastwood e os seus filmes, com imagens cruas e diálogos mínimos, sem adjectivos inúteis)

  

«[...]

O meu irmão apareceu-me no consultório, problema de laringite, nada de grave. Conversámos.

- Tenho uma namorada nova - revelou ele.

- Bravo. E é bonita?

- Não tanto como a Mau. Cheguei a contar-te porque nos separámos?

- Nunca, Heitor.

- Ela tinha um caso com a nossa prima Li.»

 

Mário Zambujal in Longe É Um Bom Lugar. Clube do Autor, 2ª ed. pp 49.

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Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Tulipas de Pingo Doce

(A notícia é recente: "Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal". Não me apetece tecer grandes comentários, mas de repente lembrei-me de um texto, já com uns bons anos, de A. Barreto - quem diria... Aqui fica, apesar de já antes me ter referido a ele.)

 

 

«A minha pátria é uma conta bancária


Crimes, casamentos e luta entre poderosos: eis três dos mais atraentes condimentos da crónica que excita toda a gente. Nem as misérias humanas, que as televisões transformaram em notícias, destronam aqueles clássicos. Apesar disso, a ficção vem desvalorizando o crime. E o casamento, por causa do sexo, já não é o que era. Só a luta entre os ricos mantém toda a sua potencialidade. As disputas entre a família Champalimaud, o Govemo, os banqueiros portugueses e um banco espanhol estão nesse caso.

É interessante verificar como os argumentos, de qualquer lado, são comuns. A palavra dada, os compromissos, a honra, a liberdade, a transparência, a legalidade e o interesse nacional são invocados por todos. Rapidamente se percebe que a querela é política. O que está em causa é o poder. E, como nos filmes, a vingança. Depressa se compreende que os participantes neste enredo têm as suas interpretações dos valores em causa. A família Champalimaud, por exemplo, cujas contribuições para a história contenciosa portuguesa são famosas, tem ideias próprias sobre a palavra, a honra e a pátria. E todos os restantes têm as suas ideias sobre tais vocábulos e realidades.

As profissões têm códigos de conduta. Os estados e as condições também. Da ética empresarial, por exemplo, não fazem parte a palavra, a honra e o patriotismo. Pode um empresário, como ser humano, cultivar tais valores. É melhor que assim seja. Mas, como profissional, não é o que se Ihe pede. Exige-se-lhe, isso sim, que ganhe. Podemos não gostar. Mas as coisas são assim.

Compare-se com a ética política, por exemplo. Ou com a do desporto. Para já não dizer a militar. Diferentes umas das outras, integrando valores diversos, têm princípios afins. Entre eles: ganhar. É sabido como, na guerra, se perdoa tudo ao nosso soldado, enquanto tudo se condena ao adversário. Ou como, no desporto, o fim justifica os meios. Ou ainda como, na política, para uma vitória eleitoral, vale tudo.

É infeliz que assim seja. Gostamos mais de um “cavalheiro”. Admiramos o fair play. Elogiamos quem, a ganhar mal, prefira perder bem. Apreciamos os que respeitam regras de generosidade. E sublinhamos o princípio moral de que os fins não justificam os meios. Eis valores que nos permitem viver numa meIhor sociedade do que aquela onde apenas vigorem as éticas do sucesso e da vitória.

Mas muito disso é literatura. Aos nossos soldados perdoa-se e exige-se tudo, sobretudo em campo de guerra, onde todos os princípios morais estão suspensos. As hordas desportistas estão quase sempre à beira do massacre do inimigo, literalmente. À procura da vitória, os militantes políticos estão geralmente prontos para tudo. À espera de lucros, empresários e accionistas “não olham a meios”. Um empresário não tem de ter palavra e honra. Um homem sim. Mas um empresário tem de ter balanços e cash flow.

Previsivelmente, bairristas ou seguidores, soldados ou accionistas, evitam argumentar com os seus interesses: eles sabem que, fora das profissões, algures no património de uma comunidade, há valores mais universais que poderão formar uma moral comum. Ou uma cultura. Por isso os argumentos são sempre gerais e abstractos. Para defender o seu interesse, o aficionado, o guerreiro ou o capitalista afirmarão sempre a sua honra, a palavra, o interesse nacional, a justiça e a ética.

Estamos pois no reino de uma semântica social e de códigos de conduta privados. Não duvido de que Champalimaud seja patriota, com a sua ideia própria de pátria, urna pátria cujo governo lhe deixe fazer o que quer. No exercício da sua profissão, para que tem, dizem, excepcional talento, fez o que sabe: negócios, bluffs, ousadias, manobras de diversão e mais-valias. Pôs em prática, no seu interesse, os desejos de internacionalização tão apregoados pelas autoridades. Se faltou a regras de cortesia, a compromissos e a palavra dada, terá sido em nome da sua empresa, que é a sua pátria.

A este propósito, o argumento que defende o capitalismo nacional é débil. Com efeito, a vontade de preservar em mãos nacionais o capital de um grande grupo não resiste à primeira prova. E se o interesse desse capitalista nacional é o de vender a quem melhor paga? E se o interesse do grupo é o de se submeter a um mais poderoso? Será que a decisão de vender a estrangeiros, tomada por um reputadamente bom empresário português, faz dele um traidor?

Quanto ao Governo, aos governos, sobretudo o actual, mas também o anterior, o que lhes critico é de não saberem o que querem. Ou antes, de quererem tudo. Investimento estrangeiro e capitalismo nacional. Multinacionais e capitalistas portugueses. Grupos fortes e controlo político. Internacionalização e nacionalismo económico. Grandes barões e capitalismo popular. Centros de racionalidade e democracia económica. Livre iniciativa e selecção dos bons capitalistas. Das leis gerais sobre privatizações, aos diplomas de alienação, raramente os governos foram precisos quanto aos papéis respectivos do Estado e do mercado. E nas negociações concretas, sempre o Estado demonstrou querer guardar, informalmente, prerrogativas que não assumia explicitamente. O que em resumo se diz: não sabem o que querem.

Aprendi, há muitos anos, que a neutralidade pode ser um defeito. Houve até quem dela fizesse o “último círculo do inferno”. Mas a vida também me ensinou a reconhecer que há combates que não nos dizem respeito. E que, nesses, só tomam partido os interessados, os fanáticos e os parvos. Pela sucessão de gestos de um e de outro, entre o Governo e Champalimaud, venha o Diabo e escolha. E que tenha bom proveito.

Completamente bêbedo, um tenor de ópera deu, em Londres, conferência de imprensa. Ladeado de dois membros do Governo português, que ali se deslocaram de propósito, defendeu a realização de um campeonato de futebol em Portugal. Tendo-lhe alguém perguntado porquê, respondeu: “Porque o Governo português foi o primeiro a pedir.” Também aqui, pelos vistos, vale tudo.

(20. 6. 1999)

 

António Barreto. Uma Década. Retrato da semana 1991-1999. Relógio d'água. pp 499-502.

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publicado por Fernando Delgado às 23:07
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Kundera

«[...]

Nunca acabaremos de criticar os que nos deformam o passado, o reescrevem, o falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, calam a de outro; estas críticas são justas (não podem deixar de sê-lo), mas não têm grande importância se não forem precedidas de uma crítica mais elementar: a crítica da memória humana enquanto tal. Porque que pode esta, pobre dela, na verdade? Não é capaz de reter o passado mais do que uma miserável parcelazinha, sem que ninguém saiba por que motivo justamente esta e não outra, uma vez que tal escolha, em cada um de nós, se faz misteriosamente, à margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: uma realidade, tal como existia enquanto existia, já não existe; a sua restituição é impossível.

(...)

Imagino a emoção de dois seres que voltam a ver-se passados anos. Outrora frequentaram-se, e pensaram por isso estar ligados pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. As mesmas recordações? É aqui que o mal-entendido começa: não têm as mesmas recordações; os dois guardam do passado duas ou três pequenas situações, mas cada um tem as suas; as suas recordações não são parecidas; não se encontram; e nem sequer quantitativamente são comparáveis: um recorda-se do outro mais que o outro se recorda dele; primeiro porque a capacidade de memória difere de um indivíduo para outro (o que seria ainda uma explicação aceitável para cada um deles), mas também (e é mais penoso admiti-lo) porque não têm a mesma importância um para o outro. Quando Irena viu Josef no aeroporto, lembrava-se de cada pormenor da aventura passada de ambos; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro segundo, o seu encontro assentava numa desigualdade injusta e revoltante.

[...]»

 

Milan Kundera in A Ignorância. D. Quixote, 1ª ed. pp 101-103.

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publicado por Fernando Delgado às 00:49
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