Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

«Deus e o Diabo»

D_Diabo.jpg

Nas televisões, para além de uma lógica comercial, suponho que existe uma lógica jornalística na concepção de programas informativos... É esta lógica jornalística que me assusta em "Deus e o Diabo". Este programa é o protótipo do populismo tal como o conhecemos hoje e que se alimenta sobretudo das "redes sociais". Agora chegou à televisão pela mão do mesmo jornalista que introduziu os reality shows na tvi,  e que volta a "inovar" com mais um programa lamentável e que se baseia em duas coisas muito simples: uma frase retirada do contexto e imediatamente valorizada - falsa, verdadeira, ... - e a opinião de público anónimo em direto sobre essa frase ou qualquer outra.

É assim que nascem os populismos: uma opinião que se transforma em realidade/verdade e o pseudo-contraditório sobre essa realidade/verdade... É a transposição direta das fake news das "redes sociais" para as tv's, para um público-alvo bem definido. Depois queixem-se!

O J. Eduardo Moniz não é obviamente ingénuo e diz ao que vem: “Não pensem que vou fazer um debate, uma entrevista, que vou fazer de moderador… Não é nada disso! Espero que os portugueses gostem, porque vão ver jornalismo sério, muito frontal, sem papas na língua, que chama as coisas pelos nomes. Vai ser interessante“.

J. E. Moniz imagina-se sentado numa poltrona moralista, entre as cadeiras monoteístas de Deus e do Diabo. Condiz com a personagem, mas não pense que somos estúpidos.

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 23:16
link do post | comentar | favorito
Domingo, 27 de Janeiro de 2019

... biodiversidade

IMG_4314.jpg

(Gondufo, Serra do Açor)

«[…] Uma perturbação ecológica é uma mudança temporária nas condições ambientais (incêndio, cheia, seca, invasão de pragas...) que muda profundamente a estrutura de uma comunidade ou de um ecossistema e a disponibilidade de recursos, incluindo o substrato ou o ambiente físico (Meffe e Carroll 1997). Muitas plantas e animais beneficiam das condições criadas por uma perturbação, sendo que algumas espécies, com elevada capacidade de dispersão e ocupação (colonizadoras por vocação) dependem da existência de perturbações. Outras espécies, como plantas intolerantes face à sombra, dependem também da existência de perturbações periódicas, que bloqueiem a sucessão para cobertos arbóreos mais densos.

Na ausência de perturbações, outras espécies – aquelas com maior capacidade competitiva – vão eliminando as concorrentes e o número de espécies pode diminuir. Fica então clara uma função ecológica da perturbação: criar manchas de habitat adequado para as espécies abundantes nas etapas iniciais da sucessão, mas que são sucessivamente excluídas pela competição em etapas mais avançadas. Por outro lado, perturbações muito extensas, frequentes ou intensas podem eliminar grande parte das espécies de paisagens inteiras, restando apenas as mais tolerantes ao tipo de perturbação em causa.

Deste modo, uma paisagem sujeita a um regime de perturbações de extensão, frequência e intensidade intermédias, caracterizada por manchas em diversas etapas da sucessão ecológica (que se inicia logo após a perturbação) proporcionará um meio variado, que fornecerá habitat a um considerável número de espécies. Estas encontram sempre, em cada momento no tempo, uma mancha de habitat favorável onde sobreviver e a partir da qual colonizar outras manchas de habitat que vão surgindo ao longo do ciclo ”perturbação – sucessão – perturbação”.

Foi com base nestas ideias que Connell propôs, em 1978, a hipótese do nível de perturbação intermédio, segundo a qual a biodiversidade é máxima em ecossistemas sujeitos a perturbações intermédias quanto à respetiva extensão, frequência e intensidade (Meffe e Carroll 1997). Esta noção questionou velhas ideias segundo as quais a diversidade biológica seria máxima em ecossistemas em equilíbrio (clímax da sucessão) e não perturbados. […]»

José Manuel Lima Santos. Agricultura e biodiversidade: uma diversidade de temas. CULTIVAR– Cadernos de Análise e Prospetiva – CULTIVAR, nº 8, junho, 2017. GPP, pp 13-19.

 

«[…] Dada esta diversidade de impactos (positivos e negativos) da agricultura sobre a biodiversidade, existem várias correntes alternativas à forma como se aborda esta relação (Tscharntke et al. 2012). Uma dessas correntes (conhecida como “land sparing”1) preconiza a separação total das áreas com objetivos de produção e conservação, ou seja, a intensificação da agricultura com objetivos económicos e de produção nas áreas mais apropriadas, esquecendo completamente as questões de conservação e argumentando que, desta forma, a necessária produção de alimentos será conseguida numa área geográfica mais reduzida, sobrando mais área para a conservação da biodiversidade. Esta corrente ignora os valores de biodiversidade associados a áreas agrícolas mais extensivas, os quais dependem da manutenção de atividade agrícola mesmo que em áreas marginais e com pouca rentabilidade económica. Uma outra corrente (“land sharing”) advoga precisamente a manutenção destas áreas, argumentando que para além da biodiversidade, elas preservam outros serviços de ecossistema importantes (valor cénico, produtos tradicionais, qualidade da água, etc.) que devem ser valorizados num contexto de multifuncionalidade da paisagem. Há ainda quem defenda a adoção de estratégias de gestão para manutenção da biodiversidade, mesmo em contextos agrícolas mais intensivos, numa lógica de “intensificação ecológica” (Bonmarco et al. 2013), em que elementos da biodiversidade podem ser utilizados como fonte de importantes serviços para a agricultura (controlo de pragas, polinização, fertilidade do solo) que devem ser potenciados como substitutos de inputs de origem antropogénica. A intensificação ecológica tem como objetivos manter ou aumentar a produtividade, mas minimizando os impactos sobre o ambiente através da integração de serviços de ecossistema nos sistemas de produção agrícola.[…]»

1 “Poupar a terra”, numa tradução literal, por oposição a “land sharing”, “partilhar a terra”.

Francisco Moreira, Ângela Lomba. A importância da agricultura na preservação da biodiversidade. CULTIVAR– Cadernos de Análise e Prospetiva – CULTIVAR, nº 8, junho, 2017. GPP, pp 39-45.

 

«[…] os objetivos são os de potenciar o desenvolvimento dos territórios rurais, considerando os sistemas produtivos e não produtivos com uma abordagem territorial: ou seja, uma abordagem que considera em conjunto os recursos naturais, económicos, sociais e culturais de um determinado território, potenciando novos arranjos institucionais que permitem aproveitar de uma forma mais coerente todos os recursos, para o desenvolvimento rural e bem-estar das comunidades rurais. Aqui, incluem- se os bens e serviços públicos que são suportados por estes territórios e pelas atividades que neles se desenvolvem. Entre estes, a paisagem tem um lugar central, como suporte de funções com crescente valor social, como o recreio e lazer, a identidade cultural, a qualidade de vida e o bem-estar coletivo e individual. Esta é a perspetiva que há mais tempo tem tido destaque e sido debatida: a do papel da agricultura na construção de uma paisagem específica e com um carácter único em cada lugar, e da importância dessa paisagem no suporte de benefícios societais – ou seja, da agricultura como garante da diversidade e carácter da paisagem rural, que tão valorizada é pela sociedade europeia.

(…) A paisagem é assim, além de tudo mais, um mediador para a gestão integrada do espaço rural e das diferentes procuras e expetativas relativas a esse espaço. […]»

Teresa Pinto Correia. A agricultura e a paisagem, suporte de múltiplos usos e valores sociais. CULTIVAR– Cadernos de Análise e Prospetiva – CULTIVAR, nº 8, junho, 2017. GPP, pp 47-51.

 


publicado por Fernando Delgado às 00:17
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

Txoria Txori

Uma das centenas de interpretações desta canção lindíssima de M. Laboa...

 


publicado por Fernando Delgado às 00:38
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

A diversidade do território em siglas/acrónimos

Não é fácil pegar nesta lista de siglas e acrónimos e encontrar o "fio à meada" - entre o confuso e o complexo, não sei que escolher...

(Mas convém ser rigoroso: os cadernos de análise e prospetiva do GPP, apesar do seu lado marcadamente institucional, são um bom exemplo de coisas boas - em alguns casos complexas... - produzidas pelo Ministério da Agricultura. A não perder!).

 

«INSTRUMENTOS DE POLÍTICA COM EXPRESSÃO TERRITORIAL»

EDEC.jpg

Fonte: Instrumentos de política com expressão territorial (espaço rural). GPP e DGDR. CULTIVAR, Cadernos de Análise e Prospetiva, N11, março 2018, pp 62.

A. ÂMBITO EUROPEU
EDEC – Esquema de Desenvolvimento do Espaço Comunitário

B. ÂMBITO NACIONAL
1. SISTEMA DE GESTÃO TERRITORIAL – ÂMBITO NACIONAL
PNPOT – Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território
PEOT – Programas Especiais de Ordenamento do Território
POAAP – Plano de Ordenamento de Albufeiras de Águas Públicas
POOC – Plano de Ordenamento da Orla Costeira
POAP – Plano de Ordenamento das Áreas Protegidas
PSRN2000 - Plano Setorial da Rede Natura 2000
PS – Programas Setoriais com incidência territorial
PGRI – Plano de Gestão de Riscos de Inundação
PGRH – Plano de Gestão da Região Hidrográfica
PROF – Programa Regional de Ordenamento Florestal
SNDFCI – Sistema Nacional e de Defesa da Floresta contra Incêndios
2. ESTRATÉGIAS com incidência territorial de âmbito nacional
ENAAC – Estratégia Nacional para Adaptação às Alterações Climáticas
Estratégia Nacional Integrada para a Prevenção e Redução de Riscos e Avaliação Nacional de Risco
PANCD – Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação
PNA – Plano Nacional da Água
Estratégia para o Regadio Público 2014-2020
ENGIZC – Estratégia Nacional para a Gestão Integrada da Zona Costeira
ENCNB – Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade
ENF – Estratégia Nacional para as Florestas

C. ÂMBITO REGIONAL
SISTEMA DE GESTÃO TERRITORIAL – ÂMBITO REGIONAL
PROT - Programa Regional de Ordenamento do Território

D. ÂMBITO INTERMUNICIPAL E MUNICIPAL
1. SISTEMA DE GESTÃO TERRITORIAL – ÂMBITO MUNICIPAL
E INTERMUNICIPAL
Programa Intermunicipal
PDI – Plano Diretor Intermunicipal
PDM – Plano Diretor Municipal
PUI e PU – Plano de Urbanização Intermunicipal e Municipal
PPI e PP – Plano de Pormenor Intermunicipal e Municipal

ESTRATÉGIAS e PLANOS com incidência territorial de âmbito municipal
EMAAC – Estratégias Municipais de Adaptação às Alterações Climáticas
PMDFCI – Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios

E. Exemplos de OUTRAS CONDICIONANTES (SERVIDÕES)
RAN – Reserva Agrícola Nacional
REN – Reserva Ecológica Nacional
Diretiva Nitratos – Proteção das águas contra a poluição causada por nitratos de origem agrícola
DPH – Domínio Público Hídrico
Captação de Águas Subterrâneas para Consumo Humano
AH – Aproveitamentos Hidroagrícolas
Regime de proteção ao olival
Regime de proteção ao sobreiro e à azinheira
Regime Florestal

F. Exemplos de outros NORMATIVOS e INSTRUMENTOS
PGF – Plano de Gestão Florestal
PEIF – Plano Específico de Intervenção Florestal
ZIF – Zonas de Intervenção Florestal
RJAAR- Regime Jurídico aplicável às Ações de Arborização e Rearborização
Regime Jurídico da Caça
Regime Jurídico da Pesca em águas interiores não sujeitas à jurisdição marítima
AAE – Avaliação Ambiental Estratégica
AIA – Avaliação de Impacte Ambiental
AincA – Avaliação de Incidências Ambientais
CUP – Carta das Unidades de Paisagem em Portugal Continental
SNAC – Sistema Nacional de Áreas Classificadas
RFCN – Rede Fundamental de Conservação da Natureza
ERPVA – Estrutura Regional de Proteção e Valorização Ambiental
Regime de incentivos fiscais ao desenvolvimento rural

 


publicado por Fernando Delgado às 23:53
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2018

«Tempo»

Há uns "miúdos" que me fazem acreditar que a música portuguesa tem futuro..., mas também que sei eu de música? Nada, ou quase nada..., mas como é bom ouvir estas canções!

Mesmo que eu queira mudar
De mim não consigo fugir
Sou feito do vento que sopra devagar
E do tempo que sobrar
E do tempo que sobrar

Se o segredo for deixar partir
No sereno do areal
Antes que o apego se apegue ainda mais
Deixo ao tempo a solução
Deixo ao tempo a solução

 

E se encontrares por aí
Quem te faça ser melhor mulher
Aproveita para ser feliz
Aproveita para ser feliz
Aproveita para ser feliz
Aproveita

E se encontrares por aí
Quem te faça ser melhor mulher
Aproveita para ser feliz
Aproveita para ser feliz
Aproveita para ser feliz
Aproveita

tags:

publicado por Fernando Delgado às 23:20
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018

«Uma narrativa para a paisagem»

«[…]

Como vem sendo corrente desde que deixámos de fazer castelos e apodreceram as caravelas que iam para além da Taprobana, estamos outra vez em crise, e as crises, por serem mundos cheios de oportunidades para os oportunistas das crises, tanto se prestam à melancolia, como à interrogação, à negação, ao conformismo ou à fuga.

O passado mítico é um bom lugar para tentar exorcizar tempos de angústia e de incompreensão sobre o que se passa. O discurso comum pretende transformar o presente numa inevitabilidade escondida na complexidade das crises sistémicas e globais, embrulhadas em ralhetes morais-liberais sobre o que acontece aos gastadores inveterados, organizando-o numa narrativa tecnocrática cheia de folhas de cálculo e discursos monocórdicos em “economês”. Perdido o Império, com a Europa feita em cacos e em vias de se transformar outra vez num saco de gatos, instaurado o casino financeiro (…) viciado em pôr a roleta do capitalismo global a alimentar os jogadores, vai-se perdendo o Estado e diluindo a Nação, já há muito espalhada nos quatro cantos do Mundo, ora festejando as glórias da bandeira portuguesa nos seus heróis populares ou eruditos, ora mirrando com saudades da família, dos amigos, do sol, dos pastéis e da boa comida.

Antes, eram os tipicismos regionais, longamente romanceados e ilustrados pelas suas paisagens, que forneciam um veneno doce e tóxico para ilustrar a invencível alma lusitana e os seus heróis. Agora, sem o xarope se ter esgotado, as paisagens desconstroem-se e atropelam-se nas suas próprias mitologias: a flor das amendoeiras do Algarve não é compatível com a praia, e a banalização do resort tropical ou do golfe triturador de falésias vai mal com ambientes protegidos, figos secos com amêndoas, shots, cataplanas, comida rápida, voos low-cost, parques aquáticos, vivendas a esmo e serras a arder. Um desassossego. Se a paisagem e as suas narrativas e representações são constitutivos poderosos da identidade, que identidade se construirá que não seja a própria sensação de perda de identidade?

[…]»

Álvaro Domingues in Volta a Portugal. Uma Narrativa para a Paisagem. Ed., Contraponto, pp 25-26.

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 22:53
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2018

Guião para um filme tragicómico - take 2

Local de filmagem: Terreiro do Paço

Ambiente: Urbano, agitado, multiracial, multicultural

Personagens: Ministro das Finanças e Secretário de Estado Adjunto e das Finanças

Take 2 (panorâmico sobre o Terreiro do Paço, com oTejo ao fundo, zoom para a estátua de D. José I, pormenor dos pombos sobre o cavalo e entrada pelas arcadas do ministério das finanças com alteração dos níveis de luz e ruído, passando do mundano ao reservado)

(Mourinho, nas escadas do ministério das finanças parece aguardar Centeno) - bom dia caro ministro..., a sua secretária tem uma carta urgente...

(Centeno) - uma carta, urgente? de quem?

(Mourinho) -  do sr. ministro, de si!

(Centeno) - de mim? (rugas fugidias na testa contrastam com o tom infantil da pergunta)

(Mourinho) - sim! diz que existem grandes riscos no orçamento..., o Primeiro já ligou a perguntar o que se passa...

(Centeno) - ah, já percebi, do presidente do Eurogrupo... (sorriso malandro, mas infantil). A carta é para o Secretário de Estado, é para si!

(Mourinho sem convicção) - ... mas está dirigida ao sr. ministro! 

(Centeno) - não...,  O presidente do Eurogrupo não escreve ao ministro das finanças, ouve-o, dorme com ele! E quando ouve, discorda dele... E quando dorme... (sorriso malandro, lascivo, mas infantil)

(Mourinho desalentado) - mas então o que faço, o que digo ao Primeiro?

(Centeno, com voz pausada, solene) – diz-lhe que o ministro das finanças ouve o presidente do eurogrupo e discorda dele e que o presidente do eurogrupo escreve ao ministro das finanças e ..., e vice-versa...

(Mourinho baralhado) - vice-versa?!...

(Centeno) - sim!, vice aqui, versa lá, em Bruxelas!... vice-versa...

(Mourinho, a morder o dedo mindinho e a olhar para a ponta dos sapatos lustrosos parece meditar e falar para si próprio...)

(Centeno numa decisão rápida) - deixa, eu falo com o Primeiro! Ele ouve-me (cala-se, sobe as escadas,... e ainda murmura para si próprio) - ... se calhar escrevo-lhe uma carta..., ou vice-versa...

Corta!!!

 


publicado por Fernando Delgado às 23:31
link do post | comentar | favorito

Guião para um filme tragicómico - take 1

Local de filmagem: gabinete de reuniões do Conselho Europeu, em Bruxelas (como não existe sede do Eurogrupo, é escolhido um ao acaso)

Ambiente: Tipo clandestino - mobiliário austero e iluminação artificial, difusa, com lugares na penumbra.

Personagens: Todos os ministros das finanças do euro, vestidos de fato cinzento-escuro e gravata vermelha, e ainda o vice-presidente da CE, o comissário dos assuntos económicos e financeiros, o presidente do BCE e o diretor do MEE, estes vestidos de fato azul escuro e gravata branca.

Take 1 (travelling pela sala de reuniões antes do início da reunião. Especial atenção à austeridade do ambiente e às facies pálidas das personagens)

 (Centeno) - toca a sineta com um riso infantil…

(Centeno) - volta a tocar a sineta e olha com ar reprovador para Giovani Tria, ainda de pé junto da cadeira

(Giovani Tria para Centeno, com o olhar distante, fixo no vazio) – Estou como a torre de Pisa: ainda de pé! (esboça um sorriso, mas perante o silêncio dos restantes acaba por se sentar. Centeno sorri, sorriso infantil!)

(Centeno dá a palavra a Moscovici que inicia um longo discurso) – Sr. Presidente, caros colegas (sorri para os de gravata vermelha) temos que dar umas palmatoadas aqui no camarada Tria (volta a sorrir sem levantar os olhos e por isso não percebeu o esgar de dor do italiano). As regras são regras e como tal têm que ser cumpridas sob risco do três ser ultrapassado ou, na hipótese otimista, ficar mais de cinquenta por cento acima do dois. Coisa que não acredito, já que o dois é um número traiçoeiro que quando inchado se parece mais com o três. Temos que abater o três, custe o que custar…

(Tria, com voz colérica) – E sou só eu que valho menos cinquenta por cento que a diferença entre o dois e o três (faz uma pausa fazendo cálculos mentais). Este cenário não entra em consideração com a hipótese do três também poder inchar e ficar um oito ou um infinito (nova pausa) … um oito deitado…

(Scholz) – morto! (a luz ténue acentua o rosto hirto do personagem)

(Silêncio, longo silêncio… Luz ténue sobre rostos muito brancos, casacos escuros que apenas revelam a silhueta e gravatas berrantes – vermelhas e brancas - como cordas ao pescoço)

(Centeno) – então?!, não é preciso tanto dramatismo (sorriso cândido, infantil)

(Tria, outra vez com voz colérica) – E o senhor presidente, e Portugal? A raiz quadrada do três, somada à diferença do três com o dois, mesmo considerando o grau de liberdade que concede ao um, a si próprio, convenhamos, (e olha Centeno de frente) pelas minhas contas também tende para um oito deitado!

(Centeno sorri, sorriso infantil, ingénuo. Olha para o outro lado da mesa…)

(Mourinho, afagando com a mão direita a gravata vermelha e olhando-a com medo que a cor desbote) – Mas nós temos as contas certas! Um é um e menos o coeficiente de cagança…, perdão, de cagaço, fica quase zero…

(Tsakalotos) – Coeficiente de cagaço?!, mas isso é de engenheiro, camarada…  (a cadeira polaca rangeu, rosnar na noite sem lua e a sala ficou mais escura)  Aqui tratamos de finanças!

(Mourinho, enrubescido como as crianças repreendidas, afagando novamente a gravata vermelha, que parecia menos vermelha, ignorando o grego, dirigindo-se a Centeno e repetindo) – Sr. Presidente, as nossas contas estão certas: um é um e menos o coeficiente de … segurança (e repetiu) de segurança, fica quase zero! Quase zero, o número perfeito…, perfeito! Deitado ou não, é zero! Zero!

(Centeno, sorriso, sorriso infantil, babado com o bombom do Mourinho)

(Silêncio, longo silêncio. Travelling sobre a mesa iluminada, os copos cheios de água, cristalinos, e saída para um grande plano do quadro pendurado na parede - uma reprodução de um frame da Roma de Fellini. Saída lenta pela janela e zoom para Manneken Pis, ouvindo-se em fundo a sineta e a voz indecifrável de Centeno).

 


publicado por Fernando Delgado às 01:46
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 30 de Novembro de 2018

«... para uma geografia emocional do interior»

Transcrevo texto integral do “ensaio” de Álvaro Domingues no Público, pela espantosa síntese do Portugal de hoje, mas também porque a «teoria é quando sabemos tudo mas nada funciona; a prática é quando tudo funciona mas não sabemos porquê; aqui, juntamos teoria e prática: nada funciona e não sabemos porquê».

 

«Desamparados – para uma geografia emocional do interior

Chamam-lhe territórios de baixa densidade. Nada como uma boa expressão tecnocrata para tentar apaziguar este sentimento de que há uma espécie de maldição que caiu sobre o lado errado do mapa, o que se afasta do mar e, da Serra da Peneda ao Guadiana, se estende pela maior parte do território de Portugal.

Portugal, apesar da pequena dimensão, é constituído por um mosaico com variações e contrastes bruscos. Sempre foi. Não é tudo a mesma coisa nessas terras do dito interior. Percorrem-nas vias rápidas, redes de energia, telecomunicações; emergem nesse panorama depressivo uma mão cheia de centros urbanos de pequena dimensão, capitais de distrito quase todos, e um sem número de vilas, sedes de concelho que resistem enquanto não fecharem todos os postos dos CTT, os centros de saúde, as escolas básicas e secundárias, os tribunais, as casas da cultura ou câmaras municipais, quem sabe. A história de como aqui se chegou é conhecida e, resumidamente, pode-se contar assim.

Estávamos no início da década de 1960, governava uma ditadura arcaica e conservadora e a elite pensante e o poder aglomeravam-se em Lisboa, como sempre desde os afonsinhos. A modernização acontecia aos solavancos, descoordenada e na maior parte do território corria a debandada geral da emigração a fugir da pobreza dos campos, da vida rural e dos horizontes curtos. O mau viver desse interior empurrou a gente para o exterior. Nas lendas e narrativas do Portugal romântico e fantasioso, essa era a terra idílica dos camponeses, a mesma que enxameava os livros da Escola Primária, a propaganda do SNI, os concursos das aldeias mais portuguesas, os Guias de Portugal, ou os relatos pitorescos das viagens de férias da burguesia que ia à “província”, narrativas muito distintas daquelas dos que, simplesmente, iam “à terra” quando podiam. Apesar do regime tornar ilegal e dificultar essa sangria emigratória, tinha começado o último episódio do fim da pré-modernidade portuguesa. Algures em França, na Alemanha ou nas Américas organizava-se a vida, trabalhava-se, poupava-se, sonhava-se com o regresso à terra sem a escravatura do trabalho nos campos, os casebres a cheirar a fumo ou a sobranceria dos notáveis que gostavam do povo simples e, sobretudo, barato e submisso.

Quando apareceram os sinais desse regresso – as casas novas – a elite instalada alvoroçou-se. Aqueles novos-ricos estavam a construir umas casas exóticas, perturbadoras daquela paz onde o sino tocava e a torre da igreja branquejava no vale onde antes se cantava na vindima ou na ceifa e os carros de bois chiavam nos caminhos. No 10 de Junho, o da Raça que depois foi de Portugal, de Camões e das Comunidades, baixava o tom e mudava o registo: os emigrantes eram uns heróis que enviavam divisas, punham os filhos na escola e equilibravam a balança de pagamentos do país. No dia a seguir voltava tudo ao mesmo. Entretanto, os filhos deles também partiram, organizaram vida algures e agora os seus pais ou avós já passam mais tempo onde toda a vida trabalharam do que nas casas vazias que semeiam o território das origens.

Houve uma revolução entretanto. Já tardava. Passadas as convulsões iniciais, o país rapidamente integrou a então Comunidade Económica Europeia e o tempo acelerou. Em menos de trinta anos Portugal mudou mais do que em toda a sua longa história. A construção rápida do Estado Social distribuiu infraestruturas, bens e serviços públicos por toda a geografia nacional: estradas e auto-estradas, rede eléctrica, telecomunicações, água, esgoto, escolas, hospitais, universidades, politécnicos, equipamentos culturais e desportivos…, seguindo as políticas sectoriais do Estado Central e apoiando o novo municipalismo democrático.

A unanimidade acerca deste surto de investimento público era praticamente total. Como em qualquer política keynesiana, o Estado investiria, modernizaria o país e os privados viriam a reboque aproveitando essas vantagens e economias externas produzidas para uma sociedade mais desafogada e equilibrada, mais educada e com maior poder de compra, e um território finalmente tornado funcional, desencravado e equipado. Música celestial.

Lá fora o mundo acelerava com o capitalismo neoliberal em modo de desregulação global e a velha Europa entrava na cena a medir forças com os EUA ou as economias emergentes da Ásia. Rapidamente as vantagens da semi-periferia portuguesa (salários baixos, integração na UE e boas dotações infraestruturais) se foram diluindo na vertigem da economia a marchar ao clarim do sistema financeiro e do mundo aberto: algures, salários de miséria e fiscalidade nula; por perto, paraísos fiscais; em lugares remotos, Estados tomados de assalto por interesses privados; jogos sem fronteiras em todos os continentes. A fluidez da cibernética da globalização económico-financeira não se fez acompanhar de nenhum dispositivo político de regulação do que quer que seja à mesma escala.

Estado de coma

Portugal tinha-se democratizado e fundado, a contra-ciclo, um Estado Social. Passado o ímpeto dos investimentos públicos co-financiados pela UE, o tal investimento privado não veio e a saída da população também não parou. O processo de desruralização (a desconstrução do edifício da ruralidade tradicional, das economias familiares de auto-subsistência, das práticas agrícolas ancestrais, das tradições, dos ranchos de filhos, do abandono dos campos) aprofundou-se e ganhou velocidade, em alto contraste com o tempo longo em que permaneceu sem grandes sobressaltos até praticamente ao final dos anos de 1950’. Parece que foi ontem e por isso o país está cheio de presenças materiais desse longo ciclo que agora lentamente se esvaziam e arruínam: casas, caminhos, espigueiros, moinhos, muros, celeiros, campos. Das novas gerações que entraram no ensino superior (este que escreve também é o primeiro diplomado na família, como a maioria dos diplomados na casa dos cinquentas), as primeiras ainda saíram beneficiadas com o ciclo de desenvolvimento do Estado Social; as seguintes sentiram na pele a mudança brusca do clima económico, dos anos duros da troika e do Estado endividado metido na deriva neoliberal a “reestruturar” o sector público, a privatizar, a concessionar. Os governantes diziam aos jovens que emigrassem. Assim fizeram (como sempre, desde há séculos).

Neste turbilhão veloz de construção e desconstrução do Estado Social, de desenvolvimento seguido de crise prolongada, a geografia do país foi-se extremando. Entretanto, o estado ex-empreendedor foi desinvestindo, fechando ali um centro de saúde, acolá um tribunal ou uma escola. As mazelas do centralismo do Estado (e da Administração Pública) dividido pelas capelas ministeriais nem se deu conta que muitas das decisões sectoriais do emagrecimento coincidiam nos mesmos lugares. A folha de cálculo não estava georeferenciada. O certo é que entre o ciclo positivo do Portugal pós-adesão à UE e o país que hoje temos não aconteceu nenhuma reestruturação assinalável na estrutura fortemente hierárquica e polarizada da organização do estado/administração.

O ciclo vicioso — emigração, envelhecimento, quebra da natalidade, despovoamento, escassez de oferta de emprego —, deixou a maioria do país em estado de coma. A rapidez do processo provocou um certo atordoamento. Chega a haver escolas novas para alunos que não há; sem os serviços de apoio aos idosos que são cada vez mais, e mais fragilizados e ainda mais idosos. O paradoxo é que mesmo onde há investimentos agrícolas fortes — Douro Vinhateiro, perímetros de rega do Mira e do Alqueva —, a saída de população continua e o emprego não aparece. Para os trabalhos sazonais dessa nova agricultura hipertecnológica — o agro-negócio —, aparece gente do longínquo Nepal para jornas onde no tempo da miséria apareciam os trabalhadores das migrações internas, os “ratinhos” e as “rogas” da ceifa e da vindima. A globalização é a lei do dinheiro que faz dinheiro, seja com as tecnologias, com o trabalho, com as mercadorias, com o transporte, com a finança. São os mercados. A regulação dos sistemas económicos no contexto dos Estados-nação desbordou e explodiu. A centralidade do Estado na condução das políticas sectoriais ou territoriais afundou-se com a dívida, com o canto da sereia neoliberal, com uma exagerada distância entre governo central e municipal e respectivos orçamentos e competências. Com os sectores estratégicos privatizados — desde a energia, aos correios e às telecomunicações — e a penúria para financiar os sistemas básicos do Estado Social como a justiça, a saúde, o ensino e a segurança social, pouco fica para, através das políticas públicas, orientar o que quer que seja.

Futebol, sempre

Por isso o povo se sente desamparado. Umas vezes é cidadão e reclama direitos e Estado de Direito; outras vezes é utente, protesta e assina petições nas redes sociais; na maior parte das vezes é apenas cliente: se tem dinheiro, compra, se não tem, não tem. Na ditadura havia o Estado paternalista, autoritário e somítico; depois houve uma democracia generosa e agora há os governos com as finanças apertadas, ultracentralizados, burocráticos e distantes. Os orçamentos municipais continuam escassos e a descentralização emaranha-se em discussões inúteis. Pela política adentro entrou uma retórica poderosa que se perde em adjectivos e causas de que não se percebem as vantagens para a vida de todos os dias — tudo será sustentável, verde, património, resiliente, coeso, empreendedor, empoderado, comunidade, participado, ambientalmente saudável, descarbonizado, inteligente…, e tudo o mais que é articulado neste latim pastoso, no inglês andadeiro ou em algoritmos tecno-burocráticos. Para variar, um tema fracturante sobre género, sociedade da informação, protecção da natureza ou mobilidade suave. Futebol, sempre.

Por isso este mal-estar quando tudo arde, quando desabam estradas e barrancos, quando morrem famílias, quando a TV (cada vez mais irreal) vai ao país real, quando ao lado do último cosmopolitismo lisboeta do Web Summit ou de mais um escândalo envolvendo milhões, políticos profissionais, bancos e negócios, aparecem as notícias avulso da província, das aldeias, do interior, ou de qualquer outro nome que tenha esta geografia incerta do Portugal metido nas névoas ou amacacado em regionalismos e tipicismos para o turismo rural e para a vertigem da circulação das imagens nas redes e nas vidraças dos telemóveis.

Dissonância cognitiva é o nome que se dá a certas patologias psicológicas caracterizadas pelo conflito derivado da percepção de coisas ou situações que surgem em simultâneo e que parecem muitas, inconsistentes, contraditórias, anacrónicas, difíceis de ponderar ou de avaliar segundo os esquemas simplificados que existem para as entender.

É por isso que estou sempre a lembrar-me de um escrito que estava na porta do gabinete de uma minha professora: teoria é quando sabemos tudo mas nada funciona; a prática é quando tudo funciona mas não sabemos porquê; aqui, juntamos teoria e prática: nada funciona e não sabemos porquê (mas vamos fazer um inquérito, uma averiguação, uma nova legislação, umas multas, uma comissão parlamentar, uma política de mitigação de risco, um sistema de alerta, um abaixo-assinado, um dia nacional sem desastres, uma missa cantada, um site, um workshop…). Como dizia François Ascher a propósito da sociedade hiper-moderna, face a estes acontecimentos que nos ultrapassam, façamos de conta que os organizamos

Álvaro Domingues. Público, 25 novembro, 2018.

 

tags: ,

publicado por Fernando Delgado às 23:38
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 27 de Novembro de 2018

Bertolucci

«Bertolucci morreu!», diz-me alguém do pequeno ecrã…

... ainda me persistem na memória as imagens de 1900 (mais de cinco horas de cinema comprometido - aquele comboio a sair da estação ao som da concertina é memorável...), do Último Tango em Paris (para além do “escândalo” da manteiga, as interpretações memoráveis de Brando e da então desconhecida Maria Schneider…), dos Sonhadores (a ingénua utopia do Maio 68, ou à margem dele…), da Estratégia da Aranha (o fascismo segundo Jorge Luis Borges…), o rigor de O Conformista ou mesmo o “grande cinema” de O Último Imperador.

Os filmes continuam aí e, juntamente com obras de Fellini, Pasolini, de Sica e Antonioni (agora não me lembro de mais ninguém…), fazem parte de uma short list do grande cinema italiano.

Que saudades, mas também que ingenuidade esta de achar que os acontecimentos têm em nós o mesmo impacto em épocas diferentes… Não, não têm e por isso não gosto de efemérides, e tento afastar alguma nostalgia - vi alguns destes filmes no Palácio Foz, em sessões à borla, promovidas não sei por quem… Eram dias/semanas de realizadores: Fellini, Godard, Bergman, Resnais, Truffaut, Buñuel, …

Enfim, velhos tempos..., a cultura não incluia discussões sobre touradas e desconfio que Robert de Niro já então (no filme1900) não gostava de Trump!

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 00:47
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018

«O Bode Expiatório»

Bode_Expiatorio_final.jpg

Como considero a expressão de opiniões atos legítimos e saudáveis, não tenho nada contra a divulgação de manifestos ou panfletos.

Confesso, no entanto, que me causa alguma perplexidade verificar que alguns académicos (e só estes, os outros nem me interessam...) subscrevem manifestos como este. Devem subscrever manifestos? Devem! Mas, digam-me, este texto faz algum sentido? A ciência e os interesses coincidem muitas vezes, mas é no mínimo desagradável ver a ciência aprisionada num labirinto de curtíssimo prazo? 

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 23:15
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

«A Invenção da paisagem»

IMG_3859-c.jpg

(Barragem Idanha-a-Nova)

«A paisagem não é uma metáfora para a natureza, uma maneira de evocá-la; ela é de fato a natureza. Aqui se poderia dizer: "Como? Se a paisagem não é a natureza, o que seria ela, então?". Falar, portanto, de uma construção retórica (de um artifício, desta vez linguístico) acerca da paisagem é crime de lesa-majestade. A natureza-paisagem: um só termo, um só conceito - tocar a paisagem, modelá-la ou destruí-la, é tocar a própria natureza.» (pp 39)

«Nessa ótica, a paisagem é um "monumento natural de caráter artístico"; a floresta, uma "galeria de quadros naturais, um museu verde". Essa definição, elaborada pelo Ministério da Instrução Pública e das Belas-Artes francês em 1930, destaca a ambiguidade; reúne em uma fórmula os dois aspectos antagônicos da noção de paisagem: o ordenamento construído e o princípio eterno; enuncia uma perfeita equivalência entre a arte (quadro, museu, caráter artístico) e a natureza.» (pp 41)

«A imagem não está voltada para manifestações territoriais singulares, mas para o acontecimento que solicita sua presença. E assim como o lugar (topos) é, segundo a definição aristotélica, o invólucro dos corpos que limita, a pretensa "paisagem" (lugarzinho: topion) nada é sem os corpos em ação que a ocupam.» (pp 49)

«A cor é subsidiária. O criador (a natureza) desenha primeiro os contornos, depois (hysteron), ele escolhe as cores...» (pp 60)

Anne Cauquelin. A Invenção da Paisagem, Ed. e-book (vers. brasileira)

 


publicado por Fernando Delgado às 22:49
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 31 de Outubro de 2018

«BBB»

Não sabia (a ignorância tem pelo menos a virtude de temporariamente nos deixar mais descansados…) que o Congresso Nacional do Brasil tem a “bancada do Boi” a “bancada da Bala” e a “bancada da Bíblia”, também chamadas “Ruralista”, “Armamentista” e “Evangélica”, respetivamente. Ao conjunto parece que lhe chamam a bancada “BBB”.

Resisto à tentação de encontrar sinónimos nas bancadas parlamentares em Portugal - e há qualquer coisa que ri dentro da imaginação, mas que uma palmada suave afasta como se enxota uma mosca… É que há coisas que nem o riso atenua!

Parece claro que o Sr. Bolsonaro é adepto da “bancada da Bíblia” e da “bancada da Bala”. Estranho não encontrar nenhuma ligação evidente à “bancada do Boi”, mas temo que seja apenas uma questão de tempo, o tempo necessário para que a Amazónia entre no lote de bens transacionáveis…

Não há nada como pertencer a uma claque organizada em torno de um qualquer deus, de pistola em punho e nos cornos de um boi. O problema é que assim que se constroem os infernos deste mundo.

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 00:37
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

wildfire

«[…]

(…) a primeira constatação é a da grande confusão sobre os conceitos de “fogo” e de “incêndio”. Neste aspecto, como em outros, a língua inglesa torna tudo mais fácil: fogo é fire e incêndio é wildfire. Logo, os incêndios são um caso particular dos fogos, são aqueles que dificilmente se controlam, os fogos “selvagens”, que se distinguem por isso de outras categorias de fogos, aqueles que são utilizados de forma controlada, em geral designados na língua inglesa por prescribed fires e que, em Portugal, tornaram a designação quase equivalente de “fogos controlados”.

Parecia uma divisão simples, facilmente entendível pelo público em geral, por políticos, por jornalistas. Mas não! As campanhas mais mediáticas, com mais meios e mais responsabilidades continuam a não entender a diferença. E aí está o slogan, que até nem rima, do “Portugal sem fogos depende de todos”.

Sem caricaturar, mas usando apenas analogias com outros elementos da natureza, podia também apelar-se a um Portugal sem insetos, não distinguindo aqueles que nos são tão úteis, como as abelhas, de outros que propagam doenças, como o nemátodo da madeira do pinheiro. E muitas outras analogias serviriam para ilustrar a pobreza de uma frase que, infelizmente, tem perdurado em campanhas sucessivas com a justificação de que o público não consegue perceber a diferença entre incêndio e fogo. Ou talvez sejam os próprios promotores da campanha que não o tenham percebido…

[…]»

Francisco Castro Rego. A Defesa da Floresta Contra Incêndios (DFCI). Agricultura, Floresta e Desenvolvimento Rural. Ed. IESE (Instituto de Estudos Sociais e Económicos), 2016, pp139.

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 23:15
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 17 de Setembro de 2018

granum

Porque, como se costuma dizer, o saber não ocupa lugar!

«SOBRE O GRANITO E A SUA ORIGEM, NUMA CONVERSA TERRA-A-TERRA

Já dissemos que não há um, mas sim, vários tipos de rochas a que o vulgo dá o nome de granito.
Deixando este tema para outras conversas, comecemos agora por dizer que o termo granito, em sentido restrito, designa uma rocha plutónica (gerada em profundidade, na crosta), granular, rica em sílica (mais de 70%), com quartzo essencial, expresso e abundante (20 a 40%), e feldspato alcalino (ortoclase, microclina, albite). Como mineral ferromagnesiano contém, geralmente, biotite, sendo raros os granitos com anfíbolas ou piroxenas. Entre os seus minerais acessórios, destacam-se moscovite, apatite, zircão e magnetite. Esta rocha corresponde ao que, numa linguagem mais rigorosa, se designa por “granito alcalino”. O termo granito, atribuído ao italiano Andrea Caesalpino, surgiu em 1596, e radica no latim granum, que significa grão.

Imagine o leitor uma paisagem como a do norte de Portugal, essencialmente formada por granitos, xistos argilosos e grauvaques, na margem ocidental da placa litosférica euroasiática, à beira de um oceano (o Atlântico) que a separa de uma outra placa (a Americana).

Como é sabido, os agentes atmosféricos (a humidade, a água da chuva, o oxigénio e o dióxido de carbono do ar e as variações de temperatura) alteram (“apodrecem”) as rochas e é essa alteração, ou meteorização, que gera a capa superficial (rególito) que dá origem ao solo.

- E quais são os materiais desta capa de alteração e do respectivo solo? – Pergunta-se.
Restringindo a resposta ao local em questão, aos principais minerais destas rochas, e à situação climática que aqui exerce a sua influência, diremos, de um modo muito esquemático, mas que aponta o essencial da questão, que:


(1) No granito, o feldspato altera-se, transformando-se parcial e, de início, superficialmente, em argila. Alterando-se o feldspato, os restantes grãos minerais descolam-se uns dos outros e a rocha perde coesão (esboroa-se entre os dedos). Os grãos de biotite (uma mica contendo ferro) também se alteram e dessa alteração resulta o seu aspecto “enferrujado”, o que confere à rocha exposta as cores de castanho-amarelado, que contrasta com a cor da rocha sã, acabada de cortar. O quartzo não sofre qualquer alteração, o mesmo sucedendo à mica branca (moscovite) que apenas se divide em palhetas cada vez mais pequenas e delgadas.

(2) No xisto argiloso, que além de argila tem quartzo em grãos finíssimos, microscópicos (ao nível de poeiras), tem lugar a perda de coesão destes materiais.

(3) No grauvaque acontece outro tanto, com a libertação dos seus componentes arenosos (os mesmos do granito, mas muito mais finos).Podemos agora dizer que os rególitos e os solos desta região de Portugal têm uma fracção arenosa com quartzo abundante, algum feldspato, micas e um fracção argilosa ou barrenta que faz o pó dos caminhos, em tempo seco, e a lama, em tempo de chuva. Podemos igualmente dizer que, quando chove com certa intensidade, as águas de escorrência arrastam estes materiais, com suficiente visibilidade na componente argilosa em suspensão. Isso vê-se frequentemente nas enxurradas, nas águas barrentas dos rios e, até, no mar, frente às fozes desses rios.

As pedras (cascalho) vão ficando, em parte, pelo caminho, outras atingem o litoral e não passam daí. As areias enchem as praias, as dunas e o fundo rochoso da plataforma continental. As areias mais finas e as argilas, incapazes de se depositarem em mar de pequena profundidade, constantemente agitado pela ondulação, progridem no sentido do largo, indo depositar-se na vertente continental (onde ficam em situação instável). As muitíssimo mais finas, essencialmente argilosas, vão imobilizar-se mais longe, no fundo oceânico. Sempre que, por exemplo, um sismo abala a região, os sedimentos em situação de depósito instável na vertente desprendem-se, indo decantar sobre os já acamados no dito fundo.

Imaginemos que este processo (alteração das rochas, erosão, transporte e acumulação no mar) se repete ao longo de milhões de anos e que dele resultam alguns milhares de metros de espessura deste tipo de sedimentos. Imaginemos, ainda, que o mesmo se passa do lado de lá do Atlântico.
A tectónica global ensina-nos que este oceano, como todos os outros, ao longo da história da Terra, irá fechar-se. Isso terá como resultado o encurtamento do espaço coberto pelos ditos sedimentos que, à semelhança de um papel que amarrotamos entre as mãos, sofrerão enrugamentos, com “dobras” que vêm para cima, formado novas montanhas, e outras que vão para baixo, formando as “raízes” dessas montanhas.

É sabido que a Terra conserva grandes quantidades de calor no seu interior e que a temperatura aumenta com a profundidade, o mesmo sucedendo com pressão (dita litostática). Assim, dos sedimentos envolvidos nas citadas “raízes”, os mais superficiais ficarão sujeitos a pressões e temperaturas relativamente baixas, sofrendo ligeiríssima transformação (anquimetamorfismo), dando origem a rochas na fronteira entre as sedimentares e as metamórficas, como são o xisto argiloso, o grauvaque e, um pouco mais abaixo, a ardósia. Continuando em profundidade, com o aumento da pressão e da temperatura, mas sempre com transformações no estado sólido, formar-se-ão outras rochas francamente metamórficas, de graus progressivamente mais elevados, expressas na sequência: filádios ou xistos luzentes (uma vez que a componente argilosa se transformou em minerais que têm brilhos característicos, ”luzentes”, como a sericite, a clorite ou o talco), xistos porfiroblásticos, micaxistos e, ainda mais abaixo, gnaisses (estes representando o grau mais elevado).

A profundidades na ordem dos 30 quilómetros, a temperatura pode atingir os 800.ºC, e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas. Neste ambiente e na presença de água (toda a contida na composição das argilas) terá lugar a fusão dos minerais menos refractários (quartzo e feldspatos). Entra-se aqui no domínio do chamado ultrametamorfismo e o processo toma o nome de anatexia (do grego “aná”, novo, e “teptikós”, fundir), ou palingénese (do grego “pálin”, de novo, e “génesis”, geração), dando origem a migmatitos. 

Logo que a fusão seja total, entra-se no domínio do magmatismo, com a formação de um magma que, dados os materiais envolvidos, só pode ser de composição granítica, magma que, uma vez arrefecido e solidificado, gerará um novo granito. 

A história que acabámos de descrever nesta espécie de antevisão é a que julgamos saber contar relativamente à que, há pouco mais de 300 milhões de anos, deu origem à orogenia hercínica ou varisca e ao granito, ao xisto e ao grauvaque que nela se geraram e que marcam a paisagem do norte de Portugal. Do mesmo modo, esta história conta a de todas as paisagens afins do planeta, desde as mais antigas, com mais de 4000 milhões de anos, às mais recentes com escassos milhões.

Relativamente ao granito, a mais importante rocha magmática que forma a “ossatura” dos continentes, sabemos que o primeiro resultou de um processo de diferenciação, lenta e complexa, de uma crosta primitiva, de natureza próxima da do basalto. Sabemos também que qualquer geração de granito tem, atrás de si, outro granito e que, muitos milhões e anos depois (400 a 500, em média), renascerá numa nova geração de granito.

Esta história é, afinal, a expressão (reconhecível ao nível das paisagens da Terra) do conhecido Ciclo de Wilson (do geólogo canadiano John Tuzo Wilson (1909-1993), relativo às sucessivas aberturas e fechos dos oceanos da Terra.
____________________________

Notas: 

Grauvaque – rocha sedimentar arenítica e coesa, gerada nos grandes fundos marinhos, a par dos xistos argilosos. Contém, sobretudo, quartzo (20 a 50%), feldspatos e micas. O termo foi Introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Lasius, e radica no alemão grauwacke, que significa pedra cinzenta.

Migmatito – rocha ultrametamórfica, gerada por anatexia, de que resulta uma composição granitóide, na qual uma parte foi fundida e outra, mais refractária, permaneceu no estado sólido. Situa-se na passagem das rochas metamórficas da catazona (como é o gnaisse) ao granito franco.

Abaixo da zona dos gnaisses a temperatura e a pressão permitem a fusão dos elementos»

 

A. Galpoim de Carvalho in De Rerum Natura.

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 21:41
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

A. Lobo Antunes

Fiz as pazes com a escrita de A. Lobo Antunes: desisti!

Desisti de tentar encontrar o fio à meada, de entender as personagens, de encontrar os caminhos, de decifrar a história contada.

Assumo, assim, que, ler Lobo Antunes é pressupor a existência de uma escrita anárquica, magistralmente anarca. Confesso que, para ler Lobo Antunes, é necessário esquecer que existem outras escritas, muito arrumadinhas, muito lógicas, muito cheias de conteúdo… Cedo à tentação de ler sem esperar encontrar nada para além do ato de leitura - é como caminhar sem partida ou chegada.

E como são suficientes as palavras!...

(Há uns bons anos, muitos anos, “aprendi” a gostar de jazz, e ainda hoje pressinto na anarquia dos sons – se calhar, apenas desconhecimento de leigo… - uma forma suprema de música!)

 

 

     «[…]

     Na altura do Natal a coluna de reabastecimento trouxe quatro mulheres metidas entre os caixotes da última mercedes, não muito novas, não muito bonitas, não muito limpas claro, de quico na cabeça e camuflados grandes demais para elas, olhando a medo o capim e as árvores dos dois lados da picada, o meu avô para o meu pai baixinho, sem levantar a arma, passando um dedo lento entre as orelhas da cadela

     - Não são perdizes aquilo é um ouriço a vigiar a toca

     com os primeiros besoiros já, as primeiras borboletas, aquela espécie de diferença na nuca que antecede o calor, soldados de ambos os lados no interior da mata e por vezes raminhos esmagados, protestos de caniços, dois ou três militares à frente a picarem, uma lata amolgada no chão, um céu de chuva a oeste muito longe ainda, a seguir à primeira curva a ladeira que conduzia ao arame onde se agitavam vespas num charco de água parada, a minha filha numa pedra de quintal sem falar comigo nem me olhar, em pequena sentava-a nos joelhos para cima e para baixo

     - Cavalinho cavalinho

     e ela a rir de prazer, de medo e do prazer do medo, ela contente, com o cabelo para um lado e para o outro e a falta de um dente de leite junto ao incisivo, nenhuma ruga meu Deus, ainda nenhuma ruga, a pele tão lisa, covinhas nas costas das mãos, covinhas nos cotovelos, covinhas nas bochechas

     - Mais

     os dedos dos pés pequeninos, redondos, os olhos castanhos, não bem castanhos, pintinhas verdes e agora infelizmente óculos, a boca séria, fechada, com um parêntesis de cada lado, o que te sucedeu, o que me sucedeu, a coluna entrou no arame camioneta a camioneta, com os pretos dos quimbos a espreitarem-na de longe e os soldados a saltarem da caixa, as gê três um som mais forte que as calaches, sempre que punha a minha filha às cavalitas despenteava-me

     - Corra

     e eu a segurar-lhe os tornozelos com medo de tropeçar na horta e cair, um lacrau apareceu numa pedra e esticou logo a cauda, os tropas espiavam as mulheres de longe enquanto o vagomestre ajudava a fixar, martelando-os, os paus de duas barracas de lona com colchões secos lá dentro a que faltava palha, na coluna um saquito de correio sem nenhuma carta para mim, a minha mulher escrevia-me uma vez por semana, envergonhada da letra

     - É tão feia

     onde contava não importa o quê para encher o papel comigo a pensar no seu corpo, será que ainda te lembras do meu, as mulheres que o capitão veio observar, com um alferes atrás, três morenas e uma quase albina, magríssima

     - Menos mal que o ano passado vá lá pelo menos nenhuma delas é preta

     despiram-se nas barracas enquanto um sargento distribuía senhas aos militares

     - Cinco minutos para despacharem o serviço que elas têm de se ir embora ainda hoje

     e o meu avô aborrecido porque nenhuma perdiz, a cadela pôs-se de pé, girou sobre si mesma e tornou a deitar-se, de focinho poisado num dos nossos sapatos, à espera, sentia-se a respiração dela entre a impaciência e o sono, notava-se-lhe uma carraça na orelha direita apesar da minha mãe às vezes pegar num desperdício e a esfregar com petróleo, tinha que se deixar uma noite lá fora porque o cheiro

     - Cavalinho cavalinho

     se pregava a tudo, até ao cesto da roupa, o meu avô a tossir

     - Raios partam o bicho

     dado que o pivete lhe incomodava os pulmões, os soldados formavam bicha diante das tendas com a senha numerada a lápis na mão

     - Ao fim de cinco minutos chegas aqui mesmo em pelo veste-te cá fora e pronto

     pergunto-me se a minha filha se lembra dos meus joelhos, se calhar sim, se calhar não, quase de certeza esqueceu-os, agora volta e meia doem-me no inverno, estou muito bem a andar e uma das pernas falta-me, desparece da tíbia para baixo e a seguir regressa mas mais fraca, a tremer, o meu filho preocupado

     - O que é isso?

[…]»

António Lobo Antunes. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. D. Quixote, 1ª ed. Pp 241-243.

tags:

publicado por Fernando Delgado às 00:05
link do post | comentar | favorito
Sábado, 18 de Agosto de 2018

«Cebola crua com sal e broa»

O Miguel decidiu escrever sobre pouco mais de uma dúzia de episódios datados, numa cronologia que ele próprio apelidou da infância para o mundo. Tudo bem, não só na revelação do seu mundo (do que ele quis revelar!), mas também na forma ligeira e escorreita da escrita (o livro lê-se em duas golfadas…).

O problema não está nas estórias e nas personagens, algumas bem conhecidas. O problema está em, a partir de cada uma das estórias, fazer generalizações e tirar conclusões de âmbito muito mais vasto. Uma estória não determina a história, é apenas um acontecimento que isolado significa muito pouco, embora esta tendência de generalização seja sobejamente conhecida nos comentários televisivos...

Porque gosto da escrita do Miguel (que vontade de reler No teu deserto), irrita-me esta forma abusivamente conclusiva de relatar fatos (um pouco à semelhança dos contos da escola em que no fim nos perguntavam “que lição tirar?” ou “qual é a moral da história?”), o que me leva a transcrever do livro uma simples receita culinária – a que posso chamar como assar e comer sardinhas -, que já conhecia, embora sem o pormenor dos bocados da tripa, mas que o MST, mais uma vez, não resistiu a considerar como "a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou" :

«[…]

o lume tem de doirar e não queimar, as sardinhas; não se acompanha com batatas, apenas salada, para desenjoar, de vez em quando; não há pratos nem talheres: as sardinhas comem-se em cima de pão, com os dedos retira-se a tripa do costado e a pele mais grossa, depois come-se metade de uma só dentada, até à espinha, virando-a a seguir para fazer o mesmo do outro lado; no fim, coloca-se o pão, untado do suco das sardinhas e com bocados de tripa, a torrar no lume e come-se a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou»

[…]»

Miguel Sousa Tavares. Cebola crua com sal e broa. Da infância para o mundo. Clube do autor, 1ª ed., maio, 2018,  pp 350.

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 23:52
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

«mundos mudos» no papalagui

Gosto muito desta fotografia "roubada" a o papalagui (ver aqui):

20180710_155422.jpg

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 00:23
link do post | comentar | favorito
Domingo, 29 de Julho de 2018

Steinbeck

Tempo de releituras… Steinbeck, a natureza, a sua relação com deus e com o inconsciente e (dentro da minha leitura - ver também aqui), o limiar da razão – a gente faz sempre maldades quando é muito feliz (pp 21) -,enunciados inúteis - isso tudo são palavras para vestir uma coisa nua; e essa coisa, vestida, torna-se ridícula (pp 184) - e o desespero das longas esperas – vão rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos (pp 205).

 

 

«[…]

     Escuta, Juanito: primeiro havia a terra; depois, vim eu guardar a terra; e agora a terra está quase morta. Só restam este rochedo e eu. Eu sou a terra.

(…)

     A chuva varreu o vale. Dentro de breves horas regatos fervilhavam pelas encostas e caiam no rio de Nossa Senhora. A terra fez-se negra e bebeu água até mais não poder. O próprio rio rugia entre os penedos e precipitava-se na garganta dos montes.

     O padre Ângelo estava na sua casinha, sentado entre os livros de pergaminho e as imagens santas, quando a chuva começou. Lia La Vida de San Bartolomeo. Mas quando começou o chapinhar da chuva no telhado, pousou o livro. Durante horas ouviu o rugir da água sobre o vale e o clamar do rio. De vez em quando ia à porta espreitar lá fora. Passou a primeira noite acordado, a escutar, consolado, o barulho da chuva. E sentia-se feliz ao lembrar-se de que rezara por ela.

     Ao crepúsculo da segunda noite, a tempestade continuava com a mesma força. O padre Ângelo entrou na igreja, mudou as velas da Virgem e fez as suas devoções. Depois ficou-se no limiar escuro, a olhar a terra encharcada. Viu passar a correr o Manuel Gómez, carregado com um coiotezinho molhado. E logo a seguir o José Alvarez, com os chifres dum veado na mão. O padre Ângelo escondeu-se na sombra do portal. A Srª Gutiérrez passou depois, a patinhar nas poças, com os braços cheios duma velha pele de urso, comida da traça. O padre sabia o que se ia passar nesta noite de chuva. Ardeu nele uma ira que crescia. “Eles que comecem, que eu os faço parar”, disse ele.

     (…) O padre via mentalmente o povo a dançar, a patinhar na terra mole com os pés descalços. Via-os vestidos com peles de animais, embora nem eles soubessem porque as tinham posto. O ritmo cadenciado tornou-se cada mais forte e mais insistente e as vozes mais agudas e histéricas. “Vão despir a roupa toda”, murmurou o padre, “e rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos.”

[…]»

John Steinbeck. A um Deus Desconhecido. Publicações Europa-América. Livros de bolso, pp 21, 184, 205, 223-224.

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 01:20
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 24 de Julho de 2018

... fogos gregos

Grécia_fogos_02.jpg

 … e abre-se uma nova janela de oportunidades para uma enxameação dos experts em quase tudo. Vai ser (já está a ser em todas as tv's, jornais, ...) um rodopio de especialistas em fogos, florestas, prevenção, combate, agricultura, bombeiros, aviões, proteção civil, alterações climáticas…, a lista não tem fim!

É natural que seja assim? É, mas fede!

Fede, na maior parte dos casos, a oportunismo político, à defesa de interesses inconfessáveis, à mediocridade como forma de ser e de estar. Já não há paciência para tanta "sabedoria"!

 

(Que me perdoem os verdadeiros especialistas, os que não cedem a interesses, os que voltam as costas à mediocridade, os que se limitam a defender aquilo em que racionalmente e cientificamente acreditam…, e muito simplesmente nos dizem que este mundo não é nosso ou de cada um de nós, pois limitamo-nos a ser hóspedes por tempo muito reduzido. Esta transitoriedade é inerente à condição humana e quase sempre incompatível com o carácter perene e irresponsável da ação quotidiana. É o modus vivend deste quotidiano que deve ser regulado. Sem contemplações e sobretudo sem cedências a interesses de agentes facilmente identificáveis!)

 

tags:

publicado por Fernando Delgado às 23:10
link do post | comentar | favorito

Outubro 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


pesquisar neste blog

 

arquivos

posts recentes

O inútil paciente zero

A infância...

Do lagostim à merda dos c...

Luis Sepúlveda

Abril

O pandemineiro

«Éramos felizes, mas não ...

Calma, é apenas um pouco ...

Ausência

Entre dos aguas

Piazzolla

«Tanto mar»

Fertilidade transumante

...

Notre-Dame

... à mesa do café...

Floresta/paisagem...

«Não há paisagens para se...

«A natureza deixa sempre ...

Eugénio de Andrade

«Deus e o Diabo»

... biodiversidade

Txoria Txori

A diversidade do territór...

«Tempo»

«Uma narrativa para a pai...

Guião para um filme tragi...

Guião para um filme tragi...

«... para uma geografia e...

Bertolucci

«O Bode Expiatório»

«A Invenção da paisagem»

«BBB»

wildfire

granum

A. Lobo Antunes

«Cebola crua com sal e br...

«mundos mudos» no papalag...

Steinbeck

... fogos gregos

Stefan Zweig

Hermann Hesse

«Mudar de Vida»

Os "interiores"

Função social da propried...

Word Press Photo

Contributos para uma inte...

A terra do Capuchinho Ver...

Contributos para uma inte...

«Quando vier a primavera»

tags

aprender

canções

esboços

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

rural

todas as tags

links