Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

O Banqueiro Anarquista

(As explicações de Oliveira e Costa na comissão de inquérito da AR sobre o BPN, são uma peça inesquecível… Com o amargo de ter assistido a uma aula de gestão de mercearia, refugiei-me na releitura de algumas páginas do Banqueiro Anarquista, vá lá saber-se porquê… Aqui ficam alguns parágrafos desse texto de Fernando Pessoa, que não consta tivesse conhecido Oliveira e Costa, embora seja certo que conheceu muito bem a gestão de merceeiro, competente e eficiente, no seu âmbito, diga-se…)

 
«(…)
Vieram-me momentos de descrença; e V. compreende que era justificada… Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei-de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, a todas as ficções sociais porque elas não são naturais, porque carga d’água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta.
(…)
- Ora veja como ficaram resolvidas… As dificuldades eram estas: não é natural trabalhar para qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta: e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter uma compensação de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas: ora repare como ficaram resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro… O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa o conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que, como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social, e eu, só por mim, não posso fazer a revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso, porque, é claro, não posso conseguir a que não posso… E veja V.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o facto que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro.
Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei a processos - confesso-lhe, meu amigo, que não olhei a processos;
(…)»
 Fernando Pessoa in O Banqueiro Anarquista. Antígona.

publicado por Fernando Delgado às 00:38
link do post | comentar | favorito

Setembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30


pesquisar neste blog

 

arquivos

posts recentes

Ausência

Entre dos aguas

Piazzolla

«Tanto mar»

Fertilidade transumante

...

Notre-Dame

... à mesa do café...

Floresta/paisagem...

«Não há paisagens para se...

«A natureza deixa sempre ...

Eugénio de Andrade

«Deus e o Diabo»

... biodiversidade

Txoria Txori

A diversidade do territór...

«Tempo»

«Uma narrativa para a pai...

Guião para um filme tragi...

Guião para um filme tragi...

«... para uma geografia e...

Bertolucci

«O Bode Expiatório»

«A Invenção da paisagem»

«BBB»

wildfire

granum

A. Lobo Antunes

«Cebola crua com sal e br...

«mundos mudos» no papalag...

Steinbeck

... fogos gregos

Stefan Zweig

Hermann Hesse

«Mudar de Vida»

Os "interiores"

Função social da propried...

Word Press Photo

Contributos para uma inte...

A terra do Capuchinho Ver...

Contributos para uma inte...

«Quando vier a primavera»

Contributos para uma inte...

Amenidades invernais

Contributos para uma inte...

A oeste nada de novo*

Lili Artic Golden, sem li...

Valha-nos deus

Tejo nauseabundo

Lobbies

tags

aprender

canções

esboços

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

rural

todas as tags

links