Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Saramago

«(…) O comandante saiu para a praça, onde o esperava o sargento, e disse, Já temos bois, Sim senhor, passaram por aqui, o boieiro parecia ter engolido um pau, de tão vaidoso que ia à cabeça deles, Vamos, disse o comandante montando, Sim senhor, disse o sargento montando também. Alcançaram a vanguarda em pouco tempo, e aí se apresentou ao comandante um sério dilema, ou galopar para o acampamento e anunciar a vitória às hostes reunidas, ou acompanhar a junta e receber os aplausos em presença do prémio vivo do seu engenho. Precisou de cem metros de intensa reflexão para encontrar uma resposta ao problema, um recurso a que, antecipando cinco séculos, poderíamos chamar terceira via, isto é, mandar o sargento à frente com a notícia a fim de predispor os ânimos à mais entusiástica das recepções. Assim se faria. Não tinham andado muito quando ouviram o tosco tropear da mula, a quem nunca se pedira um trote, e muito menos um galope. O comandante parou por cortesia, o mesmo fez o sargento sem saber porquê, só o boieiro e os bois, como se pertencessem a outro mundo e se regulassem por diferentes leis, continuaram com o passo de sempre, isto é, a passo. O comandante deu ordem para que o sargento se adiantasse, mas não tardou a arrepender-se de o ter feito. A sua impaciência crescia a cada minuto. Tinha sido um erro crasso mandar o sargento à frente. A esta hora já ele recebera os primeiros aplausos, os mais calorosos, aqueles que acolhem uma boa notícia dada em primeira mão, e se alguns, ou mesmo muitos, se vierem a manifestar depois, sempre hão-de ter um sabor a caldo requentado. Enganava-se. Quando o comandante chegou ao acampamento, haveria que discutir se acompanhado por ou acompanhando o boieiro e os bois, estavam os homens formados em duas linhas, os braçais de um lado, os militares do outro, e ao centro o elefante com o seu cornaca sentado, todos aplaudindo com entusiasmo, dando vozes de alegria, se isto aqui fosse um barco de piratas seria a altura de dizer, Um rum duplo para todos.Seja como seja, talvez se apresente ocasião mais adiante para mandar servir um quartilho de vinho tinto a toda a companhia. Acalmadas as expansões, principiou a caravana a organizar-se. O boieiro atrelou ao carro os bois do conde, mais fortes e mais frescos, e à frente deles, para repousarem, os que tinham vindo de Lisboa. O feitor talvez fosse de opinião contrária, mas, montado na sua mula, não fazia mais que benzer-se e tornar a benzer-se mal acreditando no que os seus olhos viam, Um elefante, aquilo é que é o tal elefante, murmurava, não tem menos de quatro côvados de altura, e a tromba, e os dentes, e as patas, que grossas são as patas. Quando a caravana se pôs em marcha, seguiu-a até à estrada. Despediu-se do comandante, a quem desejou boa viagem e melhor regresso, e ficou a olhá-los enquanto se afastavam. Fazia grandes gestos de adeus. Não é todos os dias que aparece nas nossas vidas um elefante.

(…)»
 
José Saramago in A Viagem do Elefante. Caminho.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:29
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