Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Sousa Homem

«(…) Tenho uma biblioteca razoável, mantida sem esforço e sem ordem. Aprendi com o velho Doutor Homem, meu pai, que a abundância de livros não deve fazer-nos pensar na sabedoria mas apenas na vaidade e no prazer. Não na alegria (que raramente se retira deles); antes, no prazer que se retira do silêncio, da contemplação e da pequena vaidade.

(…)
A grande sabedoria – repetia o velho Doutor Homem, meu pai, nos seus piores momentos – está em não ficar demasiado descontente com o mundo. Sabemos que não é perfeito, ele, o mundo; e não é ao dobrar os oitenta e cinco anos que ele se encaminha para a cura ou para a reparação das suas avarias essenciais. Esta resignação é um grande remédio para o reumatismo e para os achaques de ocasião, para a recordação dos amores de antanho, para a memória das coisas impossíveis ou simplesmente para se ocupar o tempo com a medicina mais apropriada, a paciência. Aos sessenta anos, convencido pelas circunstâncias, li as páginas de Séneca sobre a velhice e comovi-me parcialmente. Decidi desde essa altura que não iria ter mais cerimónias. A vida é como é. Renasce-se a qualquer hora, a qualquer instante, por qualquer motivo. O que nos leva ao ditado português mais absurdo e comovente: as coisas são como são. Nenhuma outra frase nos define tão bem.»
 
António Sousa Homem in Os Males da Existência. Crónicas de um reaccionário minhoto. Bertrand Editora.
 
(Maria Filomena Mónica, no prefácio a este livro,  escreve: “ Ao longo de muitos anos, tentei saber quem era António Sousa Homem. Mas, à minha volta, ninguém lera as suas crónicas”, para acrescentar pouco depois: “Um dia tive uma suspeita. Num encontro com Francisco José Viegas na Biblioteca de Oeiras, calhou mencionar o nome de Sousa Homem. Durante uns segundos os seus olhos iluminaram-se.”)
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publicado por Fernando Delgado às 01:04
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