Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

Emoções

E aqui, afixado com um pionés, está um pedaço de papel com uma espécie de ‘S’…
É um ponto de interrogação. Coloquei aí esse papel quando ainda me interrogava se deveria virar a tela ao contrário ou não. Ao regressar de Montroig, disse para comigo:’Ainda não sei!’ Então pus um ponto de interrogação. Agora já tenho a resposta: vira a tela. A verdade é que sentia que faltava qualquer coisa. Nada ao nível de crítica intelectual: era antes um mal-estar físico. Lembro-me que um dia, quando era miúdo, ao calçar os sapatos – era um imbecil! -, pus o direito no pé esquerdo e o esquerdo no pé direito. Não conseguia andar! Foi um pouco isso que aconteceu aqui. Agora que virei as telas, é que elas estão como deve ser. Tudo bem. Estão praticamente acabadas: falta apenas colocar cor nesses traços feitos a giz; acrescentar uma camada de amarelo sobre a primeira camada que deixa ver o fundo… [acaricia a tela com as costas da mão].
Parece-me que fica contente por ainda poder dizer: ‘ vou meter isto, mais aquilo…’, de continuar a discutir consigo mesmo sobre esta tela…
É isso, discuto comigo mesmo. Por exemplo: reparei que faltava qualquer coisa aqui, peguei num tubo de cor, sem pincel nem nada, e pus cor com o dedo…
Um diabo vermelho…
Havia bastante cor, então com o negro fica assim [dá pancadinhas na tela com a ponta dos dedos] e isto dá esta bela matéria que vai ficar assim, tal e qual. Chamei à tela La Fenêtre, porque li um poema de Rilke com esse título de que gostei muito. Então disse para comigo: ‘Olha, isto podia ser La Fenêtre!’ Mas não parti do texto de Rilk. Já estava a trabalhar nesse quadro e foi durante esse trabalho, ao fim de um certo tempo, que deparei com o texto e disse:’É mesmo isto!...’
(…)
Necessito de qualquer coisa que me provoque uma emoção. A emoção é o que me faz mexer. Não é o domínio do sentimento. É como se me picassem com um alfinete.”
 
In Esta é a cor dos meus sonhos. Conversas de Miró com Georges Raillard.
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publicado por Fernando Delgado às 23:07
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