Sábado, 29 de Setembro de 2007

Lá fora, está a chover ADN

Copy/paste d’ A Aba de Heisenberg, de 23 de Setembro, com recomendação de visita à livraria mais próxima…
 
Lá fora, está a chover ADN. Na margem do canal de Oxford, ao fundo do meu jardim, há um grande salgueiro, que lança ao ar sementes cobertas de penugem. Não há uma deslocação sensível do ar e as sementes espalham-se por todos os lados, em volta da árvore. Para cima e para baixo, no canal, até onde os meus binóculos me permitem observar, a água está branca, com os pequenos flocos macios que nela flutuam e que, sem dúvida, também cobrem o chão, num raio igual, noutras direcções. A rama de algodão é sobretudo celulose e quase faz desaparecer a minúscula cápsula que contém o ADN, a informação genética. Se o conteúdo de ADN é uma pequena proporção do todo, por que motivo disse eu que estava a chover ADN e não celulose? Porque o ADN é que é importante. A penugem da celulose, embora mais volumosa, é apenas um pára-quedas, a ser descartado. Toda esta encenação, o algodão, o amentilho, a árvore e o resto, contribui para uma coisa e apenas uma - espalhar ADN pelo campo. Não um ADN qualquer, mas o ADN cujos caracteres codificados decifram as instruções específicas para a formação dos salgueiros, que irão espalhar uma nova geração de sementes cobertas de penugem. Esses flocos de penugem estão, literalmente, a espalhar informação para se fazerem a si próprios. Existem porque os seus antepassados foram bem-sucedidos. Lá fora, chovem instruções; chovem programas; chove crescimento de árvores, difusão de penugem, algoritmos. Não se trata de uma metáfora, mas da pura verdade; não seria mais evidente se chovessem disquetes.

Richard Dawkins, "O relojoeiro cego", Gradiva
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publicado por Fernando Delgado às 01:31
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