Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

H. Murakami

(…)
- Se calhar – repete Oshima, com ar de caso. – Se calhar, Kafka, o que acontece é que a maioria das pessoas que andam neste mundo não estão empenhadas em ser livres. Limitam-se a pensar que o são. Tudo não passa de uma ilusão. Se fossem realmente livres, a maior parte dessa gente ver-se-ia em palpos de aranha. É bom que tenhas isso em mente. A verdade é que escolhemos não ser livres.
- O senhor também?
- Sim. Até certo ponto pode dizer-se que também eu prefiro não ser livre. Até certo ponto, Jean-Jaques Rousseau definiu civilização como sendo o estádio em que as pessoas constroem vedações à sua volta. Uma observação muito pertinente. E verdadeira. Toda a civilização é produto de uma falta de liberdade imposta pelas vedações construídas pela sociedade. À excepção dos arborígenes da Austrália, claro. Esses conseguiram manter uma civilização sem barreiras até meados do século XII. Eram livres até dizer chega. Iam para onde queriam, faziam o que queriam. A sua vida era literalmente uma viagem permanente. Passavam a vida a deambular, aí tens uma metáfora perfeita para definir a vida que levavam. E quando apareceram os ingleses e desataram a construir cercas para o gado, isso foi algo que estava para além do que os arborígenes podiam abarcar. E foi assim que, completamente ignorantes do princípio em causa, foram classificados como perigosos e anti-sociais e empurrados para o limite da fronteira. Por isso é que me parece que deves ter cuidado. As pessoas que constroem barreiras altas e sólidas são as que melhor sobrevivem. Só se luta contra esta selvajaria quando se corre o risco de se transpor os limites da própria barbárie.
(…)
- Dentro de mim não há nada que precises de saber – diz ela.
Até chegar a manhã de segunda-feira ficam nos braços um do outro, sentindo o tempo que passa.”
 
Haruki Murakami in Kafka à beira mar
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publicado por Fernando Delgado às 01:13
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