Sexta-feira, 2 de Junho de 2006

O Outro Pé da Sereia

“A melhor maneira de fugir é ficar parado. Lição que o burriqueiro Zero Madzero aprendera com a imbabala, a gazela dos matos densos. É a fuga da presa que engrandece o caçador. O ficar imóvel é o mais astuto modo de enfrentar o predador: deixar de ter dimensão, converter-se em areia no deserto. Desaparecer para fazer o outro extinguir-se.
A melhor maneira de mentir é ficar calado. Lição que o burriqueiro não aprendera com ninguém. O silêncio não é ausência de fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra.”
Mia Couto in O Outro Pé da Sereia
 
E se a nossa demora nos instantes inúteis nos justificasse como presa? Quem é o caçador e quem nos conduziu e nos mantém neste estado de aceitação? Porque nos escondemos imóveis e amorfos neste mato denso? Porque está ausente a revolta? Que estranho tropismo nos impele para este silêncio? É preciso criar um código de interpretação do silêncio?... E tu, já pensaste que o mundo pode ser um erro? Mas, que adianta isso, que grão de areia acrescenta ao teu ego? Resolve tu a questão: qual é a cor do teu mundo? – isso, permanece calado e imóvel, pronto a reduzires-te à mínima dimensão, ao conformismo! Que mentira sustenta esta verdade?
 
(Um dia somos capazes de tudo e no dia seguinte nem sequer admitimos que pensámos em tal coisa. Qualquer caçador sabe que estes limites estabelecem as fronteiras do racional, permitindo distinguir o momento em que, para a presa e predador, se torna irreversível qualquer fuga. É neste momento que faz sentido reduzir tudo ao silêncio, em que faz sentido dizer-se tudo sem nenhuma palavra!)

publicado por Fernando Delgado às 23:49
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