Terça-feira, 1 de Março de 2005

F. Pessoa

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).
 
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa.
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.
 
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.
 
Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantem a voz.
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos.
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria.
E sempre iria ter ao mar.
 
Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.
 
Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.
 
Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.
 
E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço."
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
 
("Poemas de Amor, antologia de poesia portuguesa", organizada por Inês Pedrosa)
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publicado por Fernando Delgado às 00:28
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