Domingo, 29 de Julho de 2018

Steinbeck

Tempo de releituras… Steinbeck, a natureza, a sua relação com deus e com o inconsciente e (dentro da minha leitura - ver também aqui), o limiar da razão – a gente faz sempre maldades quando é muito feliz (pp 21) -,enunciados inúteis - isso tudo são palavras para vestir uma coisa nua; e essa coisa, vestida, torna-se ridícula (pp 184) - e o desespero das longas esperas – vão rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos (pp 205).

 

 

«[…]

     Escuta, Juanito: primeiro havia a terra; depois, vim eu guardar a terra; e agora a terra está quase morta. Só restam este rochedo e eu. Eu sou a terra.

(…)

     A chuva varreu o vale. Dentro de breves horas regatos fervilhavam pelas encostas e caiam no rio de Nossa Senhora. A terra fez-se negra e bebeu água até mais não poder. O próprio rio rugia entre os penedos e precipitava-se na garganta dos montes.

     O padre Ângelo estava na sua casinha, sentado entre os livros de pergaminho e as imagens santas, quando a chuva começou. Lia La Vida de San Bartolomeo. Mas quando começou o chapinhar da chuva no telhado, pousou o livro. Durante horas ouviu o rugir da água sobre o vale e o clamar do rio. De vez em quando ia à porta espreitar lá fora. Passou a primeira noite acordado, a escutar, consolado, o barulho da chuva. E sentia-se feliz ao lembrar-se de que rezara por ela.

     Ao crepúsculo da segunda noite, a tempestade continuava com a mesma força. O padre Ângelo entrou na igreja, mudou as velas da Virgem e fez as suas devoções. Depois ficou-se no limiar escuro, a olhar a terra encharcada. Viu passar a correr o Manuel Gómez, carregado com um coiotezinho molhado. E logo a seguir o José Alvarez, com os chifres dum veado na mão. O padre Ângelo escondeu-se na sombra do portal. A Srª Gutiérrez passou depois, a patinhar nas poças, com os braços cheios duma velha pele de urso, comida da traça. O padre sabia o que se ia passar nesta noite de chuva. Ardeu nele uma ira que crescia. “Eles que comecem, que eu os faço parar”, disse ele.

     (…) O padre via mentalmente o povo a dançar, a patinhar na terra mole com os pés descalços. Via-os vestidos com peles de animais, embora nem eles soubessem porque as tinham posto. O ritmo cadenciado tornou-se cada mais forte e mais insistente e as vozes mais agudas e histéricas. “Vão despir a roupa toda”, murmurou o padre, “e rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos.”

[…]»

John Steinbeck. A um Deus Desconhecido. Publicações Europa-América. Livros de bolso, pp 21, 184, 205, 223-224.

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:20
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