Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Lidl

Tem uma única luz, monocolor, triste. Não tem produtos, tem um produto, simples e barato. Não tem adereços, tem outras coisas igualmente inúteis, mas tristes, acabrunhadas, escondidas em caixas desengonçadas ou despudoradamente abertas e expostas. Não tem "rapariguinhas do shoping", tem empregados e empregadas, vestidos de um azul-oficina, na mais crua encenação do assalariado. Não me importava, se não gostasse de cores, muitas cores, de "rapariguinhas do shoping" e de adereços inúteis... e, sobretudo, se do olhar do meu casebre de trabalho não estivesse plantado o Lidl, o "meu Lidl", como um enorme madeiro seco entre as casas a lembrar-me que as sociedades de consumo são também sociedades de ansiedade.

 

 

«[...] Pensa bem no Lidl, e verás como funciona a analogia para o ponto em que todos os princípios básicos da desumanização estão em movimento, e declaradamente ao ataque. É uma máquina que agride furiosamente o teu sentido estético, apresentando-te sistematicamente a mais feia e desoladora das paisagens acessíveis ao alcance dos teus olhos. Como acabas por não ter outro remédio senão voltares lá muitas vezes, é o teu respeito básico pela estética que começa a enevoar-se, até que, um dia, já nem o vejas. Mas imagina que és forte. Sim, Ana Maria, imagina que és a mulher que nós sabemos que tu és. És corajosa, és teimosa, tens toda a força do mundo dentro de ti, e nada te assusta. Por isso o teu sentido estético é incorruptível. Nesse caso, a Grande Máquina humilha-te e é assim que te degrada, porque o Lidl vende tudo realmente tão barato, e tu para seres quem és tens realmente tão pouco dinheiro, que por muito que aquela paisagem assumida e prepositadamente feia te faça doer os sentidos, tu não podes deixar de lá voltar. Uma vez, e mais outra, e mais outra. E, de cada vez, ficas um bocadinho de nada menos brilhante. Um bocadinho de nada mais cansada. Um bocadinho de nada mais triste. E, em consequência, um bocadinho de nada menos humana. Agora conta isto por semanas, multiplica as semanas por meses, soma os meses em anos, e pensa bem quanto do teu coração já ficou enterrado por baixo dos caixotes do Lidl. Ainda por cima não te esqueças desta parte fundamental do Plano: para cada produto só tens uma escolha. Certo? Então o que acontece ao teu livre-arbítrio? Para onde vai a tua capacidade de escolheres tu quem queres ser, e como, e porquê, e quando? O que fazes da alma racional e consciente que te mantém o sexto sentido desperto? [...]»

 

Clara Ferreira Alves in A Primeira Luz da Madrugada. Oficina do Livro, 1ª ed., pp 114-115.

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publicado por Fernando Delgado às 00:30
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