Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Hermann Hesse

«[…]

         Ficará para sempre na minha memória a imagem das caudas dos pavões brilhando nas árvores altas ao luar, e das sereias resplandecendo numa doçura prateada ao emergirem das águas, à beira-mar sombreada entre os rochedos. E de como, solitariamente, sob o castanheiro junto da fonte, o magro Dom Quixote estava de primeira sentinela da noite, enquanto os últimos foguetes do fogo-de-artifício caíam tão suavemente na noite de luar e o meu colega Pablo, coroado de rosas, tocava a charamela para as raparigas.

         Ah, qual de nós teria imaginado que o círculo mágico se iria quebrar em tão pouco tempo. Que quase todos nós – e também eu, também eu! – nos iríamos tornar a perder nos ermos monótonos da realidade rotineira e rotulada, curvando-se, como funcionários públicos e empregados de balcão depois de uma patuscada ou de um passeio de domingo, nova e insipidamente no dia-a-dia do trabalho!

[…]»

 

Herman Hesse in Viagem ao País da Manhã. Cavalo de Ferro, 1ª ed., pp 26-27.

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Publicado por Fernando Delgado às 00:33
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