Domingo, 1 de Maio de 2011

"Ilha sem Barcos"

         «Lembro-me de um tempo em que, na leitura excessiva de metáforas com que então se iludia a realidade, se falar da Beira Interior como se fosse uma “ilha sem barcos”. Essa imagem fugidia era, penso eu, agora, a procura de identificação breve de uma região à escala do país, da sua secular subalternidade cívica e social de pequena pátria, na espessura temporal do seu isolamento, na persistência imutável da realidade que parecia elevar-se da espessura dos dias. Interioridades…

         Era uma insularidade cercada de terra, configurada à solidão do campo e das montanhas, atormentada por um isolamento secular, que a imutabilidade da paisagem parecia ter petrificado. Monsanto, com o seu micro-cosmos arcaico, “nave de pedra”, onde, dizia Namora, “a fraga se torna pesadelo””, é simbolicamente imagem dessa realidade cósmica, retrato de uma portugalidade com séculos de desterro e de mágoas, cuja persistência se tornou num tempo longo de servidão vivido até ao século passado.

         Muitas vezes subi ao cimo dessa montanha de onde se vê a raia, e ao redor da qual se materializam paisagens de tão grande diversidade (“manta de retalhos”, chamou Orlando Ribeiro à Beira Baixa) que espicaçam a imaginação, como naqueles filmes que cavalgam os territórios à procura de paraísos perdidos, com as imagens a galope, rio impetuoso de vida, criando a ilusão de o tempo acelerar para a invenção da felicidade.

         Olhar ao redor, lá do cimo do castelo, até onde os olhos alcançam, quando o céu fica azul da cor do mar e o sol coado do fim da tarde poisa súbita nitidez nas coisas, é ter a percepção da lonjura da Beira na sua continuidade transfronteiriça, velhos castelos, onde aldeias e vilas se acolhiam à protecção, praças fortes de defesa colectiva, lugares que arvoravam ao alto a bandeira da independência, quando as gentes daqui eram insubstituíveis na sua condição de “carne para canhão”. Hoje, essa linha territorial da fronteira dissipou-se e está povoada de silêncios e de vazio humano, estigmatizada como espaço periférico de “baixa densidade”.

         Mas Monsanto guarda memórias e imaginários dessas guerras e do seu carácter inexpugnável, como a lenda que regista a resistência da população, durante anos refugiada no castelo. Conta-se: face ao cerco implacável, e à beira de esgotados todos os mantimentos, decidiram os sitiados atirar encosta abaixo uma bezerra engordada com o último trigo, para dizer aos sitiantes que não se rendiam pela fome. Todos os anos, em Maio, eleva-se no ar o som dos adufes e dos cantares, em tons vagamente árabes de funda inquietação. É a população que sobe ao castelo para atirar das muralhas potes de barro enfeitados com flores – “remake” possível do sacrifício da bezerra engordada com o trigo da fome.

         Neste regresso à memória do imaginário de Monsanto, parece-me ouvir Catarina Chitas com a sua voz belíssima, como pranto magoado de séculos, cantar a imemorial gesta da resistência de um povo, memória fragmentada de um Portugal que morreu.

[…]»

 

Excerto do texto Da “Ilha sem Barcos” ao Coração da Europa de Fernando Paulouro das Neves.

Interioridade/Insularidade Despovoamento/Desertificação. Paisagens, Riscos Naturais, e Educação Ambiental em Portugal e Cabo Verde. (Coord. Rui Jacinto e Lucio Cunha). Colecção Iberografias - 17. Centro de Estudos Ibéricos.

Publicado por Fernando Delgado às 00:30
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