Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

Alçada Baptista

«[…] Tenho a tentação constante deste retorno a uma espécie de saber que nada sabe, como se pressentisse que é preciso encontrar a ignorância incrustada na nossa memória mais profunda - na memória anterior a toda a memória - e que seria depois dessa reencontrada inocência que tudo teria que se reaprender. Estou com cinquenta e oito anos e tenho que reconhecer que passei a maior parte da minha vida a limpar o meu próprio terreno de construções clandestinas, de obras feitas sem licença - sem minha licença -: igrejinhas, sentimentos piegas, bairros operários, casas de espectáculo, artes e pinturas, catástrofes e outros flagelos (lá bem longe, no cabo do mundo), universidades, bordéis, ideologias e morais. Por mais que eu não queira, os meus passos continuam a tropeçar em velhos edifícios em ruínas mas não me apetece nada ceder porque acho que a reconstrução de tudo tem que começar com uma ligação verdadeira com aquela chamada indizível de que tenho a saudade: é aí que eu vejo o amor: uma vibração que não vem da inteligência e nem sequer dos sentimentos mas da natureza mais íntima e mais profunda do meu próprio ser.

 

Felizmente, nada disto para mim é dramático e sou capaz de pensar estas coisas com a dupla consciência de que a aproximação da vida é simples e leve mesmo quando nos propomos tocar naquilo de que depende o reencontro connosco próprios e que nos poderá dar a paz. Tenho a sensação de que o programa que nos meteram na cabeça está todo errado, que ali estava inscrito, por exemplo, que o amor é mesmo essa guerrilha: quem sabe, o capítulo da guerrilha homem-mulher, no grande tratado da guerra que impuseram à humanidade.

 

Hoje, já não posso ouvir falar em dialéctica, em competição, em vencer na vida, porque acho que é com nomes desses que se tem tentado encobrir o projecto sempre adiado de descobrir como saber usar a nossa liberdade e, com ela, implantar no mundo o lugar do homem. Eu hoje pergunto-me é se o nosso cérebro não estará a ser informado por um programa errado, oposto à nossa natureza, à matriz primordial do ser humano. Digo mesmo que me é difícil ver com clareza outro caminho embora saiba que a história é uma vaga que avança sem escrúpulos, a escrever o seu roteiro com aquilo que cada um tem de pior, indiferente aos poucos que procuram, nas suas margens, outras águas e outras linguagens. Isto e só ainda um princípio de descoberta mas de que não posso abdicar. De certo modo, é a minha proposta de partilha na aventura da vida.

 

[…]

 

Gosto de ti porque és minha irmã da seita do sonho. Os que sonham a dormir sabem, de manhã, que isso era uma ilusão mas os que sonham de olhos abertos acreditam que o estofo do futuro será feito desse sonho. Por isso são tão inquietantes aos olhos dos que preferiram ficar por aí, convencidos de que a vida se vive nestes limites, e nem ousam tomar conhecimento daquilo que se pode arriscar para poder experimentar as suas margens. É o medo que faz com que o homem ame a sua imperfeição. A verdade é que as pessoas não desgostam da sua imperfeição...

[…]»

 

A. Alçada Baptista in O Riso de Deus. Editorial Presença.

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publicado por Fernando Delgado às 01:14
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