Domingo, 9 de Janeiro de 2022

...às portas do crepúsculo

«Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.»

Eugénio de Andrade, "Do outro lado" in Poesia e Prosa

O sétimo selo_08.jpg

A dança da morte in «O Sétimo Selo», de Ingmar Bergman.

 


publicado por Fernando Delgado às 23:59
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Sábado, 13 de Novembro de 2021

Adília Lopes

«Autobiografia sumária

Os meus gatos

gostam de brincar

com as minhas baratas»

Adília Lopes. Autobiografia sumária in A pão e água de Colónia. 1987.

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:50
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Segunda-feira, 18 de Outubro de 2021

Um Reino Maravilhoso

IMG_2716_Torga.jpg

Há umas semanas estive em São Martinho de Anta…, no largo com a escultura de Torga feita na raiz do negrilho, no Espaço Miguel Torga e em muitos outros sítios onde se sente (de onde brotou!?...) a escrita de Miguel Torga. Um Reino Maravilhoso é um livro-objeto com um texto de Torga e pinturas de Graça Morais. As plavras unem-se aos traços e às cores num mar de pedras, tudo parado e mudo...

O texto começa assim:

«Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.

Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a espessura do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?

Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:

- Entre!

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.

[…]»

Miguel Torga. Graça Morais. Um Reino Maravilhoso. D. Quixote, 1ª ed., 2002.

 


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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2021

O filho pródigo, segundo M. Torga

          «[...]

          A volta do meu herói a este velho continente faz-me sempre estremecer o coração.

          A história do filho pródigo nunca me deixou sereno. Quando em pequeno lia essa trágica novela do primeiro revoltado contra a palha puída da casota onde a vida nos mete, e onde medram, gordas as pulgas domésticas, comovia-me sempre. Já nesse tempo eu era capaz de ver o que há de legítimo em cada partida e de fatal em cada regresso. Com os anos, a rebeldia do primeiro capítulo e a alegria do último perderam muito da sua magia. Até que era bom não amar e não ser amado eu aprendi! E aquele jovem insubmisso a guardar porcos em casa alheia passou a ser a meus olhos um símbolo invejável e promissor de fecunda solidão. Depois, fui mudando de ideias. Comecei a achar graça aos próprios parasitas do ninho, e, sem de nenhum modo pensar que é um alto destino ser mordido por eles, aceitei sem relutância que o rapaz da Bíblia tornasse, arrependido, à casa paterna.

          Que é o caso do Senhor Ventura. O alentejano vem direito a Penedono. Traz às costas algumas mortes, um lar falhado, a certeza de um filho, e os olhos cheios de estranhas e sobrepostas imagens. Não foi, visivelmente, a castiça saudade nossa que o empurrou de oriente para ocidente, nem parece ter consciência de que há uma solidariedade que nada pode destruir entre a pedra rolada e a penedia de onde saiu. Mas vem. Milagrosamente, a mão do infortúnio lavou-o das nódoas mais essenciais. Entra no lar, não digo repeso de ter partido (nem era de desejar que assim acontecesse), mas instintivamente disposto a pagar o que deve à condição nativa. E toca-me cá por dentro.

          Como logo no princípio expliquei, toda a história do meu herói é-me conhecida já, e eu conto-a a mim próprio nas horas de melancolia. Em cada paragem não faço mais do que tentar uma pequena meditação sobre o destino que é mais colectivo que individual. Agora, desembaraçado nesta urbana Europa, e a caminho de casa, que é o Senhor Ventura senão o efeito irremediável dum tropismo que nos anda no sangue e nos chama em qualquer parte do mundo a este pobre redil lírico e desconfortável, ao mesmo tempo tão absurdo e humano? Ah, eu acredito que esta fidelidade inconsciente ao granito, ao luar e à urgueira encerra uma grande lição de vitalidade e de singularidade. Vejo nela uma prova do nosso destino nacional e universal. Mandado pelo governo chinês, ou pela sorte, ou até por um acaso onde não haja nem a hipótese duma razão, o alentejano, que foi do mundo inteiro, é outra vez daqui. A misteriosa e peregrina verdade é esta.

[...]»

Miguel Torga in O Senhor Ventura. D. Quixote, 6ªed., pp 117-118.

 

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Quarta-feira, 7 de Julho de 2021

As paisagens de Álvaro Domingues

As «Paisagens Transgénicas» de Álvaro Domingues (ver aqui).

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Domingo, 30 de Maio de 2021

Pois!...

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Afrodite piange - escultura imaterial de Salvatore Garau

De acordo com notícias de hoje, o artista italiano Salvatore Garau conseguiu vender o vazio por 15.000 euros, apresentando num leilão uma escultura imaterial. A obra de arte, com dimensões de uns 150 x 150 centímetros, deve ser colocada numa casa particular, numa sala especial livre de qualquer obstáculo. É completamente invisível. “A ausência de matéria é, para mim, um ato de amor para com o desconhecido e o mistério com que quase toda a humanidade está comprometida”, diz o autor.

Segundo o próprio, não vendeu um nada, vendeu um vazio: "O vazio não é mais que um espaço cheio de energia, e ainda que o esvaziemos e não fique nada, segundo o princípio de incerteza de Heisenberg, esse nada tem um peso".

Pois!...

 

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Segunda-feira, 24 de Maio de 2021

Dylan

Não sei se devia ter como referência as músicas de um octogenário, mas tenho. E não são mais que pequenas pedras no lugar onde repousa a memória. E como o presente fica mais leve!...

 

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Terça-feira, 6 de Abril de 2021

Esplanadas

As esplanadas entre o olhar do pintor e a nostalgia do poeta no início do fim do confinamento..., ou apenas o tempo de respirar o esplendor da primavera...

David Levy Lima.jpg

Razumov.jpg

«Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.»

  • David Levy Lima, «Vista da Praça do Comércio a partir das Esplanadas»
  • Konstantin Razumov, «Early evening»
  • Manuel António Pina, «Esplanada»

 

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Terça-feira, 30 de Março de 2021

Mário de Sá-Carneiro

«Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.»

Poema de Mário de Sá-Carneiro

Música de João Gil e interpretação dos Trovante.

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Julio Pomar . Fernando Pessoa encontra D. Sebastião: num "caixão sobre um burro ajaezado à andaluza"

 

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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2021

Um texto de Fernando Paulouro

Sei que é feio fazer isto, mas não resisto a roubar este texto ao Fernando Paulouro, publicado no seu blog «Notícias do Bloqueio», e a colocá-lo aqui. 

«POR UM PAÍS MAIS HABITÁVEL

Agora, que andam por aí salazares empalhados, sujeitos que se alimentam no chafurdo da indignidade para se arvorarem em salvadores políticos, lendo aos seus apaniguados o catecismo do ódio e da intolerância, ameaçando uns e tentando agredir outros, apetece, mais do que nunca, quando a demagogia e a mentira andam à solta, evocar os tempos ominosos de um país amordaçado, e nessa evocação gritar: viva a liberdade! Obscuros interesses da extrema direita internacional deram palco a estes abencerragens do passado e é vê-los, hoje, também aqui, espertos e ladinos, nas televisões e nos jornais, confundindo-se com pessoas de bem, dando voz a tudo aquilo que há de mais primário e irracional na natureza humana. Alguns iludiram decerto a Justiça, ou a atenção dos carcereiros, sabe-se lá, para darem corpo aos populismos que trazem na ponta da língua e põem as ideias em estado de sítio, e que, na política dos votos, sabemos bem onde conduzem. A História já fez o registo desses dramas, mas há sempre aqueles que, apostando no esquecimento ou na rasura da memória, acreditam que os crimes do passado se podem repetir para proveito próprio.

Na situação portuguesa, diga-se, há responsáveis pela onda populista. O vazio da política, o abandono dos ideais e do ideário, a programação do unanimismo, convergem na indiferença. Por comodismo, digamos assim, o PS optou por falta de comparência nas Presidenciais, deixando ao abandono o território da política, como se fora terra de ninguém. Ora, é dos livros: quando nós não nos ocupamos da política, a política ocupa-se de nós permitindo que energúmenos racistas e xenófobos ergam bandeiras contra a fraternidade solidária das políticas sociais. É o que está a acontecer. A democracia, tão generosa a tratar os seus inimigos, não poucas vezes tem morrido às suas mãos.

Daí que o combate das ideias, a denúncia da cruz gamada oculta no catecismo xenófobo ou o braço estendido da saudação fascista disfarçada na apologia comicieira, sejam uma exigência inadiável na sociedade portuguesa. Por um país mais habitável.»

 

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publicado por Fernando Delgado às 00:55
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Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2021

Yuval Noah Harari

Não tenho por hábito correr a uma livraria para comprar um best seller - já fui enganado mais que uma vez: há livros que se vendem aos milhões e não se percebe muito bem porquê... -, mas por influência de alguns amigos lá fui à pressa comprar o Sapiens - História Breve da Humanidade.

Apesar das mais de 500 páginas, li-o em poucos dias, o que só por si revela que o autor sabe prender o leitor a um exercício possessivo que o empurra de página em página sem grande esforço (curiosamente foi esta a sensação que tive ao ler a Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson, um livro com uma forma narrativa muito semelhante).

Só uma dúvida, que não passa de curiosidade: as referências à cidade da Guarda, ao Benfica e ao Pêra Manca são o resultado de uma tradução com liberdade exemplificativa, ou constam mesmo do original? É que gosto tanto dos exemplos que nem sei se hei-de ir a correr comprar o Homo Deus - História Breve do Amanhã, do mesmo autor, ou se me fico por um copo de Pêra Manca (um sucedâneo, claro...) enquanto sofro com o Benfica e espreito o frio pela janela.

 

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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020

eucalyptus deglupta

Descobri por acaso, à procura de outras árvores e de outras florestas... Existe um eucalipto (eucalyptus deglupta) que tem este troco com estas cores espantosas! Imaginem o que será uma floresta com estas árvores...

As más notícias: «Esta espécie não é de fácil cultivo fora da faixa equatorial, onde prospera com temperaturas entre os 20-32°C e precipitação da ordem dos 2 500 - 3 500 mm. Em Portugal é ainda mais difícil de cultivar, uma vez que esta espécie morre abaixo dos 2°C (...)».

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publicado por Fernando Delgado às 22:48
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Terça-feira, 17 de Novembro de 2020

O silêncio dos livros

Há quem diga que quando o tempo sobra há espaço para os livros que ficaram por ler... Era bom que assim fosse, mas não é! A pandemia ocupa o tempo e o espaço, não sobra nada (como na Tragédia de Hamlet, o resto é silêncio) .

A ausência de constantes compromissos profissionais, de agendas rígidas, de stress e, como se costuma dizer, do dia-a-dia preenchido, é uma ilusão. Não fomos feitos ou formatados (ou educados?!) para este nova realidade. Precisamos de compromissos, de agendas e de stress para ludibriar as rotinas e ganhar algum tempo para outras coisas, como ler livros. É assim a natureza humana - buscamos sofregamente algumas coisas como contraponto a outras coisas de que não gostamos, ou que, gostando, nos limitam o tempo e o espaço. Precisamos de não ter tempo para dar valor ao tempo. 

Sinto que a pandemia apagou da memória esta busca do contraponto emocional e os livros não escaparam a esta decapitação. A Crónica de Um Vendedor de Sangue, de Yu Hua e Magalhães, o homem e o seu feito, de Stefan Zweig, são algumas das leituras neste longo interregno, mas não passam de exceções num quotidiano longo, aborrecido e estupidamente inútil. Restam, como notas de rodapé, um retrato da revolução cultural de Mao - simples, sem adjetivos e juízos morais inúteis (no livro de Yu Hua) e uma biografia de Magalhães, com várias inexatidões históricas (?!...), ou apenas excesso de entusiasmo do autor (no livro de S. Zweig).

Pouco, muito pouco!

 

«[...]

Serviu rei e país sob todas as formas: por mar e por terra, em todas as estações do ano e em todas as zonas marítimas, no meio da geada e sob um céu tórrido. Porém, servir é coisa de jovens, e agora, com quase trinta e seis anos, Magalhães decide que já se sacrificou o suficiente pelos interesses e pela glória dos outros. Como acontece a qualquer criador, Magalhães sente media in vita a necessidade de se realizar pessoalmente, de ser responsável por si próprio. A pátria abandonou-o, desfez a ligação com as suas tarefas e obrigações - tanto melhor: agora está livre. Como tantas vezes sucede, o punho que tenta repelir um homem, impele-o, na verdade, para dentro de si mesmo. [...]»

Stefan Zweig in Magalhães, o homem e o seu feito. Assírio e Alvim, 2ª ed., pp 67-68.

 

 


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Terça-feira, 10 de Novembro de 2020

Cartoons

O exagero (?!...) como espelho da realidade. Admirável!

AYTOS _Política Mundial.jpg

AYTOS (turco)_Política Mundial

DARIO_Bolsonaro.jpg

DARIO (mexicano)_Bolsonaro

FRANK HOOMANN_Boris Johnson.jpg

FRANK HOPPMANN (alemão)_Boris Johnson

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MOLINA (nicaraguense)_Populismo

PEDRO SILVA_Christina Lagarde.jpg

PEDRO SILVA (português)_Christina Lagarde

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:10
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Quinta-feira, 1 de Outubro de 2020

O inútil paciente zero

Tenho uma especial atração por estes temas, não sei exatamente qual a razão, mas, para além do natural espanto perante algo que está fora do alcance do meu conhecimento científico, pressinto que a mistura de ciência e filosofia me provoca alguma inquietação. A relação do violino e dos seus sons com a mecânica quântica em Os diálogos sobre física atómica (um livro com muitos anos...) e esta dedução de que é absolutamente inútil querer voltar ao passado para mudar o futuro, partindo da teoria da relatividade e tendo como exemplo o Covid-19 , são provocações que me convocam a uma reflexão, obviamente sem conclusões. Mas não há nada a temer. A filosofia e a ciência são dois aliados poderosos ligados por uma ponte precária sobre um rio de dúvidas. E é aqui que reside a sua força.

 

«Viajar no tempo é uma possibilidade que passou a ser levada mais a sério depois de assumida no último livro do físico e cosmólogo Stephen Hawking, entretanto desaparecido. Em 2018, uma série de outros físicos asseguravam estarem também absolutamente convencidos de que, pelo menos matematicamente, era uma possibilidade.

Agora, uma equipa da Universidade de Queensland, na Austrália, acaba de anunciar que resolveu o paradoxo lógico que valida a teoria. Algo que concilia a relatividade geral de Einstein com a dinâmica clássica.

(…)

Para os seus cálculos, os cientistas socorreram-se da pandemia de Covid-19 como modelo para determinar se as duas teorias poderiam coexistir – já que o mais famoso físico alemão considerava a possibilidade de se viajar no tempo, mas a ciência da dinâmica avisava que a sequência fundamental dos acontecimentos não poderia sofrer interferências.  

Digamos que alguém decidia viajar para o passado para tentar impedir que o paciente zero da atual pandemia fosse exposto ao vírus. Mas se isso acontecesse isso eliminaria a motivação para voltar do passado, já que a pandemia não existiria. (…) Principal conclusão: é absolutamente inútil querer voltar ao passado para mudar o futuro. 

[…]»

E se lhe disserem que viajar no tempo é (matematicamente) possível?, in Visão, 30.09.2020

 


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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2020

A infância...

Rascunhos de infância no imaginário entulhado da velhice!...

Miro.jpg

«Mostrei a minha obra-prima às pessoas crescidas e perguntei-lhes se o meu desenho lhes metia medo.

Responderam-me: "Porque é que um chapéu haveria de meter medo?"

O meu desenho não representava um chapéu, mas sim uma jiboia a digerir um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, para que as pessoas crescidas pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações.»

 

Pintura de Joan Miro.

Texto de Antoine de Saint-Exupéry. O Principezinho, Ed. Livraria Lello, pp 12.

 


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Quinta-feira, 9 de Julho de 2020

Do lagostim à merda dos chef

Porque sim:

 

 

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publicado por Fernando Delgado às 01:44
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2020

Luis Sepúlveda

Há uns dias fomos surpreendidos pela notícia da morte de Luis Sepúlveda, nas condições conhecidas,… e o martelo bateu-me na cabeça: “porra, o que leste deste escritor? Que me lembre, nada!”

E abasteci-me on-line do que estava disponível: Diário de um killer Sentimental, Mundo do Fim do Mundo e Nome de Toureiro, todos da Porto Editora.

Escolhido um pouco ao acaso, li o Diário de um killer sentimental e, para lá do livro, sinto um certo apaziguamento – como é estranho ouvir a notícia da morte de um escritor e sentir que falta qualquer coisa. Esta “qualquer coisa”, este vazio incómodo, é o livro, a mensagem, o testemunho, o olhar cúmplice (ou pelo menos a sensação de proximidade…) do autor através das palavras.

 

... das palavras escritas:

«[…]

     - Adeus, filantropo – disse eu, aproximando-lhe o cano da boca.

     A detonação foi seca e curta. É assim que ladram os colts de trinta e oito. A minha pobre gata francesa tremia, de olhos muito abertos. Abraçei-a, amaldiçoando as malditas armadilhas da vida.

     - Tira-me daqui… - gemeu ela contra o meu peito.

     - Claro, meu amor – murmurei-lhe eu ao ouvido antes de disparar por baixo do seu lindo seio esquerdo.

     Sim, é verdade, eu amava-a, mas no meu último trabalho não podia atuar de outra maneira. Eu era um killer, e os profissionais não misturam trabalho com sentimentos.

[…]»

Luis Sepúlveda, in Diário de um Killer Sentimental. Porto Editora, 1ª ed., pp 52.

 

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Sábado, 25 de Abril de 2020

Abril

... abril, num diálogo de culturas (José Afonso, Chico Buarque e Carlos do Carmo, num filme da Carlos Saura, e Moustaki, como cidadão do mundo)...

 

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publicado por Fernando Delgado às 02:04
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2020

O pandemineiro

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O feireiro (1) voltou!

O feireiro voltou para nos explicar a pandemia do coronavírus. Agora sem chapéu de palha ou boina de agricultor, mas com gravata de seda, botões doirados no casaco e sapato lustroso bicudo (se me lembro era assim que o Mário Zambujal caracterizava um dos seus bons malandros, acrescentando “e escarreta no chão”, que obviamente não se aplica a tão ilustre personagem).

Com gráficos retirados de jornais, de publicações, da net, ou muito simplesmente juntando imagens a números de diversas fontes. Não há um raciocínio que se possa seguir (as frases terminam abruptamente em «bom…», como o martelo do juiz na bancada, ressoa a fim) a não ser aquele que já se esperava: idolatrando o trabalho de alguns (Taiwan, Singapura, Alemanha, …), ignorando muitos outros (EUA, Brasil, Holanda, Itália, …) e batendo nos restantes (China, Espanha, Portugal, …).

O José Alberto Carvalho às vezes tenta introduzir um pauzinho naquele discurso (mas nos EUA…; no Brasil…), mas é inútil – o guião está definido e não há como sair dele. A conclusão não depende de uma interpretação dos gráficos, é predefinida e os números são apenas um adereço. Não subestimem o pandemineiro, ele sabe que os números, por muito que os torturem, não se confessam...

São assim os intrujões: remetem-nos sempre para o universo do logro, da burla e da encenação patética. Não há nada mais comovente do que ver um pantomineiro a explicar uma pandemia!

(1) Não confundir com feirante: feireiro é aquele que frequenta feiras e se faz notado porque a única coisa que vende é a sua própria imagem – também conhecido por espalha-borralhos – enquanto o feirante é um trabalhador como qualquer outro…

 

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publicado por Fernando Delgado às 02:00
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