Sexta-feira, 8 de Maio de 2020

Luis Sepúlveda

Há uns dias fomos surpreendidos pela notícia da morte de Luis Sepúlveda, nas condições conhecidas,… e o martelo bateu-me na cabeça: “porra, o que leste deste escritor? Que me lembre, nada!”

E abasteci-me on-line do que estava disponível: Diário de um killer Sentimental, Mundo do Fim do Mundo e Nome de Toureiro, todos da Porto Editora.

Escolhido um pouco ao acaso, li o Diário de um killer sentimental e, para lá do livro, sinto um certo apaziguamento – como é estranho ouvir a notícia da morte de um escritor e sentir que falta qualquer coisa. Esta “qualquer coisa”, este vazio incómodo, é o livro, a mensagem, o testemunho, o olhar cúmplice (ou pelo menos a sensação de proximidade…) do autor através das palavras.

 

... das palavras escritas:

«[…]

     - Adeus, filantropo – disse eu, aproximando-lhe o cano da boca.

     A detonação foi seca e curta. É assim que ladram os colts de trinta e oito. A minha pobre gata francesa tremia, de olhos muito abertos. Abraçei-a, amaldiçoando as malditas armadilhas da vida.

     - Tira-me daqui… - gemeu ela contra o meu peito.

     - Claro, meu amor – murmurei-lhe eu ao ouvido antes de disparar por baixo do seu lindo seio esquerdo.

     Sim, é verdade, eu amava-a, mas no meu último trabalho não podia atuar de outra maneira. Eu era um killer, e os profissionais não misturam trabalho com sentimentos.

[…]»

Luis Sepúlveda, in Diário de um Killer Sentimental. Porto Editora, 1ª ed., pp 52.

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:35
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Sábado, 25 de Abril de 2020

Abril

... abril, num diálogo de culturas (José Afonso, Chico Buarque e Carlos do Carmo, num filme da Carlos Saura, e Moustaki, como cidadão do mundo)...

 

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publicado por Fernando Delgado às 02:04
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Sexta-feira, 17 de Abril de 2020

O pandemineiro

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O feireiro (1) voltou!

O feireiro voltou para nos explicar a pandemia do coronavírus. Agora sem chapéu de palha ou boina de agricultor, mas com gravata de seda, botões doirados no casaco e sapato lustroso bicudo (se me lembro era assim que o Mário Zambujal caracterizava um dos seus bons malandros, acrescentando “e escarreta no chão”, que obviamente não se aplica a tão ilustre personagem).

Com gráficos retirados de jornais, de publicações, da net, ou muito simplesmente juntando imagens a números de diversas fontes. Não há um raciocínio que se possa seguir (as frases terminam abruptamente em «bom…», como o martelo do juiz na bancada, ressoa a fim) a não ser aquele que já se esperava: idolatrando o trabalho de alguns (Taiwan, Singapura, Alemanha, …), ignorando muitos outros (EUA, Brasil, Holanda, Itália, …) e batendo nos restantes (China, Espanha, Portugal, …).

O José Alberto Carvalho às vezes tenta introduzir um pauzinho naquele discurso (mas nos EUA…; no Brasil…), mas é inútil – o guião está definido e não há como sair dele. A conclusão não depende de uma interpretação dos gráficos, é predefinida e os números são apenas um adereço. Não substimem o pandemineiro, ele sabe que os números, por muito que os torturem, não se confessam...

São assim os intrujões: remetem-nos sempre para o universo do logro, da burla e da encenação patética. Não há nada mais comovente do que ver um pantomineiro a explicar uma pandemia!

(1) Não confundir com feirante: feireiro é aquele que frequenta feiras e se faz notado porque a única coisa que vende é a sua própria imagem – também conhecido por espalha-borralhos – enquanto o feirante é um trabalhador como qualquer outro…

 

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Quinta-feira, 16 de Abril de 2020

«Éramos felizes, mas não sabíamos!»

(Esta é provavelmente a frase, não sei de quem, que melhor define este intervalo na vida...)

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Sábado, 21 de Março de 2020

Calma, é apenas um pouco tarde

Não sei porque regresso! Alguma inquietação, medo ou porque Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, como no título do livro de Manuel A. Pina. Ou simplesmente porque é o dia da poesia e a primavera já assomou à janela...

Há uns anos escrevi aqui

Vou por aí
muito lentamente
com um sorriso
para que não percebam
que não me apetece sorrir.
Como é difícil ser-se testemunha de si próprio!
 
Não sei o que sentia, mas sinto que sentia o que sinto agora. Vazio!
 

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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2019

Ausência

Não desapareci - estou apenas numa longa e sonolenta preguiça ...

O mais estranho é que sabe bem!

 

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Sábado, 20 de Julho de 2019

Entre dos aguas

 

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Quinta-feira, 4 de Julho de 2019

Piazzolla

 

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Terça-feira, 21 de Maio de 2019

«Tanto mar»

Assim, de repente, uma notícia tão boa: Chico Buarque é Prémio Camões 2019.

Não sei se estás em festa, pá - é primavera e acredito que estarás doente com os bolsonaros deste mundo...

Mas eu estou contente! (nós estamos!... e enviamos um cheirinho de alecrim...)

 

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publicado por Fernando Delgado às 23:48
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Terça-feira, 30 de Abril de 2019

Fertilidade transumante

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(Pomar de amendoeiras na Cova da Beira)

Esta "reportagem" (ver aqui) sobre a polinização de amendoeiras na Califórnia através de colónias de abelhas transumantes é um bom exemplo da complexidade das questões associadas às culturas intensivas…

 

«En Californie, la grande migration des abeilles

Chaque année, les deux tiers des ruches américaines partent vers la Californie pour polliniser des amandiers. Une transhumance devenue nécessaire.

Chaque année, les deux tiers des ruches américaines partent vers la Californie pour polliniser des amandiers. Une transhumance devenue nécessaire.

Dans un grand champ baigné de soleil et bordé de milliers d’amandiers, Jim Rodenberg inspecte minutieusement l’intérieur de ses ruches pour s’assurer que ses abeilles sont en bonne santé. Cet apiculteur originaire du Montana vient de passer un mois dans la vallée centrale agricole californienne, près de Bakersfield, où ses abeilles ont participé à la plus grande opération mondiale de pollinisation d’amandiers. « Pour répondre aux besoins croissants du marché florissant de l’amande en Californie, ce sont plus de 70 % des ruches du pays qui sont envoyées ici, chaque année, puis louées dans les champs aux cultivateurs, pour polliniser les fleurs », explique Jim Rodenberg dans sa combinaison blanche grillagée.

Chargées à bord de semi-­remorques, à l’automne 2018, ses 4 000 ruches ont réalisé un périple de 2 500 kilomètres et traversé pas moins de cinq états différents, du Montana à la Californie en passant par l’Idaho, l’Utah et le Nevada. « Maintenant que la saison est terminée et que mes abeilles ont bien travaillé, je me prépare à envoyer une petite partie de mes ruches au nord, dans l’État de Washington, pour polliniser des pommiers et des cerisiers. Le reste va retourner passer la fin du printemps et l’été dans des champs de luzerne du Montana pour y produire du miel », explique l’apiculteur.

Mais avant de reprendre la route, Jim Rodenberg doit d’abord vérifier que ses reines sont toujours en vie et en capacité de continuer à pondre. « Dieu merci, celle-ci semble en forme », se félicite-t‑il, penché au-dessus d’une ruche bourdonnante, un enfumoir à la main. « Aujourd’hui, entre l’exposition aux pesticides et aux fongicides, et la mite Varroa qui est très agressive, les reines, qui vivaient autrefois entre quatre et cinq ans, ne durent plus aussi longtemps, se désole-t-il. Je suis maintenant obligé de les remplacer presque chaque année.»

Le mouvement de transhumance annuelle des abeilles vers la Californie est fortement soupçonné de contribuer à l’augmentation continue du taux de mortalité des colonies, constatée aux États-Unis depuis une trentaine d’années. « Le fait de concentrer la quasi-totalité des abeilles du pays chaque année dans la vallée centrale favorise forcément la propagation de maladies et de parasites », reconnaît Jim Rodenberg. Le voyage imposé aux colonies, qui viennent parfois d’aussi loin que de Floride, a également tendance à stresser les abeilles et à affaiblir leur système immunitaire, les rendant vulnérables aux pathogènes.

Cette année, Jim Rodenberg et son partenaire Les Wienke estiment toutefois avoir évité le pire. « Nous n’avons perdu “que” 20 % de nos colonies, alors que la moyenne aujourd’hui tourne plutôt entre 30 et 40 % », explique Jim Rodenberg en montrant un tas de ruches vides, reléguées dans un coin du terrain. « Ça reste tout de même très préoccupant, renchérit Les Wienke. Dans les années 1980, le taux de pertes annuel était autour de 10 %. Depuis, ce chiffre n’a cessé de grimper. »

Pour lutter contre les pesticides, une fois la pollinisation terminée, certains apiculteurs soumettent aujourd’hui leurs abeilles à de véritables cures de désintoxication en pleine nature.C’est le cas de Nick Noyes, un apiculteur de l’Idaho, qui vient de passer l’hiver avec ses 10 000 ruches à Firebaugh, à une centaine de kilomètres au nord de Bakersfield. « Ce soir, une partie de mes colonies partira à bord de camions en direction du Texas. Là-bas, j’ai repéré un espace sauvage idéal, où mes ruches seront à l’abri des produits chimiques et où elles pourront plus facilement se repeupler », explique l’apiculteur, à bord de sa camionnette, en sillonnant une dernière fois les allées d’amandiers en fleur. « Je tiens toutefois à garder l’endroit secret, précise-t-il, car ces espaces sont de plus en plus rares aux États-Unis. »

Pour Nick Noyes, les pratiques agricoles américaines sont en partie responsables du dépeuplement des abeilles. Il pointe notamment du doigt le développement de monocultures intensives comme celle de l’amande et la disparition progressive des surfaces fourragères naturelles, en partie détruites par les herbicides. « Pour être en bonne santé, on ne peut pas se contenter de ne manger que du steak. Les abeilles sont comme nous. Elles ont besoin d’un régime diversifié, note l’apiculteur. Aujourd’hui, nous sommes obligés de les bourrer de sirop de glucose et de protéines artificielles pour compléter leur alimentation. Sans cela, nos pertes annuelles seraient bien plus catastrophiques. »

En plus du repeuplement des ruches opéré par les apiculteurs, « les cultivateurs d’amandes ont aussi pris certaines mesures qui ont permis de mitiger les pertes, souligne Bob Curtis, consultant pour la Collective des amandes de Californie. Par exemple, certains n’appliquent plus de fongicides le jour mais attendent la nuit », lorsque les abeilles sont à l’abri dans les ruches.

Malgré tous ces risques et ces contraintes, les apiculteurs itinérants ne sont pas prêts à renoncer à leurs activités de pollinisation, sans trop s’interroger sur le bien-fondé d’une migration par camion, mise en place pour pallier un service normalement rendu par la nature… Ni sur l’érosion de la biodiversité alarmante que cela révèle. Au cours de la dernière décennie, l’explosion du marché californien de l’amande a même rendu l’apiculture migratoire extrêmement lucrative. « Aujourd’hui, 50 % de mes revenus sont issus de la pollinisation, à égalité désormais avec les revenus que je tire du miel », explique Nick Noyes. Cette année, pendant la floraison, ses ruches se sont louées autour de 220 dollars pièce, contre 60 dollars en moyenne au milieu des années 2000.»

En Californie, la grande migration des abeilles. Reportage. La Croix.

 


publicado por Fernando Delgado às 23:07
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Quinta-feira, 25 de Abril de 2019

...

 

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Terça-feira, 16 de Abril de 2019

Notre-Dame

Sem palavras...

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Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

... à mesa do café...

«Se vires um cágado no cimo de uma árvore, foi porque alguém o pôs lá!»

- Provérbio umbundu -

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publicado por Fernando Delgado às 00:02
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Terça-feira, 9 de Abril de 2019

Floresta/paisagem...

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«[…] Lembremos que o ano de 2017 terminou com uma área queimada contínua que se estende desde o sul do Tejo quase até Viseu, no coração florestal do país, e que afetou de maneira indiferente pinhais e eucaliptais. Urge reconhecer que essas paisagens são insustentáveis e indefensáveis, sobretudo face ao processo de alterações climáticas que aumenta a frequência de situações de elevado risco meteorológico de incêndio e ao abandono rural, que retira capacidade de controlo sobre o território. O eucalipto faz parte deste problema, na medida em é já a espécie que maior extensão ocupa na floresta portuguesa, mas o problema é mais vasto e profundo. Resulta de grandes transformações do meio rural durante as últimas décadas, conjugadas com as nossas condições bioclimáticas cada vez mais favoráveis ao fogo. É ilusório pensar que se pode preencher apenas com floresta o grande vazio deixado pela perda de cerca de 1 500 000 hectares de terras agrícolas desde meados do século XX e o aumento recente do tamanho e frequência da ocorrência de mega-incêndios florestais elimina quaisquer dúvidas. […]»

José Miguel Cardoso Pereira in Eucaliptos, fogos e outras coisas mais. Cultivar, Cadernos de Análise e Prospetiva, nº 14. Ed. GPP, pp 21-22.

 


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Segunda-feira, 8 de Abril de 2019

«Não há paisagens para sempre»

[...]« Não há paisagens para sempre. A paisagem é o registo de uma sociedade que muda e, se a mudança é tanta, tão profunda e acelerada, haverá disso sinais, para além de pouco tempo e muito espaço para compreender ou digerir as marcas e formas como se vão atropelando mutuamente, ora relíquias, ora destroços. [...]»

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(Foto: Casa abandonada em Penafalcão)

«[...] Agora vai minguando o espaço para as histórias e as personagens líricas do mundo rural. As marcas e as memórias do Portugal profundo vão-se decompondo com a desruralização e o seu rasto de efeitos culturais: o despovoamento, o envelhecimento, o abandono da produção agrícola e dos campos, o desaparecimento de certos estilos de vida, saberes e práticas culturais - o interior, no dizer mais frequente sobre estas coisas. Os poucos que vão ficando vivem de uma economia assistida entre pensões, reformas, poupanças, ou remessas de familiares e quem pode sai porque são escassos os empregos. A miragem do bucolismo e dos paraísos perdidos é mais de quem está no exterior (do tal interior) e pensa que o rural e Natureza são lugares para passar férias. [...]»

Álvaro Domingues in Vida no Campo. Edições de Arquitetura. Dafne Editora, 1ª ed., pp 15 e 23.

 


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Quinta-feira, 28 de Março de 2019

«A natureza deixa sempre sobras...»

(Um texto infantil?...

Não sei, mas gostei de ler que

A natureza deixa sempre sobras, uma margem de segurança.

O MEC está a ficar maduro ou, como sempre, naif?...)

 

«Entram borboletas nas nossas vidas, joaninhas. Numa estação de serviço o verde duma bomba engana uma abelha. Chegam dois livros sobre as aves do mundo: a falta cada vez maior de insectos é o maior problema de todos.

Nas janelas e nas gavetas da minha casa nascem moscas para me comer o juízo, peixinhos de prata para me comer os livros, traças para me comer as camisolas.

São insectos também. Os insectos não se podem escolher. Os desagradáveis vêm como os giros. Se não houvesse insectos a voar por toda a parte não viriam as andorinhas e os andorinhões. Morreriam de fome. Não se reproduziriam. Entrariam em extinção. Extinguir-se-iam.

Sem as minhocas não crescia quase nada. Os pássaros também comem minhocas mas deixam minhocas que cheguem para fertilizar a terra. Em contrapartida não há andorinhas e andorinhões que cheguem para dar cabo das moscas e dos mosquitos.

A natureza deixa sempre sobras, uma margem de segurança. Nascem sempre mais bichos do que aqueles que podem viver. A morte é a maneira de distribuir o que há para comer.

Há menos andorinhões porque há menos insectos. O glifosato mata passarinhos — só que não se vê. Cada Primavera é menos primaveril por causa das mortes. Pesticida é a morte das ditas pestes, herbicida é a morte das plantas.

Matando insectos e plantas estamos a matar os animais que dependem deles. Conheço uma horta cheia de caracóis e ácaros onde as alfaces e as couves são esburacadas mas deliciosas. Disse-me a dona, Belmira Cosme: “Tem de dar para todos. Senão como é que havia de ser?”»

Miguel Esteves Cardoso. Público, 28.03.2019.

 

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Sexta-feira, 1 de Março de 2019

Eugénio de Andrade

«Estou contente, não devo nada à vida,
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim

o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou,
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre,

pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou-me estender
debaixo da figueira, aquela

que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.»

Eugénio de Andrade. Estou contente, não devo nada à vida. Branco no Branco (1984).

 

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2019

«Deus e o Diabo»

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Nas televisões, para além de uma lógica comercial, suponho que existe uma lógica jornalística na concepção de programas informativos... É esta lógica jornalística que me assusta em "Deus e o Diabo". Este programa é o protótipo do populismo tal como o conhecemos hoje e que se alimenta sobretudo das "redes sociais". Agora chegou à televisão pela mão do mesmo jornalista que introduziu os reality shows na tvi,  e que volta a "inovar" com mais um programa lamentável e que se baseia em duas coisas muito simples: uma frase retirada do contexto e imediatamente valorizada - falsa, verdadeira, ... - e a opinião de público anónimo em direto sobre essa frase ou qualquer outra.

É assim que nascem os populismos: uma opinião que se transforma em realidade/verdade e o pseudo-contraditório sobre essa realidade/verdade... É a transposição direta das fake news das "redes sociais" para as tv's, para um público-alvo bem definido. Depois queixem-se!

O J. Eduardo Moniz não é obviamente ingénuo e diz ao que vem: “Não pensem que vou fazer um debate, uma entrevista, que vou fazer de moderador… Não é nada disso! Espero que os portugueses gostem, porque vão ver jornalismo sério, muito frontal, sem papas na língua, que chama as coisas pelos nomes. Vai ser interessante“.

J. E. Moniz imagina-se sentado numa poltrona moralista, entre as cadeiras monoteístas de Deus e do Diabo. Condiz com a personagem, mas não pense que somos estúpidos.

 

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Domingo, 27 de Janeiro de 2019

... biodiversidade

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(Gondufo, Serra do Açor)

«[…] Uma perturbação ecológica é uma mudança temporária nas condições ambientais (incêndio, cheia, seca, invasão de pragas...) que muda profundamente a estrutura de uma comunidade ou de um ecossistema e a disponibilidade de recursos, incluindo o substrato ou o ambiente físico (Meffe e Carroll 1997). Muitas plantas e animais beneficiam das condições criadas por uma perturbação, sendo que algumas espécies, com elevada capacidade de dispersão e ocupação (colonizadoras por vocação) dependem da existência de perturbações. Outras espécies, como plantas intolerantes face à sombra, dependem também da existência de perturbações periódicas, que bloqueiem a sucessão para cobertos arbóreos mais densos.

Na ausência de perturbações, outras espécies – aquelas com maior capacidade competitiva – vão eliminando as concorrentes e o número de espécies pode diminuir. Fica então clara uma função ecológica da perturbação: criar manchas de habitat adequado para as espécies abundantes nas etapas iniciais da sucessão, mas que são sucessivamente excluídas pela competição em etapas mais avançadas. Por outro lado, perturbações muito extensas, frequentes ou intensas podem eliminar grande parte das espécies de paisagens inteiras, restando apenas as mais tolerantes ao tipo de perturbação em causa.

Deste modo, uma paisagem sujeita a um regime de perturbações de extensão, frequência e intensidade intermédias, caracterizada por manchas em diversas etapas da sucessão ecológica (que se inicia logo após a perturbação) proporcionará um meio variado, que fornecerá habitat a um considerável número de espécies. Estas encontram sempre, em cada momento no tempo, uma mancha de habitat favorável onde sobreviver e a partir da qual colonizar outras manchas de habitat que vão surgindo ao longo do ciclo ”perturbação – sucessão – perturbação”.

Foi com base nestas ideias que Connell propôs, em 1978, a hipótese do nível de perturbação intermédio, segundo a qual a biodiversidade é máxima em ecossistemas sujeitos a perturbações intermédias quanto à respetiva extensão, frequência e intensidade (Meffe e Carroll 1997). Esta noção questionou velhas ideias segundo as quais a diversidade biológica seria máxima em ecossistemas em equilíbrio (clímax da sucessão) e não perturbados. […]»

José Manuel Lima Santos. Agricultura e biodiversidade: uma diversidade de temas. CULTIVAR– Cadernos de Análise e Prospetiva – CULTIVAR, nº 8, junho, 2017. GPP, pp 13-19.

 

«[…] Dada esta diversidade de impactos (positivos e negativos) da agricultura sobre a biodiversidade, existem várias correntes alternativas à forma como se aborda esta relação (Tscharntke et al. 2012). Uma dessas correntes (conhecida como “land sparing”1) preconiza a separação total das áreas com objetivos de produção e conservação, ou seja, a intensificação da agricultura com objetivos económicos e de produção nas áreas mais apropriadas, esquecendo completamente as questões de conservação e argumentando que, desta forma, a necessária produção de alimentos será conseguida numa área geográfica mais reduzida, sobrando mais área para a conservação da biodiversidade. Esta corrente ignora os valores de biodiversidade associados a áreas agrícolas mais extensivas, os quais dependem da manutenção de atividade agrícola mesmo que em áreas marginais e com pouca rentabilidade económica. Uma outra corrente (“land sharing”) advoga precisamente a manutenção destas áreas, argumentando que para além da biodiversidade, elas preservam outros serviços de ecossistema importantes (valor cénico, produtos tradicionais, qualidade da água, etc.) que devem ser valorizados num contexto de multifuncionalidade da paisagem. Há ainda quem defenda a adoção de estratégias de gestão para manutenção da biodiversidade, mesmo em contextos agrícolas mais intensivos, numa lógica de “intensificação ecológica” (Bonmarco et al. 2013), em que elementos da biodiversidade podem ser utilizados como fonte de importantes serviços para a agricultura (controlo de pragas, polinização, fertilidade do solo) que devem ser potenciados como substitutos de inputs de origem antropogénica. A intensificação ecológica tem como objetivos manter ou aumentar a produtividade, mas minimizando os impactos sobre o ambiente através da integração de serviços de ecossistema nos sistemas de produção agrícola.[…]»

1 “Poupar a terra”, numa tradução literal, por oposição a “land sharing”, “partilhar a terra”.

Francisco Moreira, Ângela Lomba. A importância da agricultura na preservação da biodiversidade. CULTIVAR– Cadernos de Análise e Prospetiva – CULTIVAR, nº 8, junho, 2017. GPP, pp 39-45.

 

«[…] os objetivos são os de potenciar o desenvolvimento dos territórios rurais, considerando os sistemas produtivos e não produtivos com uma abordagem territorial: ou seja, uma abordagem que considera em conjunto os recursos naturais, económicos, sociais e culturais de um determinado território, potenciando novos arranjos institucionais que permitem aproveitar de uma forma mais coerente todos os recursos, para o desenvolvimento rural e bem-estar das comunidades rurais. Aqui, incluem- se os bens e serviços públicos que são suportados por estes territórios e pelas atividades que neles se desenvolvem. Entre estes, a paisagem tem um lugar central, como suporte de funções com crescente valor social, como o recreio e lazer, a identidade cultural, a qualidade de vida e o bem-estar coletivo e individual. Esta é a perspetiva que há mais tempo tem tido destaque e sido debatida: a do papel da agricultura na construção de uma paisagem específica e com um carácter único em cada lugar, e da importância dessa paisagem no suporte de benefícios societais – ou seja, da agricultura como garante da diversidade e carácter da paisagem rural, que tão valorizada é pela sociedade europeia.

(…) A paisagem é assim, além de tudo mais, um mediador para a gestão integrada do espaço rural e das diferentes procuras e expetativas relativas a esse espaço. […]»

Teresa Pinto Correia. A agricultura e a paisagem, suporte de múltiplos usos e valores sociais. CULTIVAR– Cadernos de Análise e Prospetiva – CULTIVAR, nº 8, junho, 2017. GPP, pp 47-51.

 


publicado por Fernando Delgado às 00:17
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Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2019

Txoria Txori

Uma das centenas de interpretações desta canção lindíssima de M. Laboa...

 


publicado por Fernando Delgado às 00:38
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