Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018

wildfire

«[…]

(…) a primeira constatação é a da grande confusão sobre os conceitos de “fogo” e de “incêndio”. Neste aspecto, como em outros, a língua inglesa torna tudo mais fácil: fogo é fire e incêndio é wildfire. Logo, os incêndios são um caso particular dos fogos, são aqueles que dificilmente se controlam, os fogos “selvagens”, que se distinguem por isso de outras categorias de fogos, aqueles que são utilizados de forma controlada, em geral designados na língua inglesa por prescribed fires e que, em Portugal, tornaram a designação quase equivalente de “fogos controlados”.

Parecia uma divisão simples, facilmente entendível pelo público em geral, por políticos, por jornalistas. Mas não! As campanhas mais mediáticas, com mais meios e mais responsabilidades continuam a não entender a diferença. E aí está o slogan, que até nem rima, do “Portugal sem fogos depende de todos”.

Sem caricaturar, mas usando apenas analogias com outros elementos da natureza, podia também apelar-se a um Portugal sem insetos, não distinguindo aqueles que nos são tão úteis, como as abelhas, de outros que propagam doenças, como o nemátodo da madeira do pinheiro. E muitas outras analogias serviriam para ilustrar a pobreza de uma frase que, infelizmente, tem perdurado em campanhas sucessivas com a justificação de que o público não consegue perceber a diferença entre incêndio e fogo. Ou talvez sejam os próprios promotores da campanha que não o tenham percebido…

[…]»

Francisco Castro Rego. A Defesa da Floresta Contra Incêndios (DFCI). Agricultura, Floresta e Desenvolvimento Rural. Ed. IESE (Instituto de Estudos Sociais e Económicos), 2016, pp139.

 

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Patilhar
Segunda-feira, 17 de Setembro de 2018

granum

Porque, como se costuma dizer, o saber não ocupa lugar!

«SOBRE O GRANITO E A SUA ORIGEM, NUMA CONVERSA TERRA-A-TERRA

Já dissemos que não há um, mas sim, vários tipos de rochas a que o vulgo dá o nome de granito.
Deixando este tema para outras conversas, comecemos agora por dizer que o termo granito, em sentido restrito, designa uma rocha plutónica (gerada em profundidade, na crosta), granular, rica em sílica (mais de 70%), com quartzo essencial, expresso e abundante (20 a 40%), e feldspato alcalino (ortoclase, microclina, albite). Como mineral ferromagnesiano contém, geralmente, biotite, sendo raros os granitos com anfíbolas ou piroxenas. Entre os seus minerais acessórios, destacam-se moscovite, apatite, zircão e magnetite. Esta rocha corresponde ao que, numa linguagem mais rigorosa, se designa por “granito alcalino”. O termo granito, atribuído ao italiano Andrea Caesalpino, surgiu em 1596, e radica no latim granum, que significa grão.

Imagine o leitor uma paisagem como a do norte de Portugal, essencialmente formada por granitos, xistos argilosos e grauvaques, na margem ocidental da placa litosférica euroasiática, à beira de um oceano (o Atlântico) que a separa de uma outra placa (a Americana).

Como é sabido, os agentes atmosféricos (a humidade, a água da chuva, o oxigénio e o dióxido de carbono do ar e as variações de temperatura) alteram (“apodrecem”) as rochas e é essa alteração, ou meteorização, que gera a capa superficial (rególito) que dá origem ao solo.

- E quais são os materiais desta capa de alteração e do respectivo solo? – Pergunta-se.
Restringindo a resposta ao local em questão, aos principais minerais destas rochas, e à situação climática que aqui exerce a sua influência, diremos, de um modo muito esquemático, mas que aponta o essencial da questão, que:


(1) No granito, o feldspato altera-se, transformando-se parcial e, de início, superficialmente, em argila. Alterando-se o feldspato, os restantes grãos minerais descolam-se uns dos outros e a rocha perde coesão (esboroa-se entre os dedos). Os grãos de biotite (uma mica contendo ferro) também se alteram e dessa alteração resulta o seu aspecto “enferrujado”, o que confere à rocha exposta as cores de castanho-amarelado, que contrasta com a cor da rocha sã, acabada de cortar. O quartzo não sofre qualquer alteração, o mesmo sucedendo à mica branca (moscovite) que apenas se divide em palhetas cada vez mais pequenas e delgadas.

(2) No xisto argiloso, que além de argila tem quartzo em grãos finíssimos, microscópicos (ao nível de poeiras), tem lugar a perda de coesão destes materiais.

(3) No grauvaque acontece outro tanto, com a libertação dos seus componentes arenosos (os mesmos do granito, mas muito mais finos).Podemos agora dizer que os rególitos e os solos desta região de Portugal têm uma fracção arenosa com quartzo abundante, algum feldspato, micas e um fracção argilosa ou barrenta que faz o pó dos caminhos, em tempo seco, e a lama, em tempo de chuva. Podemos igualmente dizer que, quando chove com certa intensidade, as águas de escorrência arrastam estes materiais, com suficiente visibilidade na componente argilosa em suspensão. Isso vê-se frequentemente nas enxurradas, nas águas barrentas dos rios e, até, no mar, frente às fozes desses rios.

As pedras (cascalho) vão ficando, em parte, pelo caminho, outras atingem o litoral e não passam daí. As areias enchem as praias, as dunas e o fundo rochoso da plataforma continental. As areias mais finas e as argilas, incapazes de se depositarem em mar de pequena profundidade, constantemente agitado pela ondulação, progridem no sentido do largo, indo depositar-se na vertente continental (onde ficam em situação instável). As muitíssimo mais finas, essencialmente argilosas, vão imobilizar-se mais longe, no fundo oceânico. Sempre que, por exemplo, um sismo abala a região, os sedimentos em situação de depósito instável na vertente desprendem-se, indo decantar sobre os já acamados no dito fundo.

Imaginemos que este processo (alteração das rochas, erosão, transporte e acumulação no mar) se repete ao longo de milhões de anos e que dele resultam alguns milhares de metros de espessura deste tipo de sedimentos. Imaginemos, ainda, que o mesmo se passa do lado de lá do Atlântico.
A tectónica global ensina-nos que este oceano, como todos os outros, ao longo da história da Terra, irá fechar-se. Isso terá como resultado o encurtamento do espaço coberto pelos ditos sedimentos que, à semelhança de um papel que amarrotamos entre as mãos, sofrerão enrugamentos, com “dobras” que vêm para cima, formado novas montanhas, e outras que vão para baixo, formando as “raízes” dessas montanhas.

É sabido que a Terra conserva grandes quantidades de calor no seu interior e que a temperatura aumenta com a profundidade, o mesmo sucedendo com pressão (dita litostática). Assim, dos sedimentos envolvidos nas citadas “raízes”, os mais superficiais ficarão sujeitos a pressões e temperaturas relativamente baixas, sofrendo ligeiríssima transformação (anquimetamorfismo), dando origem a rochas na fronteira entre as sedimentares e as metamórficas, como são o xisto argiloso, o grauvaque e, um pouco mais abaixo, a ardósia. Continuando em profundidade, com o aumento da pressão e da temperatura, mas sempre com transformações no estado sólido, formar-se-ão outras rochas francamente metamórficas, de graus progressivamente mais elevados, expressas na sequência: filádios ou xistos luzentes (uma vez que a componente argilosa se transformou em minerais que têm brilhos característicos, ”luzentes”, como a sericite, a clorite ou o talco), xistos porfiroblásticos, micaxistos e, ainda mais abaixo, gnaisses (estes representando o grau mais elevado).

A profundidades na ordem dos 30 quilómetros, a temperatura pode atingir os 800.ºC, e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas. Neste ambiente e na presença de água (toda a contida na composição das argilas) terá lugar a fusão dos minerais menos refractários (quartzo e feldspatos). Entra-se aqui no domínio do chamado ultrametamorfismo e o processo toma o nome de anatexia (do grego “aná”, novo, e “teptikós”, fundir), ou palingénese (do grego “pálin”, de novo, e “génesis”, geração), dando origem a migmatitos. 

Logo que a fusão seja total, entra-se no domínio do magmatismo, com a formação de um magma que, dados os materiais envolvidos, só pode ser de composição granítica, magma que, uma vez arrefecido e solidificado, gerará um novo granito. 

A história que acabámos de descrever nesta espécie de antevisão é a que julgamos saber contar relativamente à que, há pouco mais de 300 milhões de anos, deu origem à orogenia hercínica ou varisca e ao granito, ao xisto e ao grauvaque que nela se geraram e que marcam a paisagem do norte de Portugal. Do mesmo modo, esta história conta a de todas as paisagens afins do planeta, desde as mais antigas, com mais de 4000 milhões de anos, às mais recentes com escassos milhões.

Relativamente ao granito, a mais importante rocha magmática que forma a “ossatura” dos continentes, sabemos que o primeiro resultou de um processo de diferenciação, lenta e complexa, de uma crosta primitiva, de natureza próxima da do basalto. Sabemos também que qualquer geração de granito tem, atrás de si, outro granito e que, muitos milhões e anos depois (400 a 500, em média), renascerá numa nova geração de granito.

Esta história é, afinal, a expressão (reconhecível ao nível das paisagens da Terra) do conhecido Ciclo de Wilson (do geólogo canadiano John Tuzo Wilson (1909-1993), relativo às sucessivas aberturas e fechos dos oceanos da Terra.
____________________________

Notas: 

Grauvaque – rocha sedimentar arenítica e coesa, gerada nos grandes fundos marinhos, a par dos xistos argilosos. Contém, sobretudo, quartzo (20 a 50%), feldspatos e micas. O termo foi Introduzido na nomenclatura litológica, em 1789, por Lasius, e radica no alemão grauwacke, que significa pedra cinzenta.

Migmatito – rocha ultrametamórfica, gerada por anatexia, de que resulta uma composição granitóide, na qual uma parte foi fundida e outra, mais refractária, permaneceu no estado sólido. Situa-se na passagem das rochas metamórficas da catazona (como é o gnaisse) ao granito franco.

Abaixo da zona dos gnaisses a temperatura e a pressão permitem a fusão dos elementos»

 

A. Galpoim de Carvalho in De Rerum Natura.

 

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Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

A. Lobo Antunes

Fiz as pazes com a escrita de A. Lobo Antunes: desisti!

Desisti de tentar encontrar o fio à meada, de entender as personagens, de encontrar os caminhos, de decifrar a história contada.

Assumo, assim, que, ler Lobo Antunes é pressupor a existência de uma escrita anárquica, magistralmente anarca. Confesso que, para ler Lobo Antunes, é necessário esquecer que existem outras escritas, muito arrumadinhas, muito lógicas, muito cheias de conteúdo… Cedo à tentação de ler sem esperar encontrar nada para além do ato de leitura - é como caminhar sem partida ou chegada.

E como são suficientes as palavras!...

(Há uns bons anos, muitos anos, “aprendi” a gostar de jazz, e ainda hoje pressinto na anarquia dos sons – se calhar, apenas desconhecimento de leigo… - uma forma suprema de música!)

 

 

     «[…]

     Na altura do Natal a coluna de reabastecimento trouxe quatro mulheres metidas entre os caixotes da última mercedes, não muito novas, não muito bonitas, não muito limpas claro, de quico na cabeça e camuflados grandes demais para elas, olhando a medo o capim e as árvores dos dois lados da picada, o meu avô para o meu pai baixinho, sem levantar a arma, passando um dedo lento entre as orelhas da cadela

     - Não são perdizes aquilo é um ouriço a vigiar a toca

     com os primeiros besoiros já, as primeiras borboletas, aquela espécie de diferença na nuca que antecede o calor, soldados de ambos os lados no interior da mata e por vezes raminhos esmagados, protestos de caniços, dois ou três militares à frente a picarem, uma lata amolgada no chão, um céu de chuva a oeste muito longe ainda, a seguir à primeira curva a ladeira que conduzia ao arame onde se agitavam vespas num charco de água parada, a minha filha numa pedra de quintal sem falar comigo nem me olhar, em pequena sentava-a nos joelhos para cima e para baixo

     - Cavalinho cavalinho

     e ela a rir de prazer, de medo e do prazer do medo, ela contente, com o cabelo para um lado e para o outro e a falta de um dente de leite junto ao incisivo, nenhuma ruga meu Deus, ainda nenhuma ruga, a pele tão lisa, covinhas nas costas das mãos, covinhas nos cotovelos, covinhas nas bochechas

     - Mais

     os dedos dos pés pequeninos, redondos, os olhos castanhos, não bem castanhos, pintinhas verdes e agora infelizmente óculos, a boca séria, fechada, com um parêntesis de cada lado, o que te sucedeu, o que me sucedeu, a coluna entrou no arame camioneta a camioneta, com os pretos dos quimbos a espreitarem-na de longe e os soldados a saltarem da caixa, as gê três um som mais forte que as calaches, sempre que punha a minha filha às cavalitas despenteava-me

     - Corra

     e eu a segurar-lhe os tornozelos com medo de tropeçar na horta e cair, um lacrau apareceu numa pedra e esticou logo a cauda, os tropas espiavam as mulheres de longe enquanto o vagomestre ajudava a fixar, martelando-os, os paus de duas barracas de lona com colchões secos lá dentro a que faltava palha, na coluna um saquito de correio sem nenhuma carta para mim, a minha mulher escrevia-me uma vez por semana, envergonhada da letra

     - É tão feia

     onde contava não importa o quê para encher o papel comigo a pensar no seu corpo, será que ainda te lembras do meu, as mulheres que o capitão veio observar, com um alferes atrás, três morenas e uma quase albina, magríssima

     - Menos mal que o ano passado vá lá pelo menos nenhuma delas é preta

     despiram-se nas barracas enquanto um sargento distribuía senhas aos militares

     - Cinco minutos para despacharem o serviço que elas têm de se ir embora ainda hoje

     e o meu avô aborrecido porque nenhuma perdiz, a cadela pôs-se de pé, girou sobre si mesma e tornou a deitar-se, de focinho poisado num dos nossos sapatos, à espera, sentia-se a respiração dela entre a impaciência e o sono, notava-se-lhe uma carraça na orelha direita apesar da minha mãe às vezes pegar num desperdício e a esfregar com petróleo, tinha que se deixar uma noite lá fora porque o cheiro

     - Cavalinho cavalinho

     se pregava a tudo, até ao cesto da roupa, o meu avô a tossir

     - Raios partam o bicho

     dado que o pivete lhe incomodava os pulmões, os soldados formavam bicha diante das tendas com a senha numerada a lápis na mão

     - Ao fim de cinco minutos chegas aqui mesmo em pelo veste-te cá fora e pronto

     pergunto-me se a minha filha se lembra dos meus joelhos, se calhar sim, se calhar não, quase de certeza esqueceu-os, agora volta e meia doem-me no inverno, estou muito bem a andar e uma das pernas falta-me, desparece da tíbia para baixo e a seguir regressa mas mais fraca, a tremer, o meu filho preocupado

     - O que é isso?

[…]»

António Lobo Antunes. Até que as pedras se tornem mais leves que a água. D. Quixote, 1ª ed. Pp 241-243.

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Sábado, 18 de Agosto de 2018

«Cebola crua com sal e broa»

O Miguel decidiu escrever sobre pouco mais de uma dúzia de episódios datados, numa cronologia que ele próprio apelidou da infância para o mundo. Tudo bem, não só na revelação do seu mundo (do que ele quis revelar!), mas também na forma ligeira e escorreita da escrita (o livro lê-se em duas golfadas…).

O problema não está nas estórias e nas personagens, algumas bem conhecidas. O problema está em, a partir de cada uma das estórias, fazer generalizações e tirar conclusões de âmbito muito mais vasto. Uma estória não determina a história, é apenas um acontecimento que isolado significa muito pouco, embora esta tendência de generalização seja sobejamente conhecida nos comentários televisivos...

Porque gosto da escrita do Miguel (que vontade de reler No teu deserto), irrita-me esta forma abusivamente conclusiva de relatar fatos (um pouco à semelhança dos contos da escola em que no fim nos perguntavam “que lição tirar?” ou “qual é a moral da história?”), o que me leva a transcrever do livro uma simples receita culinária – a que posso chamar como assar e comer sardinhas -, que já conhecia, embora sem o pormenor dos bocados da tripa, mas que o MST, mais uma vez, não resistiu a considerar como "a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou" :

«[…]

o lume tem de doirar e não queimar, as sardinhas; não se acompanha com batatas, apenas salada, para desenjoar, de vez em quando; não há pratos nem talheres: as sardinhas comem-se em cima de pão, com os dedos retira-se a tripa do costado e a pele mais grossa, depois come-se metade de uma só dentada, até à espinha, virando-a a seguir para fazer o mesmo do outro lado; no fim, coloca-se o pão, untado do suco das sardinhas e com bocados de tripa, a torrar no lume e come-se a mais deliciosa tosta que o ser humano já inventou»

[…]»

Miguel Sousa Tavares. Cebola crua com sal e broa. Da infância para o mundo. Clube do autor, 1ª ed., maio, 2018,  pp 350.

 

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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

«mundos mudos» no papalagui

Gosto muito desta fotografia "roubada" a o papalagui (ver aqui):

20180710_155422.jpg

 

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Domingo, 29 de Julho de 2018

Steinbeck

Tempo de releituras… Steinbeck, a natureza, a sua relação com deus e com o inconsciente e (dentro da minha leitura - ver também aqui), o limiar da razão – a gente faz sempre maldades quando é muito feliz (pp 21) -,enunciados inúteis - isso tudo são palavras para vestir uma coisa nua; e essa coisa, vestida, torna-se ridícula (pp 184) - e o desespero das longas esperas – vão rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos (pp 205).

 

 

«[…]

     Escuta, Juanito: primeiro havia a terra; depois, vim eu guardar a terra; e agora a terra está quase morta. Só restam este rochedo e eu. Eu sou a terra.

(…)

     A chuva varreu o vale. Dentro de breves horas regatos fervilhavam pelas encostas e caiam no rio de Nossa Senhora. A terra fez-se negra e bebeu água até mais não poder. O próprio rio rugia entre os penedos e precipitava-se na garganta dos montes.

     O padre Ângelo estava na sua casinha, sentado entre os livros de pergaminho e as imagens santas, quando a chuva começou. Lia La Vida de San Bartolomeo. Mas quando começou o chapinhar da chuva no telhado, pousou o livro. Durante horas ouviu o rugir da água sobre o vale e o clamar do rio. De vez em quando ia à porta espreitar lá fora. Passou a primeira noite acordado, a escutar, consolado, o barulho da chuva. E sentia-se feliz ao lembrar-se de que rezara por ela.

     Ao crepúsculo da segunda noite, a tempestade continuava com a mesma força. O padre Ângelo entrou na igreja, mudou as velas da Virgem e fez as suas devoções. Depois ficou-se no limiar escuro, a olhar a terra encharcada. Viu passar a correr o Manuel Gómez, carregado com um coiotezinho molhado. E logo a seguir o José Alvarez, com os chifres dum veado na mão. O padre Ângelo escondeu-se na sombra do portal. A Srª Gutiérrez passou depois, a patinhar nas poças, com os braços cheios duma velha pele de urso, comida da traça. O padre sabia o que se ia passar nesta noite de chuva. Ardeu nele uma ira que crescia. “Eles que comecem, que eu os faço parar”, disse ele.

     (…) O padre via mentalmente o povo a dançar, a patinhar na terra mole com os pés descalços. Via-os vestidos com peles de animais, embora nem eles soubessem porque as tinham posto. O ritmo cadenciado tornou-se cada mais forte e mais insistente e as vozes mais agudas e histéricas. “Vão despir a roupa toda”, murmurou o padre, “e rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos.”

[…]»

John Steinbeck. A um Deus Desconhecido. Publicações Europa-América. Livros de bolso, pp 21, 184, 205, 223-224.

 

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Patilhar
Terça-feira, 24 de Julho de 2018

... fogos gregos

Grécia_fogos_02.jpg

 … e abre-se uma nova janela de oportunidades para uma enxameação dos experts em quase tudo. Vai ser (já está a ser em todas as tv's, jornais, ...) um rodopio de especialistas em fogos, florestas, prevenção, combate, agricultura, bombeiros, aviões, proteção civil, alterações climáticas…, a lista não tem fim!

É natural que seja assim? É, mas fede!

Fede, na maior parte dos casos, a oportunismo político, à defesa de interesses inconfessáveis, à mediocridade como forma de ser e de estar. Já não há paciência para tanta "sabedoria"!

 

(Que me perdoem os verdadeiros especialistas, os que não cedem a interesses, os que voltam as costas à mediocridade, os que se limitam a defender aquilo em que racionalmente e cientificamente acreditam…, e muito simplesmente nos dizem que este mundo não é nosso ou de cada um de nós, pois limitamo-nos a ser hóspedes por tempo muito reduzido. Esta transitoriedade é inerente à condição humana e quase sempre incompatível com o carácter perene e irresponsável da ação quotidiana. É o modus vivend deste quotidiano que deve ser regulado. Sem contemplações e sobretudo sem cedências a interesses de agentes facilmente identificáveis!)

 

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Segunda-feira, 16 de Julho de 2018

Stefan Zweig

À beira de uma Europa em crise..., ou como o espessamento oculto do transitório alimenta o populismo.

«[…]

     Mas continuávamos a não ver o perigo. Os poucos escritores que se deram ao verdadeiro trabalho de ler o livro de Hitler, troçavam do estilo pomposo da sua prosa de papel, em vez de se debruçarem sobre o seu programa. Os grandes jornais democráticos, em vez de alertarem, tranquilizavam diariamente os seus leitores, afiançando-lhes que o movimento, que só a custo conseguia financiar a sua enorme actividade propagandística com dinheiros da indústria pesada e com uma arrojada política de endividamento, haveria de sucumbir no dia seguinte ou dois dias depois. Mas talvez no estrangeiro nunca se tenha percebido inteiramente a razão por que a Alemanha, durante todos esses anos, subestimou e minimizou a tal ponto a pessoa e o poder crescente de Hitler: a Alemanha não só fora, desde sempre, um Estado estratificado em classes como, além disso, e de acordo com esse ideal de classe, também sobrestimava e divinizava cegamente a “cultura”. Exceptuando alguns generais, as posições mais elevadas do aparelho de Estado estavam exclusivamente reservadas a indivíduos com “formação académica”, como se dizia; enquanto em Inglaterra um Lloyd George, em Itália um Garibaldi e um Mussolini, em França um Briand tinham realmente saído das fileiras do povo para se elevarem até aos mais altos cargos do aparelho de Estado, o alemão não concebia que um homem que não tinha sequer terminado a escola e muito menos frequentado a universidade, que alguém que pernoitara em albergues nocturnos e que, anos a fio, ganhara a sua obscura vida de uma forma ainda hoje não muito clara, pudesse sequer aproximar-se de um cargo que fora outrora ocupado por um barão von Stein, por um Bismarck, por um príncipe Bulow. Nada induziu tanto em erro os intelectuais alemães, como esse arrogância cultural de teimar em ver em Hitler um agitador de cervejarias que nunca poderia tornar-se verdadeiramente perigoso, isto numa altura em que ele, graças aos que manobravam os cordelinhos invisíveis, já há muito tinham conquistado apoiantes de peso nos mais diversos círculos. E mesmo quando, naquele dia de Janeiro de 1933, Hitler se tornou chanceler, as grandes massas, e até os que o tinham colocado naquele lugar, consideraram-no, a ele, como alguém que ocupava um lugar transitório, e o domínio nacional-socialista, como um mero episódio.

[…]»

Stefan Zweig. O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu. Assírio & Alvim, pp 396-397.

 

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Segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Hermann Hesse

Tempo de (re)leituras... Ler ou reler (ver também aqui e aqui) H. Hesse parece-me sempre um convite a explorar as rugosidades das coisas ditas perfeitas...

 

«[...]

     - Vives no convento?

     - Sou aluno da escola. Mas não fico lá mais. Posso vir ter contigo, Lise? Onde moras, onde é a tua casa?

     - Não moro em parte alguma, meu tesouro. Não me queres dizer o teu nome? Chamas-te Goldmundo? Dá-me mais um beijo, meu pequeno Goldmundo, depois podes ir.

     - Não moras em parte alguma? Onde dormes, então?

     - Durmo contigo, se quiseres, na floresta ou sobre o feno. Vens hoje à noite?

     - Venho. Mas aonde? Onde te encontro?

     - Sabes imitar o pio da coruja?

     - Nunca experimentei.

     - Experimenta. 

     Goldmundo tentou. Ela riu-se e achou que estava bem.

     - Sai esta noite do convento e imita o pio da coruja; ficarei aqui nas imediações. Gostas de mim, Goldmundo, meu menino?

 

[...]

 

     - E agora, diz-me lá – concluiu violentamente – que mundo é este em que vivemos? Não é um inferno? Não é odioso e abominável?

     - Sem dúvida, o mundo não é outra coisa.

     - Ah, sim – exclamou Gldmundo exaltado – e quantas vezes outrora me afirmaste que o mundo era divino, que era uma harmonia de esferas, no centro das quais se erguia o trono do Criador, que a existência era boa, etc. Dizias tu que o afirmavam Aristóteles ou S. Tomás. Estou curioso por ouvir-te esclarecer esta contradição.

     Narciso riu-se.

     - Tens uma memória espantosa, Goldmundo e, contudo, desta vez traiu-te um pouco. Sempre venerei a perfeição do Criador, mas nunca a da criação. Nunca esqueci o mal do mundo. Nenhum autêntico pensador, meu caro, jamais afirmou que a vida na terra fosse harmoniosa e justa ou que homem fosse bom. Pelo contrário, já na Sagrada Escritura vem expressamente dito que os desígnios e aspirações da alma humana são perversos, e todos os dias vemos essa asserção confirmada.

     - Muito bem. Descubro finalmente como é que vós, os homens doutos, concebeis as coisas. O homem é mau, a vida na terra é abominável e imunda; admitem-no. Mas, para além, algures nos vossos sistemas e tratados, há justiça e perfeição. Existem, podem demonstrar-se, mas não se faz uso delas.

[…]»

Hermann Hesse. Narciso e Goldmundo, pp. 74 e 259, Guimarães & C.ª Editores, 2ª ed., 1981.

 

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Patilhar
Quarta-feira, 13 de Junho de 2018

«Mudar de Vida»

Quando fico "em baixo" vou sempre procurar a um qualquer canto de mim mesmo coisas que me deixam bem. É um caminho secreto, tão secreto que não sei repeti-lo, mas que me leva a um montículo de minúsculos papéis, pedaços de folhas escritas rasgadas pelo tempo. Julgo que é a isto que se chama memória, mas não tenho a certeza - não encontro qualquer indício de outros rostos, de outros olhares, de outras mãos, mas apenas uma sensação de paz, bem ancorada neste presente.

Separo do montículo, com o cuidado que me merecem todas as coisas frágeis, um desses pedaços. Mesmo sabendo que foi uma escolha, deixo-me envolver num encontro fortuito.

Mudar de Vida - Carlos Paredes, Luísa Amaro e Paulo Curado.

 

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Patilhar
Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

Os "interiores"

«As medidas apresentadas pelo Movimento pelo Interior (MPI) no passado dia 18 de Maio [...], têm gerado atenção nos principais meios de comunicação social. O relatório tem como objetivo a “identificação de políticas públicas de natureza radical e discriminatória a favor do “interior”” e contém 24 medidas agrupadas em três domínios: política fiscal; educação, ensino superior e ciência; e ocupação do território pelo estado.

Estas medidas surgem no contexto do Programa Nacional para a Coesão Territorial (PNCT) preparado pela Unidade de Missão para a Valorização do Interior (UMVI), criada no final de 2015 com o propósito de inverter o declínio populacional do “interior”. Segundo o relatório do MPI, “entre 1960 e 2016 a população residente no litoral aumentou em 52,08%, enquanto no “interior” diminuiu em 37,48%.” A atribuição do despovoamento do interior à litoralização do território oculta outras transformações importantes ocorridas nesse período, nomeadamente a bipolarização nas duas áreas metropolitanas em simultâneo com uma crescente suburbanização. Consequentemente, também no litoral se observou um forte despovoamento dos territórios centrais das áreas metropolitanas. No caso da Área Metropolitana de Lisboa, entre 1960 e 2016, a população residente no concelho de Lisboa caiu 38%, enquanto a população dos concelhos periféricos circundantes aumentou mais de 200%.

Os processos de desenvolvimento regional são complexos e a sua discussão, seja entre especialistas ou a sociedade civil, geralmente exaltada. As posições dividem-se em função do maior ou menor valor atribuído ao princípio da equidade e justiça territorial, evidenciando um provável conflito entre competitividade e coesão. Os economistas diriam tratar-se de um caso clássico de trade-off entre eficiência e equidade. Mas será mesmo? A resposta, como já se adivinha, não é fácil. Abordo aqui dois dos principais problemas a ter em consideração.

O primeiro problema é a delimitação dos territórios do “interior” enquanto geografia do problema e, por pressuposto, da solução. Esta decisão não é inócua seja qual for a definição de “interioridade”. O conceito utilizado pelo MPI já não corresponde, e ainda bem, ao binómio urbano-rural, mas também não explica a relação entre densidade populacional e accessibilidade. Assim, temos cidades do interior fora do “interior” (ex. Viseu) e áreas rurais do litoral dentro do “interior” (ex. Alentejo litoral). O papel catalisador das aglomerações urbanas do interior - as cidades de pequena e média dimensão - no desenvolvimento das regiões que as englobam fica assim despercebido. Esta omissão importa pelo menos por dois motivos. Primeiro porque a ausência de cidades médias com dimensão económica regional alargada é um dos entraves a uma maior equidade e competitividade territoriais. Segundo, porque estamos em plena discussão pública do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território (PNPOT) e a questão da articulação das aglomerações urbanas de menor dimensão com as áreas rurais envolventes é central ao debate sobre o modelo de desenvolvimento territorial do país.

O segundo problema é a ausência de discussão dos possíveis efeitos contrários não intencionais das medidas propostas, e que resulta da necessidade de distinguir entre o sintoma e a causa do problema alvo de intervenção pública. A causa do despovoamento do “interior” parece ser atribuída à litoralização do território, e não à falta de competitividade desses territórios. Na realidade, é mais provável que a falta de competitividade seja a causa do problema, sendo a litoralização apenas um sintoma do mesmo. Entre as medidas discriminatórias a favor do “interior” assumem relevo os benefícios fiscais às empresas (ex. alargamento do IRC 12,5%, exclusividade do regime contratual e do código fiscal de investimento) e a exclusividade para o “interior” do atual regime especial de IRS com vista a atrair do litoral ou estrangeiro indivíduos altamente qualificados. As vantagens financeiras para as pessoas (que trabalhem no setor público) são ainda majoradas por uma série de medidas para a ocupação do território pelo Estado: subsídio igual a um salário anual, aumento em 25% do tempo de contagem para progressão da carreira, aumento em 10% da contagem de tempo de serviço para a reforma, e duplicação dos subsídios de parentalidade e abono de família.

Algumas destas medidas poderão gerar percepções de injustiça social entre recém-chegados oriundos do “não-interior” e os residentes do “interior”, criando uma espécie de duas classes de cidadãos. Além disso, as medidas podem não ter o impacto desejado na economia dos territórios do “interior” devido a possíveis “efeitos de fronteira”. Primeiro, a mudança de residência fiscal para o “interior” sem abdicação de habitação secundária fora deste não reduz necessariamente a pressão da procura habitacional urbana, mas aumenta a pressão sobre a procura habitacional no “interior”, podendo aumentar o seu custo. Segundo, a alteração da residência primária do “não-interior” (ex. Setúbal) para o “interior” (ex.: Alcácer do Sal) à custa de movimentos pendulares mais longos terá como resultado um aumento da suburbanização e logo uma ocupação do território mais ineficiente e insustentável. Em relação aos benefícios fiscais às empresas que se mudem para o “interior”, a evidência empírica existente indica que o sucesso destas medidas tende a ser limitado e é condicionado pela reversibilidade das medidas.

Em conclusão, ainda que todos desejemos maior coesão territorial, valorizar o “interior” através da imposição de políticas públicas de natureza geográfica binária do tipo sim/não – “interior” vs. “não-interior” – pode produzir mais efeitos nefastos do que desejáveis.»

In Coesão e competitividade territorial: oportunidade ou conflito?

Patrícia Melo, Associada do IPP-Lisbon e Professora no ISEG-UL

Público, 04 de junho 2018

 

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Terça-feira, 5 de Junho de 2018

Função social da propriedade

«A função social da propriedade foi uma “invenção” de León Duguit, que num conjunto de seis conferências proferidas na Universidade de Buenos Aires, em 1911, explanou o conceito e o filiou no princípio da solidariedade. Duguit parte do pressuposto de que a autonomia proclamada pelo Estado liberal, que fecha o indivíduo em si próprio, não é natural; é antes a interrelação entre as pessoas que está na base do conceito de sociedade, interrelação essa que se traduz na solidariedade. A propriedade é um conceito que pressupõe o indivíduo como uma ilha, quando a pessoa é, ao contrário, essencialmente gregária e interdependente. Logo, a propriedade não deve servir apenas interesses individuais, mas sim ser “produtiva”, numa lógica de interesse comunitário. Note-se que o pensamento de Duguit não tem qualquer filiação marxista ou socialista, uma vez que não preconiza nem a apropriação colectiva de meios de produção nem a propriedade exclusivamente pública. Duguit apenas acentua a necessidade de transformar uma riqueza individual num benefício também colectivo.

A teoria de Duguit influenciou várias Constituições, de forma expressa. A primeira delas foi a Constituição do México, de 1917, em cujo artigo 27º se dotava o poder público de competência para impor restrições ao direito de propriedade, “em benefício social” e em prol de uma distribuição equitativa de recursos. Na Europa, foi a Constituição de Weimar, de 1919, a pioneira na consagração do princípio da função social da propriedade — o seu artigo 153º dispunha o seguinte: “A propriedade é garantida pela Constituição. Os seus conteúdo e limites serão fixados por lei. A propriedade acarreta obrigações. O seu uso deve fazer-se igualmente no interesse geral”. Este preceito influenciou marcadamente a Lei Fundamental de Bona, de 1949, que afirma, no n.º 2 do artigo 14º, que “A propriedade obriga. O seu uso deve ao mesmo tempo servir o bem da comunidade”.

Paralelamente, a Constituição italiana de 1947 estabelece, no artigo 42.º, que “A propriedade privada é reconhecida e garantida pela lei, que determina os seus modos de aquisição, gozo e limites com o fim de assegurar a sua função social e torná-la acessível a todos”. Por seu turno, a Constituição espanhola de 1978 dita, no n.º 2 do artigo 33º, que “A função social destes direitos [à herança e à propriedade] limita os seus conteúdos, em conformidade com a lei”. Já a Constituição portuguesa de 1976 (doravante, CRP) não utiliza a expressão, mas isso não impediu o Tribunal Constitucional de afirmar a sua valência, no Acórdão 76/85, onde se escreveu que “[...] a velha concepção clássica da propriedade, o jus utendi ac abutendi individualista e liberal, foi, nomeadamente, nas últimas décadas deste século, cedendo o passo a uma concepção nova daquele direito em que avulta a sua função social”.

[…]

Ou seja, […], um proprietário já identificado ou a identificar que revele um comportamento negligente terá, em regra, três opções: passar a gerir adequadamente as suas terras; integrá-las num modelo de gestão colectiva; ou ceder as terras para arrendamento pela Bolsa/Banco de Terras. Caso não acolha nenhuma das três, poderá ver agravadas as suas obrigações fiscais e, no limite, ser forçado a aceitar um arrendamento compulsivo da sua propriedade pela entidade gestora da Bolsa/Banco de terras. Hipóteses como a expropriação deverão ficar reservadas para situações excepcionais como, por exemplo, aquelas em que a terra não dê garantias de produtividade, e se torne por isso inatractiva; ou em que a morfologia do terreno seja rebelde aos aproveitamentos agrícolas mais adequados e não permita soluções de integração em sistemas de gestão colectiva; ou para situações em que sobre a terra descuidada recaiam vinculações ecológicas que inibam aproveitamentos rentáveis, mas que em razão da sua localização em área de risco elevado de incêndio deva estar limpa de materiais combustíveis — transitando então tal tarefa, por força da expropriação, para mãos públicas.»

In Reflexões (a quente) sobre o princípio da função social da propriedade

Carla Amado Gomes, Professora Auxiliar da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

e-Pública Vol. 4 No. 3, Maio 2018

 

«As florestas são um recurso ambiental que se apresenta no plano legal e na consciência colectiva como um importante bem jurídico carecido de tutela, não só porque pode ser objecto de apropriação e de aproveitamento individualizado, gerando rendimento, mas também porque desempenha funções essenciais à preservação e promoção de um ambiente equilibrado e sadio.

Se esta qualificação não suscita quaisquer dúvidas ou resistências, quando se trata de indagar qual a tutela que deve ser deferida a este específico bem jurídico, a comunhão de ideias quebra-se e, quando muito, consegue-se uma difícil convergência de posições.

E isto porque, ao contrário do que acontece com outros bens jurídicos mais fluídos ou menos tangíveis como a água e o ar, as florestas (e, na mesma ordem de ideias, os solos), as florestas, ao permitirem um domínio mais imediato e concreto pelo Homem, são tradicionalmente alvo de pretensões e intervenções que escapam de forma quase incontrolável às exigências de um desenvolvimento sustentado.

E se é certo que, com Gérard Buttoud, a política pública das florestas deve garantir que todas as utilizações florestais possam estar, ainda que de forma diferenciada, ao serviço de todos os utentes, de uma forma que garanta a perenidade dos recursos a longo prazo, nem sempre se consegue “ordenar” devidamente esta panóplia de interesses, procedendo a uma sua adequada composição e territorialização.

A complexidade e dificuldade da tarefa começa logo quando se pergunta: afinal, ordenar o quê?

[…]»

In (Re)ordenamento florestal: alguns instrumentos de conformação da ocupação florestal em Portugal

Dulce Lopes, Professora Auxiliar da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra

e-Pública Vol. 4 No. 3, Maio 2018

 

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Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

Word Press Photo

De acordo com a "Visão" esta fotografia, de Ronaldo Schemidt ("homem em chamas na Venezuela"), é a vencedora da 61ª edição da Word Press Photo, realizada em Amesterdão.

WPP_V_S_Balza.jpg

Gosto particularmente desta ("The battle for Mossul", de Ivor Pricket), também vencedora de um prémio:

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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

 

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Ceiroquinho, Pampilhosa da Serra. Março, 2018.

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Ponte de Fajão e Gralhas, Pampilhosa da Serra. Março, 2018.

 

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Segunda-feira, 26 de Março de 2018

A terra do Capuchinho Vermelho

«Sobre o carácter da paisagem global e multifuncional

É a ligação à terra que faz uma cultura. Ninguém diz, “é o nosso urbano”, toda a gente diz “é a nossa terra”.

(…)

Há 50 anos, o que era contínuo na paisagem era o sistema natural. As cidades eram pontos. Hoje é o contrário. O contínuo na paisagem é o construído, o pontual é o que resta da agricultura, de espaço livre, que passou a ser descontínuo. Temos que estabelecer corredores. Não há plano de desenvolvimento sustentável sem agricultura.

(…)

Sobre a chamada “modernização da agricultura”

Os romanos dividiam o território em três áreas, além da urbe: o ager, que era o campo cultivado intensamente, o saltus, a pastagem, a agricultura menos intensiva e a silva, a mata de produção de madeira e de proteção. Todo este ordenamento foi transformado, acabou-se com a silvicultura e começou o culto da floresta, que não temos. Se formos ao campo perguntar onde fica a floresta, eles só conhecem a do Capuchinho Vermelho, porque o que têm na sua terra são matas e matos. No século XIX o pinheiro bravo veio para responder às necessidades do caminho-de-ferro que estava em lançamento. Mais tarde é que vem a resina, a indústria da madeira e a celulose. O pior é que se transformou o país num território despovoado o que, dadas as características mediterrânicas, arde com as trovoadas secas.

A diminuição da população ativa na agricultura, como um objetivo de política de desenvolvimento, é um logro. A sequência é conhecida: a fileira, a agroindústria, a monocultura extensiva, a uniformização do espaço, o despovoamento, o incêndio. É fazer crescer os problemas no litoral, o congestionamento, e no interior, o abandono e a desertificação.

Onde há monocultura, não há população, porque a monocultura não precisa de gente, precisa de máquinas; a monocultura rebenta com os solos, a fileira causa predação vertical e desertifica. A monocultura não é cultura.

O erro foi considerar a agricultura uma indústria, com a criação de monoculturas, trigo e floresta, que quebraram o mosaico mediterrânico e impediram a circulação da água e da matéria orgânica. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. É uma floresta que vive para não ter gente. Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim. Pelo contrário, o carvalho, por exemplo, é acompanhado por toda uma panóplia de rendimentos como a cortiça, a pecuária, a produção de mel, de aromáticas e a caça.

A chamada modernização da agricultura é um escândalo de incompetência. As universidades de agronomia em Portugal tiveram um período de grande pujança intelectual no fim do século XIX. Agora, parece terem-se rendido ao economicismo. Estamos numa cultura mediterrânica e não se pode traduzir o desenvolvimento em unidades economicistas de produção de grande volume de dois ou três produtos. É da polivalência, da multiplicidade de produtos e da harmonia da paisagem que resulta a possibilidade de ter uma população instalada em condições de dignidade.

Sobre o “estigma social” do mundo rural

O mundo rural foi considerado obsoleto, como qualquer coisa que vai desaparecer. Veja-se o disparate que foi a política de diminuição dos ativos na agricultura. Contribuiu para o aumento dos subúrbios, dos bairros de lata e da emigração. Trouxe alguma coisa melhor para a província? Não. Apenas um grande negócio para as celuloses e para os madeireiros.

Os agricultores foram convencidos de que eram uns labregos. Houve toda uma política de desprestígio do mundo rural tendo por base a ideia de era inferior ao mundo urbano.

Esqueceram-se de que o homem do futuro vai ser cada vez mais o homem das duas culturas, da urbana e da rural. Hoje, 30 % das pessoas que praticam a agricultura económica na Europa não são agricultores. É gente que vive na cidade, tem lá o seu escritório e tem uma herdade no campo onde vai ao fim de semana.

A terceira geração de emigrantes vai morar para as casas velhas, vai recuperá-las, não vai viver ao estilo maison. Na “casa nova” mora uma tia velha a apodrecer de reumático ou está pura e simplesmente fechada.

Sobre a cidade, o urbanismo e o ordenamento do território.

A cidade monolítica, que cresce à custa da destruição de recursos naturais e de valores culturais, avançando no território sem olhar ao necessário equilíbrio energético e à sustentabilidade ecológicas e culturais inter-relacionadas.

[…]»

António Covas. A Grande Transformação dos Territórios. pp 159-161. 1ª Ed.Sílabo, 2018.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 23:28
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Quinta-feira, 22 de Março de 2018

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

Garrafeira numa habitação (após o fogo de outubro de 2017), ou como as verdades formais ou pretensamente científicas, resultantes de uma lógica proposicional, muitas vezes não passam de rumorosas e poeirentas vozes sem sentido. A realidade, mesmo que trágica, é bem mais simples e limpa..., e bem perceptível nos rostos, nas palavras e nos silêncios de quem a viveu. Essa realidade é a causa e a consequência, pelo que se entende a divergência de análises. O que já não se compreende é a análise sem realidade - o ruído polítiqueiro, oco, vazio e inútil!

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Fajão, Pampilhosa da Serra

 

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Quarta-feira, 21 de Março de 2018

«Quando vier a primavera»

 

«Quando Vier a Primavera

 

Quando vier a Primavera, 
Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é.»

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 

 

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Quinta-feira, 15 de Março de 2018

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

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Aldeia (Póvoa?) no concelho de Pampilhosa da Serra (Março, 2018)

 

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Quinta-feira, 8 de Março de 2018

Amenidades invernais

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Barragem da Marateca, Castelo Branco.

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:16
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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2018

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

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Pedrógão Grande, jan/2018 

«[…]

A rápida expansão do eucalipto no continente português não é uma excepção nas grandes mudanças da paisagem. Assim, como sugere Sousa Pimentel, num trabalho de 1888, tinham-se constituído, em poucas décadas, mais de meio milhão de hectares de montados. De 1875 a 1972, o pinhal expandiu-se por mais de um milhão de hectares. Recentemente, a vinha contínua impôs-se aos bardos e às latadas, em muitas zonas do Minho. Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas acrescenta-se apenas o caso dos incultos. Pery, em 1875, estimava a área de incultos em mais de quatro milhões de hectares, Sete décadas depois, três ilustres agrónomos – Mário Azevedo Gomes, Henrique de Barros e Eugénio Castro Caldas – face ao avanço das áreas cultivadas ou florestadas, declaravam extinta a questão dos incultos. A mudança, no entanto, prosseguiu. Desde os anos sessenta ressurgiram os incultos que, actualmente, rondam os dois milhões de hectares. Este regresso, que é também o retorno do mesmo tipo de paisagem, corresponde, agora, a uma realidade social e económica brem distinta: antes eram terras a aproveitar, a pôr em cultivo; hoje são extensões que sobram do que é necessário cultivar.

Cada um dos ciclos dos incultos está associado a uma situação determinada. O primeiro corresponde a um período em que o destino do espaço agro-florestal coincidia com as produções florestal e agrícola que, por sua vez, se identificavam com a economia e o trabalho das populações rurais. O segundo ciclo desenhou-se a par do continuado declínio da população rural, da perda de relevo da actividade agrícola e florestal na economia desta mesma população, mas também na modernização da agricultura e da continuada abertura desta aos mercados exteriores. Este ciclo coincidiu, também, com um forte incremento de sensibilidade às questões ambientais e uma crescente procura, por parte da população urbana, de actividades territoriais (desporto, caça, lazer, contacto com a natureza…).

Os dois ciclos de incultos configuram, assim, realidades sociais e económicas muito distintas. Esta diferença reflecte-se também nos referenciais de leitura das mudanças de utilização do espaço que, de qualquer modo, são também, em cada período, divergentes em função das perspectivas e dos interesses dos agentes envolvidos.

(…)

A expansão do eucaliptal corresponde ao segundo ciclo dos incultos. Para os proprietários dos terrenos que as culturas agrícolas tinham abandonado, ou que se encontravam ocupados por utilizações menos rentáveis, o eucalipto aparecia como uma vantagem económica. Para o conjunto das populações rurais que o declínio da sociedade rural tradicional, a situação era diferente. Confrontavam-se com o emergir do novo rural, culturalmente mais próximo da cidade, não agrícola, em que se desmoronava a ordem tradicional e que agora estava rodeado de terras não cultivadas e, sobretudo, que não voltariam a sê-lo. A terra antes cultivada tornava-se, para as populações rurais, uma paisagem.

Williams, tendo como referência um rural marcado pela agricultura, evidencia que “raramente uma terra que se trabalha é uma paisagem”. Mostra também que ver uma paisagem pressupõe um observador cuja situação lhe permite distância e capacidade para contemplar o espaço, consciente do que está a fazer e com uma perspectiva crítica sobre o que vê. Observar, com este sentido, o que rodeia lugares e aldeias foi, nalgumas zonas do Continente, uma experiência forçada pela alteração dos campos que rodeiam os aglomerados rurais. Foi o caso da plantação de eucaliptos nos anos oitenta e noventa. Um inquérito, realizado nos princípios dos anos noventa e que abrangeu sessenta concelhos, muitos deles com um rural de baixa densidade, mostrou que, excepto nos casos em que a plantação de eucaliptos era uma fonte de trabalho relevante para os residentes locais, as populações manifestaram, com frequência, grande oposição às plantações. Esta resistência correspondeu ao confronto com uma mudança profunda, à constatação inevitável e visual de que o espaço deixara de ser os campos que se trabalhavam e que se percorriam. Os eucaliptais apareciam como o consagrar da ruptura das populações com o espaço que as rodeava, e que estas agora viam com distância e exterioridade. A recusa dos eucaliptos era, assim, a descoberta da paisagem e, simultaneamente, a recusa do símbolo que as populações associavam às transformações que viviam.

[…]»

Fernando O. Baptista in Prefácio de O Eucaliptal em Portugal. Impactes Ambientais e Investigação Científica. Editores: António Monteiro Alves, João Santos Pereira & João M. Neves Silva. Edição ISAPress, 2007. Instituto Superior de Agronomia.

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:57
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Patilhar
Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018

A oeste nada de novo*

«A well regulated militia, being necessary to the security of a free State, the right of the People to keep and bear arms shall not be infringed

 - Second Amendment to the United States Constitution, 15 December 1791 -

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( Receção de Trump a familiares das vitimas do tiroteio na escola secundária na Florida - ver vídeo aqui)

(* ... com recomendação de leitura ou releitura do livro de Erich Maria Remarque)

 

Trump - Alguém tem uma ideia para por fim a isto? O que recomendam que se faça para pôr fim a isto?

(O tipo calvo à esquerda de Trump e das duas meninas com ar enjoado) - Há muitos professores que têm licença de porte de arma. Que levantem as mãos para se voluntariarem, para receberem treino, para que quando algo de semelhante acontecer os primeiros a reagir já estarem no campo. [Trump abana a cabeça em concordância] E se não forem os professores podem ser outros funcionários.

Trump – Iremos fazer muitas coisas diferentes. Mas vamos certamente olhar para ideias como esta.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 01:21
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Terça-feira, 13 de Fevereiro de 2018

Lili Artic Golden, sem limão

A wikipédia diz que o peeling é uma das técnicas de clareamento da pele, que utiliza, entre outras possibilidades, o laser, o ácido tricloroacético, o ácido retinoico ou o fenol. Lili Caneças terá usado um destes métodos. Quanto ao resultado…

Na maçã é bem mais simples – aparentemente basta inibir as polifenoloxidades e pronto: a maçã já não escurece depois de cortada em pedaços. A explicação científica não será tão simples, mas a história dos OGM’s é já tão longa que nem vale a pena tentar arranjar exemplos. Quanto ao resultado…, convenhamos que é difícil trocar o aroma da Bravo de Esmolfe, mesmo com alguma carepa e escurecimento rápido, por um "gene" de Chanel 5 injetado em qualquer Golden!

Agora a sério, mais a sério, transcrevo de seguida parte do artigo da Visão sobre a Arctic Golden, uma maça geneticamente modificada.

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 «Já chegou ao mercado americano a primeira maçã geneticamente modificada – não escurece depois de cortada. Será que sobrevive à má fama dos transgénicos?

(…)

A empresa canadiana Okanagan Specialty Fruits tem esperança que a vantagem estética da sua Arctic Golden se sobreponha às campanhas do medo. Afinal, quem não quererá uma maçã que, horas depois de cortada, mantém o seu aspeto fresco, sem o mais leve sinal da oxidação que torna as outras maçãs pouco apelativas? “Estudos demonstram que as crianças comem mais maçãs se estiverem fatiadas”, alega a empresa no seu site, piscando o olho aos pais que querem preparar lanches saudáveis para os seus filhos levarem para a escola.

Ao longo do ano se verá se a maçã se torna um sucesso – ou se tem o mesmo destino do Flavr Savr, um tomate geneticamente modificado para durar mais tempo, derrotado por uma oposição feroz de ativistas que conseguiu assustar os consumidores.

A Arctic Golden, em que foi “silenciado” um gene que produz a enzima responsável pelo escurecimento da fruta, representa um marco nos OGM. Até aqui, com a exceção do extinto tomate Flavr Savr (1994-1997), todos os transgénicos foram pensados exclusivamente para os agricultores: variedades mais resistentes e mais produtivas, na sua maioria. Mesmo o salmão da empresa americana AquaBounty, geneticamente modificado para crescer duas vezes mais depressa do que o normal (à venda no Canadá desde o ano passado), é uma mais-valia apenas para os produtores. A maçã, no entanto, tem os consumidores em mente. É o (re)início de um novo mundo.

(…)

Só o tempo dirá se a maçã Arctic Golden conseguirá vingar onde o tomate sucumbiu. Para já, o presidente da empresa canadiana que criou a maçã, contactado pela VISÃO, assegura que a reação dos consumidores tem sido “muito positiva”. “Além de a maioria preferir as nossas fatias de maçã a outras marcas, 95% dos que provaram as nossas Arctic Golden ficaram satisfeitos ou muito satisfeitos, e 92% disseram que as comprariam, se as encontrassem nas lojas”, atesta Neal Carter.

O alegado sucesso nos EUA é suficiente, diz o presidente da Okanagan Specialty Fruits, para estar já a preparar a expansão para o Canadá, e daí para outros países. Mas a Europa, onde a resistência aos OGM é muito maior do que do outro lado do Atlântico, continua fora do horizonte. “Não temos planos para pedir a aprovação da maçã em países europeus, embora seja uma possibilidade para o futuro.”

Até lá, podemos sempre usar um velho truque para evitar que a maçã escureça depois de cortada: umas gotas de limão. Não é alta tecnologia, mas também resulta.»

(Foto retirada de "Sustainable Pulse")

 

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Publicado por Fernando Delgado às 22:14
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Domingo, 11 de Fevereiro de 2018

Valha-nos deus

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 «Os católicos divorciados que vivem em situação irregular devem optar por uma vida em continência»

- Cardel Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente.

 

... ou quererá dizer que mesmo que se case uma segunda ou uma terceira vez deve manter relações sexuais com o(a) primeiro(a) ex...?

As igrejas sempre foram prolíferas na invenção de castigos, muito simplesmente porque se alimentam de perdões!

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:27
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Patilhar
Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

Tejo nauseabundo

Esta é uma daquelas "guerras" em que os silêncios não contam. Já sabemos que o Sr. Presidente da República não tem afetos pelo Tejo, mas onde andam os deputados do distrito de Castelo Branco e de Portalegre (e de Santarém, e de Lisboa, e...).

Transcrevo texto completo do Blog Vida q.b.

 
 
 «A Espuma nauseabunda do chico-espertismo e do Trumpismo à portuguesa - Sobre a Poluição do Tejo
 
Tenho andado em silêncio à la "Uma Thurman"; tentando controlar a minha fúria antes que diga algo de que me arrependa; não sei se consegui, vós me direis. 

Nasci à beira Tejo. Um Tejo de águas limpas. Ainda que já existissem fábricas de celulose em Vila Velha de Rodão o impacto era, à vista (pelo menos) inexistente, e o Tejo era a nossa praia de sempre. 

Tudo isto acabou. Primeiro foi a selvajaria dos areeiros. A extração de inertes transformou os areais, onde antes estendiamos as toalhas, em pedregais; simultaneamente o leito do rio ia descendo ao ritmo a que os inertes iam sendo retirados tornando os pedregais cada vez mais extensos e o rio cada vez mais estreito. 

Depois veio a privatização do sector da energia electrica, a gestão de caudais nas barragens deixou de se "submeter" ao interesse público para se submeter à lógica mercantilista. De um momento para o outro não se discutia só o problema do caudal que os Espanhóis permitiam que passasse a fronteira mas também o caudal que as barragens da bacia hidrográfica do Tejo permitiam que as atravessasse.

A flutuação de caudais a jusante das Barragens ia de cheio a quase seco em segundos deixando peixe a morrer em seco para gáudio das cegonhas e desovas a secar ao sol, peixe que nunca iria nascer, e de quase seco a cheio a velocidade de corrida de qualquer incauto mais distraído à beira de água que de certo não se livrava de molhar pelo menos os calcanhares enquanto corria no pedregal. 

Entretanto veio a seca. A situação dos caudais agudizou-se. Eram baixos, extremamente baixos, o Tejo atravessava-se a vau sem que a água sequer chegasse ao joelho ou nos ameaçasse de desequilibrio em alguns locais. Não era já um dos três grandes rios ibéricos era sim um ribeiro um pouco maior do que o normal. 

E a água ficou negra. Já vai há mais de 3 ou 4 anos que um velho pescador, hoje já falecido, se entristecia ao ver o "seu" Tejo da cor do petróleo, sem um peixito que fosse a pular nas suas águas. E a espuma, meu Deus, a espuma, acastanhada, nauseabunda. 

O cheiro da água do rio "viajava" quilómetros, cheirava a morte mas as industrias de Vila Velha de Rodão votavam os "pedidos de ajuda" a devaneios de loucos no silêncio da sua "inocência". 

Desde que isto começou mudou o Governo. Deputados da AR, sempre os mesmos, todos os do distrito de Santarém com excepção dos do PS, se apresentaram a "gritar" connosco, ali ao lado do rio, em contexto de Governo PSD/PP e depois de Governo PS; mas nada além de "palavras" de circunstância e de autorizações e licenciamentos para coisas ainda piores vinha de Lisboa. 

Em Lisboa o Tejo é largo e a esmagadora maioria dos cidadãos à muito o considera apenas como uma boa imagem de fundo; não lhes interessa que com o baixo caudal do Tejo vem a salinização do Mar da Palha (para quem não sabe é esse o nome do "Mar" que o estuário do Tejo forma) e que essa salinização tem implicações gravissimas.

O Tejo ali não cheira pior do que cheirava antes, a água não é mais escura do que era antes (e mesmo que seja nem para ela olham), é navegável e atrai os turistas e isso é o que basta. 

Mas as coisas mudaram, muito, a Celtejo deu por findo o "Silêncio dos Inocentes" processando o Arlindo Consolado Marques.

O Arlindo tem sido extraordinário na divulgação de todos os crimes ambientais que vai detetando na bacia hidrográfica do Tejo; o que começou como um levantamento pessoal dos males que ia vendo e que publicava no seu YouTube e Facebook, encontrou eco naqueles que viam e sofriam pelo Tejo e pelas suas vidas despedaçadas em espuma e negridão de morte que não tinham os recursos de equipamentos e destria para publicar os videos mas queriam que as pessoas soubessem o que estava a acontecer.

Esta junção de saber de todos os habitantes e pescadores da beira-rio com literacia tecnológica fez do Arlindo o defensor do Tejo que hoje todos conhecem, mas também o colocou na mira de tentativas de homicidio e de processos judiciais. 

Mas a quebra do silêncio da Celtejo não correu como esperavam. Primeiro porque o Arlindo não se amedrontou nem se politizou, manteve-se fiel a si próprio e ao Tejo. O Tejo merece ser defendido e o Tejo é de todos nós, da nascente à Foz; ao longo das margens do Rio dos concelhos de Mação a Vila Franca de Xira os apoios, de Municipios, Associações, privados ao Arlindo foram-se multiplicando. Segundo porque se deu o descalabro.

Logo passado uma ou duas semanas Abrantes "acorda" com espuma acastanhada que atingia a altura de 1 metro sobre um Tejo negro retinto. O Arlindo chegou rapidamente e as imagens encheram telejornais. A incúria, o compadrio, o deixa andar, chocou Portugal especialmente quando se percebe que os Presidentes dos Municipios de Nisa e Vila Velha de Rodão estão ao lado do(s) poluidor(es) mesmo quando confrontados com as imagens chocantes da espuma em Abrantes e Mação. Do lado oposto os Presidentes dos Municipios de Abrantes e Mação. 

O Ministro do Ambiente, atabalhoa-se, como habitualmente, tropeçando em meias soluções e em chutos para o lado. Parece que a culpa, para o Sr. Ministro é da Natureza, que não teve capacidade de processar os efluentes poluidores; numa primeira fase de "justificação do injustificável" a culpa não é do facto de com efeitos a Maio de 2016 a APA ter licenciado a Celtejo a aumentar a poluição que deitava ao rio até 18 de dezembro de 2018. 

Não interessava nada que nessa altura a seca já estava a iniciar, que os baixos caudais que atravessavam a fronteira aliados ao nível de poluição que estava já autorizado (e que se disse na altura já estar a ser excedido impunemente) estavam já havia muito a causar problemas a quem vivia do Rio, há que autorizar o aumento até porque a actividade piscatória dá poucas receitas à Administração Local e Central e não tem tanta influência nem poder. 

Os meus leitores atentaram à data de 18 de dezembro de 2018 certo? Provavelmente estão a pensar o mesmo que eu. A Celtejo contou com a lentidão da Justiça. Processa o Arlindo agora, até que os Tribunais avancem, entre férias judiciais falta de pessoal e pilhas de processos, o caso chega a Tribunal já os níveis de poluição deles está mais baixo, o Arlindo perde pois não consegue provar que a poluição entre 2010/11 (sim leram bem) e 2018 veio da "inocente" Celtejo e, uma vez condenado este "ativista", servirá de aviso, nunca mais ninguém terá coragem de enfrentar os "Donos Disto Tudo". 

Duas notas: 

- O efeito inesperado de um processo desenhado para silênciar para sempre a Sociedade Civil foi juntar mais gente à "revolta" e obrigar o Ministério do Ambiente e a APA a agir como nunca agiram. Como? Pela primeira vez mergulhadores foram fazer levantamento das lamas à saida do tubo de descarga; Pela primeira vez os serviços da APA estão a tirar amostras diárias e o roubo de amostras junto à saída do tubo de descarga da Celtejo e a necessidade da Policia estar no local (e mesmo assim terem desaparecido parte das amostras) apenas faz aumentar ainda mais a convição geral de que algo está muito mal; 

- O uso da expressão "Donos Disto Tudo" é propositada e não diz apenas respeito ao Tejo. As celuloses encheram o país de eucalipto. Eucalipto que ardeu e expandiu o fogo através das suas cascas e das suas folhas em chama ajudando à rapida propagação dos fogos deste Verão. O eucalipto que seca os solos, sendo mesmo proibido plantá-lo junto a nascentes de água porque as seca (será que isto é fiscalizado?...Sim,pois...), vai tomando conta do país porque é o que interessa às Celuloses. As Celuloses "mandam" em terra e na água neste Jardim à Beira Mar plantado. 

O que me enfurece são várias coisas:

1. Apesar da gravidade da Poluição do Tejo já ter vários anos, da luta das populações ribeirinhas pelo Tejo ter anos parece que só agora é que aconteceu;

2. Que a APA e o Ministério do Ambiente andam à anos supostamente a tirar amostras cujos resultados foram sempre inócuos (nem me perguntem onde é que tiravam as amostras porque isso apenas me enfurece ainda mais, apenas uma nota, nem sempre era no Tejo). Isto quando começou a APA atirar amostras porque antes valiam as tiradas pelos Poluidores autorizados;

3. Que a Celtejo continua a alegar que nada tem a ver com a poluição vísivel no Tejo. Embora isso já seja uma evolução pois no processo contra o Arlindo afirma que nem poluidora é, o que é estranho dado que se não o fosse não necessitava de Licenciamento da APA para o ser; 

4. Que o Ministro do Ambiente é um aspirante a Donald Trump. Desde o transporte de água por comboio do Entroncamento para a zona de Viseu (dois problemas: O Entroncamento é na bacia hidrográfica do Tejo e não é boa ideia retirar água de onde ela já escasseia; vagões tanque de transporte de água existem apenas num país da Europa, que tem bitola europeia, mesmo que nos emprestassem os vagões teriam de chegar cá e ser ajustados para circular nas nossa bitola ibérica); a o "problema" é da água "do Tejo que nos últimos tempos parece ter saturado”; a o problema é da “natureza não está a conseguir depurar a quantidade de matéria orgânica que está a aparecer e se transforma em espuma quando passa em Abrantes”; tudo seria hilariante se não fosse tão triste. 

Remato ainda com outra afirmação do Sr. Ministro a de que “Estamos a fazer essas mesmas recolhas com a certeza de que o problema que temos à nossa frente é um problema com uma dimensão que não resulta certamente da descarga A ou da descarga B, o que não quer dizer que elas não possam ter existido” numa afirmação digna de La Palice; a culpa é de muitas descargas, anos delas, mas da mesma "fonte"; "Fonte" que tem passado incólume, intocada e intocável, sob a "proteção" de alguma Administração Local e da Administração Central, a "proteção" desta última eu até poderia considerar "inocente" incúria não fosse durar há tantos anos e atravessar Governos de diferentes quadrantes políticos.»

 

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Publicado por Fernando Delgado às 23:09
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Patilhar
Segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2018

Lobbies

Tenho andado distraído ou o sr. Presidente da República ainda não disse uma palavra sobre a poluição no Tejo?

Admitindo a distração, procurei no sr. Google, mas nada, não encontrei uma palavra! Aparentemente S. Exª ainda não teve oportunidade para falar do assunto ou não o considera importante. Devo dizer que não esperava que S. Exª tomasse um banho nas Portas de Ródão (são outros tempos e a saúde está acima de tudo!), mas estava à espera de uma visita com passeio de barco no Tejo e umas dezenas de selfies - afinal há razões, muitas razões, para eu pensar que S. Exª não perde uma oportunidade de estar perto da notícia...

Nada!

Curiosamente (e voltei a procurar no sr. Google) também o Correio da Manhã, sempre ávido de escândalos, parece um crocodilo sem dentes: três ou quatro notícias que parecem retiradas de qualquer diário diocesano de província.

Ah, os lobbies...

 

P.S. Em vez de uma eventual multa ambiental, que não resolve coisa nenhuma, proponho que o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão (que silêncio, sr. presidente!) convide o CEO do grupo que detém a Celtejo para viver naquela vila durante um ano. E não estou a ser irónico, sr. presidente, já viu a importância de ter um CEO na sua terra?

 

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Publicado por Fernando Delgado às 21:31
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Patilhar
Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018

Bocejos

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Bocejos irritados entre zapping's:

1. E se a Celtejo, ali para os lados de Vila Velha de Ródão, fechasse as portas? Qual o custo? E qual o beneficio? Iamos ter saudade do odor a ovos podres? E do sabor do peixe pedrado?

2. E se a Comissão Europeia estabelecesse que o crescimento dos países membros deveria tender para zero? Um bom desempenho da economia mede-se pela taxa de crescimento económico? O crescimento não tem limites? Qual a implicação nos recursos? A noção ecocrescimento salvaguarda o necessário crescimento económico dos países sub-desenvolvidos ou em desenvolvimento evitando a sua estagnação e preservando os recursos?

3. A justiça de pelourinho é justiça? E se os media fossem obrigados a divulgar o resultado judicial das "notícias-escândalos" na mesma proporção e com a mesma visibilidade com que os anunciam? A Celtejo teria que produzir mais papel? E os telejornais teriam a duração dos programas de futebol?

4. As declarações de alguém no meio de uma catástrofe são racionais? São importantes? O individual e o privado têm interesse público? A exposição pública das desgraças alheias é informação? A ética e a moral são miscíveis?

5. Se um jogo de futebol dura 90 minutos, há alguma razão para os comentários se estenderem por 90 horas? E estes comentários são autópsias de faca na mão e sangue espalhado sobre a mesa porque o espetáculo acabou? Ou porque morreu?

6. Muito importante: amanhã não chove! Porra, porque não chove?

 

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Publicado por Fernando Delgado às 22:22
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Patilhar
Terça-feira, 23 de Janeiro de 2018

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

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Figueiró dos Vinhos. Janeiro, 2018. 

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:26
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Patilhar
Terça-feira, 2 de Janeiro de 2018

O envelhecimento é a acumulação de erros

a ave sobrevoou as águas calmas e de um ponto indecifrável cresceram círculos concêntricos que refletiam todo o explendor de cores vivas das asas do bico alongado da cauda em leque do universo de penas floridas e era o começo do dia do dia tão igual como desigual de tudo o que não vê não se toca cresce aparece e desaparece e aparentemente (não) e de certeza existe salta vive a partir de um ponto indecifrável

 

«Aurora era uma deusa grega da madrugada e de acordo com a mitologia apaixonou-se por um ser humano, um mortal chamado Titão. Ela queria que o amante mortal também fosse imortal. Então foi ter com Zeus, o pai dos deuses, e disse:  «Por favor, dá imortalidade ao meu amante.» Então Zeus disse: «Ok, ok, vou tornar o teu amante imortal.» Mas ela cometeu um erro enorme. Ao pedir a imortalidade, esqueceu-se de pedir a juventude eterna. Como consequência, o amante ficou cada vez mais velho, mais velho e mais velho sem nunca morrer.Quando tivermos a fonte da juventude, temos de garantir que, não só vamos viver para sempre, mas temos de aproveitar. Temos de viver para sempre num corpo que seja útil. E é aí que entra a loja do corpo humano...»

Michio Kaku – Físico. City College of New York. 10 segundos para o futuro – 2077. RTP1, 02.01.2018.

 

não era uma ave era um pássaro assustado que ia caindo na água e também não era um ponto indecifrável era o local exato em que o pássaro com medo defecou

 

«O envelhecimento é a acumulação de erros. Erros genéticos, erros celulares, erros moleculares. Mas erros do nosso corpo. Agora sabemos que sim, há mecanismos de correção dos erros, mas eventualmente também eles se desgastam. É por isso que morremos.»

Michio Kaku – Físico. City College of New York.  10 segundos para o futuro – 2077. RTP1, 02.01.2018.

 

e o pássaro voltou e poisou na beira do lago parecia cansado e assim de perto chamei-lhe ave e ele fugiu reconstruindo-se das cores vivas das asas do bico alongado da cauda em leque do universo de penas floridas sobre as águas

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:41
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Patilhar
Domingo, 17 de Dezembro de 2017

mapas rurais

«Eu nasci na arrecadação da paisagem, num lugar bem desmapeado do mundo

Mia Couto. Contos do nascer da terra. Ed. Caminho, 8ª ed., pp 30.

 

«[...]

En efecto, ese pretendido movimiento de regreso al campo solo se produce, además de en las áreas de influencia urbana, en las zonas de montaña próximas a grandes núcleos de población, como en el Pirineo catalán o las montañas vasco-cantábricas, mientras todavía no afecta a las llanuras agrícolas del espacio rural profundo. Sin embargo, los municipios de montaña que crecen lo hacen porque llega a ellos un puñado de habitantes, incapaz por sí mismo de superar la atonía y falta de dinamismo general.

(...), podemos afirmar rotundamente que el campo del interior de España está en un proceso regresivo y de envejecimiento. No obstante, las áreas periurbanas, y especialmente las próximas a grandes ciudades, manifiestan un claro dinamismo, por irradiación desde la urbe.

Por el contrario, las extensas llanuras agrícolas del interior y las penillanuras de la Raya con Portugal (de Orense a Huelva) manifiestan una falta de dinamismo y de diversidad productiva que se traduce en un movimiento regresivo generalizado; un proceso tanto más acusado cuanto más pequeños son los núcleos de poblamiento, por su dificultad de albergar servicios que atraigan a la población.

[...]»

De la plétora demográfica al vaciamiento general: la difícil situación del campo en el interior de España. Fernando Molinero Hermano. Geógrafo, Universidad de Valladolid. Desarrollo rural y sostenible. RRN.

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(Pedrógão Grande, Nov, 2017)

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(Oliveira do Hospital, Nov, 2017)

 

Publicado por Fernando Delgado às 22:46
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Patilhar
Domingo, 10 de Dezembro de 2017

Ajustando as velas

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(Ambrósio, comi os FR, já só resta um... Ah, mas que chapéu bonito fizeste do lixo. Bravo, Ambrósio!)

 

Há coisas possíveis que parecem intangíveis e é estranho que assim seja!

Vistas deste lado (do lado racional?...) estas coisas possíveis até parecem simples, apesar de estupidamente informes, meio escondidas num canto da memória, prisioneiras de tudo e de nada, do todo e do vazio, mas espreitando de vez em quando num pensamento efémero.

Inscreveram o pessimismo no manual de boas maneiras, mas é só um manual cheio de regras inúteis... E como é estranho um manual de pessimismo! E como é trágico utilizar este manual de bolso...

E a realidade?

E se de repente estas coisas possíveis estivessem ao alcance da mão? Ah, batia-lhes com força, porque não há nada mais injusto que uma coisa possível que teima em olhar a realidade com desdém, como se o seu pequeno mundo invisível fosse todo o universo.

A realidade é uma chatice?

Este mundo é complexo, mas bastam alguns gestos para se ir tornando um pouco mais acolhedor, um pouco menos sombrio. Não tenho a certeza que estes gestos sejam a expressão exata das coisas possíveis e tangíveis, mas também não interessa – o pensamento sempre foi uma forma de conhecer e moldar a realidade.

("O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas" William George Ward - Teólogo, séc. XIX)

Inquieta-me a luz trémula da vela para além da porta aberta. É algo intangível, uma falsa entrada!

 

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Patilhar
Terça-feira, 5 de Dezembro de 2017

Contrastes

«DISPARIDADE DA RIQUEZA DE SILICON VALLEY PODE TRANSFORMAR SÃO FRANCISCO NUMA CIDADE FANTASMA

No final dos anos 90, ganhava €11/hora, vivia num apartamento com dois quartos e a vida era boa. Podia viajar de vez em quando, comprar jantar e bebidas e ir às compras. Não era rica, mas podia viver com o meu salário porque a minha renda era de €445 por mês”.

 

As palavras pertencem a Mikki Kendall, redactora do Quartz e residente em São Francisco. Segundo Kendall, os dias bons já passaram. Hoje, a renda média de um apartamento de um quarto em São Francisco é de €3.185, segundo o site Zumper, e a de dois quartos é de €4.320. No entanto, o salário mínimo continua nos €11/hora.

O aumento brutal do nível de vida da Bay Area, a Área Metropolitana de São Francisco, está relacionado com Silicon Valley, o principal centro de inovação e tecnologia do mundo e onde estão instaladas empresas como a Apple, Google, Facebook, Netflix, Intel, eBay, HP ou Pixar.

O problema, explica Kendall, não são os técnicos especializados e bem pagos, mas sim os outros trabalhadores. Onde irão morar os representantes do serviço ao cliente, os trabalhadores que tratam da manutenção dos edifícios, motoristas e outros profissionais que ajudam a indústria a crescer?

Segundo Kendall, mesmo que Sillicon Valley não queira saber do nível de vida de São Francisco – e não quer – , ela será confrontada com o problema. A não ser que queira passar a ser uma cidade fantasma.

“A estagnação dos salários é um problema em todo o lado. E as uniões, que normalmente lutam contra o aumento do custo de vida, estão continuamente sob ataque do sector da tecnologia”, segundo Kendall.

Caso esta tendência continue, de pouco valem salários elevados: os trabalhadores bem pagos do sector da tecnologia vão viver numa cidade sem serviços, uma vez que os custos de transporte ou rendas vão afastar as pessoas que providenciam esses serviços. “Uma cidade habitada exclusivamente por milionários não é funcional”, explica Kendall.

E se São Francisco quer evitar este destino tem de admitir que o problema da disparidade da riqueza vai acabar, eventualmente, por destruir todas as empresas de tecnologia – grandes e pequenas – e o próprio Vale do Silício.»

Para ler no Greensavers

 

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Patilhar
Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

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Publicado por Fernando Delgado às 00:23
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Patilhar

Religiões

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«O padre diz 'Levantem os vossos corações'. Ele não diz 'Levantem os vossos telemóveis para tirar fotografias (...). A missa não é um espetáculo!...»

- Papa Francisco, 08.11.2017

(cartoon da net)

 

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Patilhar
Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Negro profundo

Após a catástrofe dos fogos rurais, para além das cinzas, dos esqueletos das árvores e do negro profundo, há todo um mundo que se revela. Moldar a paisagem com todos aqueles muros de pedra empilhada à mão, não é coisa pequena, nem inteligível neste tempo de redes sociais e de realizações de curto prazo. Não, o profundo silêncio que emana daquelas encostas enlutadas são também os restos de vidas sem regresso. Restam as oliveiras moribundas como símbolos e testemunhos das heróicas histórias de cada uma dessas vidas!

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Encosta do rio Alvoco, junto a Vide, Oliveira do Hospital.

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:34
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Patilhar
Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017

«Ninguém desce vivo de uma cruz»

Um novo livro de Lobo Antunes (Até Que as Pedras se Tornem Mais Leves Que a Água) é um acontecimento!..., mas a entrevista que normalmente "acompanha" cada livro é em si mesma o acontecimento do acontecimento.

As palavras ditas e as palavras escritas encontram-se na esquina da rua. Nunca estiveram tão próximas.

Para ver e rever na RTP3 (Grande Entrevista, 08.11.2017).

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Patilhar
Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

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Oliveira do Hospital. Novembro, 2017.

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:21
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Patilhar
Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017

Recomeços

Esta é a estação das chuvas! É preciso embriagar-nos de água e rebolar na cinza lamacenta. É preciso crescer com as ervas e deixar a natureza encher as mãos. É urgente erguer os olhos e agarrar o arco-íris que se desprende do relâmpago. É tempo de abandonar a morte. 

É tempo de regressar a este país..., e mesmo que o improviso teime em sinalizar o caminho, é sempre nesse instante que tudo recomeça, que tudo vale a pena.

E não há espaço para absolvições porque não há nenhuma necessidade de perdão!

 
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Patilhar
Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

«Custo social dos incêndios»

«O custo social* dos incêndios florestais varia muito significativamente de ano para ano, oscilando nos últimos anos entre um mínimo de 127 milhões de euros (2008) e um máximo de 1303 milhões de euros (2003) ou seja, aproximadamente de 10 a 100% da produção de riqueza florestal anual.

[...]

A despesa pública associada a DFCI [defesa da floresta contra incêndios] excede em muito a apontada habitualmente. Em vez dos cerca de 90 milhões de euros por ano contabilizados nos dados oficiais veiculados pelo ICNF e ANPC, a despesa pública total relacionada com a gestão de incêndios pode atingir os 140 milhões anuais.

Mantêm-se a evidência, apesar de algum aumento nos últimos anos do investimento da prevenção (financiado com fundos europeus), da maior parte da despesa (cerca de 2/3) ser destinada ao combate»

* Custo Social Total = povoamentos ardidos + matos ardidos + prevenção + supressão + perdas de bens e Serviços + recuperação áreas ardidas

Fonte: Relatório Comissão Técnica Independente (2017)

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Patilhar
Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017

Sinais

Reestruturação das interfaces rurais. Voluntariado na limpeza de uma "faixa de gestão de combustíveis" junto à aldeia de Ferraria de S. João (concelho de Penela) e plantação de árvores "resilientes ao fogo".

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Publicado por Fernando Delgado às 23:34
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Patilhar
Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Recoleção

Há zonas costeiras onde os agricultores trocam a terra pelo mar e recoletam algas. "Isto é um biscate", dizem, para acrecentarem "dá qualquer coisa, mas muito pouco..., dá para a bucha!" E para que serve e para onde vai? "Nem sei..., acho que é para as mulheres, para perfumes e coisas assim. Entregamos isto a uns tipos que depois mandam para a Holanda, nem queira saber..., compram isto tudo, desde que bem secas e bem vermelhas..., na seca não podem apanhar maresia ..."

Não conheço os pormenores desta atividade, mas as algas têm uma coloração lindissima e um odor intenso a mar ("odor a vida", disse-me um recoletor). A atividade de recoleção remete-me para uma fase primitiva da história humana e o negócio é como todos os outros: sabe-se onde começa, não se sabe muito bem onde acaba e nunca se conhecem todos os pormenores intermédios.

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(Secagem de algas entre a Nazaré e a Foz do Arelho)

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:20
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Patilhar
Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

Domesticação...

... dizem os entendidos que o pombo é um animal sinantrópico! Cá para mim é apenas mais um fã da sociedade de consumo...

(... ou como os instintos primários - a fome, o sexo, ... - são tão distintos dos interesses mediáticos: enquanto uma multidão procura de olhos esbugalhados a onda gigante do canhão da Nazaré, o pombo aproveita a distração e, desde passas de figo a amendoins e nozes, tudo é apreciado com aparente prazer gastronómico. Nem as guloseimas embaladas escapam, o que só mostra uma sinantropia de elevado nível! ... Entretanto a onda nem sequer emergiu do mar preguiçoso...)

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:13
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Patilhar
Terça-feira, 3 de Outubro de 2017

"geografia das ausências"

[Muitas leituras ainda se fazem exclusivamente em função dum paradigma do espaço, quando os territórios e o povoamento eram ocupados, em permanência. Entretanto a situação mudou, estamos num novo paradigma do tempo, onde estes lugares também passaram a ser vividos, por períodos curtos, sazonais, por um número reduzido de pessoas. (...) A ausência manifesta-se, pois, através de múltiplas e variáveis geografias, que não se confinam apenas a materialidades nem são exclusivas dos “territórios de baixa densidade”]

«[…]

As mudanças que se estão a operar no mundo que nos rodeia não podem continuar a ser lidas e interpretadas segundo os códigos vigentes. O êxodo rural, a intensificação dos fluxos migratórios e o consequente despovoamento e envelhecimento estão a atribuir novos papéis ao território e a conferir outras qualidades às assimetrias e clivagens existentes.

(…)

As clivagens pesadas e estruturantes dos mapas demográficos, económicos e sociais estão a ser retocadas por dinâmicas ligeiras, materiais mas, sobretudo, imateriais e intangíveis, que conferem outro sentido à cartografia e às fronteiras sociais, culturais e administrativas emergentes a nível local e regional. Esta nova geografia regional e local é marcada pela ausência, fruto dum despovoamento persistente, problema que só recentemente deixou de ser invisível, silenciado, vivido em segredo. Algumas experiências locais, sejam os incentivos à natalidade ou o recurso a repovoadores, ditadas mais por um voluntarismo generoso que por uma razão suportada em políticas sustentadas, acabam por não surtir os efeitos esperados.

A ausência manifesta-se, pois, através de múltiplas e variáveis geografias, que não se confinam apenas a materialidades nem são exclusivas dos “territórios de baixa densidade”. Esta Geografia das Ausências está para além do tangível, quantificável ou cartografável, embora o seu foco nos remeta para os territórios mais frágeis e vulneráveis, mais expostos ao abandono e à perda de densidade real (populacional, económica, social, cultural, etc.) e de capital simbólico. Os temas deste novo olhar da geografia são transversais e estão presentes tanto nos espaços rurais como nos urbanos; se nos primeiros o despovoamento é a ponta deste icebergue, nas cidades estão representados no abandono dos centros históricos (população, comércio, etc.), nos vazios urbanos (fábricas abandonadas, etc.), na rarefação de periferias degradadas ou na perda das antigas centralidades devido à sua migração para os centros comerciais.

As ausências não se resumem, portanto, aos espaços despovoados, embora os vazios populacionais coincidam com os territórios que somam à perda de população à de representação doutros atores, tanto económicos, sociais e culturais como institucionais, pois o estado vai-se demitindo de manter aí uma presença efetiva. Nas últimas décadas as aldeias viram partir o padre, o professor e o presidente da sua freguesia, figuras tutelares dum determinado período destas comunidades rurais, tendência que acelerou quando as cartas educativas redefiniram a rede escolar do ensino básico e o encerramento de milhares de escolas. O fecho das estações dos correios, da distribuição postal diária, do serviço público de transportes (carreiras de camionetas) ajudaram a desvitalizar vastas áreas com enormes consequências no povoamento, este processo de reestruturação acentuou a polarização, concentrando nas sedes de concelhos e rarefazendo as aldeias mais ou menos dispersas.

A cabal compreensão do Interior exige que se complemente o conhecimento técnico e estatístico com estas dinâmicas e interpretações qualitativas, mais assertivas, que levem em consideração a tensão entre presença e ausência. Muitas leituras ainda se fazem exclusivamente em função dum paradigma do espaço, quando os territórios e o povoamento eram ocupados, em permanência. Entre tanto a situação mudou, estamos num novo paradigma do tempo, onde estes lugares também passaram a ser vividos, por períodos curtos, sazonais, por um número reduzido de pessoas.

Esta apreciação é a que permite interpretar certas dissonâncias que detetamos nestes espaços vazios, onde aldeias relativamente reabilitadas, no meio dum povoamento aparentemente moribundo e abandonado. Este sinal de alguma vitalidade, aparentemente inexplicável, contrasta com o retrato negro obtido pelos diagnósticos técnicos. Estes sinais de vida, embora leves, episódicos e temporários, que é possível captar quando se percorrem alguns destes lugares não é consonante com a análise fria das estatísticas. A linguagem dura e fria, dos números, que aponta para um cenário negro, não coincide com estes sinais de esperança, divergência que só se explica à luz duma qualquer relação que os ausentes insistem em manter com as suas origens. Pode ser descontínua no tempo e representar apenas uma ocupação ocasional do espaço, motivada por razões subjetivas, porventura emocionais e afetivas, explicadas por intangibilidades que se situam à margem de qualquer lógica económica. É esta corrente de afetos que explica a deslocação temporária e periódica às origens, essas pequenas pátrias a que se fica perenemente ligado por laços indizíveis, traços indeléveis que explicam uma capacidade atrativa que tem sido sistematicamente negligenciada neste tipo de análises.

As residências secundárias e algumas microunidades de turismo rural ajudam a compor um quadro onde o excesso de habitações é manifestamente superior às reais necessidades destes lugares, facto que constitui uma das poucas varáveis positivas desta equação. Este importante ativo dos “territórios de baixa densidade” devia merecer mais atenção por representar um potencial inexplorado cuja rendibilização precisa ser potenciada em termos individuais e coletivos. A cartografia ainda não inclui estes sinais pois só mapeia os elementos físicos presentes no território e remete para a penumbra aquelas efémeras presenças nestes lugares de ausência. A impossibilidade de as incluir nas suas legendas estas dimensões imateriais, mais fluidas e imprecisas, faz com que apenas tenham representação os elementos materiais e físicos, mais palpáveis e facilmente identificados. Por esta razão, a Geografia das Ausências está na contingência de não ter mapas que testemunhem as mudanças qualitativas ou a valorização que são introduzidas no território por estas fugazes presenças dos ausentes. A nova cartografia regional e local resultante das mudanças físicas e qualitativas que se estão a operar carecem de outras legendas e novas gramáticas interpretativas para evitar cair nas tradicionais interpretações maniqueístas, simplistas e redutoras.

Os problemas em presença não são devidamente interpretados e muito menos superados sem a assunção de algumas evidências (p. ex. a persistência de perda de população), diagnósticos mais assertivos que suportem perspetivas inovadoras que levem à definição de políticas e ações que ataquem na raiz as causas do problema. A coexistência daquelas tensões, neste espaço e neste tempo, implica aproveitar complementaridades e a criatividade latente que estes territórios ainda encerram sem cair num jogo, de resultado nulo, disputado, apenas e só, entre luz e sombra, claro e escuro, dúvidas e certezas, acertos e enganos, dogmatismos e heterodoxias. A situação a que se chegou obriga a congregar esforços, vontades, cumplicidades, afetos, revisitar instrumentos e políticas aplicadas no passado para renovar com pragmatismo, intervenções que se baseiam em discursos que, usando e abusando de termos como redes, parcerias, sinergias, etc., banalizam tais conceitos e esgotam os respetivos conteúdos.

À dificuldade de (re)interpretar as novas qualidades que os territórios estão a assumir junta-se a de lidar com o vazio que alastra, invadindo espaços que são incorporados neste “sertão” que se continua a expandir. Para além do preto e do branco é necessário um novo paradigma que norteie a investigação e a ação, que permita rasgar um novo olhar mais positivo sobre estas dinâmicas e que promova as amenidades que estes territórios precisam. Reverter o ciclo vicioso em que mergulharam estes territórios também passa pela assunção, duma cultura territorial renovada, duma nova geografia, sempre implícita em qualquer instrumento consequente de intervenção setorial ou territorial orientada para responder aos efetivos problemas dos espaços mais débeis e deprimidos. Procurar explicações para o que está a acontecer não se pode restringir ao velho paradigma da ocupação física e permanente do território, pois mudamos para um novo paradigma do tempo em que fluxos, processos e dinâmicas estão a acontecer no quadro de novas relações espaço-tempo.

[…]»

Rui Jacinto. Calcanhar do mundo: da geografia das ausências à geografia da esperança. Praça Velha – Revista Cultural da cidade da Guarda, Ano XVII | N.º35 | 1ª Série | novembro 2015. pp 243-260.

Publicado por Fernando Delgado às 00:25
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Domingo, 1 de Outubro de 2017

Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

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Pedrógão Grande. Setembro, 2017.

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Publicado por Fernando Delgado às 01:18
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Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017

Galerias ripícolas

Estruturação do espaço. Galeria ripícola no incêndio de Pedrógão

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Publicado por Fernando Delgado às 23:27
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Contributos para uma interpretação das paisagens rurais no pós-fogos de 2017

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Pedrógão Grande. Setembro, 2017.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 01:08
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

do res nulius ao black act

«[...]

A importância que os primeiros reis atribuíam à caça nos montes (montarias) prendia-se sobretudo com a necessidade de exercitar a preparação para a guerra. D. João I, no seu Livro da Montaria, dedica um capítulo a mostrar “como o jogo de andar no monte é melhor que todos os outros jogos para recrear o entender, e também corrigir o feito de armas”.

(…)

Esta situação estava regulada no direito romano pelo princípio de que a caça e pesca se consideravam coisas comuns (res nulius) que, por se deslocarem livremente, como a água ou o ar, não eram pertença do proprietário do terreno mas do primeiro que os capturasse.

No entanto, desde o estabelecimento dos Visigodos na Península a caça e a pesca “deixaram inteiramente de ser objeto de ocupação em terra alheia” e por isso, no início da nacionalidade, elas teriam representado “direitos inerentes ao domínio do solo”.

Os dois sistemas de direito cinegético, o Romano e o Visigótico, iriam vigorar em simultâneo, durante o Antigo Regime, o primeiro como suporte da legislação geral e o segundo aplicado ao regime da coutada, cuja criação foi direito exclusivo dos reis, desde D. João I até às Cortes Constituintes.

Para assegurar o poder real sobre os montes coutados, os reis nomeavam monteiros, cuja referência mais antiga parece datar do reinado de D. Afonso III para a serra do Soajo, havendo também documentos do século XIII referindo monteiros para as matas do Botão, localidade a norte de Coimbra junto do Buçaco, e já no século XIV para as matas do Ribatejo.

A sequência destas referências parece acompanhar a deslocação dos centros de poder político. De facto, o centro político do país tinha-se deslocado para Coimbra ao longo dos séculos XII e boa parte do XIII, mas durante a segunda metade desse século e durante o século XIV o centro propulsor do novo reino passaria para a Estremadura, com Lisboa e Santarém a ultrapassarem Coimbra como local de residência e passagem régia.

(...)

Por prerrogativa real iriam ser, a partir da segunda metade do século XIV, coutadas grandes extensões de território, o que suscitava fortes reacções populares invocando expressamente o princípio de que a caça e a pesca deveriam ser coisas comuns. Mas as reclamações mais frequentes dos povos eram sobre os prejuízos causados à agricultura pelos animais ("veação") que transpunham os limites das coutadas e que, por uma lei de D. Pedro I, estavam também protegidos. Diziam os representantes dos concelhos nas Cortes de Elvas de 1361 que "o lavrador pode castigar o homem que lhe causar prejuízo nas searas ou nas vinhas, mas há que respeitar a veação que lhe for aí fazer estragos." Este argumento parece ter convencido D. Pedro I que revoga então essa lei.

A área de coutada continuaria ainda assim a aumentar, como aumentariam as penas estabelecidas para os infractores e melhoraria a organização de guarda de montes coutados. Para tal foi criado por D. João I, em 1414, o ofício de monteiro-mor do Reino, dando-lhe "poder sobre todos os monteiros que temos posto pelas comarcas e outrossim sobre todos os monteiros que são postos por guardadores das matas que são por nós coutadas (...)".

Também no Regimento do Monteiro-mor de 1605, Filipe II para que "ache montaria e caças" nas suas "matas e coutadas" quando por sua "recreação nelas quiser ir montear" declara "as ditas montarias" e mantém penas de grande dureza: "que qualquer pessoa que dentro das ditas coutadas seja ousado de matar porco, porca, bácoro ou veação grande ou pequena, ou armar armadilhas, ou querer montear, sendo peão seja preso e pagará dois mil reais, e será degradado três anos para as galés, e sendo Fidalgo será preso até minha mercê e pagará duzentos cruzados para as coisas que declarar, e seja condenado em dois anos de degredo para África pela primeira vez."

Neste crescendo, D. João V decide, em 1773, e à semelhança do Black Act inglês, a aplicação da pena de morte aos indivíduos apanhados em flagrante "delito de caça", que resistam à prisão ou que fujam aos guardas das coutadas, situações em que podiam mesmo disparar para matar.

(...)

Seria o triunfo da Revolução Liberal, em 1821, que iria fazer com que a situação das coutadas de caça se modificasse radicalmente. A 30 de Janeiro desse ano procede-se à abertura das Cortes Constituintes e logo no dia 8 de Fevereiro, as mesmas Cortes, "considerando os males que da conservação das coutadas para a caça resultam à agricultura, aos direitos de propriedade dos vizinhos delas, à tranquilidade e segurança deles" decretam que todas as coutadas abertas e destinadas para a caça fiquem "inteiramente abolidas e devassadas, ficando salvos aos donos os direitos gerais da propriedade".

[...]»

Francisco Castro Rego. Florestas Públicas, 2001. pp 9-12.

Publicado por Fernando Delgado às 23:26
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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

A case of you

Esta interpretação da canção de Joni Mitchell é deliciosa... O "miudo" tem talento! 

 

«A case of you

Just before our love got lost you said
I am as constant as a northern star and I said,
Constantly in the darkness
Where's that at?
If you want me I'll be in the bar

On the back of a cartoon coaster
In the blue TV screen light
I drew a map of Canada
Oh Canada
With your face sketched on it twice

Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling and I would
Still be on my feet
Oh I would still be on my feet

Oh I am a lonely painter
I live in a box of paints
I'm frightened by the devil
And I'm drawn to those ones that ain't afraid
I remember that time that you told me, you said
"Love is touching souls"
Surely you touched mine 'cause
Part of you pours out of me
In these lines from time to time

Oh you are in my blood like holy wine
You taste so bitter
And so sweet oh
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I would still be on my feet

I met a woman
She had a mouth like yours, she knew your life
She knew your devils and your deeds and she said
"Go to him
stay with him if you can
But be prepared to bleed"

Oh but you are in my blood you're my holy wine
You're so bitter
bitter and so sweet oh
I could drink a case of you darling
Still I'd be on my feet
I would still be on my feet
hmm»

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:11
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Patilhar
Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Assimetrias

A PORDATA é um sítio com dados estatísticos importantes, mas também com formas gráficas inovadoras, que permitem uma visualização muito rápida desses dados. Os mapas distorcidos (mapas que mostram os valores do indicador escolhido alterando a área de cada território em proporção da importância do indicador em relação aos outros territórios) são muito curiosos, transformando os territórios escolhidos em autênticos monstros ou reduzindo-os a nada.

Nas imagens abaixo estão dois exemplos, mostrando-se o mapa distorcido e o mapa normal: o primeiro relativo ao poder de compra per capita e o segundo relativo à densidade populacional por Km2, ambos ao nível de concelho, com a vantagem destes mapas serem construídos pelo utilizador em função dos indicadores que escolher.

É evidente que estes dados sem uma explicação e um enquadramento rigorosos são uma abstracção inútil, mas sem eles nenhuma tentativa de compreensão da realidade faz sentido. Só por isto vale a pena uma visita regular a este site.

1. Poder de compra per capita

Poder compra per capita

2. Densidade populacional (população residente por Km2)

 Poder compra per capita_01

 

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Domingo, 23 de Abril de 2017

J. Fanha

A força das palavras ditas!

 

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Quarta-feira, 22 de Março de 2017

Eduardo Mendoza

«[...]

     Dubslav tossicou e disse: "Majestade, excelentíssimos membros do júri, distinto público, quero antes de mais nada expressar o meu agradecimento por me haver sido outorgado este Prémio Europeu de Realização Científica pelas minhas investigações no campo da oftalmologia. Nestas ocasiões costuma-se dizer: por me ter sido outorgado imerecidamente este magnífico prémio. Eu não o direi. Em primeiro lugar, este prémio não é magnífico. Na realidade é uma ridicularia. Todos os prémios o são, mas este seguramente leva a palma. E no meu caso não é sequer um prémio imerecido. Eu não sou um especialista em oftalmologia; não sei nada de oftalmologia, nem sequer sou médico. Por este motivo, ao levar o prémio não faço mal a ninguém; em definitivo, o prémio consiste nesta estatueta honrosa e numa certa publicidade. Esta publicidade a mim de nada me vai servir. A verdadeira destinatária do prémio investigou realmente no campo da oftalmologia, mas já não voltará a fazê-lo, nem beneficiará da publicidade, nem verá a estatueta. Mas não se assustem: não sou um impostor. Como filho único e herdeiro universal da vencedora, tenho pleno direito ao prémio. Em consequência, levarei a estatueta, e se além da estatueta o prémio tem uma dotação económica, também a levarei. Talvez a entregue a um centro de investigação oftalmológica ou talvez a destine a outros fins; actuarei conforme me agrade e não darei explicações a ninguém. Se gastar o dinheiro em coisas horríveis, tanto melhor.

     Quanto a mim, pouco vos posso dizer. Sou um homem absurdo. Fui concebido de um modo absurdo e criado de um modo absurdo. Sem o saber, estava a preparar-me para esta cerimónia. Vejam, nem sequer o smoking é meu. Um homem morreu para mo poder emprestar. <agora deveria ele estar ele de smoking e eu deveria estar aqui, diante de todos vós, coberto de farrapos pestilentos. Mas isso teria feito a minha presença exemplar, para não dizer simbólica. talvez por isso o destino preferiu fazer fazer chegar às minhas mãos este smoking. Na realidade os farrapos também não são a minha indumentária habitual: não sou um anacoreta. Sou apenas um viajante, um excursionista. As viagens não instruem, mas estragam muito a roupa. De qualquer modo o smoking é melhor.

     Tenho passado a vida a falar sozinho e explico-me mal. Quando procuro teorizar vou do trivial para o confuso. Seguramente a minha bagagem intectual compõe-se destas duas variedades do saber.

[...]»

Eduardo Mendoza. O fim de Dubslav in Três vidas de santos. Sextante Editora, 1ª ed., pp 116-117.

 

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