Domingo, 18 de Novembro de 2012

«Um Sonho», de Umberto Eco

     «Quando alguém diz «sonho com» ou «sonhei que», normalmente entende-se que esse sonho materializou ou revelou os seus desejos. Mas um sonho pode ser também um pesadelo, que nos anuncia aquilo que não desejamos de modo nenhum, ou um sonho revelador, que precisa da intervenção de um intérprete autorizado, que nos explique o que é que o sonho anunciava, quais eram as suas promessas ou ameaças.

      O meu sonho é desta terceira natureza, e conto-o tal como o sonho, sem me perguntar antecipadamente se corresponde aos meus desejos ou aos meus medos.

      Sonho que há um black-out global, que deixa todo o mundo civilizado completamente parado, e que numa tentativa desenfreada de se atribuírem responsabilidades, na tentativa de se reagir a urna ameaça, rebenta urna bela guerra planetária. Mas urna daquelas guerras sensacionais, não um incidente marginal ao estilo da Segunda Guerra Mundial, que só fez cinquenta e cinco milhões de mortos. Uma guerra verdadeira, daquelas que hoje a técnica permite travar, com áreas inteiras do planeta desertificadas pela radiação, com o desaparecimento de pelo menos metade da população mundial por entre fogo amigo, fome, pestes, em suma, uma coisa como deve ser, levada a cabo por generais competentes e responsáveis, à altura dos tempos que correm.

      Naturalmente (também somos egoístas nos sonhos), sonho que eu e os meus familiares e amigos vivemos numa zona do planeta (possivelmente a nossa) em que a situação ainda não se tomou completamente desesperada.

      Não haverá televisão, para já não falar da Internet, visto que as linhas telefónicas também foram pelos ares. Restará urna ou outra comunicação via rádio, através dos velhos aparelhos a galena. As linhas eléctricas também serão destruídas, mas remendando aqui e ali uns quantos painéis solares, sobretudo nas casas de campo, conseguiremos ter algumas horas de luz; para o resto, teremos de ir ao mercado negro comprar petróleo para os candeeiros, tanto mais que já ninguém vai perder tempo a refinar gasolina para os automóveis que, a existirem, já não terão estradas por onde andar. Na melhor das hipóteses, restarão carroças e caleches puxadas por cavalos.

      A esta escassa luz, e possivelmente junto a uma lareira alimentada a lenha com parcimónia, poderei então ler aos meus netos, órfãos da televisão, velhos livros de fábulas encontrados no sótão, ou contar-lhes como era o mundo antes da guerra.

      Ao fim da tarde, vamos sentar-nos à volta do rádio e captaremos uma ou outra transmissão distante, que nos dirá como estão a correr as coisas no resto do mundo e nos prevenirá dos perigos que se adensam à nossa volta. Vamos voltar a treinar pombos-correios para podermos comunicar, e será agradável desprender das suas patas urna mensagem acabada de chegar, dizendo-nos que a nossa tia sofre de ciática mas lá se vai aguentando, ou encontrar o jornal do dia anterior no stencil.

      Pode até ser que nos tenhamos refugiado no campo, onde se salvou uma velha escola, e nesse caso eu daria o meu contributo à comunidade ensinando Gramática ou História - nunca Geografia, porque entretanto o território teria mudado de tal maneira que falar de Geografia seria o mesmo que falar da História Antiga. Se não houvesse a escola, juntaria os meus netos e os amigos deles, e dava aulas em casa, primeiro uns rabiscos, para ganharem mão, e não só na escrita como também nos numerosos trabalhos manuais que terão de desempenhar, e em seguida coisas mais sérias; se houvesse alunos mais crescidos poderia até dar-lhes umas boas lições de Filosofia.

      Pode ser que também se tenha salvo o pátio da paróquia, com um pequeno campo de futebol (onde os rapazes irão jogar com uma bola de trapos), talvez descubramos na cantina um velho jogo de matraquilhos, e talvez o pároco peça ao carpinteiro para construir urna mesa de pingue-pongue, que os jovens vão achar mais apaixonante e mais criativo do que todos os videojogos de antigamente.

      Vamos comer muita verdura, se a zona não tiver sido contaminada pelas radiações, e as urtigas cozidas saberão tão bem que vamos pensar que estamos a comer espinafres. Como se multiplicam por vocação, os coelhos não hão-de faltar, e talvez até um frango aos domingos, o peito para a filha mais nova, para a mais velha uma coxa, as asas para o pai, a outra coxa para a mãe, e para a avó, que é um bom garfo, o pescoço, a cabeça e a mitra, que nos frangos caseiros é a parte mais saborosa.

      Redescobriremos o prazer dos passeios a pé, o aconchego dos velhos casacões fora de moda, e das luvas de lã, com as quais vamos poder atirar bolas de neve.

      Não pode faltar o velho médico de província, capaz de misturar os restos de aspirina com quinino. É claro que, sem as câmaras hiperbáricas, as tacs e as ecografias, a esperança média de vida vai baixar para cerca de sessenta anos, o que no fim de contas não será nada mau, dada a média noutros pontos do globo.

      As colinas voltarão a estar salpicadas de moinhos de vento. Em frente aos braços dos moinhos, os velhos contarão a história de Dom Quixote, e as crianças vão achá-la fascinante. Haverá música, e todos aprenderão a tocar um velho instrumento redescoberto; por muito má que seja a situação, bastam uma faca e uma cana para se fazerem orquestras inteiras de flautas, aos domingos vamos dançar nas praças, e talvez ainda se encontre um acordeonista que tenha conseguido sobreviver e saiba tocar a Migliavacca.

      Jogaremos de novo as cartas nos bares e nas tabernas, enquanto bebemos champanhe e vinho novo. O bobo da aldeia, obrigado a abandonar a vida política, vai voltar a circular por aí. Os jovens desmotivados vão procurar consolo nos vapores de camomila com uma toalha na cabeça, e dirão que se sentem nas nuvens.

      Vamos voltar a ver animais a saltitarem de um lado para o outro nas montanhas, texugos, fuinhas, raposas e lebres até mais não, e até os defensores dos animais vão concordar em ir à caça de vez em quando, para arranjar alimentos com proteínas; usaremos velhas espingardas, se as houver, ou podemos sempre socorrer-nos de arcos e flechas, e zarabatanas vibráteis.

      Nos vales, à noite, ouviremos o ladrar dos cães, que andarão sempre bem alimentados e serão estimados, porque se descobrirá que substituem os sistemas electrónicos de alarme a baixo custo. Ninguém voltará a abandoná-los nas auto-estradas, em primeiro lugar porque adquiriram valor comercial, e em segundo porque já não há auto-estradas, e mesmo que as houvesse ninguém estaria disposto a utilizá-las, porque levariam demasiado depressa a uma zona que é melhor evitar, ubi sunt leones.

      A leitura reflorescerá, porque os livros, excepto em caso de incêndio, sobrevivem a muitos desastres, e havemos de reencontrá-los em armazéns abandonados, subtraídos as grandes bibliotecas citadinas arruinadas. Vão voltar a circular por empréstimo, serão oferecidos no Natal, far-nos-ão companhia durante os longos Invernos e até no Verão, quando fizermos as nossas necessidades debaixo de uma árvore.

      Apesar das vozes inquietantes da rádio, os mais poéticos de entre nós vão manter a esperança e dar graças aos céus todas as manhãs por ainda estarmos vivos e porque o Sol brilha, dizendo que, bem vistas as coisas, está a nascer uma nova Idade de Ouro.

      Ao fazer as contas e me aperceber de que estes renovados prazeres têm de ser pagos com um mínimo de três biliões de mortos, com o desaparecimento das pirâmides e da Basílica de São Pedro, do Louvre e do Big Ben (de Nova Iorque nem se fala, será um imenso Bronx), e que eu estarei condenado a fumar palha (se todas estas desgraças não me fizerem perder o vício), quando acordo do meu sonho sinto-me bastante inquieto e - dizendo a verdade - espero que nunca se venha a tomar realidade.

      Em todo o caso, fui consultar um sujeito que se dedica a adivinhação e que até sabe interpretar as vísceras dos animais e o voo dos pássaros, e ele disse-me que o meu sonho não prenuncia apenas fenómenos horríveis: também sugere que todo este horror que descrevi pode ser evitado se conseguirmos refrear os nossos consumos, se nos abstivermos da violência e não excitarmos em demasia a violência alheia, e se voltarmos a saborear de vez em quando os antigos ritos e os costumes desusados - porque, no fim de contas, hoje ainda podemos desligar o computador e a televisão e, em vez de voarmos num charter para as Maldivas, ficar a conversar sobre qualquer assunto ao pé da lareira; só precisamos de força de vontade.

      Mas, disse ainda o meu oniromante, até isto é um sonho, e é preciso que tenhamos a coragem de parar de vez em quando, para evitarmos que os sonhos se tomem em algo pior. E como tal, continuou o meu oniromante (que é sábio mas irritadiço, como todos os profetas a quem ninguém presta atenção), vão todos dar uma curva, porque em parte estes problemas também são culpa vossa.»

 

Umberto Eco. A Passo de Carangueijo. Difel, 2ª ed., pp 355-359.

(O livro é uma recolha de intervenções e artigos escritos entre 2000 e 2005. «Um Sonho» foi publicado no L'Espresso, em 2003.)

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Publicado por Fernando Delgado às 23:52
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