Domingo, 8 de Novembro de 2015

Um belo couval

Transcrevo abaixo um texto que podem ler no Blog de Esboços, do Carlos Matos. Aliás, um Blog que me interessa sobretudo pelos esboços - uns traços negros, aparentemente trémulos, sem capacidade de segurar as cores vivas, instáveis, que ora enchem a imagem, ora se esvaziam, como se uma pequena ave esvoaçasse sobre a água, ou os delicados fios com que se fabrica a quietude, como diz o Mia Couto...

Mas adiante, não é dos esboços que quero falar. É da escrita intimista, da alegoria do bife de vitela com azeite (mas que podia ser com iogurte), da máquina de ozono que não funciona e das doze dezenas de couves no rego, como cenário de uma discussão/conversa sobre a perfeição e a certeza. Nada melhor que um cenário matinal - único, claro e límpido... - para enquadrar a existência como forma de ser e de estar, ou para sustentar o conflito de gerações na simplicidade da síntese dialéctica do botão e da manivela.

Não conheço o Toscano, o Carlos, o Inserme e o C., ou conheço sem conhecer suficientemente, mas abençoados aqueles que se permitem desfrutar de tais privilégios num mundo prenhe de certezas bacocas, de perfeições efémeras e de botões inúteis. Há um qualquer deus que vos vigia, incomodado com a desfaçatez de tamanha liberdade.

 

«Na quinta do amigo Victor Toscano há sempre animação. A convocatória foi para dispor umas couves com uma prévia atividade matinal que metia um bife de vitela no pão (com molho normal, apenas um fio de azeite muito quente, alho e sal; sela-se o dito cujo, previamente untado com azeite e junta-se um nico de vinho branco que se deixa evaporar. Fiquei a saber que se o molho for à Portugália, bate-se à parte mostarda com iogurte natural; junta-se e deixa-se apurar). No conforto do bife e da companhia, antes da atividade propriamente física, ainda houve tempo para meditar sobre algumas palavras que não fazem muito sentido existirem, como perfeição ou certeza. Não há perfeição nem certezas absolutas. Perfeição quer aliás dizer, segundo o Toscano, fazer com Excelência, o que dá outro sentido à palavra. O Inserme ainda tentou que, certeza certeza só a morte, mas nem isso é muito claro, já que muita gente em muitas partes do mundo, acredita, que por aqui é apenas uma passagem.

Mas o melhor estava para chegar. C. , vista habitual, trazia com grande satisfação e orgulho uma máquina novinha em folha para fazer, pasme-se Ozono! Perante a nossa admiração e incredulidade sobre tantos benefícios na Respiração, Feridas, Inflamações, Desintoxicações, Purificações, e até remédio para algumas disfunções, etc etc a máquina, teimosa, não funcionou como seria dado e se pretendia demonstrar.
Mas o Toscano sossegou a coisa: Se não funciona bem é desta nossa eletricidade de certeza. Tens de entregar isso a alguém mais novo, que são da geração do botão. Nós somos da manivela.
Quanto às couves ficaram umas doze dezenas no rego.
Um belo couval.»

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Publicado por Fernando Delgado às 01:22
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