Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Teolinda Gersão

«[...]

      Ouvir era um segredo. Ela ouvia muitas coisas, algumas impossíveis. Por exemplo, bastava-lhe olhar a pauta para ouvir a música lá escrita. Acontecera-lhe a primeira vez com Mozart, mas verificara depois que podia ouvir qualquer música olhando apenas a partitura. Como se dentro dela alguém tocasse. Não apenas um instrumento, violino ou piano, tinha a certeza de que poderia ouvir toda uma orquestra a partir da música escrita.

(...)

      Ouvir era deixar o mundo entrar em si. Ficava sem defesa, escutando. O som seguia o seu curso e ela deixava de existir separadamente, tornava-se parte do que acontecia. O que era também um risco. Quase de morte, pensava às vezes. Porque a música, de algum modo, estilhaçava-a, fazia-a sair de si mesma e arrastava-a para um estádio, não humano, contra o qual a música finalmente triunfava. Um triunfo imperfeito, contudo, porque a música tinha sempre que recomeçar, de acontecer de novo, para que o caos não se instalasse. Enquanto durava (mas nunca duraria para sempre), a música era uma forma de ultrapassar o caos, obrigando-o a caber numa medida. Ouvir era talvez isso: tomar parte na luta entre a medida e o caos.

[...]»

 

Teolinda Gersão in Os teclados. Sextante, 1ª ed., pp 13-15.

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Publicado por Fernando Delgado às 01:30
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