Domingo, 8 de Novembro de 2015

Um belo couval

Transcrevo abaixo um texto que podem ler no Blog de Esboços, do Carlos Matos. Aliás, um Blog que me interessa sobretudo pelos esboços - uns traços negros, aparentemente trémulos, sem capacidade de segurar as cores vivas, instáveis, que ora enchem a imagem, ora se esvaziam, como se uma pequena ave esvoaçasse sobre a água, ou os delicados fios com que se fabrica a quietude, como diz o Mia Couto...

Mas adiante, não é dos esboços que quero falar. É da escrita intimista, da alegoria do bife de vitela com azeite (mas que podia ser com iogurte), da máquina de ozono que não funciona e das doze dezenas de couves no rego, como cenário de uma discussão/conversa sobre a perfeição e a certeza. Nada melhor que um cenário matinal - único, claro e límpido... - para enquadrar a existência como forma de ser e de estar, ou para sustentar o conflito de gerações na simplicidade da síntese dialéctica do botão e da manivela.

Não conheço o Toscano, o Carlos, o Inserme e o C., ou conheço sem conhecer suficientemente, mas abençoados aqueles que se permitem desfrutar de tais privilégios num mundo prenhe de certezas bacocas, de perfeições efémeras e de botões inúteis. Há um qualquer deus que vos vigia, incomodado com a desfaçatez de tamanha liberdade.

 

«Na quinta do amigo Victor Toscano há sempre animação. A convocatória foi para dispor umas couves com uma prévia atividade matinal que metia um bife de vitela no pão (com molho normal, apenas um fio de azeite muito quente, alho e sal; sela-se o dito cujo, previamente untado com azeite e junta-se um nico de vinho branco que se deixa evaporar. Fiquei a saber que se o molho for à Portugália, bate-se à parte mostarda com iogurte natural; junta-se e deixa-se apurar). No conforto do bife e da companhia, antes da atividade propriamente física, ainda houve tempo para meditar sobre algumas palavras que não fazem muito sentido existirem, como perfeição ou certeza. Não há perfeição nem certezas absolutas. Perfeição quer aliás dizer, segundo o Toscano, fazer com Excelência, o que dá outro sentido à palavra. O Inserme ainda tentou que, certeza certeza só a morte, mas nem isso é muito claro, já que muita gente em muitas partes do mundo, acredita, que por aqui é apenas uma passagem.

Mas o melhor estava para chegar. C. , vista habitual, trazia com grande satisfação e orgulho uma máquina novinha em folha para fazer, pasme-se Ozono! Perante a nossa admiração e incredulidade sobre tantos benefícios na Respiração, Feridas, Inflamações, Desintoxicações, Purificações, e até remédio para algumas disfunções, etc etc a máquina, teimosa, não funcionou como seria dado e se pretendia demonstrar.
Mas o Toscano sossegou a coisa: Se não funciona bem é desta nossa eletricidade de certeza. Tens de entregar isso a alguém mais novo, que são da geração do botão. Nós somos da manivela.
Quanto às couves ficaram umas doze dezenas no rego.
Um belo couval.»

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Publicado por Fernando Delgado às 01:22
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Patilhar
Terça-feira, 8 de Setembro de 2015

O sapo e o escorpião

Há problemas graves na agricultura..., e há também muitas formas de os revelar. O interesse deste texto não está tanto na revelação desses problemas, e muito menos na sua análise, mas na imaginativa abordagem baseada em duas conhecidas fábulas:

 

«O sapo, o monge e o escorpião

Há algum tempo atrás, alguém que conhece bem os relacionamentos na cadeia de valor da produção agro-alimentar fez uma interessante comparação da realidade actual com uma antiga história, cujo autor desconheço:

"Era uma vez um Escorpião, que vivia nas margens de um rio. Um dia, depois de uma grande chuvada, a água do rio começou a subir de forma ameaçadora para o Escorpião. Este, ao ver que a água não parava de subir e seguramente iria chegar à sua toca, o que o faria morrer afogado, começou a chamar um sapo que descansava numa pedra e pediu-lhe para o transportar nas suas costas até à outra margem. O Sapo disse-lhe que não, porque sabia que o Escorpião lhe picaria e lhe provocaria a morte. Mas o Escorpião, com toda a sua capacidade de argumentação, lá convenceu o sapo a transportá-lo e assim aconteceu. Quando iam no meio do rio, o Escorpião picou mesmo o Sapo, envenenando-o. O sapo, antes de morrer ainda teve tempo de perguntar ao Escorpião: "- Porque me picaste? Agora morreremos os dois!". O Escorpião, respondeu ao Sapo, dizendo-lhe apenas: " - Está na minha natureza"".

Esta história é uma boa comparação com a realidade de quem precisa dos fornecedores mas vai "ferrando" reduções de preços, sem se importar com o aumento de custos de produção, nomeadamente os custos de alimentação animal e a consequente insustentabilidade das explorações agro-pecuárias.

Por outro lado, sendo um alerta sério e realista, a história tem um final trágico, diferente de uma outra história do escorpião, de autor também desconhecido:

"Um Monge e seus discípulos caminhavam por uma estrada, quando viram um escorpião a ser arrastado pelas águas. O Monge correu pela margem do rio, meteu-se na água e agarrou o bicho. Quando o trazia para fora, o escorpião picou-o e, devido à dor, o homem deixou-o cair novamente no rio. Foi então à margem e socorrendo-se de um ramo de árvore, entrou no rio, segurou o escorpião e salvou-o sem ser picado. Os discípulos, que assistiam perplexos à cena, perguntaram-lhe então porque salvara o animal se, afinal de contas, ele tinha sido mau para ele ao picá-lo. O Monge ouviu tranquilamente os comentários e respondeu: "Ele agiu conforme sua natureza, eu de acordo com a minha, e não permiti que a sua natureza mudasse a minha."

Que lições podemos tirar destas histórias?

O primeiro caso é um bom exemplo da "lei da selva" que é o capitalismo selvagem, sem regras, onde se espera que funcione a "mão invisível do mercado"; Já sabemos que não funcionou na área financeira, mas deixamos agora avançar a especulação nos mercados de matérias-primas para a alimentação animal e a jusante o domínio da grande distribuição como porteira do consumo alimentar;

Repare-se também que o sapo sabia o que faria o escorpião mas deixou-se levar pela conversa sem tomar precauções; é esta a realidade de muitos que produzem mas não se organizam e mobilizam para se proteger. Em sentido contrário, o monge aprendeu com a primeira agressão e usou o pau como arma para defesa pessoal e também protecção do escorpião cujo mal acabaria por provocar danos fatais a si próprio; do mesmo modo, quem asfixia a produção e/ou transformação, destrói a capacidade produtiva de quem lhe fornece matérias-primas essenciais e, de forma indirecta, a economia local e a capacidade de consumo, acabando como vítima das próprias acções.

No mundo actual, os "sapos" não podem evitar os "escorpiões" na travessia do rio que separa a produção do consumo; A sua companhia é inevitável mas não pode ter o final trágico da história.

Não se espere que os escorpiões, por si, se auto-regulem. É da natureza humana e da economia livre procurar o máximo lucro, comprar o mais barato possível, conquistar a máxima quota de mercado, procurar sempre o crescimento, que se não for possível à custa do consumidor ou da concorrência irá ocorrer asfixiando o produtor. Por isso, compete ao Estado e concretamente ao Governo regular o mercado de modo a evoluir da lei da selva para uma sociedade humana, equilibrada e sustentável, com partilha de esforços e resultados entre produção, indústria e distribuição. Sabemos que não é uma tarefa fácil e exigirá a paciência e persistência de monge, mas terá de ser feita com urgência. Tenhamos fé mas façamos força!»

Carlos Neves. O sapo, o monge e o escorpião. AGROPORTAL.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 01:00
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Patilhar
Terça-feira, 11 de Novembro de 2014

«O resto é silêncio»

 

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 (Quinta dos Loridos, Bombarral)

  

 [...]Hamlet: O resto é silêncio! (Hamlet morre)

Horácio: Partiu-se um nobre coração. Boa noite amado príncipe e que os anjos do céu venham em coro embalar-te o sono [...]»

W. Shakespeare, Hamlet. Cena II. Acto V.

Desertificação: «[…] A ameaça de desertificação está hoje claramente associada às alterações climáticas. Mas a desertificação não pode ser entendida como um mero fenómeno biofísico. Está normalmente também associada à regressão demográfica e aos usos do solo. Estes vários factores interagem e agravam-se mutuamente nas suas consequências. Há por isso que encontrar formas de mitigar os efeitos dos fenómenos climáticos, adaptando as actividades humanas ao território e mantendo níveis e modos de utilização compatíveis com a conservação e valorização dos recursos naturais e territoriais. O combate à desertificação é, por isso, também um problema de ordenamento do território.[…]» Combate à Desertificação: Orientações para os Planos Regionais de Ordenamento do Território. DGOTU, 2006.

 

Desenvolvimento sustentável: «Um modelo de desenvolvimento que permite às gerações presentes satisfazer as suas necessidades sem que com isso ponham em risco a possibilidade de as gerações futuras virem a satisfazer as suas próprias necessidades». Brundtland (WCED, 1987).

 

Vivo no interior, naquele pedaço da jangada de pedra de onde se avistam terras de Espanha e areias de Portugal. Não é por obrigação, é por opção! Opção por muitas coisas que, conscientemente sobrevalorizadas, são suficientes para suportar algumas angústias… Nada de determinante, quando o mundo é o mundo que escolhemos.

Mas este mundo também é de mudança, muitas vezes com tropia própria, mas demasiadas vezes influenciado por um tropel ruidoso vindo do exterior, qual vendaval que de repente tudo arrasta e tudo destrói: encerramento de escolas, de repartições públicas, dos ‘correios’, de empresas,... O vendaval é quase sempre precedido de uma homilia sobre as “contas” e as “reformas” e, passado o temporal, uma oração sobre a desertificação e o desenvolvimento sustentável

(Amén)

Vem a acalmia e eles vão-se, orgulhosos do oráculo, cientes de que não só acabaram de ganhar uma batalha, como essa batalha era uma boa batalha de uma guerra misteriosamente regeneradora. Deixemo-los em paz, emproados e pobrezitos regressar ao seu burgo dourado.

Falemos de nós, dos que ficam, dos que sempre aqui estiveram, dos que resistiram e resistem a cada vendaval. Falemos então de qualidade de vida, das escolas, das repartições públicas, das empresas - da desertificação e do desenvolvimento sustentável e também, porque não, dos falsos poderes. Daqueles poderes muito apreciados e disputados por meia dúzia de adeptos dos clubes partidários, mas que não passam de fachadas de um poder longínquo que ostensivamente os ignora. É verdade que alguns não merecem mais que a ignorância e algum desprezo do poder central, tão grande é o seu egoísmo de pedestal, mas há outros que me custa olhar o seu olhar - um olhar impotente de quem não consegue dar um murro na mesa.

Todos sabemos, ainda que apenas em alguma da sua amplitude, que a desertificação tem múltiplas facetas e é condicionada por inúmeros factores. Mas, curiosamente, nunca inclui o esvaziamento e a degradação do poder que visivelmente se verifica nestes territórios! Provavelmente porque este esvaziamento não condiciona nada de essencial para as gerações futuras e, portanto, para um desenvolvimento sustentável, ainda que admita que se trata de uma profecia ingénua, certeira para todos (todos!) os representantes do poder central, mas talvez pouco justa para alguns (poucos!) autarcas.

Tenderia a concordar com esta tese se este caminho para uma ausência de poder fosse simples, consciente, natural e, portanto, em última análise, a génese de uma sociedade autónoma, adulta, feliz. Mas não é! Esta ausência é imposta e protagonizada por um grupo de pobres vaidosos inconscientemente atarefados em inutilidades práticas. Neste sentido, temo que no sentido real, é apenas um caminho para o vazio. O resto é silêncio.

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:08
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Patilhar
Terça-feira, 28 de Janeiro de 2014

Jovens Agricultores - entre a espada e a parede

São conhecidos os principais factores de sucesso ou de insucesso dos Jovens Agricultores:

  • Atracção/repulsão do rural;
  • Disponibilidades financeiras e apoio institucional;
  • Acesso à terra, origem e experiência profissional no sector;
  • Alteração dos circuitos comerciais;
  • Discurso institucional e comunicação;
  • Alternativas de emprego.

Resumidamente, muito resumidamente é isto, nada de novo, portanto!

Em circunstâncias normais o rural exerce uma repulsão sobre os jovens em contraponto com uma atracção do urbano. Trata-se de um imaginário que traduz a evolução geral das sociedades modernas, extensível à generalidade dos países desenvolvidos e cimentado numa cultura urbana em que as excepções não são mais que exemplos marginais baseadas numa visão romântica e idealista do rural.

O acesso à terra, as disponibilidades financeiras e o apoio institucional, a origem e experiência profissional são aqui puramente instrumentais. Importantes, mas como tudo o que é instrumental, dependentes apenas de algumas decisões minimamente fundamentadas, coerentes e com os meios adequados.

O discurso institucional aliado a uma comunicação eficaz e a um nível de desemprego jovem muito elevado têm efeitos imediatos, embora muitas vezes lamentáveis. A avaliação deste ingresso na agricultura por parte de um número muito significativo de jovens com elevadas habilitações académicas, mas sem rede, é provavelmente um dos estudos mais interessantes para a próxima década.

Deixo propositadamente para o fim a questão dos circuitos comerciais. Não porque seja mais importante ou mais interessante que os restantes - muito pelo contrário!… -, mas apenas porque é um factor que normalmente escapa às análises que vão sendo feitas e, sobretudo, porque permite-me regressar ao título deste post.

De uma maneira crua e fria, como tudo o que tem a ver com os mercados, que apenas traduz esta realidade: quem entra num sector de actividade com o objectivo de atingir rendimentos compatíveis com as suas expectativas (pessoais, mas também regulamentares…) e com as suas naturais necessidades económicas, entre outros, e de repente é confrontado com as regras da grande distribuição e o peso que ela representa ou, em alternativa, com a fragilidade dos circuitos tradicionais, está sem dúvida entre a espada e a parede.

Muito dificilmente se sai duma situação destas pelos próprios meios. Quer porque a espada não se comove com arrufos de juventude, quer porque da parede ressoa um tropismo de inércia. Aparentemente não há saída. Aparentemente só alguns sobreviverão!

Não se trata de um elogio do egoísmo (ou talvez seja!...), mas bons, excepcionais, serão os jovens que entre uma e outra, entre a espada e a parede, se preocupem antes de tudo consigo próprios. Que façam as coisas, porque gostam de as fazer. Que vivam no rural, porque gostam de lá estar, de lá sentir, de lá agir.

Afinal as coisas importantes nem sempre precisam daquilo que à partida parecia imprescindível - comecem por ser felizes, porque sim!

 

(Nota: Para os mais distraídos, isto é um post num blog. Só isso - a análise detalhada deste tema é outra coisa, para outro lugar...)

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Publicado por Fernando Delgado às 00:11
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Patilhar
Quarta-feira, 11 de Setembro de 2013

... descodificando o rural

«[…]

         É hoje consensual que o desenvolvimento deve ser construído associando e tomando como agentes das iniciativas as populações locais. Contudo, esta fórmula exige um esclarecimento complementar sobre os critérios para avaliar os processos a promover ou, noutros termos, qual deve ser o referencial cultural, social e económico dos projectos: a modernização óbvia e aparentemente indiscutível, ou o enraizamento nas sociabilidades, hábitos, comportamentos e instituições tradicionais das comunidades.

         Um caso estudado por Milando (2003), em Cabinda, clarifica este debate. Trata-se de uma aldeia que se abastece de água de um rio que está a uma distância considerável. Face a esta situação, surgiu a iniciativa de construir um chafariz na aldeia. Contudo, esta opção modernizadora não tomou em consideração que o caminho de alguns quilómetros que as mulheres tinham de percorrer, desde o rio à povoação, a transportar água à cabeça, não era apenas uma incómoda distância mas era também uma passarelle onde se teciam, de modo privilegiado, relacionamentos entre os homens e as mulheres da aldeia. Milando comenta ainda: “Em África, existem, hoje, muitos exemplos de projectos desta natureza que redundam em fracasso, pois uma vez instalados os chafarizes, as populações alvo ignoram-nos, preferindo continuar a percorrer os longos quilómetros de sempre, a fazer uso da água que é colocada junto das suas casas”. Ou seja, o desenvolvimento tem de definir-se em função de quadros culturais, sociais e económicos das populações.

[…]»

Fernando Oliveira Baptista in O Destino Camponês. Ed. 100LUZ, pp.123-124.

Publicado por Fernando Delgado às 22:21
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Patilhar
Sábado, 28 de Julho de 2012

Outros olhares

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Loriga (junto à praia fluvial)

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; f/11; 1/320s; ISO 400; 59 mmm)

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:26
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Patilhar
Domingo, 22 de Julho de 2012

Fogos

(Para ler, este e outros posts, aqui)

 

«[...]

Há dois dias que ouço gente a falar de fogos e incêndios, cheios de certezas, indignações e soluções. Onde está esta gente o resto do ano, quando não arde?
Que têm feito, que têm proposto, que recursos identificam para gerir os fogos, para além de pedirem mais recursos para o seu grupinho (seja o grupo das ZIFs, o grupinho da protecção civil, o grupinho da intervenção rápida, o grupinho do voluntariado generoso, o grupinho da aviação, o grupinho da floresta autóctone, o grupinho da sensibilização, o grupinho da investigação, o grupinho das cabras, etc., etc., etc..)
Valha-nos o bom senso e a lucidez do Paulo Fernandes: isto é uma questão de meteorologia e quanto aos dinheiros para resolver o problema, o que mais falta faz é avaliar para onde foram e com que resultados.
Faz mais falta a avaliação que a aviação, concordarei eu sem a menor reserva.
Parafraseando um famoso filósofo da escola de Paris, a ideia de acabar com os fogos é uma ideia de crianças, os fogos não se extinguem, os fogos gerem-se.
E para gerir os fogos é muito mais importante o esterco das cabras que o brilho das ideias infalíveis que crescem como cogumelos no calor destes fogos.»

Henrique Pereira dos Santos. Ambio. Blogue de Reflexão sobre Ambiente e Sociedade.

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Publicado por Fernando Delgado às 02:04
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Patilhar
Domingo, 6 de Maio de 2012

«Quando a hienas sorriem»

Quero aqui deixar um link para a «ambio - blog de reflexão sobre ambiente e sociedade» e um textode Pedro Bigre, entre muitos outros que poderia ter escolhido (vários de Henrique Pereira dos Santos, por exemplo). Quem se interessa por estas matérias, só ganha em passar algum tempo a ler as reflexões sobre ambiente, floresta, desenvolvimento rural, abandono agrícola, etc. E comentar, porque não?

 

«Desde que Aquilino Ribeiro publicou "Quando os lobos uivam", o "Plano de Povoamento Florestal 1938-1968" vem sendo tratado pelos ambientalistas e pelos anti-salazaristas como uma obra satânica, criminosa dos pontos de vista ecológico e sócio-político. É um livro constantemente utilizado como arma de arremesso contra os Serviços Florestais. Os anti-salazaristas lêem nele a descrição de como o Estado Novo violentou as populações serranas, arborizando à força as pastagens onde se alimentavam os rebanhos essenciais à sobrevivência dos camponeses. Os ambientalistas fazem uma exegese suplementar, e descobrem nessa narrativa uma denúncia da "pinheirização" do nosso país, criando imensos bosques monótonos e altamente inflamáveis.

Ora, como os grandes admiradores de Aquilino são dados a confundir neo-realismo com realidade, ficção com facto, narrativa literária com descrição histórica, raras vezes se dão ao trabalho de examinar os acontecimentos da época à luz de outros documentos decerto menos eloquentes, porém mais fidedignos. Em 1958 Aquilino atacou os Serviços Florestais com aquele seu romance; em 1961 os Serviços Florestais responderam publicando o relatório "75 Anos de Actividade na Arborização de Serras", escrito pelo silvicultor João da Costa Mendonça. Lê-lo em contraponto à narrativa de Aquilino é uma questão de probidade intelectual. A realidade ecológica e sócio-económica daquele tempo era bem mais complexa do que o ilustre literato nos quis fazer crer.

Várias têm sido as personalidades a postular que a causa do aumento do número de incêndios florestais nos últimos anos reside no aumento excessivo da área dedicada ao pinheiro e ao eucalipto, fazendo questão de notar expansão do primeiro já havia sido denunciada no romance "Quando os Lobos Uivam" - como se bastasse essa obra literária para provar semelhante tese. Ora, os factos não corroboram essa correlação entre a variação de área cultivada dessas espécies e variação da ocorrência de incêndios. O aumento exponencial da área ardida nos últimos dez anos foi precedido nas últimas três décadas por um declínio da área de pinheiro-bravo, ao passo que o eucalipto praticamente interrompeu a sua expansão em meados de 90. Em contrapartida, a área de matos, incultos, pousios e matas abandonadas aumentou exponencialmente desde os anos 80: hoje mais de 30% do país está coberto por densas formações arbustivas de giesta, urze, torga, carrascal ou esteva (as etapas intermédias da sucessão ecológica). De entre todas as possíveis variáveis causais dos incêndios, as que aumentaram mais dramaticamente nos anos 90 não foram as temperaturas médias, nem tão-pouco as áreas de pinhal e de eucaliptal, mas sim as áreas rústicas invadidas por matos.

Sucede que o comportamento dos incêndios é determinado sobretudo pelo calibre do material lenhoso, e nesse aspecto as formações arbustivas se destacam. Quanto mais finas as ramagens e mais abundante a folhada no solo ou próxima do solo, mais elevada é a inflamabilidade e a rapidez de propagação dos incêndios. Os arbustos são pois, comparativamente às árvores e às plantas herbáceas, as verdadeiras acendalhas dos incêndios. Por isso, é normalmente nestas formações que eclodem os fogos florestais, é por meio delas que se propagam no espaço, e é graças a elas que logram atingir o copado das florestas próximas. Quando o fogo atinge o copado inicia-se uma catástrofe de violência irresistível, independentemente de as florestas serem compostas por eucalipto, pinheiro ou carvalho.

Contrariamente ao que clama a "vox populi", está provado que o castanheiro, o carvalho e restantes folhosas têm tanta inflamabilidade quanto o eucalipto e o pinheiro. Por "inflamabilidade" entende-se a faculdade de iniciar a combustão ou, por outras palavras, a facilidade de ignição. As espécies cultivadas no nosso país com menores índices de inflamabilidade são o zambujeiro, o cipreste e o cedro-do-Atlas). Já a combustibilidade das formações florestais (entendida como a facilidade de propagação do fogo sobre um dado coberto vegetal) é, no sentido decrescente:

Matagais desenvolvidos (acima de50 cmde altura) > Pinhal jovem > Eucaliptal sem remoção de arbustivas > Matagal medianamente desenvolvido (entre 30 e50 cm) > Pinhal sem remoção de arbustivas > Pinhal com remoção de arbustivas > Eucaliptais com remoção de arbustivas > Carvalhais > Montados > Prados.

Os matagais desenvolvidos ocupam, no nosso país, uma área superior aos eucaliptais. A maioria dos eucaliptais são regularmente limpos de espécies arbustivas. A maioria dos pinhais, por sua vez, não recebem quaisquer cuidados de limpeza e, uma vez cortados, nem sequer são devidamente replantados. Conclusão: as "bombas incendiárias" no nosso país encontram-se nos campos agrícolas abandonados (entretanto ocupados por matagais) e nos pinhais abandonados. Quase todos estes últimos são propriedade privada (o Estado detém menos de 2,5% das áreas florestais), o que traz sérias consequências políticas e éticas. Os proprietários de um terreno cujo amanho negligente resulte num maior risco de incêndio estão a pôr em risco vidas e bens de terceiros: qual a responsabilidade civil de um proprietário cujas matas ardem por manifesta negligência, e com isso causam mortes entre os vizinhos e a destruição dos lares de outrem?

Isto conduz-nos indirectamente à questão da propriedade florestal. A título de exemplo, a Serra da Lousã encontra-se retalhada por mais de 200 mil proprietários. A generalidade desses proprietários paga apenas cerca de 2 cêntimos por hectare por ano de imposto sobre o património rústico, ou seja, fica tecnicamente isento de tributação. A Lei não lhes atribui quaisquer responsabilidades, civis ou simplesmente ambientais, de cultivar as suas florestas de forma silvícola e ecologicamente válidas. Por fim, o Estado -caso único no Ocidente- concede a esses terratenentes a dispensa dos deveres de pagar imposto relevante sobre o património ou de sobre ele exercer um cultivo responsável. Por fim, esse mesmo Estado recompensa a posse negligente e gratuita de florestas com subsídios, tenças, côngruas e sinecuras aos terratenentes. Dir-se-ia que regressámos ao feudalismo, quando o monarca cobrava impostos aos trabalhadores braçais para com esse mesmo dinheiro recompensar os senhores feudais que, pelo mero facto de possuírem terrenos, se tornavam merecedores de um estipêndio anual, independentemente dos seus méritos ou esforços...

Claro que a inércia dos proprietários também se justifica pelo perigo de insolvência dos empreendimentos florestais. Para ser rentável, uma empresa florestal necessita de dispor de pelo menos 500 hectares(pouco menos, se tiver a sorte de herdar um sobral em plena maturidade). Ora, mais de 90% dos nossos proprietários florestais possuem menos de 5 hectares. Nenhum empreendimento florestal é economicamente viável com tão poucos terrenos disponíveis. A solução estaria, pois, no associativismo, no cooperativismo ou no emparcelamento. Para solucionar o problema, a União Europeia tem gasto fortunas na criação e sustento de Associações de Produtores Florestais. Para ver o seu troço de floresta limpo e cultivado, o proprietário na prática não precisa de fazer nada mais do que inscrever-se na associação e autorizar a intervenção dos técnicos associativos nos seus terrenos. Quem paga a factura são os contribuintes europeus. Ainda assim, os proprietários de 1/3 dos terrenos florestais abstém-se de se juntar à associação de produtores florestais da sua região (este panorama varia de região para região; estou a falar em termos médios)... Coloca-se, pois, a magna questão de como chamar esses proprietários às suas responsabilidades. É sobretudo a partir dos seus imóveis que deflagram os incêndios. A isenção técnica de impostos já os favorece de um modo inédito no Ocidente; os subsídios permitem-lhes cuidar da floresta a custo zero; a Lei não lhes impõe quaisquer deveres de bons usos económicos e ecológicos do solo; e ainda assim, para prejuízo de todos, não cuidam do que é seu! E, para cúmulo da imoralidade, só se assumem como proprietários na altura de reclamar subsídios ou de pedir alvarás de loteamento!

Nos outros países Ocidentais o ordenamento agro-florestal tem um enquadramento jurídico completamente distinto. Um exemplo extremo e draconiano é a Dinamarca. Merece a pena analizarmos a política de solos deste país pelo que no ensina acerca da gestão de espaços agro-florestais, mesmo que por motivos climáticos o seu risco de incêndio seja naturalmente menor. O agricultor/silvicultor dinamarquês goza de muitos direitos idênticos ao do português, nomeadamente os subsídios comunitários. A diferença reside nos deveres de um e de outro - abundantes para o primeiro, irrisórios para o segundo. Para ser proprietário de terrenos agro-florestais, o terratenente dinamarquês está obrigado a:

-Possuir um bacharelato ou título superior em Agricultura ou Silvicultura. O período de formação é financiado a 100%;

-Deve residir no terreno que cultiva, ou na aldeia/vila mais próxima. O absentismo é proibido;

-Deve pagar um imposto anual substancial pelo terreno, ao qual podem ser deduzidas despesas de manutenção das culturas. Isto não penaliza os terratenentes empreendedores, apenas os negligentes e sem iniciativa económica;

-Deve praticar as culturas preconizadas nos Planos de Ordenamento do Território, que estipulam quais os leques de espécies autorizadas para cada parcela;

-É responsável pela manutenção da camada arável do solo e pela qualidade das águas.

-Sob pretexto algum é permitido ao proprietário lotear ou urbanizar os seus terrenos - tais acções são prerrogativa exclusiva do Estado e exercidas sobre terrenos públicos;

-Só é permitida a residência em habitações isoladas no espaço agro-florestal a pessoas que pratiquem a agricultura ou a silvicultura. Para a restante população criaram-se "aldeias de vilegiatura" - pequenos aglomerados residenciais recuperados ou novos, em cenário rural, para quem desejar uma 2ª habitação.

Os resultados do sistema jurídico dinamarquês estão à vista de todos: um território bem ordenado e amanhado a 100%, expansões urbanas modestas porém confortáveis e baratas, um sector agro-florestal competitivo. O resultado do nosso sistema jurídico também está à vista de todos: um território caótico, carcomido pela especulação imobiliária, consumido pelos incêndios, e inculto a mais de 30%.»

Pedro Bingre. Quando as hienas sorriem.

 

Publicado por Fernando Delgado às 22:46
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Patilhar
Domingo, 8 de Abril de 2012

Bens Ambientais

Porque é importante saber (d)estas coisas, aqui fica um convite a uma leitura ligeira na Naturlink como ponto de partida para outras viagens

 

«[...]

O valor económico de um bem ambiental pode ser dividido em três componentes:

. valor de uso;
. valor de opção;
. valor de não-uso.

 

O valor de uso refere-se ao benefício directamente obtido com a exploração do recurso. Por exemplo, a madeira e lenha retiradas de uma floresta, a água obtida a partir de uma nascente e as receitas turísticas obtidas a partir de uma paisagem especialmente bonita. O valor de uso é facilmente afectado pela poluição e pela degradação da paisagem, entre uma grande série de actividades humanas e causas naturais. A poluição causada pelos derrames petrolíferos provoca uma quebra nas pescas e no turismo, reduzindo directamente o rendimento de muitas famílias. A construção de uma auto-estrada ao longo de uma bela paisagem afastará os visitantes que antes a procuravam.

 

Por outro lado, o valor de opção traduz o valor que a sociedade está disposta a pagar pela manutenção das possibilidades de utilização futura do ambiente. É o que acontece com muitos terrenos, que embora na actualidade não estejam associados ao rendimento de alguém, podem vir a ser explorados (de preferência de uma forma sustentável) e a ter um valor de uso.

 

A última categoria, valor de não-uso, refere-se à vontade da sociedade em preservar o ambiente pelo seu valor intrínseco, independentemente dos usos económicos que lhe podem estar associados no presente ou no futuro. A Rede Nacional de Áreas Protegidas e a Rede Natura 2000, ao nível nacional e da União Europeia, respectivamente, podem ser entendidas neste sentido, apesar da enorme carência de meios que são disponibilizados para a sua manutenção. O valor de não-uso reflecte os valores íntimos e subjectivos que cada pessoa vai construindo ao longo da vida. Deste modo, é perfeitamente plausível que alguém atribua valor a locais longínquos que nunca irá visitar ou a espécies que não conhece, simplesmente porque considera que estes devem, por uma questão de ética, continuar a existir e ser preservados.

 

Adicionando os três valores obtemos a chamada “disposição para pagar” (do inglês, “willingness to pay”, WTP):

WTP = valor de uso + valor de opção + valor de não-uso

 

Enquanto os valores de uso e de opção são quantificáveis de uma forma bastante objectiva, o valor de não-uso é-o de uma forma mais complexa e exige o emprego de técnicas específicas. Esta complexidade resulta, por vezes, em valores discrepantes consoante o método usado. Por este motivo, e apesar dos avanços visíveis neste campo, a avaliação do valor de não-uso é ainda controversa.

[...]»

 

A valoração económica de bens ambientais. Nuno Quental. Naturlink.

 
Publicado por Fernando Delgado às 23:19
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Patilhar
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Desertificação

IMG_5862.jpg

(Monte em Segura, Idanha-a-Nova)

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; conversão para P/B)

Publicado por Fernando Delgado às 00:25
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Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

... apontamentos do rural agrícola

«Os agricultores vivem hoje asfixiados numa tenaz cujos braços cresceram desmesuradamente a partir da liberalização dos mercados e do crescimento da grande distribuição, alterando numa geração todo o contexto socioeconómico em que se movimentavam. Apesar das políticas agrícolas tentarem desviar, para um lado ou para o outro, o fulcro dessa tenaz, de modo a evitar uma morte súbita, a verdade é que, na maioria dos casos, apenas conseguiram ir substituindo os sectores de actividade e respectivos agricultores nos braços da tenaz, raras vezes possibilitando a criação de uma alternativa credível. Esta situação, facilmente verificável pela simples comparação dos preços dos principais produtos agrícolas e dos factores de produção de há duas décadas com os actuais, é o resultado de políticas agrícolas de tipo macro, mas foi ainda agravada, ao nível micro, com o desmantelamento e fragilização de pequenas estruturas locais que, em última análise, sobretudo em momentos de crise, poderiam constituir uma alternativa realista.

Este cenário não esconde que a agricultura deixou há muito tempo de ter uma importância económica significativa em muitos territórios rurais – os concelhos da Beira Interior são neste caso um bom exemplo -, nem que tal situação deve ser enquadrada no contexto mais vasto da evolução do mundo rural. Recorde-se que, pela primeira vez, no mundo, a população urbana é superior à população rural, embora esta alteração já tinha ocorrido na generalidade dos países europeus há alguns anos e que, independentemente da natureza dos conceitos rural e urbano e dos pormenores que os grandes números não revelam, em particular as especificidades nacionais, regionais ou locais, a verdade é que este fenómeno tem consequências em quase tudo: emprego, ambiente, desertificação, território.

Por outro lado, parece ser hoje consensual que a actividade agrícola não garante a viabilidade das comunidades rurais, assim como o abandono agrícola não implica necessariamente o abandono da terra ou das áreas rurais. Este consenso baseia-se na observação de que existe actividade agrícola desligada das comunidades rurais e uso da terra baseado em actividades não agrícolas. Mas tal pressuposto revela fragilidades graves quando se tenta perspectivar um futuro em que se sobreponham de forma virtuosa as dimensões económica e social dos espaços rurais, por um lado, e as características multifuncionais da agricultura, por outro, na ausência do principal agente de ligação entre estes diversos elementos - o agricultor – e na mitigação da sua função - fazer agricultura.

Estamos assim num tempo de mudança, num momento em que existe a convicção de que é possível a partir dos actuais agentes do mundo rural densificar um conjunto de relações económicas e sociais que permita, de uma forma sustentada mas necessariamente lenta, restabelecer um equilíbrio perdido. Não se trata de um retorno, mas da certeza de que a agricultura continua a ser a única actividade capaz de estabelecer uma matriz coerente de desenvolvimento para os territórios. Sem agricultura e sem agricultores, esses territórios ficariam reduzidos a pequenas ilhas dispersas, sem a necessária continuidade funcional, única forma de garantir a sua sustentabilidade.

Essa mudança faz-se obviamente com os agricultores, sejam eles casos de sucesso ou simples resilientes deste período de intensa intromissão das políticas agrícolas, mas também com novos agentes do desenvolvimento rural, em alguns casos como resultado da atracção do rural e de um novo paradigma de qualidade de vida, mas noutros apenas como consequência da repulsão dos centros urbanos face às insuficiências socioeconómicas resultantes da crise.

Neste ambiente de profunda mas lenta transformação do rural, há um novo papel de intervenção do poder local que, esgotada a fase da obra, característica do modelo de intervenção das últimas décadas, se pode voltar agora de uma forma decisiva para território. Esta intervenção do poder local no rural é já perceptível em alguns casos concretos. Não se espera que substitua os agentes locais, mas apenas que utilize a sua presença institucional e a sua capacidade financeira para fomentar a organização de funções produtivas onde a rarefacção de actores e de agentes não permite criar redes de desenvolvimento suficientemente sólidas. Espera-se ainda que os responsáveis do poder local estejam preparados para este tipo de intervenção, claramente de tipo imaterial, com resultados de médio ou longo prazo e sem a visibilidade de outras realizações.

Definitivamente o rural mudou, transformando-se num espaço cada vez menos habitado. Os desafios do futuro estão em conseguir actuar sobre estes territórios, evitando a degradação dos seus recursos e a consequente expulsão dos residentes que restam. Os tempos de mudança constituem oportunidades de futuro. Não existe nenhum dramatismo nesta evolução, mas seria trágico que se ignorassem as consequências.»

 

Artigo publicado na Revista VIVER. Nº17. ADRACES.

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Publicado por Fernando Delgado às 22:56
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Domingo, 1 de Maio de 2011

"Ilha sem Barcos"

         «Lembro-me de um tempo em que, na leitura excessiva de metáforas com que então se iludia a realidade, se falar da Beira Interior como se fosse uma “ilha sem barcos”. Essa imagem fugidia era, penso eu, agora, a procura de identificação breve de uma região à escala do país, da sua secular subalternidade cívica e social de pequena pátria, na espessura temporal do seu isolamento, na persistência imutável da realidade que parecia elevar-se da espessura dos dias. Interioridades…

         Era uma insularidade cercada de terra, configurada à solidão do campo e das montanhas, atormentada por um isolamento secular, que a imutabilidade da paisagem parecia ter petrificado. Monsanto, com o seu micro-cosmos arcaico, “nave de pedra”, onde, dizia Namora, “a fraga se torna pesadelo””, é simbolicamente imagem dessa realidade cósmica, retrato de uma portugalidade com séculos de desterro e de mágoas, cuja persistência se tornou num tempo longo de servidão vivido até ao século passado.

         Muitas vezes subi ao cimo dessa montanha de onde se vê a raia, e ao redor da qual se materializam paisagens de tão grande diversidade (“manta de retalhos”, chamou Orlando Ribeiro à Beira Baixa) que espicaçam a imaginação, como naqueles filmes que cavalgam os territórios à procura de paraísos perdidos, com as imagens a galope, rio impetuoso de vida, criando a ilusão de o tempo acelerar para a invenção da felicidade.

         Olhar ao redor, lá do cimo do castelo, até onde os olhos alcançam, quando o céu fica azul da cor do mar e o sol coado do fim da tarde poisa súbita nitidez nas coisas, é ter a percepção da lonjura da Beira na sua continuidade transfronteiriça, velhos castelos, onde aldeias e vilas se acolhiam à protecção, praças fortes de defesa colectiva, lugares que arvoravam ao alto a bandeira da independência, quando as gentes daqui eram insubstituíveis na sua condição de “carne para canhão”. Hoje, essa linha territorial da fronteira dissipou-se e está povoada de silêncios e de vazio humano, estigmatizada como espaço periférico de “baixa densidade”.

         Mas Monsanto guarda memórias e imaginários dessas guerras e do seu carácter inexpugnável, como a lenda que regista a resistência da população, durante anos refugiada no castelo. Conta-se: face ao cerco implacável, e à beira de esgotados todos os mantimentos, decidiram os sitiados atirar encosta abaixo uma bezerra engordada com o último trigo, para dizer aos sitiantes que não se rendiam pela fome. Todos os anos, em Maio, eleva-se no ar o som dos adufes e dos cantares, em tons vagamente árabes de funda inquietação. É a população que sobe ao castelo para atirar das muralhas potes de barro enfeitados com flores – “remake” possível do sacrifício da bezerra engordada com o trigo da fome.

         Neste regresso à memória do imaginário de Monsanto, parece-me ouvir Catarina Chitas com a sua voz belíssima, como pranto magoado de séculos, cantar a imemorial gesta da resistência de um povo, memória fragmentada de um Portugal que morreu.

[…]»

 

Excerto do texto Da “Ilha sem Barcos” ao Coração da Europa de Fernando Paulouro das Neves.

Interioridade/Insularidade Despovoamento/Desertificação. Paisagens, Riscos Naturais, e Educação Ambiental em Portugal e Cabo Verde. (Coord. Rui Jacinto e Lucio Cunha). Colecção Iberografias - 17. Centro de Estudos Ibéricos.

Publicado por Fernando Delgado às 00:30
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Patilhar
Domingo, 20 de Março de 2011

Silvicultura da Biodiversidade

(Ler texto integral na Naturlink, aqui.)

 

«[…]

E os outros 3.6 milhões de hectares?

Parece razoável assumir que Portugal Continental poderá gerar, no máximo,1.7 a 2 milhões de hectares ocupados com o crescimento lenhoso para a indústria do papel e da madeira, produção de cortiça, superfícies de pinheiro–manso e castanheiro.

Existindo 5.3 milhões de hectares ocupados com floresta e matos restam3.3 a3.6 milhões de hectares (38 – 40% do território Nacional), incluindo o meio milhão de hectares onde se incluem a azinheira e outros carvalhos, espaço para o qual poderá ser adequada a antiga designação de “Bravio”, que será o espaço principal da Silvicultura da Biodiversidade.

Biomassa florestal, produção de energia e biodiversidade

A utilização de biomassa é considerada importante para o cumprimento das metas relativas à utilização de energias renováveis. O programa existente para a construção de centrais de biomassa tomou como base inicial a exploração dos resíduos da exploração florestal e da rede de faixas de controlo de combustível.

A produção de biomassa específica para produção de energia, e mesmo a própria utilização dos resíduos, serão limitados e determinados pelo preço da energia eléctrica. Poderão hipoteticamente existir situações de competição entre a produção para a indústria do papel, para a indústria da madeira e para a produção de energia, nos terrenos onde a produtividade potencial for suficiente. A produção de biomassa para energia não parece ser uma alternativa onde a produção de lenho também não o for.

Não parece também viável a desmatação para biomassa, não só atendendo à dimensão dos custos de exploração, mas também ao impacto ambiental potencial. De facto, a programação de centrais de biomassa com base no aproveitamento de resíduos de culturas florestais e faixas de combustível, é diferente do aproveitamento generalizado de arbustos para a produção de energia. A ser considerada esta última hipótese seria seguramente necessário avaliar o seu impacto ambiental.

A biomassa para energia não parece constituir uma opção de exploração para uma fracção significativa dos 3.6 milhões de hectares do “Bravio”.

(…)

Gestão da Biodiversidade Florestal – uma nova dinâmica
(…)

O pagamento com dinheiros públicos de serviços ambientais através de fundos da política de desenvolvimento rural ou de conservação não parece ser um caminho com dimensão ou sustentação futura suficiente para gerir o espaço Bravio.

É necessário que exista um rendimento associado para estimular a gestão activa e os incrementos em abundância e diversidade nas espécies e habitat que aumentam o valor natural do território florestal.

Actualmente o mercado deste tipo de valores é incipiente mas não inexistente, mas um pouco por todo o mundo estão em desenvolvimento rápido mercados para serviços associados à conservação:

Compra de acesso exclusivo a territórios

- Eco–turismo ou outras formas de turismo associado a espaços florestais
- Caça, Pesca, produtos não lenhosos
- Contratos de prospecção de novas espécies em florestas tropicais e equatoriais

Compra de terrenos exclusivamente dedicados a acções de conservação

- Acções de conservação com financiamento privado associadas ao posicionamento de empresas e suas marcas.

- Serviços de eco–compensação (tendencialmente offsets - offset de biodiversidade: actividade de conservação destinada a compensar, com impacto líquido positivo, impactos negativos inevitáveis) decorrentes de obrigações legais associadas ao licenciamento de actividades económicas.
- Serviços de eco–compensação voluntária.

 

(…)

Alguns destes mercados já existem há muito tempo com efeitos interessantes na conservação, dos quais um exemplo é o mercado da caça, com os efeitos benéficos para a conservação que o desenvolvimento deste sector teveem Portugal. Existeevidência de que a melhoria do habitat e a gestão das populações cinegéticas tiveram um efeito globalmente positivo na conservação, quando comparadas as zonas com e sem gestão cinegética.

(…)


No Brasil, uma Lei Federal em vigor desde 2000, determina que 0.5% dos custos de projectos com impacto na conservação do ambiente sejam obrigatoriamente aplicados em medidas de mitigação e compensação.

No estado da Califórnia (EUA) as medidas de compensação de impacto sobre a biodiversidade podem ser implementadas em territórios geridos precisamente com essa finalidade e que são colocados no mercado - “Conservation Banking” – regulado pela administração do Estado. Isto é, os gestores florestais vendem superfícies com características específicas (habitats e espécies), durante o período de tempo necessário a cumprir as obrigações de compensação decorrentes de projectos de investimento dos seus clientes.

Em Victoria na Austrália, o BushBroker é um mercado de créditos de vegetação natural, regulado pelo Estado, que permite aos proprietários florestais serem produtores de vegetação natural, vendendo os créditos de vegetação a empresas que necessitem de obter espaço livre de vegetação para a sua actividade.

Em Portugal o Decreto – Lei 142/2008 de 22 de Julho estabelece um novo regime jurídico da conservação da biodiversidade. Neste novo regime institui-se o princípio da compensação pelo utilizador dos efeitos negativos causados pelo uso de recursos naturais, regula-se em geral os instrumentos de compensação ambiental e cria-se a base legal para a constituição do Fundo para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade. Isto é, criam-se as bases legais para uma abordagem de mercado da biodiversidade, no que diz respeito à floresta abre-se caminho à Silvicultura da Biodiversidade.

[…]»

Silvicultura da Biodiversidade. Carlos Rio de Carvalho.

Publicado por Fernando Delgado às 22:50
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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

... das cinzas

«Não são mais que imberbes rebentos. Arderam há três anos mas já estão a ser pasto de chamas novamente. São muitas as áreas no país que ardem e voltam a arder num curto período de tempo, o que indica que ali há dedo dos pastores. Daí que alguns critiquem a recente decisão do Governo de pagar a alimentação do gado que perdeu o seu pasto nos incêndios. "É um incentivo para que continuem as queimadas", afirmam. "Não vamos deixar morrer os animais", responde o ministério.

 

 A relação entre a pastorícia e os incêndios em determinadas áreas - caso da regiões em volta de Castro Daire/Marco de Canaveses ou em redor de Mangualde/Gouveia, para dar alguns exemplos - fica clara quando se olha para a quantidade de vezes que uma mesma zona ardeu nas últimas três décadas. A equipa de José Miguel Cardoso Pereira, do Instituto Superior de Agronomia (ISA), fez este levantamento. E detectou inúmeros matos que insistem em pegar fogo amiúde, contra todas as probabilidades. 

"A recorrência de fogo é tão grande em determinadas áreas que pode dizer-se que são seguramente zonas tradicionais de pastorícia", diz Cardoso Pereira. Com dados disponíveis para 34 anos - de 1975 a 2008 -, a equipa do ISA mapeou as áreas ardidas, constatando que há zonas que, neste período de tempo, já arderam 14 vezes.

  

"Efeitos muito perversos"

Em condições normais, segundo os estudos de Cardoso Pereira, uma área está pronta para arder ao fim de cinco anos depois de ter sido consumida pelas chamas. Ou seja, se uma mesma área registou incêndios mais de seis vezes nestes 34 anos, pode dizer-se que há uma enorme probabilidade de ali terem sido feitas queimadas para renovação das pastagens. Que muitas vezes se descontrolam. 

O uso do fogo na renovação das pastagens é ancestral. É a forma mais barata de o fazer, tanto mais que muitas vezes é feito em áreas marginais, onde roçar o mato é difícil ou nem sequer compensa. Porém, as queimadas estão proibidas na época dos fogos. Mas continuam a ser feitas. 

Aliás, olhando para os relatórios dos incêndios deste ano, a GNR identifica claramente as queimadas como uma das causas mais frequentes dos fogos. A Polícia Judiciária tem também anunciado a detenção de pastores como alegados incendiários. Rui Almeida, responsável pela Directoria do Centro da PJ, adianta que, dos 36 detidos este ano, dois são pastores e sete indicaram ser agricultores. 

Esta relação próxima entre a pastorícia e os incêndios leva muitos a considerar "um risco" a decisão do Ministério da Agricultura de final de Agosto de estabelecer uma ajuda de emergência à alimentação animal "com vista a compensar as perdas ocorridas nas áreas de pastoreio ardidas" nesta época de incêndios - que só termina no próximo dia 15 de Outubro. No caso das ovelhas e cabras, está previsto um valor de 40 euros por cabeça e, no caso do gado bovino, a ajuda sobe para os 100 euros por animal. 

"A medida pode ter efeitos muito perversos", diz Carlos Aguiar, da Escola Superior Agrária de Bragança, especialista em pastagens. "Os pastos de Verão são de baixo valor alimentar, estão secos, o que em si agrava o risco de esta medida incentivar ainda mais o uso do fogo para a renovação das pastagens", acrescenta. 

"Abre um precedente complicado, pois, se as pessoas perceberem que se arderem os pastos recebem apoios para a alimentação animal, serão incentivadas a continuar a fazê-lo", diz Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista. "É uma medida que incentiva as pessoas a gerir o território de forma absurda", acrescenta. 

"Não apoiávamos os agricultores e deixávamos morrer os animais?" contrapõe o Ministério da Agricultura. "Era nossa missão ajudar, porque corríamos o risco de, daqui a um mês, se falar de uma grande mortandade". 

"É uma medida justa, é preciso ajudar os agricultores que ficaram sem pastagens, mas tem de ser bem controlada para não beneficiar ninguém indevidamente", argumenta por seu lado Paulo Rogério, da Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela. Se a acha perigosa? "Talvez pudesse vir a ser se não fosse só para este ano, mas como é uma medida que não vai ficar, decidida já depois dos incêndios, não me parece que seja vista como um incentivo", acrescenta.

 

Enquadrar a pastorícia

Com ou sem incentivos, o certo é que esta prática continua, com as consequências que se conhecem. Têm sido detidos alguns pastores mas a repressão também pode ser contraproducente, empurrando-os para a clandestinidade. Que se traduz num aumento das ignições na calada da noite.

"Tem de se investir no enquadramento técnico da pastorícia", defende Cardoso Pereira. Já hoje, os membros do Grupo de Análise e Uso do Fogo dão apoio a alguns pastores para fazerem queimadas em segurança. Mas são ainda uma minoria. 

"Os pastores produzem riqueza e devem ser acarinhados. Muitas vezes o problema está em não terem acesso à terra, o que os obriga a fazerem pastoreio de percurso, renovando, através do fogo, as pastagens de que necessitam", diz Carlos Aguiar, lembrando a quantidade de terra que o país tem devoluta, sem que quem dela necessita lhe possa aceder. A criação de um banco de terras, tão exigida por muitos e várias vezes prometida, continua a não passar disso mesmo: uma promessa.»

 

No Público, de hoje.

Publicado por Fernando Delgado às 23:03
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Patilhar
Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010

O mundo em mudança

Pela primeira vez, no mundo, a população urbana é superior à população rural - o ano da viragem, de acordo com diversas fontes, é 2009.

Isto já aconteceu na generalidade dos países europeus há alguns anos (ver quadro).

Independentemente dos conceitos (população urbana e população rural), dos pormenores que os grandes números não revelam (tendências, estratificação da população, especificidades regionais, etc), a verdade é que este fenómeno tem consequências em quase tudo: emprego, segurança, qualidade de vida, desertificação, territórios, ...

Definitivamente o rural mudou, transformando-se num espaço habitado cada vez por menos pessoas. Falta perceber se os territórios afectados conseguem transformar esta realidade numa oportunidade de futuro ou se enveredam por uma degradação dos seus recursos, expulsando os residentes que restam. Falta perceber também, com igual importância, qual a relação dos novos urbanos com esses espaços de abandono. Não existe nenhum dramatismo nesta evolução, mas seria trágico que se ignorassem as consequências...

  

Fonte: UN - Human Development Report 2004 (adaptado)

  Urban population % Urban population/Rural population
1975 2002 1975 2002
Belgium 94.5 97.2 17.2 34.7
Luxembourg 73.7 91.6 2.8 10.9
Malta 80.4 91.4 4.1 10.6
United Kingdom 82.7 89.0 4.8 8.1
Germany 81.2 87.9 4.3 7.3
Denmark 82.1 85.2 4.6 5.8
Sweden 82.7 83.3 4.8 5.0
France 72.9 76.1 2.7 3.2
Spain 69.6 76.4 2.3 3.2
Czech Republic 63.7 74.2 1.8 2.9
Estonia 67.6 69.4 2.1 2.3
Cyprus 45.2 69.0 0.8 2.2
Italy 65.6 67.3 1.9 2.1
Lithuania 55.7 66.8 1.3 2.0
Latvia 65.4 66.3 1.9 2.0
Netherlands 56.9 65.4 1.3 1.9
Austria 65.3 65.8 1.9 1.9
Hungary 52.8 64.7 1.1 1.8
Finland 58.3 61.0 1.4 1.6
Poland 55.4 61.8 1.2 1.6
Ireland 53.6 59.6 1.2 1.5
Greece 55.3 60.6 1.2 1.5
Slovakia 46.3 57.2 0.9 1.3
Portugal 27.7 54.1 0.4 1.2
Slovenia 42.4 50.8 0.7 1.0
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Publicado por Fernando Delgado às 01:10
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Patilhar
Sábado, 15 de Maio de 2010

Regressos

IMG_3095.jpg

Casa abandonada à entrada de Castelo Branco

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 1/160 s; f/10; 24 mm; ISO 400)

 

A RTP1 acaba de passar o documentário Regresso ao Campo*, abordando a questão dos novos rurais e da sua crescente presença no interior profundo.

 

Independentemente da forma como no documentário se faz a abordagem a esta nova realidade, importa sobretudo reter o facto de se produzir um documentário que passa em horário nobre, sobre um tema pouco comum em televisão. Só tenho pena que os exemplos mostrados (muito superficialmente…) pareçam ter sido escolhidos pela marginalidade ou radicalismo de opções de vida. Não havia razão para isso. O regresso ao campo deixará a pouco e pouco de constituir um exotismo de gente bem instalada na vida, mas zangada consigo própria, para se transformar num espaço de partilha de gente que não tem conflitos com a vida. É uma questão de tempo. É uma questão de bom senso e de qualidade de vida – de opção e de futuro, portanto!

 

E nem toda a gente precisa de ser bonita, como a Claire, que optou por viver com o João em Benfeita, Arganil, reconstruindo uma casa no meio do nada, com as suas próprias mãos, deixando o frenesim de Londres onde viveu onze anos… É natural que estas coisas se mostrem assim, um pouco do tipo “amor e uma cabana”, mas convém conhecer melhor esta realidade…, já não a realidade de Aquilino, que na sua forma rude de dizer as coisas, escreveu que “o melhor do país cheira a estábulo”, mas pelo menos o seu enquadramento sociológico. Como diz a geógrafa Teresa Alves, consultora do programa, estas pessoas “valorizam o seu próprio tempo e modos de vida mais solidários e vão à procura de actividades em equilíbrio com a natureza. Também são pessoas que têm uma cultura de território e que buscam um lugar específico onde possam ser felizes”.

 

*Documentário de Paulo Silva Costa. RTP1, 15 de Maio, 21 horas.

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:46
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Patilhar
Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

...ainda as hortas urbanas

Afinal ando um pouco distraído e desactualizado… Há várias iniciativas pelo país, incluindo encontros, cursos e até uma tese de mestrado. Ainda um dia, com tempo, vou tentar perceber os pormenores deste fenómeno. Fica uma lista de notícias, um pouco ao acaso:

 
«Lisboa vai ter mais e melhores hortas urbanas até 2001», Público de 25.05.2009»
«Hortas urbanas em Coimbra são cultivadas por mais de 20 agricultores», Público de 25.01.2009.
«Câmara Municipal do Funchal suspende inscrições para hortas urbanas. Lista de espera extensa (305 candidaturas) está na base desta decisão». NetMadeira, 05.11.2009.
«Hortas urbanas.
As hortas urbanas tornaram-se numa moda. Como todas as modas, também esta não se justifica em pleno pelo conservadorismo de hábitos. Mas, se todas as modas fossem como esta, seríamos certamente cidadãos mais felizes. (…)» Diário Região Sul, 12.05.2009.
«Projecto Rede de Hortas Urbanas.
As hortas urbanas que persistem no Seixal constituem uma parte importante do património ambiental e histórico do Concelho. Atenta a esse facto e ao papel desempenhado pelas hortas na reconversão de espaços desocupados ou degradados, a Câmara Municipal está a trabalhar na criação de uma Rede de Hortas Urbanas e na requalificação das hortas já existentes, integrando-as na Estrutura Ecológica Municipal.» Folheto da Câmara Municipal do Seixal.
«Hortas urbanas do Grande Porto têm mais de 700 pessoas em lista de espera», no Público de 04.10.2009.
«Encontro da Horta Urbana no Palácio de Cristal. 17 de Maio de 2008.»
«Curso teórico-prático sobre HORTAS URBANAS». Formadora: Paula Tavares (Bióloga). Local: Almada (Portugal). Data: 9 de Fevereiro a 1 de Março de 2008»
«Hortas urbanas: espaços para o desenvolvimento sustentável de Braga». Pinto, Rute Sofia Borlido Fiúza Fernandes. Dissertação de Mestrado Em Engenharia Municipal - Área de Especialização em Planeamento Urbanístico. Universidade do Minho.
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Publicado por Fernando Delgado às 00:38
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Patilhar
Sábado, 7 de Novembro de 2009

Hortas urbanas

(É também nestas pequenas coisas, quase simbólicas, que o poder autárquico pode começar a garantir o salto qualitativo que lhes permita sair do betão e do asfalto e olhar um pouco à sua volta … Faço figas para que esta notícia interessante se torne numa realidade boa! Quando for a Ponte de Lima vou querer ver estas hortas…)

 
«Câmara de Ponte de Lima dá lotes de terreno para criação de hortas urbanas
A Câmara de Ponte de Lima criou o projecto “Hortas Urbanas”, distribuindo, pelos munícipes interessados, lotes de terreno para cultivo agrícola, informou hoje fonte autárquica. “As pessoas que têm o gosto pela terra mas que não dispõem de um terreno para cultivar passam, a partir de agora, a dispor de um espaço para a sua própria horta”, conta Gonçalo Rodrigues, responsável pelo projecto.
Na Veiga do Crasto, mesmo às portas da sede do concelho, foi vedada uma área expressamente para a implantação das “Hortas Urbanas”, que, nesta primeira fase, disponibiliza 36 lotes, cada qual com uma área entre 40 a 45 metros quadrados.
O projecto já recebeu oito candidaturas, a quem vão ser atribuídos os respectivos lotes, no próximo sábado. Entre os primeiros candidatos, “há de tudo”, desde um arquitecto a uma mulher que vivia no campo e que entretanto se transferiu para o núcleo urbano, sendo também muitos variáveis as idades, com gente jovem e outra já a entrar na terceira idade. “O denominador comum a todos é o gosto pela terra”, frisou Gonçalo Rodrigues.
Naquelas hortas poderá cultivar-se todo o género de produtos hortícolas, bem como flores. Além do lote de terreno, o Município disponibiliza também um ponto de água destinada à rega das culturas, um abrigo comum para armazenamento dos utensílios agrícolas e um espaço comum para compostagem ou colocação de estrumes. Fornece ainda informação sobre os modos de produção e práticas culturais ambientalmente correctas e um livro que permitirá a comunicação entre os participantes e o Município de Ponte de Lima.
“A ideia é apelar às boas práticas agrícolas, no âmbito da agricultura biológica”, explicou Gonçalo Rodrigues. Proporcionar um espaço de ocupação dos tempos livres a todos os que participem no projecto e concorrer para a manutenção das actividades humanas e, consequentemente, para o uso e ocupação do solo da Veiga de Crasto são outros objectivos do projecto. No futuro, a área disponibilizada pode ser ampliada, caso a procura o justifique.»
No Público, de hoje.
Publicado por Fernando Delgado às 01:09
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Patilhar
Sábado, 10 de Outubro de 2009

Paisagens rurais

IMG_3730.jpg

IMG_3733.jpg

Modulação da paisagem numa exploração agro-pecuária e florestl na Meimoa, Penamacor

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 1/500 s; f/13; 125 mm; ISO 400)

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; 1/400 s; f/14; 72 mm; ISO 400)

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:17
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Patilhar
Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

O rural de Aquilino

(Um convite para a releitura de Aquilino e o reencontro com o rural. Nem que seja para compreender esses - ainda nossos, ainda vivos! -, pequenos mundos …)

 

«A obra romanesca de Aquilino Ribeiro foi o primeiro e talvez o único olhar sem ilusões lançado sobre o mundo rural português, na sua parcela beiroa. Sem ilusões, porém com paixão, se por paixão quisermos entender, como no caso de Aquilino sucedeu, não a exibição sem recato de um enternecimento, não a suave lágrima facilmente enxugável, não as simples complacências do sentir, mas uma certa emoção áspera que preferiu ocultar-se por trás da brusquidão do gesto e da voz. Aquilino não teve continuadores […].
Dir-se-á que os mundos real e ficcional de Aquilino morreram. Talvez seja assim, mas esses mundos foram nossos, e essa deveria ser a melhor razão para que continuassem a sê-lo. Ao menos pela leitura.»
José Saramago in O Caderno de Saramago
Publicado por Fernando Delgado às 00:37
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Patilhar
Sábado, 4 de Abril de 2009

(pequenas) decisões

No PÚBLICO, de ontem, uma notícia que pode ter repercussões a médio prazo...

 

«Governo investe 700 milhões de euros para actualizar cadastro das propriedades

Nos próximos sete anos, o Governo vai investir 700 milhões de euros para actualizar o cadastro das propriedades, muito desactualizado, noticia hoje a rádio TSF. A Liga para a Protecção da Natureza (LPN) estima que 20 por cento do território não tem dono conhecido.

A identificação dos proprietários de milhares de terrenos sem construção vai começar este mês em sete concelhos com alto risco de incêndio: Paredes, Penafiel, Oliveira do Hospital, Seia, Loulé, São Brás de Alportel e Tavira. Segundo a rádio, os protocolos de cooperação são assinados na próxima semana e os trabalhos arrancam depois do Verão.
João Ferrão, secretário de Estado do Ordenamento do Território, comentou à TSF que este levantamento é uma tarefa muito cara, que está atrasada, mas que é urgente concretizar por causa dos incêndios e para aumentar a receita fiscal.
Quando for impossível descobrir os proprietários, os terrenos ficam para o Estado.
Na verdade, acrescentou, Portugal é praticamente um caso único na Europa por ter tantas propriedades sem dono.
De acordo com um estudo da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), 20 por cento do território português não tem dono conhecido. “Não sabermos as propriedades que temos e a quem pertencem é uma situação absolutamente caricata”, comentou Joaquim Sande-Silva, dirigente da associação.»
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Publicado por Fernando Delgado às 23:55
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Patilhar
Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

A problemática do rural está prenha

«(…)

O mundo vai dando as suas voltas e parece que quer as representações do espaço rural quer dos seus habitantes têm vindo a actualizar-se em articulação com a própria dinâmica da sociedade contemporânea. Ao espaço rural parecem competir agora novas funções, novos usos e mais diversificados, na medida em que tendencialmente ele parece estar a ser alvo de novas procuras que vão para além das tradicionais (fornecimento de produtos alimentares ou de mão de obra), como sejam as de espaço de lazer, segunda residência, descentralização produtiva, reserva ecológica, etc.
É claro que ao longo desse processo, o espaço rural viu decompor-se toda a sua estrutura social e económica bem como sofreu uma forte descaracterização na diversidade das suas culturas e tradições, subordinado à afirmação dominante do espaço urbano-industrial. Paradoxalmente (ou não), foi esta influência urbana que mais terá contribuído para invalidar em absoluto aquela imagem estereotipada, o que, no limite, suscita a questão se ainda existe rural.
As relações de sociabilidade entre os vizinhos que acompanhavam a vida uns dos outros foram boicotadas pelas telenovelas e reality shows (como é que isto se diz em português?) da TVI, a solidariedade intergeracional ficou irremediavelmente comprometida com o surto migratório e com a invenção dos lares de terceira idade, até a agricultura já não é a grande aliada do espaço rural, enfraquecida pelas regras de mercado ditadas pelas grandes superfícies, pelo abandono, e até pelo clima.
Quanto às “tradições” do mundo rural, são cada vez menos participadas pelos verdadeiros actores e mais por mirones infectados com o vírus urbano da perspectiva folclórica. A grande maioria das que são participadas e adquirem visibilidade, pouco ou nada têm a ver com o ritual original – veja-se o exemplo do madeiro de Penamacor, o “maior” do país. Os nostálgicos do bom velho mundo rural esforçam-se por continuar a alimentar a velha representação estereotipada de algo que já não existe.
Indiscutivelmente, deixou de fazer qualquer sentido falar do mundo rural em tom depreciativo conotando-o com subdesenvolvimento, atraso ou pobreza, o que indicia que provavelmente, ou estaremos perante uma nova noção de ruralidade ou, estaremos perante uma nova realidade para a qual será preciso inventar um novo conceito. Os geógrafos já lhes chamam, apropriadamente, “territórios de baixa densidade”, e não é apenas à dimensão demográfica que eles se referem. Os sociólogos vão argumentando que a nova “ruralidade” integrou uma dimensão simbólica que anteriormente era marginalizada, motivando assim novas práticas sociais, as quais, presume-se, se estão traduzir num acréscimo de procura da ruralidade, quer no sentido físico quer simbólico. Há uma socióloga que já fala em McRural, querendo com isto significar que essa procura se dirige a um mundo mais ou menos estilizado que ofereça, a um tempo, ambiente não poluído, paisagem colorida, natureza florida, campos pouco intervencionados, produtos típicos, e, se possível, algumas manifestações tradicionais e autóctones ostentatórios da sua identidade e da sua diferença. Não importa muito se estamos na Baságueda, nos montes Cantábricos, na Aquitânia ou na Toscânia, importa é que os requisitos se verifiquem, daí o McRural. O caminho lógico para combater a homogeneidade desta procura só pode residir na diferença da oferta. E aqui, a questão que se coloca é se essa diferença deverá assentar no mundo rural que parece, ou no mundo rural que é (ou quer ser). A problemática do mundo rural está prenha.
(…)»
 Ler texto integral no Baságueda
Publicado por Fernando Delgado às 00:08
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Patilhar
Domingo, 29 de Março de 2009

Serviços dos ecossistemas florestais

«(...)

A espécie humana, apesar de resguardada pela cultura e pela tecnologia face a efeitos imediatos do ambiente, está, em última análise, dependente de uma série de serviços dos ecossistemas (Millenium Ecosystem Assessment, 2003). Neste contexto, os serviços dos ecossistemas não são mais do que os benefícios que as pessoas retiram dos ecossistemas, incluindo os serviços de fornecimento de bens, como alimentos, fibras e água; os serviços de regulação, por exemplo, do clima, das cheias, das doenças e da qualidade da água; os serviços culturais (imateriais), relacionados com experiências estéticas, espirituais ou recreativas; e, por último, os serviços de suporte, tais como os ciclos biogeoquímicos, a formação do solo ou a produção primária dos ecossistemas, os quais asseguram a estrutura ecossistémica necessária à prestação dos restantes serviços (Millenium Ecosystem Assessment 2003).
Os quatro tipos de serviços referidos são assegurados pelos funcionamento dos ecossistemas, o qual é movido a energia solar e depende de uma diversidade de componentes bióticas (biodiversidade) acumulada ao longo de milhares de milhões de anos de evolução. A biodiversidade é, assim, a pedra angular do edifício ecossistémico do qual flúem todos os serviços dos ecossistemas.
O Homem e o seu bem-estar têm sempre dependido de serviços dos ecossistemas. O que é relativamente novo é a aceleração da transformação dos ecossistemas pelas actividades humanas, sob pressão do crescimento demográfico, do aumento dos níveis de vida e da mudança dos padrões de consumo.
(...)
… a determinação das funções de produção dos serviços e a valoração económica dos mesmos permitem seleccionar a melhor opção de gestão para um determinado ecossistema (ver exemplo da bacia das montanhas Caiskill, Nova Iorque); ou seja, permitem identificar a opção que maximiza o bem-estar social possível naquele contexto ecológico e económico, mas não permitem geralmente, só por si, implementá-la.
Para compreender esta questão da implementação (ou da valorização), há que perceber primeiro porque é que as decisões dos agentes gestores conduzem geralmente a uma afectação não óptima dos serviços dos ecossistemas ou seja, há que analisar a falha de mercado.
(...)
Qualquer serviço dos ecossistemas florestais, seja ele a redução do risco de incêndio ou a mitigação das alterações climáticas, depende do estado do ecossistema florestal – por exemplo, a quantidade e tipo de biomassa acima e abaixo do solo, o teor de matéria orgânica do solo, ou a vulnerabilidade da paisagem ao fogo. Por sua vez, o estado do ecossistema florestal depende da gestão florestal (modelo de silvicultura), isto é: da escolha do tipo de povoamento e da espécie, do regime de desbastes e desramações, e do período de tempo até ao corte final.
Importa, pois, identificar as influências que conduzem o agente gestor nas escolhas conducentes ao modelo de gestão florestal adoptado (modelo de silvicultura). Neste sentido, é relevante notar que, geralmente, não existem mercados para muitos serviços dos ecossistemas florestais, embora existam mercados para alguns dos produtos lenhosos ou não, extraídos da floresta. Neste contexto o gestor da floresta toma as suas decisões essencialmente em função dos preços dos produtos florestais. Daí resulta um determinado estado do ecossistema florestal e, portanto, determinados níveis de serviços do ecossistema florestal (risco de incêndio, carbono sequestrado ou conservação da biodiversidade). Os níveis dos serviços são assim um efeito lateral de decisões de gestão tomadas em função de outros critérios. Portanto, só por acaso coincidirão com os níveis mais adequados à satisfação das necessidades humanas relevantes. O mercado falha assim em dar os sinais adequados aos gestores da floresta para que eles conduzam o ecossistema florestal de modo a que este forneça os níveis óptimos dos diversos serviços do ecossistema. Os economistas chamam a este tipo de fenómeno uma falha de mercado.
(...)
Que fazer, pois, quando não é possível criar mercados para os serviços ambientais. Existem duas alternativas: uma consiste em resignar-se com os níveis inadequados de serviços dos ecossistemas florestais que resultam da falha do mercado; a outra consiste em ver que, para além da "criação de mercados", o Estado continua a dispor de modalidades de intervenção, eventualmente mais tradicionais e menos inovadoras para corrigir a falha de mercado: a regulamentação, o ordenamento do território, as taxas verdes, os pagamentos públicos por serviços ambientais ou responsabilidade civil por danos ambientais.»
 
J. Lima Santos in Serviços dos ecossistemas florestais: produção, valoração e valorização
Floresta Viva. Património de Futuro. C. M. Proença-a-Nova. Centro Ciência Viva da Floresta.
Publicado por Fernando Delgado às 02:00
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Patilhar
Domingo, 7 de Setembro de 2008

Frádigas

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fradigas.jpg

Às vezes ainda me espanto com a natureza e com o que os homens fizeram dela. O rio de Alvôco da Serra corre entre vales profundos, serpenteando entre rochas e margens sem pé na encosta Oeste da Serra da Estrela, entre Alvôco e a Barriosa, perto de Vide. Há várias aldeias no seu percurso, mas é entre as Frádigas e a Barriosa que surgem umas "obras" estranhas, mas evidentes no seu objectivo.

Basicamente consistem no corte do rio, obrigando-o a seguir em frente e libertando-o de um braço, que assim fica disponível para a agricultura. As áreas roubadas ao leito do rio são obviamente pequenas, mas percebe-se a importância que tiveram para as populações locais, embora hoje estejam praticamente abandonados, mesmo que algum milho regional, algum feijão e algumas videiras teimem em evidenciar o que as encostas abruptas e recentamente ardidas parecem desmentir.
O ano, década, século destas “obras”, a que alguns chamam frádigas, nome da aldeia, é uma incógnita. Terão mais de duzentos anos, dizem-me, mas sim, sem dúvida, nada!
(Na imagem do Google Earth está desenhada a verde a área agrícola, onde corria o antigo leito do rio, agora obrigado a seguir em frente pela garganta rochosa, assinalada a vermelho. Na fotografia, referente a outra frádiga, próximo do viveiro de trutas, pode ver-se essa garganta rochosa e o antigo leito do rio com culturas agrícolas. Já agora, numa eventual visita - isto é publicidade -, vale a pena almoçar ou jantar no Guarda-Rios, um lagar transformado em restaurante, ali mesmo por baixo da frádiga, junto à Barriosa.)
 
Publicado por Fernando Delgado às 02:24
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Patilhar
Sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Biocombustíveis-2

(A edição de Novembro da National Geographic tem um artigo com interesse para uma compreensão genérica da problemática dos biocombustíveis. Aqui ficam algumas transcrições do texto, uma tabela com uma tentativa de sistematização da informação fornecida e um convite para a leitura integral na NG).
 
“Há um século, o primeiro automóvel de Henry Ford funcionava a álcool, enquanto Rudolf Diesel alimentava o motor baptizado com o seu nome a óleo de amendoim. Em brve, porém, os dois inventores descobriram que o óleo de rocha, quando ligeiramente refinado, proporcionava muito mais energia por litro do que o óleo vegetal ou o álcool e além disso era mais barato.
(…)
É fácil perder a fé nos biocombustíveis se a única solução ponderada for o etanol de milho. (…) Contrariamente ao milho, no qual o amido contido nos grãos precisa de ser decomposto em açúcar por meio de enzimas antes de fermentar, o caule de cana-do-açúcar já é, em si mesmo, 20 % de açúcar (…). A cana rende 5700 a 7600 litros de etanol por hectare – mais do dobro do milho.
(…)
O princípio subjacente ao etanol celulósico é simples, mas torná-lo barato como a gasolina não. Até ao momento, apenas um punhado de fábricas-piloto nos EUA, Canadá ,Suécia, Dinamarca e Espanha produzem etanol a partir de celulose. Uma das fábricas (…) tem capacidade para converter uma tonelada de biomassa em 265 litros de etanol, em cerca de uma semana.
(…)
Não existe nenhuma cultura mágica utilizável como combustível capaz de resolver os problemas energéticos sem prejudicar o ambiente, dizem praticamente todos os cientistas que estudam o assunto. Mas a maioria diz que as algas são as que mais se aproximam desse objectivo, uma vez que podem crescer em águas residuais, até mesmo na água do mar, e precisam de pouco mais do que luz solar e dióxido de carbono para se desenvolverem. (…) Algumas algas fabricam amido, que pode ser transformado em etanol; outras produzem minúsculas goats de óleo que podem gerar biodiesel ou mesmo combustível para aviões. E, em condições correctas, as algas conseguem duplicar de massa no prazo de poucas horas. Enquanto um ha de milho produz cerca de 2500 litros de etanol por ano e um ha de soja cerca de 560 litros de biodiesel, cada ha de algas pode, em teoria, render mais de 45000 litros de biocombustível por ano. O milho e a soja dão uma colheita por ano. As algas colhem-se todos os dias.”
Combustível
Situação actual
Custo de produção
Balanço energético*
Emissão de gases de estufa**
Etanol de milho
Quase todo o etanol dos EUA é destilado a partir de milho. A maior parte é vendida como aditivo para gasolina ou como E85 (85% de etanol, 15% de gasolina).
0,21 €/litro
(EUA)
1/1,3
- 21 % que gasolina
Etanol de cana-de-açúcar
No Brasil, a cana sacarina rende 5700 a 7600 litros por ha. O caule contém 205 de açúcar (fermentado para fabricar álcool) e os resíduos de cana podem ser queimados para fornecer energia à destilaria, baixando o consumo de combustíveis fósseis.
0,17 €/litro
(Brasil)
1/8
- 56 % que gasolina
Etanol celulósico
Pode ser obtido a partir de resíduos agrícolas (restos de culturas), resíduos florestais (pedaços de madeira, troncos, serradura), resíduos urbanso (lixo doméstico e produtos de papel), pata de papel e vegetação de crescimento rápido
-
1/2 a 36
- 91% que gasolina
Biodiesel de oleaginosas
A Alemanha é o principal produtor mundial, utilizando óleo de colza. Podem ser utilizadas outras oleaginosas como a soja, o girassol ou a palma
-
1/2,5
- 68 % que gasóleo
* Energia em combustível fóssil usada para produzir o combustível/energia do combustível
** Produção e uso
Notas: O conteúdo energético do etanol relativamente à gasolina é de 67 % e o do biodiesel relativamente ao gasóleo é de 86 %.
Publicado por Fernando Delgado às 00:35
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Patilhar
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Biocombustíveis-1

A propósito da notícia no Público Biocombustíveis podem ser piores para o clima do que o petróleo, cujo texto se transcreve, vale a pena ir lendo alguma coisa sobre esta matéria...  É que as coisas nunca são tão evidentes como parecem... Porque não começar por aqui..., ou por aqui...
 
"As dúvidas sobre o impacto positivo do uso de biocombustíveis crescem a cada dia que passa. Acusados de destruir as florestas tropicais e de contribuir para o aumento do preço dos alimentos, agora é a sua própria razão de ser que é posta em causa. Um estudo do Prémio Nobel da Química, Paul J. Crutzen, indica que estes podem ser piores para o clima do que os combustíveis fósseis.
A acusação não é nova. Já muitos fizeram as contas à energia gasta para os produzir, comparando-a com aquela que geram, concluindo que, nalguns casos, o balanço era negativo. Desta vez, Crutzen, do Instituto Max Planck de Química (Alemanha), com colegas americanos, austríacos e britânicos, avança que o óxido nitroso libertado pelo uso de fertilizantes nas culturas energéticas tem piores efeitos que os gases emitidos pelo uso de petróleo.
Segundo o estudo, publicado na revista Atmospheric Chemistry and Physics, a colza, muito usada na Europa para o biodiesel, e o milho, que nos EUA está na base do etanol, produzem entre 50 a 70 por cento mais gases com efeito de estufa do que os combustíveis fósseis. Isto por causa das emissões de óxido nitroso - um subproduto dos fertilizantes à base de nitrogénio usados na agricultura -, que tem 296 vezes mais potencial de aquecimento global que o dióxido de carbono.
A investigação liderada por Crutzen chega a resultados três a cinco vezes mais graves do que anteriores análises de ciclo de vida feitas sobre os biocombustíveis. Isto sem terem incluído nas contas a energia gasta para transformar os materiais agrícolas em combustíveis, sublinham os autores, que podem ainda tornar mais evidentes os efeitos negativos do seu uso.
De todos os materiais agrícolas usados na produção de biocombustíveis, o que continua a surgir como o que oferece mais benefícios é a cana-de-açúcar. Mas como estas culturas estão situadas nos trópicos, crescem os receios sobre o seu impacto em relação às florestas. Mesmo que não sejam as causadoras directas da destruição, são acusadas de, na ânsia de procurar novos terrenos, empurrar outras culturas, como a soja e as pastagens, para dentro da mancha verde.
Os autores aconselham a mais estudos sobre o ciclo de vida dos biocombustíveis e defendem que os cientistas e os agricultores devem apostar em culturas e métodos de cultivo menos intensivos. Mas, neste momento, tal como está a ser produzido, "o etanol feito a partir do milho não passa de um exercício inútil", disse um dos autores, Keith Smith, à Reuters.
A febre do etanol nos EUA está a atingir o seu pico, relata o New York Times. A corrida, com preços nunca vistos do milho e o aumento do preço dos alimentos, provocou excesso de oferta, que não encontra escoamento e está a pressionar os preços em baixa. O ritmo a que foram construídas as destilarias não foi acompanhado pela distribuição e a abundância de etanol no mercado assusta os investidores. O problema é que este biocombustível é corrosivo e permeável à água e impurezas, pelo que não pode ser distribuído pela rede de oleodutos, o que satura os outros meios de transporte, inundados pelo novo produto."
Publicado por Fernando Delgado às 00:03
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Terça-feira, 14 de Novembro de 2006

Pequenos mundos...

(Parque Natural do Alvão)

Publicado por Fernando Delgado às 00:56
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Patilhar
Sábado, 4 de Novembro de 2006

Pequenos mundos...

“(…)
Cada pessoa não está só ligada aos outros, à terra, e àquilo que a transcende. Cada um de nós constrói consigo mesmo uma relação. Falamos silenciosamente para os nossos próprios botões. Ouvimos depois as suas réplicas. E vemo-nos através das perguntas que lançamos à terra, aos céus, aos infernos. E vemo-nos ainda através do modo como os olhos dos outros nos vêem. O mesmo sucede, claro, com os agricultores que perguntam: entre o ontem e o amanhã, onde estou? o que se passa e passará à minha volta? o que fui? o que sou? o que serei?
Dos campos, das estradas cortadas, e das manifestações de rua colhemos a impressão que muitos agricultores estão perplexos e confusos com o que se passa à sua volta. Não sabem onde estão. O mundo está hoje mais complexo e incerto. Ventos de fora, de longe, fustigam-lhes a casa, os campos, e há forças misteriosas e incontroláveis a determinar absurdos. Por exemplo, a simulação do cultivo agrícola: semear, receber o subsídio, mas não colher, ou colher aqui para enterrar acolá, quando mais além há fome. Para além das flutuações e riscos dos ciclos biológicos e dos mercados agrícolas, os produtores têm agora de lidar com os altos e baixos, mais os imprevistos, dos ciclos das políticas comunitárias e nacionais.
(…)
Olhando o espelho cada agricultor vê-se com pele mudada, ou com mais camadas de epiderme. Já não é mais, e só, um cultivador do solo, um zelador de culturas, um tratador de animais, um vendedor de alimentos. Em pouco mais, de uma década, o agricultor apostado em sobreviver teve de passar a vestir o fato curto e apertado do burocrata. Teve de se tornar tele-ouvinte atento e bem informado, leitor de regulamentos, apresentador de projectos (estes têm de ser tidos como viáveis), gestor de pilhas de papéis e impressos, especialista em relações públicas (lidar com o INGA, o IFADAP, a banca é preciso), e um recebedor de subsídios. Face ao exterior, ou melhor, a gabinetes muito distantes e sem rosto, multiplicou os papéis. Multiplicou também os riscos de incompreensão, dependência, vulnerabilidade e endividamento. O agricultor honesto sente-se constrangido pelo que vem de fora. Inquieto e inseguro pelo que lhe chega de dentro de si. Desagradado, ou, quiçá, humilhado com a imagem que os olhares dos outros reflectem. No fundo da alma está a novidade e, quiçá, a perversidade da subsídio-dependência.
(…)”
José Portela, in “O Meio Rural em Portugal: entre o ontem e o amanhã”. Comunicação apresentada no Seminário Internacional A Revitalização do Mundo Rural e o Ordenamento do Território. 1997.
Publicado por Fernando Delgado às 23:55
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Patilhar
Quarta-feira, 25 de Outubro de 2006

Fogos

(Na busca de outras coisas – à procura da 'ecologia da paisagem', que não é propriamente outra coisa… - encontrei este texto de Henrique Pereira dos Santos, de Agosto de 2005, que aqui reproduzo. Sei que estamos quase no Inverno, a “malhar em ferro frio”, mas vale a pena ler com atenção…)
 
“Falar de fogos no Verão nunca é grande ideia, é como decidir de cabeça quente. Falar de fogos no Inverno não é muito eficaz, é como malhar em ferro frio. Como o tolo na ponte sem saber para que lado ir, pensei ficar calado. Mas fui visitar áreas do Pinhal Interior que arderam em 2003. Já no ano passado as tinha visitado em Maio, não como os condutores que abrandam para ver os desastres dos outros ou os jornalistas que procuram sangue, escândalo, lágrimas e miséria em cada época de fogos, mas à procura de sinais de vida depois da primeira Primavera passar. Já anunciados em 2004 e claramente visíveis em 2005, vi sinais de vida na recuperação de que poderia vir aqui dar testemunho, falando das ervas, dos matos, do grau de cobertura do solo, da resistência do sistema às desgraças sempre anunciadas da erosão e empobrecimento. E poderia ainda dar testemunho das intervenções que vão aparecendo aqui e ali, sobretudo florestações pesadas de eucalipto, opção racional do ponto de vista do dono do terreno convencido da sua vocação florestal: florestar com uma espécie que produza antes que arda. Mas prefiro procurar perceber o que continua a ser para mim um mistério: por que razão se considera ser do âmbito florestal a questão dos fogos? Por que razão quando arderam 400 000 ha de território, se criou um fundo florestal e não um fundo rural?
O que vi não foi nenhum território de vocação florestal, mesmo que um dia tivesse sido a maior mancha contínua de pinheiro bravo da Europa e se chame "pinhal interior". O que vi foi um território, uma paisagem, um espaço sem vocação, sem destino, sem Norte. O que vi foi a vitalidade de uma paisagem que insiste em recuperar com as urzes, os medronhos, as giestas, as carquejas, as herbáceas anuais e uma intervenção que insiste na fatalidade de uma florestação tornada evidente por falta de comparência da mínima ideia coerente sobre o mundo rural. O que fazer com aquele espaço difícil, sem água e sem solo, naturalmente marginal para as produções agrícolas mais ricas?
Talvez valha a pena olhar um bocadinho para trás, perceber que o pinhal não predominava ainda há menos de cem anos, vale a pena perceber que a ocupação daquele território se fez a partir de umas hortitas no fundo dos vales e de cabras e cabras pelos montes acima, rapando tudo, apagando a importância natural do sobreiro na região. O pinheiro foi a forma encontrada para ocupar o espaço deixado vago pela emigração maciça dos que fugiam da fome e da miséria de uma economia da cabra, suportada na utilização sistemática do fogo de elevada frequência característica da pastorícia de percurso, deixando para trás um território cansado e sem capacidade produtiva. Esta florestação à base de pinheiro, que claramente não contou com os efeitos de longo prazo do abandono agrícola, foi acompanhada de um programa de correcção torrencial ainda hoje com testemunhos muito interessantes no terreno, e outras medidas de gestão territorial, admitindo que a floresta poderia suportar uma economia alternativa à da cabra e recuperar os solos.
Os limites desta opção são agora bem evidentes na violência dos fogos que vemos. Mais esforço neste caminho, trará mais de resultados que conhecemos: alguma riqueza criada pelo sector florestal, custos elevadíssimos, económicos e sociais, provocados pela necessidade de defesa em relação ao fogo.
Haverá alternativa? Talvez sim, mas implica tomar decisões agora, muitas delas bem fora da esfera das políticas florestais. Implica pensar que território alternativo poderemos ter naqueles quase ermos que pouca gente em Portugal conhece sem ser pelos nomes dos incêndios. Implica admitir que a gestão do fogo é um problema de gestão de paisagem, que o fogo é um dos modeladores das nossas paisagens, como são a agricultura, a pastorícia, a floresta, as infra-estruturas, etc. Quando um qualquer serviço público que trata de agricultura entende que os regulamentos comunitários não nos permitem apoiar a pastorícia de percurso nos locais e com a intensidade que a gestão do fogo ou a conservação de natureza exigirem, apesar dos espanhóis com os mesmos regulamentos o fazerem, não é apenas um problema de afectação dos recursos da PAC que está em causa, é todo um conceito de gestão de paisagem que é posto em causa. Ou de maneira mais geral, enquanto os recursos da política agrícola forem vistos apenas como instrumentos de gestão da produção agrícola e não também como instrumentos de modelação do território que queremos, enquanto o problema dos fogos for visto apenas como uma questão florestal e de produtividade da floresta ou de protecção de pessoas e bens e não também como uma componente do mundo rural que construímos, dificilmente haverá futuro para os nossas áreas mais marginais se não o de manterem um padrão de fogo crescentemente consumidor de recursos, sem contrapartidas positivas visíveis para as economias locais e nacional.
Partamos da ideia de recuperação territorial que estava subjacente ao programa de controlo torrencial executado pelos serviços florestais no hoje chamado pinhal interior. Redesenhemos as funções do território, começando por centrar todo o esforço de recuperação dos solos e da vegetação onde é mais fácil, no fundo dos vales, incluindo aqui todas as pequenas depressões em que só corre água quando chove.
É bem possível que num prazo relativamente curto consigamos um objectivo central: aumentar a diversidade paisagística, com a consequente valorização cénica da paisagem e aumento da diversidade biológica e desencadeando um processo de recuperação que se irá estendendo das áreas mais favoráveis para as áreas mais inóspitas. Se simultaneamente apoiarmos uma nova pastorícia de menor intensidade, usando o território numa lógica de gestão do fogo e não na lógica ancestral de alimentar o maior número de pessoas, se apoiarmos uma gestão florestal já não exclusivamente assente na ideia de vocação florestal do território, mas com objectivos de produção, incluindo o eucalipto, em algumas áreas, e objectivos de conservação e diversificação noutras, tirando partindo da excelente regeneração natural do sobreiro e do medronho, teremos definido um caminho mais sustentável.
E a prazo, talvez mais curto do que seria de supor, é bem possível que tenhamos resultado económicos bem interessantes: na valorização turística, actualmente fortemente limitada pela monotonia paisagística existente, na valorização do medronho e do sobreiro e, provavelmente o mais interessante no curto prazo, na possibilidade de ter resultados interessantes com a exploração cinegética. E, no que aos fogos diz respeito, ouviremos com certeza falar deles, mas provavelmente numa escala já socialmente aceitável.”
Publicado por Fernando Delgado às 00:09
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Domingo, 23 de Abril de 2006

Inovação

"(...) Importa desfazer alguns equívocos relacionados com o conceito de inovação. Inovação não deve ser confundida com: (i) alta tecnologia, dado que  uma inovação nem sempre advém do recurso às novas tecnologias e pode ser um simples produto novo, vendável, resultante da utilização de tecnologias tradicionais; (ii) investigação e desenvolvimento (I&D), porque esta actividade, conceptualizando o modelo de geração da inovação pelo lado da oferta, é apenas uma fase do processo, encontrando-se a montante da inovação que supõe implantação no mercado; (iii) invenção, uma vez que esta é apenas uma idéia nova que requer posterior transformação em novo produto ou processo e o seu casamento com o mercado.
(...) Há, portanto, que salientar que a invenção decorre de um processo altamente criativo, dependendo, crescentemente das actividades de I&D, podendo no entanto existir sem qualquer vínculo a laboratório ou centro de I&D. A inovação segue, contudo, de um modo geral, uma tramitação económica, cujo conceito sugere que se trata da entrada da invenção no mercado. Quando se dá a primeira transação comercial concretiza-se a inovação, ou seja, só se verifica a inovação quando um novo produto ou processo é comercializado. (...)"
Maria João Simões in Dinâmicas de Inovação em Territórios de Baixa Densidade
Publicado por Fernando Delgado às 02:30
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Patilhar
Segunda-feira, 10 de Abril de 2006

Ruralidades

 "A manutenção da actividade agrícola não garante a viabilidade da comunidade rural, uma vez que a agricultura pode realizar-se desligada da comunidade local. Da mesma forma, o abandono agrícola não implica necessariamente o abandono da terra ou das áreas rurais. Da terra, porque outros usos não agrícolas podem ocupá-la. Das áreas rurais, porque a sua dinâmica pode basear-se noutras actividades que não a agricultura. A forma como a agricultura interage, ou poderá interagir, no conjunto do rural, prende-se assim com uma dimensão de uso do solo e construção da paisagem, mas também com uma dimensão económica e uma dimensão social, que podem não ser convergentes. (…) 

Os desafios da multifuncionalidade do território rural, levantam novas exigências, assim como novas oportunidades ao sector agrícola – que podem significar a sua sobrevivência, em algumas áreas, embora com outras funções que não a produtiva. Por funções entendem-se a utilização e capacidade de resposta de um território, ou paisagem, face às necessidades, procuras e objectivos da comunidade humana num sentido lato. Estas funções podem corresponder a bens, que podem ser retirados, ou ser considerados removíveis, ou serviços, que não o são, e portanto cuja utilização tem que ser local. Por multifuncionalidade entende-se a integração de várias funções no mesmo espaço e no mesmo tempo, a uma escala determinada. (…).
Todas as paisagens ou unidades espaciais são multifuncionais, mas o grau de multifuncionalidade pode ser muito variável, uma vez que a vocação por uma ou várias funções é altamente contextualizada – nem todas as unidades espaciais têm capacidade ou vocação para assegurar todas as funções. (…) Ou seja, pretende-se compreender não o sector agrícola em si, mas o sector agrícola na sua interligação com a paisagem e a sociedade no espaço rural. Esta abordagem, onde o território é uma categoria central, considera na realidade o espaço como um ponto de encontro entre a agricultura e a sociedade em geral. Assumindo que as áreas rurais deixaram de estar automaticamente ancoradas ao sector agrícola, mas cada vez mais representam realidades múltiplas, nas quais a agricultura tem que co-existir com outros usos do solo e outros interesses, torna-se necessário desenvolver novas abordagens (...)".
in "Estudo sobre o Abandono em Portugal Continental. Análise das Dinâmicas da Ocupação do Solo, do Sector Agrícola e da Comunidade Rural". Teresa Pinto Correia e colaboradores. Universidade de Évora, 2006".
Publicado por Fernando Delgado às 01:15
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Patilhar
Sexta-feira, 24 de Março de 2006

Sustentabilidade

“(…) O conceito de sustentabilidade surgiu e divulgou-se a nível mundial em iniciativas e relatórios, promovidos pelas Nações Unidas e outras organizações internacionais – World Conservation Strategy (1981), Brutland Report (1987), Carring for da Earth (1992), Conferência do Rio (1992) -, como resposta ao modo considerado insustentável, excessivo e com desperdício, como o ambiente e os recursos naturais vinham sendo utilizados. Desenvolvimento sustentável, segundo Brutland Report (1987), será o desenvolvimento que vai de encontro às necessidades do presente sem comprometer a habilidade das gerações futuras para ir de encontro às suas próprias necessidades.
 
Lowe (1998) defende, por sua vez, que o conceito de sustentabilidade deseja não só estabelecer a ponte entre o desenvolvimento económico e protecção ambiental, mas também abarcar a viabilidade dos espaços sociais locais, para os quais a manutenção de ambos, a actividade económica e o ambiente, são cruciais. Caso particular dos espaços sociais rurais. Nesta óptica, o ambiente e o meio natural deixaram de ser considerados apenas em termos de limitações que era necessário colocar ao uso excessivo e com desperdício dos recursos, para passarem a serem tomados também como um atributo, um atributo específico de um território sobre o qual é possível fundar estratégias de valorização e desenvolvimento económico e social. O ambiente passou a ser tomado como um quadro físico de vida das populações.
 
(…) Daqui decorrem novas dimensões para o conceito de sustentabilidade que se podem sintetizar na resposta às questões: que escolhas e que tipo de cálculos introduz a sustentabilidade no processo de desenvolvimento? A resposta envolve duas componentes: a primeira, é que a sustentabilidade tornou necessária a introdução de questões ambientais na elaboração da política económica, reconhecendo o facto que a qualidade ambiental é uma componente chave do bem estar humano; a segunda, decorrente da primeira, é que a sustentabilidade introduz a questão das prioridades sociais do desenvolvimento económico, as consequências distributivas do desenvolvimento.
 
Sustentabilidade implica assim um compromisso com uma distribuição mais justa da riqueza e dos recursos dentro da geração presente (equidade intrageracional) e com a conservação dos recursos para o uso das futuras gerações (equidade intergeracional).
(…)”
 
J. F. Ferragolo da Veiga, in Território e Desenvolvimento Local
Publicado por Fernando Delgado às 00:03
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

Miguel Sousa Tavares

(Com a devida vénia - nem sei se isto se pode fazer... - aqui fica um texto que poderia e deveria ser enviado a todos os Presidentes de Câmara e de Junta de Freguesia do País. É de uma simplicidade tão grande que o próprio autor acha que pode ser “absurdo”, embora me pareça que este “absurdo” não passa de uma desculpa face a alguns leitores: “desculpem lá, apeteceu-me dizer isto!”. Por mim, que por obrigação profissional tenho que pensar nestas coisas, vou lembrar-me sempre deste exemplo, e, sempre que puder, vou atirá-lo à cara de alguns autarcas, especialistas em rotundas, fachadas com triângulos coloridos e outras coisas estranhamente geométricas... E que simples seria “fazer” um mercado de Campo de Ourique na maioria das cidades deste país...)
 
 “Viva Campo de Ourique
Tarde na manhã de sábado vou ao mercado de Campo de Ourique, um quadrado ocupando todo um quarteirão e com entradas por cada um dos lados dos pontos cardeais. Cheira a fruta e a legumes, ainda orvalhados da terra, cheira a cebolas, a coentros, a maçãs e a laranjas: nenhum supermercado cheira assim. Uma peça de fruta nunca é igual à outra, há que escolhê-las uma a uma, porque algumas têm bicho e outras não, algumas estão maduras de mais e outras ainda verdes. Saboreio este prazer de escolher peça a peça a fruta e os legumes, as saladas e os temperos, sem ter de levar, e sem poder escolher, embalagens já prontas de fruta asséptica e normalizada, legumes de sabor sempre igual trazidos de Espanha em camiões TIR pelas auto-estradas que construímos para lhes facilitar a vida. Aqui, até há pêras de Alcobaça, grandes e castanhas, em que se tem de pegar delicadamente para que o seu sumo não escorra pelas mãos, há tangerinas e laranjas que não vêm de Israel já com o selo colado na casca, mas dos pomares que ainda restam à volta de Lisboa, há uvas tardias, mas moscatel ou D. Maria genuínas, e não aquelas uvas monstruosas e que não sabem rigorosamente a nada, que vêm da África do Sul e que encontramos inevitavelmente, como sinal de boas-vindas nos quartos de hotel em qualquer paragem do mundo. E há frutos secos a granel e a peso: figos, passas castanhas, ameixas, amendoins, pinhões, nozes. E azeitonas verdadeiras e tremoços, meu Deus!
Depois vou até às bancas de mármore das peixeiras, onde o peixe vindo de madrugada de Sesimbra ou de Peniche brilha com uma humidade prateada, misturada com uma quase imperceptível camada de gordura ainda à flor da pele, sinal iniludível da frescura do dia. O sol da manhã de Outono entra disfarçado pelas janelas altas do mercado e reflecte-se nos olhos dos peixes, que repousam nas bancas como se ainda estivessem vivos. E eis o peixe mais fantástico do mundo, esse verdadeiro luxo que ainda nos resta: pregados, linguados, imperadores, salmonetes, besugos, carapau francês, peixe-galo, garoupa, cherne, lulas e choquinhos com tinta: tenho pena do resto do mundo dito civilizado, onde nem se quer se conhecem os peixes pelo nome!
Um bairro para viver tem de começar assim: com um mercado que é uma festa para os sentidos, um regresso aos sabores e aos cheiros que nos educaram. Campo de Ourique começa assim e continua depois, com tudo aquilo que faz deste bairro quase um milagre de espaço urbano perfeito: ruas largas, onde se passeiam casais, carrinhos de crianças e empregados no intervalo do almoço; comércio tradicional e personalizado, com algumas lojas ainda conhecidas pelo nome dos donos – a florista, o cabeleireiro, a loja de comida feita, o electricista, o oculista, a loja de ferragens, a papelaria-tabacaria, a casa das fechaduras, a loja de surf; e os cafés, com esplanadas conquistadas ao passeio e ao Millenium-BCP, com os seus quiosques de jornais cujos donos nos conhecem já tão bem que os dias nem sequer começariam sem o bom-dia deles. Campo de Ourique tem tudo isso, mais o jardim central, os seus pequenos restaurantes de culto, os seus excêntricos ou loucos já familiares a todos. Outras coisas felizmente não tem e muito do prazer de andar nestas ruas deve-se a essas ausências: prédios em altura e de fachadas preconceituosas, porteiros e seguranças de prédios, polícias de trânsito a tentar tornar a vida impossível. Aqui funciona como que uma auto-regulação da via pública, com um sentido natural de comunidade, em que ninguém se mete com os outros e toda a autoridade se torna dispicienda graças ao respeito mútuo pela liberdade de cada um. O melhor exemplo deste espírito de liberdade e tolerância mútua que aqui presenciei é um exemplo muito politicamente incorrecto, ocorrido manhã cedo, no café onde sempre tomo o pequeno-almoço. Uma senhora, cliente habitual, pediu um café e acendeu um cigarro. Nesta altura, um sujeito que eu nunca ali tinha visto e nunca voltei a ver, empertigou-se todo e, rico de novos conhecimentos adquiridos, interpelou-a: “Minha senhora, o cheiro do seu cigarro está-me a incomodar! E ela, sem sequer se voltar, soltou de lado, mas alto e bom som: “Olhe, também o seu cheiro me está a incomodar, mas eu não lhe ia dizer nada”. E o intruso saiu, de rabo entre as pernas e perante os sorrisos cúmplices dos habituées (oh, eu sei, um bando de selvagens!).
Pensando na explosão de ódio e de revolta que agora se vive à volta das cidades francesas, naquelas comunidades inteiras de populações imigrantes que não se sentem ligadas cultural e afectivamente aos locais onde vivem, que vêem o bairro como uma prisão e a rua como um terreno de confronto, dou-me conta até que ponto Campo de Ourique (não sei se por gestação espontânea, se porque alguém planeou e previu bem as coisas) é um bairro modelar, em termos de integração social interclassista e intergeracional, de justo equilíbrio entre comércio, serviços e habitação, entre espaços públicos e privados. E, afinal, este tão raro exemplo de harmonia e qualidade de vida urbana não precisa de nenhuma grande construção de referência, nenhuma urbanização de encher o olho, nenhum centro comercial (antes pelo contrário, o segredo é não o ter), nenhuma piscina municipal nem pavilhão gimnodesportivo, nenhuma rotunda com canteiros e estátuas pseudomodernas, enfim, nada que encha o olho e que mostre dinheiros públicos ou fortunas privadas. Apenas bom senso, sentido de equilíbrio e proporção humana. Depois, as pessoas fazem o resto: andam na rua sem pressa nem atropelos, param para conversar à porta das lojas, saúdam-se nas esquinas, passeiam as crianças, os velhos ou os cães, namoram ou lêem o jornal nas esplanadas, almoçam a horas certas na sua mesa de sempre dos seus pequenos restaurantes, numa palavra, vivem a cidade, não se limitam a sofrê-la ou a passar por ela. Certamente que aqui também há gente triste, sozinha, com vidas terríveis. Mas, pelo menos, a rua não os agride: conforta-os, distrai-os e, acima de tudo, dá-lhes um sentido de pertença a uma comunidade - que hoje é coisa tão rara e tão precisa numa cidade, como são o peixe, a fruta e os legumes do Mercado de Campo de Ourique.
Sei que este texto pode parecer um bocado absurdo, no meio desta eterna agitação em que vivemos. Mas trata-se de uma dívida de gratidão com o “meu” bairro, que eu precisava de saldar um dia. E também, já agora e aproveitando a oportunidade, trata-se igualmente de um apelo que faço a quem manda e a quem pode: por favor, não estraguem Campo de Ourique! Não é preciso muito: basta não fazerem nada.”
 
Miguel Sousa Tavares, Público, 11.11.2005
Publicado por Fernando Delgado às 00:30
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Quinta-feira, 4 de Agosto de 2005

Emparcelamento

Ainda o emparcelamento


«[...]

A primeira questão prende-se com o objectivo que se deve atribuir ao emparcelamento, discussão que condiciona as restantes. Posto de outra forma, o emparcelamento serve prioritariamente uma estratégia de modernização dos sectores mais competitivos da agricultura portuguesa ou deve procurar ser um instrumento de gestão do território, como sugerido pelo conceito de 'emparcelamento rural integrado'? Naturalmente a resposta a esta questão não pode deixar de ter em conta o elevado custo destas operações, que as tornaram dependentes da disponibilidade de verbas nos sucessivos QCA, nem a sua longa duração (em nenhuma das operações iniciadas no início da década de 90 se chegou ainda ao fim da fase de elaboração de projecto), bem como o facto da agricultura portuguesa não ter ultrapassado ainda os seus problemas de ajustamento estrutural. Dentro deste contexto, não parece possível continuar a defender uma política que considera desejável a realização do emparcelamento em todo o território, aparentemente sem grande critério na selecção das áreas a emparcelar. Levanta-se, em consequência, a segunda questão: como fazer a selecção dessas mesmas áreas? Este é, como se compreende, um aspecto central de qualquer processo que pretenda devolver algum sentido à política de emparcelamento, entendida como parte de uma política agrícola nacional. A resposta a esta pergunta relaciona-se, de forma próxima, com a de outras, a saber: qual a importância da redução da dispersão da propriedade para o funcionamento da exploração agrícola e quais podem ser as alternativas ao emparcelamento? Em relação à primeira destas questões (...), bastaria prestar mais atenção ao retrato da realidade fornecido por alguns estudos prévios, onde se demonstra como à reduzida dimensão da propriedade não corresponde uma reduzida dimensão da exploração: existe um mercado de arrendamento de terra, que muitas vezes não cumpre os requisitos formais, mas que funciona e permite solucionar alguns dos problemas que a reduzida dimensão da propriedade poderia colocar. Se tal solução se fez à custa de uma maior dispersão das parcelas, tal apenas demonstra que este não é o problema central para o funcionamento das explorações. (...) à segunda destas questões há que prestar atenção a um vício de linguagem (...): o de equiparar o termo emparcelamento com o que a actual legislação designa como emparcelamento integral, isto é, com um processo de troca de terras num perímetro bem delimitado. Este equívoco leva, naturalmente, a menorizar a importância de todas as outras modalidades de emparcelamento, o que conduziu ao seu total esquecimento (...). A este respeito parece necessário reafirmar a importância das iniciativas de emparcelamento que privilegiaram o funcionamento da exploração, em detrimento da exclusividade dispensada às trocas de propriedade.[...]»



Paulo Santos in Aspirações e Realidades do Emparcelamento em Portugal
Publicado por Fernando Delgado às 17:04
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Terça-feira, 12 de Julho de 2005

Outros Olhares

Pic9050.jpg

("Refugiados" no Tejo Internacional.)
Publicado por Fernando Delgado às 01:52
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Segunda-feira, 11 de Julho de 2005

Ruralidades

Olhemos para o fenómeno mais visto neste quotidiano de Julho: os incêndios. Qual é o ponto de partida? Não sei, mas excluo, porque não me interessa, o aspecto mediático da questão. Vamos ao que me parece essencial, ao ponto de partida, às políticas rurais do Estado Novo, às migrações das décadas de 60 e 70 e às políticas erráticas das últimas três décadas. Estamos a falar de um período muito longo que é o que mais me assusta em tudo isto. Assusta porque demonstra que os desequilíbrios levam muito tempo a consolidarem-se e a revelarem as suas consequências e, mais dramático, os "novos" equilibrios levarão ainda mais tempo a emergirem deste "caldo" instável. Este é um período de caos, em que a previsibilidade relativamente ao que acontecerá ao mundo rural é quase nula. Depende do ponto de partida e este é fluído, reflecte apenas as contradições do passado e as incertezas do presente. Mas há duas notas de optimismo em tudo isto. A primeira exprime a convicção de que o rural é o único sistema que se consegue autoregular à revelia do "regulador". Demora é demasiado tempo a "revoltar-se". O segundo traduz a vontade de participar nesse sistema de autoregulação, mesmo sabendo que o meu tempo de acção é ínfimo, quase nada. Por muito que a afirmação seja chocante, este inferno de chamas faz parte deste longo percurso. Triste e inevitável, apesar de imprevisível. O surgimento de novos equilíbrios depende de uma gestação longa e conturbada, que não exclui a acção quotidiana, mas claramente a limita à sua verdadeira dimensão.
(Embora não o diga, talvez por medo de assumir o pessimismo que o pensamento em si encerra, recorro muitas vezes ao princípio da incerteza e à teoria do caos para justificar algumas das perplexidades que o meu olhar distraído vorazmente capta de alguns fenómenos que aparentemente se repetem. Não se trata de acreditar ou não na capacidade da ciência e dos homens para explicar e resolver os fenómenos. Trata-se tão só de admitir que, apesar da matemática, da física, da biologia, dos computadores..., do dinheiro, a previsibilidade tem limites, isto é, o futuro depende do ponto de partida e este foi ignorado ou é incerto, e a capacidade de detectar e alterar o rumo das coisas encerra sempre uma enorme probabilidade de erro).
Publicado por Fernando Delgado às 23:53
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Quinta-feira, 30 de Junho de 2005

Emparcelamento

Pic0088.jpg 

O mito do emparcelamento
"Pode-se, assim, afirmar que, na generalidade das situações que caracterizam actualmente a pequena agricultura em Portugal, o recurso ao emparcelamento não constitui um factor determinante para o aumento da competitividade agrícola deste tipo de explorações agrícolas, sendo muito pouco provável que os reduzidos benefícios económicos alcançados compensem os relativamente elevados custos económicos normalmente associados com as operações de emparcelamento. (...)
Na situação mais usual das pequenas explorações agrícolas familiares (sobrequipamento e subemprego), os ganhos económicos alcançáveis com o aumento da área das explorações agrícolas são significativamente superiores aos esperados com o respectivo emparcelamento, mesmo que tal crescimento na dimensão implique uma maior fragmentação da exploração. Justifica-se, portanto, em nosso entender, que as políticas em vigor que condicionam os incentivos ao aumento da área das explorações à verificação de condições favoráveis no contexto do respectivo emparcelamento, deverão ser alteradas. (...) O aumento da área das explorações deverá ser incentivado através de alterações nas políticas fundiárias e de crédito de forma a eliminar exigências relacionadas, quer com a dimensão mínima das parcelas, quer com a sua contiguidade.(...)"
 Avillez, F; Nina Jorge, M. "Algumas reflexões sobre a racionalidade económica das políticas de emparcelamento da propriedade rústica em Portugal" in Terra e Tecnologia, Século e Meio de Debates e Políticas de Emparcelamento.
Publicado por Fernando Delgado às 23:44
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Terça-feira, 28 de Junho de 2005

Ruralidades

"Metade de uma aldeia da Guarda está à venda na Internet
Amadeu Eiras está a leiloar nove casas de granito. Comprou-as para um projecto turístico, mas os apoios não apareceram. A base de licitação vai nos 121 mil euros. Tudo porque Amadeu Eiras decidiu alienar nove casas pelo melhor preço. O lugar chama-se Gonçalveiros e fica perdido entre as freguesias do Codeceiro e Guilhafonso. "Aldeia calma com dois habitantes, a dez quilómetros da Guarda", publicita o site de leilões onde o proprietário procura compradores. Gonçalveiros é hoje um cenário de casas abandonadas, muitas delas em ruína. Nas ruelas, as pessoas foram substituídas pelas ervas daninhas e o mato, que vai tomando conta de uma localidade esquecida no final de um caminho sinuoso e de terra batida. Mas era a "aldeia dos sonhos" de Amadeu Eiras, que a descobriu por acaso e foi comprando casas para concretizar um pequeno aldeamento de turismo rural. Só que as "rasteiras da vida" e a crise puseram termo à iniciativa, apesar de, entretanto, ter tirado um curso de gestão hoteleira. "O investimento é muito avultado e não consigo suportá-lo sozinho, mas é com o coração despedaçado que me vejo na obrigação de me desfazer destas casas", lamenta-se, considerando que os projectos turísticos "já não são apoiados como antigamente". A ideia do leilão na Internet surgiu depois de ver uma reportagem sobre um grupo alemão que comprou uma aldeia portuguesa. Um amigo fez o resto e colocou as casas de Gonçalveiros na net, onde a base de licitação vai nos 121 mil euros. Apesar de já ter recebido algumas propostas, Amadeu Eiras ainda não concretizou o negócio. "Todos querem comprar individualmente, só que eu não vendo em separado porque o conjunto está vocacionado para o aldeamento turístico. Para além de que assim desprendo-me logo de tudo", explica. O negócio implica nove casas de granito, de várias dimensões, que necessitam de reparações, e a antiga propriedade do senhorio da aldeia. Mas também um terreno com cerca de 10 hectares para onde Amadeu Eiras tinha idealizado um campo de golfe e uma piscina. Dez quilómetros separam Gonçalveiros da capital do distrito. O acesso faz-se pela EN 221 (Guarda-Pinhel) e vira-se em Guilhafonso. Depois segue-se por uma estrada em terra batida..."
(Jornal de Notícias, 28-06-2005)
Publicado por Fernando Delgado às 10:25
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Sexta-feira, 24 de Junho de 2005

Ruralidades

Pic1092.jpg

As opções político-institucionais têm uma clara influência nas dinâmicas dos espaços rurais e consequentemente no seu futuro, mesmo que aparentemente se restrinjam a aspectos de natureza mais sectorial. Por exemplo a recente reforma da PAC é frequentemente alvo de críticas muito profundas, com o argumento de que o desligamento das ajudas promove o abandono agrícola. Sendo a agricultura uma essência dos espaços rurais, tudo indica que estamos de facto perante um incentivo político-institucional a um processo que, só por si, já tinha tendências de seguir este rumo, alterando-se assim apenas o ritmo com que se chegaria a essa aparente inevitabilidade. Tenho grandes dificuldades em compreender este ponto de vista, muito pessimista, ainda que reconheça que é muito difícil contrariá-lo, sobretudo quando se assiste a uma erosão muito acentuada dos principais factores que influenciam o rural. De facto, a par do despovoamento humano verificou-se uma forte queda da densidade de actividades e de actores, quebrando-se as dinâmicas sociais, culturais e económicas que, por definição, sustentam o rural. Mas defender que a reforma da PAC e o desligamento das ajudas são responsáveis por este problema, no que à agricultura diz respeito, é ignorar o que foi a agricultura com as ajudas directas (não desligadas). É ignorar que existia uma pseudo-agricultura baseada num conjunto de decisões subsídio-dependentes, na maior parte dos casos afastadas de qualquer racionalidade técnico-económica e ambiental. É ignorar que esta agricultura fragilizava o rural, na medida em que tendia a marginalizar-se num dogma de dimensão física, desfazendo-se da dimensão do trabalho e, por isso, dum conjunto de relações de vizinhança indispensáveis à sustentabilidade do rural. Mas obviamente existem consequências que deverão ser analisadas e avaliadas ao nível do território, constituindo a agricultura, nas suas funções económica, ambiental, patrimonial e cultural, entre outras, apenas um elemento dessa análise, ainda que determinante. Isto é, o que me preocupa não são as consequências directas na agricultura de uma contestada reforma da PAC, mas os efeitos que poderão ter nas dinâmicas rurais e na consequente arquitectura dos seus valores, imprescindíveis a um coerente ordenamento do território. Também por isso, voltarei aqui...
Publicado por Fernando Delgado às 02:00
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Patilhar
Terça-feira, 21 de Junho de 2005

Agricultura e territórios

(...) "Hoje, como no último século e meio, em Portugal como nos outros países da Europa, a acção do Estado marca decisivamente o percurso da agricultura, do espaço e do rural. O lugar que os actuais habitantes do rural vierem a ter no futuro que agora se está a construir depende, sobretudo, das opções do Estado e, em particular, do modo como as políticas destinadas à agricultura e à floresta favorecerem os equilíbrios do rural, e de como o Estado apoiar a apropriação dos mercados ambiental e local pelas comunidades rurais. Para se avançar neste sentido não podem continuar a afastar-se questões como: a fixação de limites acentuados à quantia máxima que cada beneficiário pode receber em subsídios e ajudas da Política Agrícola Comum; articular a concessão destes apoios ao trabalho e não apenas à dimensão física das unidades; privilegiar as iniciativas dos que ainda habitam o rural na constituição de novos mercados; estimular a participação local e criar as condições institucionais para que se possa traduzir em actos e realizações; intervir na estrutura fundiária de molde a impedir que haja uma crescente dissociação entre a propriedade fundiária e o trabalho; etc. A alternativa é a manutenção da orientação actual, que se traduziria, por exemplo, no possível surgimento de um capitalismo agrícola assente em trabalho barato e clandestino (como poderá suceder no futuro regadio do Alqueva) e na progressiva erosão do rural, cuja presença continuaria a declinar na mediação da sociedade com o seu espaço." (...)

Fernando O. Baptista in Agriculturas e Territórios.
Publicado por Fernando Delgado às 11:18
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2005

Ruralidades

P0493.jpg 

(... e a gostar também desta!)
 ... mas a eficiência do sistema acaba por ser madrasta para os seus agentes, pela simples razão de que se trata de sistema "marginal", claramente excluído do modelo dominante ainda hoje assente (outra vez assente!...) em estruturas agrárias de grande dimensão ou na eficácia de utilização dos meios de produção. Que futuro tem esta aldeia? Esta paisagem rural só existe porque existem dinâmicas dentro dela e com o meio envolvente que produzem efeitos visíveis... Mas estamos a falar do quê? Quem vive ali? Que redimentos tem e de que origem? Que agricultura é aquela? E, já agora, alguém tem a coragem de lhes perguntar se são felizes?
Publicado por Fernando Delgado às 00:36
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Domingo, 12 de Junho de 2005

Ruralidades

pic2001-0489.jpg 
(Algures, perto de Fornos Algodres...)
Posso afirmar que uma paisagem agrícola traduz um conjunto de elementos biofísicos que, adequadamente utilizados, se convertem em bens de consumo? Posso afirmar que uma paisagem rural traduz um conjunto de relações entre a agricultura e o meio sócio-económico envolvente que, devidamente integrados se revelam sistemas de elevada eficiência ambiental e económica? Não sei se posso!..., mas esta simplicidade ajuda-me a "gostar" esta fotografia.
Publicado por Fernando Delgado às 23:39
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2005

Ruralidades

pic0648.jpg

(Picoto Rainho, Oleiros)
Fotografia do incêndio de 2000..., mas podia ser de 2001, de 2002, de 2003, de 2004 ..., como foi de 1980, 1981..., aqui ou mais ao lado... Esta é uma das maiores farsas da última década: alguém nos quis convencer que este monstro se combate e se vence com "armas", muitas "armas", cada vez mais "armas". Pura ignorância de quem não percebe que a causa das coisas está muito para além da mera encenação do espectáculo. Suprema hipocrisia de quem não quer perceber que às vezes é preciso parar, olhar para trás e descobrir novos caminhos... As pessoas já lá não estão, ou melhor, estão lá algumas, os "velhos", com outra relação com a serra. Olham-na como algo que está longe, cada vez mais longe... Aquela serra já não é o seu local de trabalho, mas apenas uma imagem desfocada que se transforma autonomamente. Não há paisagem, porque não há acção humana, há apenas o crescimento anárquico num espaço que ciclicamente se autodestrói. Não há usos da terra e do que ela dá. Se repararem bem não há nos rostos dos "velhos" a mínima emoção quando recebem a reforma: o prémio pela "impotência" sempre foi humilhante para estas gentes. As suas mãos agrestes e duras quedar-se-ão em breve. Mesmo o pequeno circulo de paisagem à volta da aldeia, no fundo da serra, onde as hortas ainda tecem ligeiros poligonos, desaperecerá. Ainda que sobre os seus escombros, é altura de repensar o rural.
Publicado por Fernando Delgado às 00:58
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Patilhar
Quarta-feira, 1 de Junho de 2005

Ruralidades

Pic2002-0166.jpg

(Carroça, Rosmaninhal)
Vou tentar iniciar aqui um conjunto de pequenas reflexões sobre a agricultura e o mundo rural. Não serão concerteza reflexões de tipo académico, mais ou menos prostituídas por um percurso profissional difuso, porque o "académico" sempre foi muito ténue nestas matérias e a "prostituição" nunca chegou a vias de facto. Sou apenas alguém poluído por alguma futilidade urbana, mas julgo que ainda capaz de identificar e racionalizar a maior parte dos tropismos rurais...
(Quando Eugénio de Andrade escreveu que "só os ciganos têm ainda a força e o prestígio de um destino", referia-se a quê? Que carroça é esta, perdida e abandonada num lugar recôndito do Tejo Internacional? Que rural é este? Que força, que prestígio, que destino?... Voltarei aqui!)
Publicado por Fernando Delgado às 23:42
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Terça-feira, 1 de Março de 2005

Paisagem

"[...]

Nelas foram surgindo os lugares, as aldeias, as cidades, as quintas, os pomares e hortas, as capelas e cruzeiros que justificaram que a paisagem primitiva de subsistência se transformasse gradualmente numa paisagem cultural. (...) A agricultura tem por fim uma meta impossível de se atingir - a da sua existência depender da competitividade dos preços - como se fosse a produção o único objectivo que justifica tão importante actividade. O nosso país, bem depressa, será um corredor industrializado entre Braga e Setúbal, onde se concentrará a população, vivendo grande parte em condições marginais infra-humanas, e um imenso ermo no interior destinado ao recreio de ricos e às monoculturas extensivas florestais se prosseguirmos na aplicação do actual modelo de desenvolvimento económico. (...) Os índices de crescimento económico deixaram de ter sentido como indicadores do bem-estar e da justiça. A morte da paisagem rural e a desumanização da cidade são diagnósticos seguros de que é necessário modificar todo o actual sistema económico e social. Um país onde a paisagem morre é um país onde a paisagem desaparece e com ela a primeira razão de ser da independência, que justifica a existência duma comunidade e da sua cultura. A degradação estética e biológica da paisagem é o diagnóstico seguro de que a comunidade, que a deveria viver, se encontra em diluição e decadência. O homem, transformado pela civilização industrial num mero instrumento de consumo, desligado do trabalho pela máquina e pelo computador, abandona a criatividade que o liberta e individualiza como pessoa. As sociedades contemporâneas, interessadas mais no ter que no ser, deixaram de entender a paisagem e de respeitar o funcionamento e a complexidade dos sistemas ecológicos.

[...]»


Paisagem. Edição da DGOTDU, 1994. Conjunto de textos de diversos autores (E. Castro Caldas, F. Caldeira Cary, André Espenica, A.A. Monteiro Alves, I. Alves de Araújo, M. Raposo de Magalhães e G. Ribeiro Telles), lidos em sobressalto. O texto citado é de G. Ribeiro Telles.
Publicado por Fernando Delgado às 18:05
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