Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

do res nulius ao black act

«[...]

A importância que os primeiros reis atribuíam à caça nos montes (montarias) prendia-se sobretudo com a necessidade de exercitar a preparação para a guerra. D. João I, no seu Livro da Montaria, dedica um capítulo a mostrar “como o jogo de andar no monte é melhor que todos os outros jogos para recrear o entender, e também corrigir o feito de armas”.

(…)

Esta situação estava regulada no direito romano pelo princípio de que a caça e pesca se consideravam coisas comuns (res nulius) que, por se deslocarem livremente, como a água ou o ar, não eram pertença do proprietário do terreno mas do primeiro que os capturasse.

No entanto, desde o estabelecimento dos Visigodos na Península a caça e a pesca “deixaram inteiramente de ser objeto de ocupação em terra alheia” e por isso, no início da nacionalidade, elas teriam representado “direitos inerentes ao domínio do solo”.

Os dois sistemas de direito cinegético, o Romano e o Visigótico, iriam vigorar em simultâneo, durante o Antigo Regime, o primeiro como suporte da legislação geral e o segundo aplicado ao regime da coutada, cuja criação foi direito exclusivo dos reis, desde D. João I até às Cortes Constituintes.

Para assegurar o poder real sobre os montes coutados, os reis nomeavam monteiros, cuja referência mais antiga parece datar do reinado de D. Afonso III para a serra do Soajo, havendo também documentos do século XIII referindo monteiros para as matas do Botão, localidade a norte de Coimbra junto do Buçaco, e já no século XIV para as matas do Ribatejo.

A sequência destas referências parece acompanhar a deslocação dos centros de poder político. De facto, o centro político do país tinha-se deslocado para Coimbra ao longo dos séculos XII e boa parte do XIII, mas durante a segunda metade desse século e durante o século XIV o centro propulsor do novo reino passaria para a Estremadura, com Lisboa e Santarém a ultrapassarem Coimbra como local de residência e passagem régia.

(...)

Por prerrogativa real iriam ser, a partir da segunda metade do século XIV, coutadas grandes extensões de território, o que suscitava fortes reacções populares invocando expressamente o princípio de que a caça e a pesca deveriam ser coisas comuns. Mas as reclamações mais frequentes dos povos eram sobre os prejuízos causados à agricultura pelos animais ("veação") que transpunham os limites das coutadas e que, por uma lei de D. Pedro I, estavam também protegidos. Diziam os representantes dos concelhos nas Cortes de Elvas de 1361 que "o lavrador pode castigar o homem que lhe causar prejuízo nas searas ou nas vinhas, mas há que respeitar a veação que lhe for aí fazer estragos." Este argumento parece ter convencido D. Pedro I que revoga então essa lei.

A área de coutada continuaria ainda assim a aumentar, como aumentariam as penas estabelecidas para os infractores e melhoraria a organização de guarda de montes coutados. Para tal foi criado por D. João I, em 1414, o ofício de monteiro-mor do Reino, dando-lhe "poder sobre todos os monteiros que temos posto pelas comarcas e outrossim sobre todos os monteiros que são postos por guardadores das matas que são por nós coutadas (...)".

Também no Regimento do Monteiro-mor de 1605, Filipe II para que "ache montaria e caças" nas suas "matas e coutadas" quando por sua "recreação nelas quiser ir montear" declara "as ditas montarias" e mantém penas de grande dureza: "que qualquer pessoa que dentro das ditas coutadas seja ousado de matar porco, porca, bácoro ou veação grande ou pequena, ou armar armadilhas, ou querer montear, sendo peão seja preso e pagará dois mil reais, e será degradado três anos para as galés, e sendo Fidalgo será preso até minha mercê e pagará duzentos cruzados para as coisas que declarar, e seja condenado em dois anos de degredo para África pela primeira vez."

Neste crescendo, D. João V decide, em 1773, e à semelhança do Black Act inglês, a aplicação da pena de morte aos indivíduos apanhados em flagrante "delito de caça", que resistam à prisão ou que fujam aos guardas das coutadas, situações em que podiam mesmo disparar para matar.

(...)

Seria o triunfo da Revolução Liberal, em 1821, que iria fazer com que a situação das coutadas de caça se modificasse radicalmente. A 30 de Janeiro desse ano procede-se à abertura das Cortes Constituintes e logo no dia 8 de Fevereiro, as mesmas Cortes, "considerando os males que da conservação das coutadas para a caça resultam à agricultura, aos direitos de propriedade dos vizinhos delas, à tranquilidade e segurança deles" decretam que todas as coutadas abertas e destinadas para a caça fiquem "inteiramente abolidas e devassadas, ficando salvos aos donos os direitos gerais da propriedade".

[...]»

Francisco Castro Rego. Florestas Públicas, 2001. pp 9-12.

Publicado por Fernando Delgado às 23:26
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Patilhar
Quarta-feira, 22 de Março de 2017

Eduardo Mendoza

«[...]

     Dubslav tossicou e disse: "Majestade, excelentíssimos membros do júri, distinto público, quero antes de mais nada expressar o meu agradecimento por me haver sido outorgado este Prémio Europeu de Realização Científica pelas minhas investigações no campo da oftalmologia. Nestas ocasiões costuma-se dizer: por me ter sido outorgado imerecidamente este magnífico prémio. Eu não o direi. Em primeiro lugar, este prémio não é magnífico. Na realidade é uma ridicularia. Todos os prémios o são, mas este seguramente leva a palma. E no meu caso não é sequer um prémio imerecido. Eu não sou um especialista em oftalmologia; não sei nada de oftalmologia, nem sequer sou médico. Por este motivo, ao levar o prémio não faço mal a ninguém; em definitivo, o prémio consiste nesta estatueta honrosa e numa certa publicidade. Esta publicidade a mim de nada me vai servir. A verdadeira destinatária do prémio investigou realmente no campo da oftalmologia, mas já não voltará a fazê-lo, nem beneficiará da publicidade, nem verá a estatueta. Mas não se assustem: não sou um impostor. Como filho único e herdeiro universal da vencedora, tenho pleno direito ao prémio. Em consequência, levarei a estatueta, e se além da estatueta o prémio tem uma dotação económica, também a levarei. Talvez a entregue a um centro de investigação oftalmológica ou talvez a destine a outros fins; actuarei conforme me agrade e não darei explicações a ninguém. Se gastar o dinheiro em coisas horríveis, tanto melhor.

     Quanto a mim, pouco vos posso dizer. Sou um homem absurdo. Fui concebido de um modo absurdo e criado de um modo absurdo. Sem o saber, estava a preparar-me para esta cerimónia. Vejam, nem sequer o smoking é meu. Um homem morreu para mo poder emprestar. <agora deveria ele estar ele de smoking e eu deveria estar aqui, diante de todos vós, coberto de farrapos pestilentos. Mas isso teria feito a minha presença exemplar, para não dizer simbólica. talvez por isso o destino preferiu fazer fazer chegar às minhas mãos este smoking. Na realidade os farrapos também não são a minha indumentária habitual: não sou um anacoreta. Sou apenas um viajante, um excursionista. As viagens não instruem, mas estragam muito a roupa. De qualquer modo o smoking é melhor.

     Tenho passado a vida a falar sozinho e explico-me mal. Quando procuro teorizar vou do trivial para o confuso. Seguramente a minha bagagem intectual compõe-se destas duas variedades do saber.

[...]»

Eduardo Mendoza. O fim de Dubslav in Três vidas de santos. Sextante Editora, 1ª ed., pp 116-117.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:23
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Patilhar
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Arturo Pérez-Reverte

É sempre com um pé atrás que compro livros de jornalistas, embora admita que se trata de um preconceito construído à volta dos escritos de um jornalista-escritor português que insiste em piscar-me o olho no fim de cada telejornal...

Apesar das 512 páginas, "Homens Bons" permitem limpar um pouco aquele preconceito... O texto das duas primeiras páginas, uma espécie de resumo ou de enquadramento da narrativa, parece-me confundir-se com o subtítulo a bold de um artigo de opinião:

  

     «Imaginar um duelo ao amanhecer, na Paris de finais do século XVIII, não é difícil. Basta ter lido alguns livros e visto uns quantos filmes. Contá-lo por escrito é algo mais complexo. E utilizá-lo para o arranque de um romance tem os seus riscos. A questão é conseguir que o leitor veja o que o autor vê, ou imagina. Converter-se em olhos alheios, os do leitor, e desaparecer discretamente para que seja ele a entender-se com a história que lhe narraram. A destas péginas precisa de um prado coberto pela geada da manhã e de uma luz difusa, acizentada, para a qual seria útil recorrer a uma neblina suave, não muito espessa, daquela que brotava frequentemente nos bosques dos arredores da capital francesa – hoje muitos desses arvoredos desapareceram ou estão incorporados nela – com a primeira claridade do dia.

     A cena precisa também de umas personagens. Na luz incerta do sol que ainda não desponta devem notar-se, um pouco esbatidas entre a bruma, as silhuetas de dois homens. Um pouco mais retiradas, debaixo das árvores, junto a três carruagens ali paradas, há outras figuras humanas, masculinas, envoltas em capas e com chapéus de três bicos enfiados sobre o disfarce. São meia dúzia, mas não interessam para a cena principal; por isso podemos prescindir deles por agora. O que deve atrair a nossa atenção são os dois homens imóveis em frente um do outro, de pé sobre a erva húmida do prado. Vestem calções justos e estão em mangas de camisa. Um é magro, alto para a época, e tem o cabelo grisalho apanhado num rabicho curto sobre a nuca. O outro é de estatura média e tem o cabelo encaracolado nas têmporas, emproado como era próprio da moda mais requintada do seu tempo. Nenhum dos dois parece novo, ainda que estejamos a demasiada distância para apreciar isso. Portanto, aproximemo-nos um pouco deles. Observemo-los melhor.

     O que cada um segura na mão é uma espada. Ou uma espada parecida com um florete, se repararmos nos pormenores. O assunto, portanto, parece sério. Grave. Os dois homens estão a três passos um do outro, ainda imóveis, olhando-se com atenção. Quase pensativos. Todos concentrados no que vai acontecer. Têm os braços caídos ao longo do corpo e as pontas de aço roçam na erva do chão, coberta de geada. O mais baixo, que de perto também parece mais novo, tem uma expressão altaneira, talvez teatralmente desdenhosa. Dir-se-ia que, embora estude o seu adversário, está à espera de mostrar uma figurabem composta aos que o observam dos limites do prado. O outro homem, mais alto e de mais idade, possui uns olhos azuis aquosos e melancólicos que aparentam ser contagiados pela humidade ambiental. À primeira impressão parece que aqueles olhos fixam o homem que tem à frente, mas se repararmos bem neles, notaremos que não é assim. Na verdade encontram-se absortos, ou distraídos. Ausentes. Talvez, se naquele momento, o homem que têm em frente mudasse de posição, aqueles homens continuassem a olhar para o mesmo lugar, indiferentes a tudo, atentos a imagens distantes que só eles conhecem.

     Do grupo reunido debaixo das árvores chega uma voz, e os dois homens que estão no prado levantam os espadins devagar. Cumprimentam-se brevemente, levando um deles a guarnição à altura do queixo, e depois põem-se em guarda. O mais baixo apoia a mão livre na anca, adotando uma elegantíssima postura de esgrima. O outro, o homem alto de olhos aquosos e curto rabicho grisalho, estende a arma e ergue a outra mão, com o braço e antebraço quase em ângulo reto, com os dedos relaxados e ligeiramente descaídos para a frente. Os ferros, ao tocarem-se com suavidade pela primeira vez, produzem um tilintar metálico que ecoa nítido, argênteo, no ar frio do amanhecer.

     Continuemos a escrever, agora. Contemos a história. Saibamos o que troxe estas personagens até aqui.»

 

Arturo Pérez-Reverte. Homens Bons. ASA, 1ª ed, pp 9-10.

 

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Patilhar
Quinta-feira, 26 de Maio de 2016

A Seiva da Raíz

De vez em quando convidam-me para ir "falar" a alguns sítios - não é bem um convite, é uma obrigação profissional,... - e oferecem-me coisas, sempre simbólicas, mas que às vezes são boas surpresas. Ainda não cheguei ao fim, mas "A Seiva da Raiz", um livro de contos de António Arnaut, editado pela Câmara Municipal de Penela, que me foi oferecido num Seminário neste concelho, é uma boa descoberta.

Alguns textos lembram-me Miguel Torga, sem a intensidade telúrica e etnográfica deste, mas com o mesmo desespero humanista. "A Mariana" ou o "Alma Grande" só podem ser de Torga, mas "Os dois barbeiros" de Arnaut lembram-me esse tropismo angustiado no Portugal profundo.

Aqui ficam alguns excertos desse conto:

 

«Os Dois Barbeiros

(...)

     Nas aldeias perdidas no fundo das montanhas, onde o tempo parou na pedra seca das casas e nos hábitos estereotipados por séculos de abandono, a paz bucólica que tanto impressiona os visitantes citadinos, não assenta apenas na harmonia dos homens com a natureza, mas na harmonia conjugada dos habitantes. Foi esta harmonia que exigiu, por razões de sobrevivência, a repartição dos ofícios principais e a consequente eliminação de concorrência. Por isso existiu sempre em Valmatos um único alfaiate, um único sapateiro, uma única taberna e um único barbeiro.

(...)

     Ora, um dia, o destino ou o acaso - nunca se sabe que força nos guia os passos - fê-los encontrar numa curva recatada do caminho, a coberto da curiosidade da aldeia. Ao vê-la aproximar-se, com um molho de erva à cabeça e aquele andar saracoteado que tanto o perturbava, um pensamento temerário percorreu-lhe o corpo como um formigueiro. Refreou o passo e aventurou-se a sondar o passado:

     - Bons olhos te vejam, rapariga!

     Ela parou surpreendida, mas não se deu por achada:

     - E a ti também, Alfredo!

     Aquela voz alegre, a soletrar de novo o seu nome, sonora e cantante como um hino à vida, acicatou-lhe o sangue e deu corpo à ideia que tanto o atormentava. Que melhor vingança do que fazer ao outro o mesmo que lhe fizera?!

     - Sabes, Josefina, continuo a gostar de ti...

     Ela hesitou. Parecia tolhida, a respiração ofegante, os olhos pregados nos trilhos do caminho, as mãos nervosas a tactearem o carrego.

     - Vou dizer-te, Alfredo, mas que fique só entre nós, também ainda me lembro de ti...

     - Podíamos combinar um encontro para falarmos mais à vontade - sugeriu ele com voz alanceada por pensamentos contraditórios, ou justapostos, o ódio e o amor a fazerem de pedras irmãs da mesma muralha da vida.

     - Vai na quinta-feira, de madrugada, à minha sorte das Chãs - respirou fundo, a despedir-se e a vincar o segredo da mensagem - é o meu dia de rega, estaremos à vontade...

(...)

     Na quinta-feira de madrugada, mal a claridade indecisa acariciou a janela do quarto e sorriu nos seus olhos ansiosos, Alfredo levantou-se, vestiu o fato domingueiro e partiu apara a sua aventura com a emoção incontida de um adolescente que se preparasse para uma grande viagem. A viagem do Alfredo era curta, porque as Chãs ficavam a meia hora de longada, pelo vale, junto à ribeira, num sítio ermo, propício a todos os encontros. O barbeiro atravessou a aldeia, ainda adormecida, meteu pelo trilho da encosta e quando estava a meio caminho lembrou-se que não tinha trazido a bicicleta, o que sempre fazia quando ia à vila, a duas léguas de distância. Parou, a equacionar o dilema, a mulher podia desconfiar, pois não era natural que ele fizesse a suposta viagem a pé. Era alta madrugada, o sol nem sequer mandara ainda um raio extraviado a anunciar a sua chegada do outro lado da montanha. Fez um cigarro, vagarosamente, o pensamento dividido como o tempo, também indeciso, entre a fronteira da noite e do dia, e resolveu voltar a casa em passo acelerado, para trazer a bicicleta e reforçar o alibi. A aldeia dormia ainda. Só um cão insone se lhe atravessou no caminho, a ladriscar de tédio.

Alcançou a casa, no coice do lugar, entre pinheiros ainda sonolentos. Abriu cautelosamente a cancela e aporta da loja, onde estava o velocípede. Sentiu vozes abafadas, um gemer de feno acordado, o coração deu-lhe um baque, acendeu um fósforo, e à luz frouxa dos seus olhos incrédulos, viu a mulher descomposta entre os braços roliços do Petinga.»

A Seiva da Raiz. Contos. António Arnaut. Ed. da Câmara Municipal de Palmela, 2002, pp 73-80.

 

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Patilhar
Sexta-feira, 13 de Maio de 2016

Regresso à «Tabacaria»

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu

(come chocolates, pequena; come chocolates!)

 

«Tabacaria

Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.»

Tabacaria. Álvaro de Campos.

 

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Patilhar
Sábado, 23 de Janeiro de 2016

«Esplanada»

esplanada.jpg

 «Naquele tempo falavas muito de perfeição,

da prosa dos versos irregulares

onde cantam os sentimentos irregulares.

Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

 

agora lês saramagos & coisas assim

e eu já não fico a ouvir-te como antigamente

olhando as tuas pernas que subiam lentamente

até um sítio escuro dentro de mim.

 

O café agora é um banco, tu professora do liceu;

Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,

e não caminhos por andar como dantes.»

 

Manuel António Pina. Esplanada in Um Sítio onde Pousar a Cabeça.

Desenho de FlyOnSketch.

 

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Patilhar
Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2016

textos de inverno

Sei que a repetição é uma sintoma de falta de imaginação, ou mesmo o primeiro grau de uma preguiça que nestas longas e frias noites de inverno teima em sentar-se ao meu lado e adormecer, adormecendo-me... Sei que este é o tempo das leituras, mas até os livros se cansam nas mãos...

Por isso aqui fica mais um texto retirado do blog ana de amsterdan. O motivo não é apenas, ou sobretudo, a preguiça. Não! - é a sua qualidade, mesmo sabendo que a minha opinião é irrelevante.

 

«Intimidade

Usarei a melhor blusa, os sapatos vermelhos, os brincos de ouro que herdei da avó goesa. Caminharei ao seu lado. Colocarei um pé a seguir ao outro. Em cada passo sentirei o peso exacto do meu corpo. Hei-de mostrar-lhe a estátua de Hanuman, as suásticas, as hortas em redor, o auditório forrado a alcatifa verde, a cantina escura. Chamarei a sua atenção para o tom das cadeiras de plástico do templo. É pela cor do plástico das cadeiras, a mostrar a fraca qualidade do material, que se percebe o embuste: o templo hindu não está localizado em Lisboa. Fica numa rua barulhenta dos subúrbios de Bangalore. Desceremos ao poço. Ao contrário do habitual, comerei com gosto, sobretudo as chamuças ainda quentes. Estarei atenta à maneira como come. Mostrar-lhe-ei como se partem aos pedaços os rotis e se misturam com o resto da comida. Hei-de rir quando provar o caril de legumes, aguado e sensaborão. Fará uma careta engraçada. Evitaremos temas pessoais. A intimidade nunca é por nós partilhada. Falaremos mal de escritores, críticos literários, jornalistas, editores. Para além da ausência e do falso desprendimento, a maledicência é o que nos une. Falarei com entusiasmo do conto do Dylan Thomas que li, sem nunca lhe confessar que, quando o li pela primeira vez, me imaginei deitada na cama ao seu lado. Numa intimidade de velhos, os óculos na ponta do nariz, os nossos pés a tocarem-se por baixo dos cobertores, imaginei-me a ler para ele aquele preciso conto. Maravilhoso conto. Ler em voz alto para alguém é sinal de amor. Leio em voz alta para os meus filhos. É uma outra forma de lhes dizer que os amo. Escutar-me-á falar e intimamente lamentará não me amar. No final, à despedida, um beijo apressado, a boca dele mal me tocando no rosto. Sentirei o seu cheiro. Seguirá pela rua, sem nunca olhar para trás. Ficarei a vê-lo, enfiado num casaco feio, caminhando apressado na direcção da biblioteca.»

Ana Cássia Rebelo. ana de amsterdan.

 

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Patilhar
Sábado, 24 de Outubro de 2015

Cansaço

Há sem dúvida quem ame o infinito, há sem dúvida quem deseje o impossível, há sem dúvida quem não queira nada - três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: porque eu amo infinitamente o finito, porque eu desejo impossivelmente o possível, porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder ser...

 

«O que há em mim é sobretudo cansaço — 
Não disto nem daquilo, 
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
 
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
 
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
 
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...»
 
Álvaro de Campos, in "Poemas".1934.
 
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Patilhar
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

Esquecimento

«[...]

     Haviam combinado encontrar-se ali cinco anos antes. Ele não fora. Não tivera coragem para começar uma vida nova. Compreendera depois que não ter ido era uma rendição, uma aceitação de velhice. Guardara o endereço electrónico dela. Escrevera-lhe. Escreveu-lhe meses a fio. Não recebeu resposta alguma. Silêncio. Sim, o silêncio é uma resposta. A única que não se pode contestar.

     Abriu os olhos e deu com uma mulher parada diante dele. Sorria. Não era a mulher por quem esperava. Ou talvez fosse.

     - Conhecemo-nos?

     A mulher voltou a sorrir:

     - Não tenho a certeza - disse, numa voz de seda. - Passei por um rio.»

 

José Eduardo Agualusa. O Livro dos Camaleões. Esquecimento. Quetzal, 1ª ed., pp 30.

 

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Patilhar
Domingo, 2 de Agosto de 2015

Rentes de Carvalho

«Não sou como sou, nem como me quero, nem como me julgo.Sou como os outros me veêm. Um eu que desconheço.»

J. Rentes de Carvalho. Pó, Cinza e Recordações. Quetzal, 1ª ed, pp 212.

 

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Patilhar
Quinta-feira, 4 de Junho de 2015

Miguel S. Tavares e o Stradivarius de Joshua

«[...] Eu sou uma testemunha, um contador de histórias, um homem que passa a palavra. E, ao passá-la, ao contar tudo o que vi, vivo duas vezes.

Sempre tive esta, chamemos-lhe assim, deformação jornalística: tentar transformar tudo o que acontece, tudo o que vejo, tudo o que viajo e tudo o que vivo, numa utilidade literária ou jornalística concreta. Nunca viajei sem escrever: ir para ver e não contar a ninguém mais, aos que não foram e não poderão nunca ir, sempre me pareceu um desperdício, uma oportunidade não merecida. [...]» pp 13-14

 

É deste Miguel que eu gosto. Do Miguel na primeira pessoa, das histórias que conta, da escrita do real, mesmo ficcionado... (ver aqui).

 

«A escrita ensina-nos e convoca-nos à responsabilidade de entender que estar vivo não é um acaso inútil nem um almoço grátis. Toda a criação artística, de que a escrita faz parte, é uma responsabilidade indeclinável e não somente um dom de autocontemplação. Escrevemos, para celebrar a vida, não para resgatarmos a própria morte; escrevemos para os outros, não para nós próprios.[...]» pp 15.

 

É este Miguel que me convoca à leitura, mesmo quando a história é conhecida:

 

«[...] Um violinista tocou durante quarenta e cinco minutos à porta de uma estação de metro em Washington, enquanto o jornal [Washington Post] filmava toda a cena. Enquanto tocou, teve seis espectadores que pararam um pouco para o ouvir e recolheu trinta e dois dólares de gorjetas. O homem chamava-se Joshua Bell e é um dos maiores violinistas contemporâneos; o seu violino era um Stradivarius, avaliado em três milhões e meio de dólares; e o que tocou foram seis peças de Bach para violino, de dificílima execução e espantosa beleza. Eram o mesmo homem, o mesmo violino e as mesmas composições que, dois dias antes, tinham enchido a sala de concertos de Boston, com o bilhete mais barato a cem dólares. (...) Será que as pessoas só estão atentas à beleza das coisas no momento e no lugar previamente marcado para tal? Teria eu parado ao escutar o violino de Joshua Bell? Quero crer que sim, mas, na verdade, nenhum de nós o pode garantir.[...]» pp. 166-167.

 

Miguel Sousa Tavares. Não se encontra o que se procura. Clube do Autor, 1ª Ed.

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Patilhar
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015

O bom malandro

«Saúdo a Lua cheia levantando o copo com o vinho branco gelado que me há-de refrescar as ideias. Aí a tenho, por cima do terraço, vaidosa e exigente de contemplação. O ladrar dos cães na travessa confirma que a influência dela não se limita às marés, inspiração de poetas românticos, ao balouçar dos signos, etecétera. Sente-a todo o ser vivo, mexe com a gente. Uma crença antiga (felizmente prescrita) considerava que observar a Lua no quarto crescente impunha o castigo de se ser corneado ou corneada. Só mais tarde se concluiu que situações dessas podem acontecer em qualquer das fases da Lua. Mesmo no quarto minguante. Ou noutro quarto. Até sem quarto. Um relvado, areal de praia, banco de trás do automóvel podem animar-se pelo poder do luar. Estudei o assunto em profundidade, o nome da Lua foi a primeira das maiores conquistas das mulheres. Já não há tempos imemoriáveis, hoje sabe-se tudo. Inclusive que antigamente, muito antigamente, baptizaram o astro por Luno, deus protector da masculinidade. O bom do Luno afiançava aos devotos machos que seriam sempre eles a mandar lá em casa. Mas saltaram elas, com aqueles jeitinhos e teimosias que vêm de longe, e acabaram por feminilizar o Luno. Passaram-no a Luna, deusa prometedora de inverter os papéis. Vai-se notando.

Neste momento fito a Lua e vejo-a como um desejável refúgio. Bem me saberia passar uns tempos longe das confusões terrenas que me surgem a cada passo. Todo o passo ameaça revelar-se um mau passo.»

Mário Zambujal. Serpentina. Odisseia de um crédulo em demanda da bela sem senão. Clube de Autor, SA., 1ª ed., pp 19-20.

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Patilhar
Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014

Bosão de Higgs

(Mais uma achega para o meu smarties amarelo... (aqui, aqui e aqui).  Para quem gosta destas coisas, este texto do físico Carlos Fiolhais no livro “Deus ainda tem futuro?”, com coordenação de Anselmo Borges e editado pela Gradiva, pode ser lido na íntegra em De Rerum Natura)

 

 

«A 4 de Julho de 2012 era anunciado no CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), em Genève, na Suíça, a descoberta de uma nova partícula, chamada “partícula de Higgs”, ou “bosão de Higgs”,  a quem alguns chamam “partícula de Deus”.

 

O nome “partícula de Deus” parece inadequado a muita gente, a começar logo pelo físico escocês Peter Higgs, ateu confesso, que, em Outubro de 2013, foi distinguido com o Prémio Nobel da Física, pela sua proposta no ano de 1964 de uma partícula com as características daquela que o CERN, quase meio século depois, haveria de identificar. O prémio foi partilhado com o seu colega belga François Englert, que professa a religião judaica (circunstância que o obrigou a manter-se largos anos escondido durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda era um rapazinho). De facto, a designação “partícula de Deus” apenas surgiu por uma decisão editorial. Trata-se do título de um livro que se revelou um sucesso de vendas no mundo anglo-saxónico, embora não tenha conhecido tradução em português. Os autores do livro The God’s particle, saído em 1993, o físico norte-americano Leon Lederman e o escritor de divulgação científica Dick Teresi, quiseram intitular a sua obra, que descrevia a ideia de Higgs e de outros, The Goddamn particle (“A partícula maldita”) com base nas dificuldades na sua detecção e foi o editor norte-americano que propôs a alteração, logo aceite pelos autores, para The God Particle, “Partícula de Deus” [1]. Como, a haver Deus, todas as partículas são d’Ele, será pouco defensável baptizar assim uma partícula, singularizando-a como criação divina relativamente a todas as outras... Mas o certo é que a palavra Deus tem efeitos mediáticos e o nome pegou. Decerto que a partícula não teria sido tão badalada se tivesse um outro nome.

 

Mas o que é afinal a partícula de Higgs? Não é uma das partículas normais de matéria nem de energia. É uma partícula associada a um campo (o campo descreve a presença de uma grandeza física numa certa região do espaço), cuja existência foi postulada para explicar por que razão as partículas de matéria e energia, que preenchem todo o Universo, têm massas muito diferentes entre si.  Partículas de matéria, por ordem decrescente de massa, são os quarks, os electrões e os neutrinos. Todas as coisas, em todo o vasto mundo, são feitas de quarks, electrões e neutrinos. Os quarks formam os protões e os neutrões. Os protões e os neutrões formam os núcleos atómicos. Os núcleos atómicos e os electrões formam os átomos. Os átomos formam as moléculas, os cristais ou sólidos e a chamada “matéria mole”,  como por exemplo um gel. E as partículas de energia são, pela mesma ordem decrescente de massa, os bosões W e Z, os fotões, os gluões e os gravitões (na verdade, só os primeiros, os bosões W e Z, intermediários da força nuclear fraca, têm massa, pois todos os outros têm massa nula). As forças entre as partículas de matéria devem-se à troca de partículas de energia: por exemplo, a atracção eléctrica entre protões e electrões deve-se à troca de fotões.  Sem o campo de Higgs e, portanto, sem a partícula de Higgs, que está associada às excitações desse campo, o conjunto das partículas de matéria e de energia não poderiam ter a massa que têm, permanecendo todas com a massa nula. O mundo seria, nesse caso, indiferenciado e, por isso, informe: não teria havido a possibilidade de formação de estruturas, ainda que simples, e não haveria no mundo a extraordinária variedade de coisas que observamos.

 

As partículas de matéria e de energia conhecidas estão organizadas hoje no quadro do chamado modelo-padrão da física de partículas. Os físicos do CERN têm procurado responder à questão: Estará o modelo-padrão certo? E estará ele completo? Se a primeira pergunta, pelo menos até ver, tem sido respondida positivamente (a descoberta do Higgs é uma excelente confirmação do modelo-padrão no sentido em que foi confirmada uma peça que faltava nele), há, porém, boas razões para suspeitar que a resposta à segunda pergunta é negativa. O modelo revela-se insatisfatório do ponto de vista teórico e não consegue explicar alguns mistérios da astrofísica moderna como os problemas da matéria negra e da energia escura. Note-se que o mecanismo de criação de massa proposto por Higgs e seus colegas não passa de um mecanismo matemático que, aparentemente, a Natureza concretizou conforme o modelo-padrão descreve. Foi proposto quando ainda não se conheciam muitas partículas desse modelo. Mas, ao revelar-se certa uma hipótese matemática, cumpriu-se mais uma vez o dito do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642) contido no seu livro O Ensaiador de 1623: “O Livro da Natureza está escrito em caracteres matemáticos.”

 

A partícula de Higgs e o eventual quiproquo teológico à volta do nome “partícula de Deus” (será que se está perante uma prova da existência de Deus?) servem aqui de introdução para uma breve digressão sobre os elos entre a ciência, a nossa investigação do mundo usando o método experimental e de raiz matemática que Galileu introduziu, e Deus, ou, mais em geral, os fenómenos do divino. Tanto a ciência como a religião são actividades humanas, que são  completamente compatíveis, pelo menos a avaliar após uma consulta às biografias de alguns dos maiores cientistas. Ao longo da história, a maior parte dos maiores físicos acreditaram em Deus, para resumir numa só palavra (e uma palavra com muita força!) a crença numa realidade que transcende o “O Livro da Natureza” que a ciência indaga [2].

[…]»

Carlos Fiolhais. A Ciência e o Divino in De Rerum Natura.

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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

A. Gedeão

IMG_6430.jpg

Praia de Carvalhais, Comporta.

(Vê Moinhos? São Moinhos. Vê gigantes? São gigantes.)

 

«Os meus olhos são uns olhos.

E é com esses olhos uns

que eu vejo no mundo escolhos

onde outros, com outros olhos,

não vêem escolhos nenhuns.

 

Quem diz escolhos diz flores.

De tudo o mesmo se diz.

Onde uns vêem luto e dores,

uns outros descobrem cores

do mais formoso matiz.

 

Nas ruas ou nas estradas

onde passa tanta gente,

uns vêem pedras pisadas,

mas outros gnomos e fadas

num halo resplandescente.

 

Inútil seguir vizinhos,

que ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.

 

Vê moinhos? São moinhos.

Vê gigantes? São gigantes.»

 

António Gedeão. Impressão digital.

 

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Patilhar
Sábado, 23 de Agosto de 2014

Kandinsky

Wassily Kandinsky. "Gelb, Rot, Blau" (1925). 

 

«[…]

         Um edifício de grandes, muito grandes, de pequenas ou médias dimensões, dividido em salas. As paredes das salas ocultas sob telas pequenas, grandes ou médias, por vezes alguns milhares de telas. Através da cor, pedaços da “natureza” são reproduzidos: animais iluminados ou na sombra, sobre a erva ou junto à água; ao lado, um Cristo na cruz representado por um pintor que não é crente; flores, figuras humanas sentadas, de pé, caminhando, por vezes nuas, uma multidão de mulheres nuas (frequentemente em apontamentos breves e vistas de costas), maçãs e bandejas de prata (…).Tudo isto cuidadosamente impresso num livro: nomes dos artistas, títulos dos quadros. As pessoas, com o livro na mão, passeiam-se de uma tela para a outra; folheiam-no e lêem os nomes. Depois, retiram-se tão ricas ou tão pobres como quando entraram, e imediatamente são reabsorvidos pelas suas preocupações tão alheias à arte. Que vieram aqui fazer?

[…]»

Wassily Kandinsky. Do Espiritual na Arte. D. Quixote, 8ª ed., pp 23-24.

 

 

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Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

Lobo Antunes

(… a arte de escrever!)

 

«CRÓNICA DO CHINÊS

 

Ando agora a fazer exercício e dieta, apetece-me ficar bonito. Três vezes por semana um amigo meu, chamado José Francisco, leva-me para junto do rio, em Belém, onde procedo a manobras físicas complexas, tal como andar. Ando quilómetros e quilómetros, quer dizer, talvez seja exagero, ando até me doerem muito as pernas e é um pau, a barriga diminui a olhos vistos, não tarda nada eis um Apolo Musageta ou, no mínimo, a Modona da Caldeirinha. Pelo menos vejo os pescadores, às vezes converso com eles, faço perguntas, examino os peixes que continuam a agitar-se cá fora, interminavelmente. O meu favorito é um chinês, sempre a rir, nunca conheci ninguém tão contente, que nem isco usa, atira aquilo, faz um movimento em u, levanta aquilo e aparece um peixe na ponta do anzol, preso pela barriga, pela cauda, por uma guelra, pelo que calha, aos saltos, que ele poisa na pedra, ainda a rir mais para nós. A uns vinte metros o patrão, gordo, plácido, velho, sentado num banco, vai orientando um chinês em gestozinhos mansos, de longe em longe levanta-se para corrigir pormenores, muda o anzol, regressa ao banco numa lentidão tranquila, olha os barcos, a água, não deixando de espiar o chinês, desabotoa a camisa para coçar os pêlos do peito, escarafuncha a orelha com a unha do mindinho, avalia os resultados, recomeça a limpeza, não sorri para nós ao contrário do chinês, cuja alegria, não entendo porquê, aumenta até ao êxtase, a felicidade do chinês torna-me invejoso, raios partam aquele júbilo e, no entanto, quando não encontro o chinês murcho um bocadinho, o chinês que dança neste pé, dança naquele, se volta para nós com os cromados todos ao léu, de cara dividida ao meio pelo tamanho da boca, ele e o patrão pobres, roupas muito velhas, sapatos de defunto que caminharam milhas, camisolas sobrepostas, desbotadas, no fio, um certo cheiro a pouca água, um certo cheiro a alho, ou então é o Tejo com problemas de hálito, os cabelos deles mais poeira que cabelo, na relva atrás de nós um par de namorados em beijos sedentos, mastigando-se as línguas, beijos sedentos é horrível, em beijos tipo desentupidor de retretes, bocas que emitem um

         - Plop

         de borracha ao afastarem-se, penso que vêm os intestinos atrás do

         - Plop

         mas lá se aguentam, felizmente, imagino um desentupidor na minha boca e eu a sair todo de mim, estômago, pâncreas, ideias, a namorada senta-se na relva para atender o telefone e enquanto conversa introduz os dedos no nariz do homem, manobra que ambos acham excitantísssima e se calhar é, quando o fazia em pequeno levava uma palmada imediata no pulso, a minha mãe, decerto conhecedora daquela manobra afrodisíaca, tentava castrar-me

         - Que porcaria

         e por isso fiquei esta coisa mole, sem vivacidade nem encanto, um chocho desinteressante, um maçador, tenho o aperto de mão desprovido de energia, duas esponjazinhas de cuspo nos cantos dos lábios a falar, a ponta da língua emergindo a cada duas palavras, a expressão parada, os olhos vazios

         - Repare para mim, senhora

         e a alegria do pescador chinês permanece, não fala, diz sílabas que não entendo, guturais, faz acenos estranhos, estica-se, dobra-se, torce-se a explicar-me o mundo e o mundo que me explica não o conheço, vim aqui fazer exercício não para entrar em universos diferentes

         - Adeus chinês

         e o chinês a aproximar-se de mim escorregando nos limos, mais pescadores a cinquenta metros, cem metros, todos tão pobres quanto este, pescam para comer que tudo tão caro e o dinheiro não chega, um peixinho cru no pão, isso vi, mais algum peixinho para a patroa que trabalha a dias e não a querem agora, para os filhos a arrumarem os automóveis nos parques, pedindo moedas, cigarros

         - Um cigarrinho amigo

         de vez em quando uns roubos por esticão a velhotas, de vez em quando um canivetezito num pescoço de turista

         Money money

         uns tempitos na cadeia, uns tempitos cá fora, uma criança feita uma agarrada que durante a gravidez continuava a injectar-se e temos de andar, Zé Francisco, tenho de perder a barriga, apetece-me ser elegante, bonito, Apolo Musageta ou Madona da Caldeirinha, tanto faz, mas bonito, andar até me doerem muito as pernas, não poder com as pernas, fale-me do seu pai, gosto quando me fala do seu pai e do amor que lhe tinha, se sonhasse como o invejo, se soubesse da minha vida comigo, a sua mão no meu ombro

         - António

         a sua mão nas minhas costas

         - Amigo

         a profundeza da sua amizade e eu

         - Obrigado

         eu do coração do coração

         e o chinês continuando a rir-se, afectuoso, aos pulinhos, feliz sei lá com quê, feliz sei lá porquê, passa por nós um barco de oito remadores a treinarem, ouve-se o treinador, num barco ao lado, a dar ordens por um megafone

         - O número três blá blá blá

         - O número cinco blá blá blá

         o rio cheio de peixes sujos quase à tona, um cargueiro a subir a barra, cheiros confusos na água, um senhor muito gordo a ler o jornal numa esplanada, os namorados, sem ventosas, estendidos lado a lado, não me dói nada agora, rio para o chinês, daqui a nada, sem que me aperceba, estamos a falar a mesma língua, vontade de contar-lhe que na segunda-feira fui ao dentista e, como sempre que me sento naquela cadeira, os meus pés não paravam, sou um peixe, vou morder o isco da broca, vou acabar no pão de um pescador que me come, acabar na goela do chinês

         - Mastigue-me com cuidado, senhor

         no dentista falei ao telefone com o senhor Bastos, guarda-redes do Benfica de quando eu era pequeno e fiquei feliz por conhecê-lo, tinha a fotografia da equipa inteira na parede do quarto, a alegria que me deu ele dizer que, no sítio onde morava, me via brincar com os meus irmãos no quintal dos meus pais, obrigado senhor Bastos, obrigado por me ter visto brincar, obrigado por se lembrar de mim, ganhei o dia, sabe, palavra de honra que ganhei o dia, explicar ao chinês

         - Ganhei o dia, senhor chinês

         e, palavra de honra, por momentos quase tive a certeza, qual por momentos quase tive a certeza, tive a certeza, por momentos tive a certeza, o que são as coisas, que o chinês ia largar a cana de pesca, e os peixes, e o rio, e abraçar-me.»

 

António Lobo Antunes. Crónica do Chinês. Quinto Livro de Crónicas. D. Quixote, 2ª ed., pp 119-122

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Patilhar
Terça-feira, 22 de Outubro de 2013

António Lobo Antunes

«A MINHA COLEÇÃO DE MOMENTOS

 

         Não gosto de escrever em lugares confortáveis nem com vista bonita da janela: é numa cadeira dura, virada para a parede, que dou o dó de peito. Agrada-me trabalhar em cozinhas, desvãos, quartos de hotel com mesas tortas e gravuras o mais feias possível: tanto me faz o lugar desde que não seja agradável. Durante anos escrevi num tampo de mármore partido, agora faço-o num tampo de vidro, graças a Deus nem sempre limpo, num lugar gelado no inverno e cheio de correntes de ar no verão: até hoje driblei a pneumonia. Também não me rala onde moro, nem o que como, nem o que visto. O que me importa então? Assim de repente importou-me quando o comboio em que ia, na Alemanha, parou à noite numa estaçãozinha deserta e escutei, na chuva, um clarinete a tocar numa cave invisível: pareceu-me que de repente entendia a vida e o mundo. Que música seria aquela, quase sem nexo, aflita entre as copas das árvores, a explicar-me a mim mesmo? Ou antes não música: um fiozinho de som. Ainda deve estar, perto de Dortmund, sempre que um comboio fica por ali à espera, no inverno, e a chuva aumenta a sombra dos abetos. Importam-me os corvos da Ucrânia sobre os campos de milho. Uma criança descalça, com dois cavalos coxos, entrevista perto de uma igreja antiga, na Roménia, o descer uma colina na direcção de um riacho: de quando em quando um dos cavalos lambia o pescoço da criança. Um bêbado do Cazaquistão a cantar sozinho, amparado a um muro, e a barba dele, comprida. Uma senhora de idade numa esplanada de Paris, em cuja cara permaneciam ainda, aqui e ali, esquecidos, fragmentos de uma beleza irrecuperável, semelhante aos restos de cartazes que vão empalidecendo e rasgando-se até muito depois das eleições. Certas vitrinas suburbanas que nos oferecem bonecos de loiça

         (pastoras, anjinhos, Dons Quixotes)

         poeirentos e patéticos, alinhados numa orfandade de abandono. Esses cães que se deixaram longe e voltam passados muitos dias, humildes, magros, à casa onde moraram, demorando-se no quintal sem coragem de entrar. Um urso de peluche, meio vazio de recheio, a convidar-nos

         - Abraça-me

         com o olho de vidro que sobeja. As ancas vaidosas, para cá e para lá, dos barquinhos ancorados, tão femininos nos seus meneios de cintura e, já agora, certas ondas que não acabam nunca e nos levam com elas. A  poetisa argentina Alfonsina Storni, cansada de esperá-las, resolveu entrar no mar ao seu encontro: que remédio tiveram as ondas senão ficar-lhe com a boina, com o resto todo, com os versos que não teve tempo de compor: se calhar os meneios de um dos barquinhos são seus. E podia continuar a lista do que me importa durante horas, mencionando, é claro, a frase, que sempre me comoveu, de Charlotte Bronte na agonia, a apertar a mão do marido

         - Não vou morrer pois não? Temos sido tão felizes…

         ou Columbano Bordalo Pinheiro, um dos meus pintores, a emergir, por instantes, da sonolência final, espantado

         - Ainda estou vivo?

         coisas destas, amargas ou alegres, que me têm ajudado a entender o que sou, como sou, quem sou, e me iluminam quando escrevo: bastam-me como lâmpadas, e também permitem ver para dentro fundos de poço, caves, baús, o gramofone de campânula a que se dava corda com uma manivela empenada, colocava-se a agulha romba, de aço, no disco riscado, e a voz de Caruso, entre guinchos e estalos, a tremelicar a Bohème, enquanto a tia Madalena, lá em baixo, regava o jardim. Jack Dempsey, pugilista miraculoso, numa revista amarela. Um busto de Chopin, quebrado. Um exemplar sem capa do diário da escritora George Sand, informando a certa altura, a propósito do também escritor Merimé

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         (No original: «J’ai eu Merimé ce soir: C’est pas grand-chose…»)

         e o cheiro da relva molhada a subir até mim ao fim da tarde. Copos azuis facetados onde me ofereciam um golinho

         (com recomendação

         - Só um golinho)

         do anis que eu rondava na despensa como um gatuno. Deviam poder guardar-se estes momentos no banco, a render juros. E receber o extrato ao fim do mês: em lugar do dinheiro um clarinete à chuva, uma onda, a boina de Alfonsina Storni e o cheiro da erva molhada, o pobre Caruso a tentar soltar-se do disco. Se o gestor da conta fosse esperto informava-me «este mês tem mais uma onda», «até ao fim do ano espero conseguir-lhe dois clarinetes», ou «em seis meses, tal como os mercados estão, o tal Merimé não vai desiludir a senhora». E no exemplar sem capa do diário, em lugar de

         «Tive-o esta noite. Não é grande coisa…»

         lerei

         «Tive-o esta noite. É do caneco!»

 

António Lobo Antunes. Quinto Livro de Crónicas. D. Quixote,  2ª ed. pp 241-243.

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Patilhar
Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

Sousa Tavares

«[…]

         Quando ela se foi, o padre Anselmo andaria pelos seus quarenta e tal anos, e continuou a exercer o seu sacerdócio por Medronhais e aldeias vizinhas da serra, aqui e além ungindo de Deus outras paroquianas tão devassas quanto a minha frustrada professora Fátima. Nada, porém, que as condenasse ao apedrejamento: felizmente, já não somos mouros, mas sim cristãos, e dizia-se que mulher manchada por padre é manchada por Deus. Essa foi a primeira lição que aprendi: o pecado depende do sujeito, não do predicado.

[…]»

Miguel Sousa Tavares in Madrugada Suja. Clube do Autor, 1ª ed., pp 34.

 

 

(...para além disto..., gosto muito das crónicas de S. Tavares. Das crónicas, dos contos, dos "quase romance"..., do Não te Deixarei Morrer David Crockett, do Sul do No Teu Deserto.  Gosto muito pouco, ou não gosto mesmo nada, dos romances, dos "grandes" romaces... Até me apetece dizer porquê, mas também não quero ser injusto: escrever dá muito trabalho e há que aprender a ler mesmo os livros que rapidamente se arrumam na estante e a que não se regressa mais...)

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Patilhar
Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Montedidio

É um livro espantoso. Parecem posts. São fragmentos de uma imensa integridade, escritos num rolo de papel que se vai enrolando e desenrolando numa desconcertante simplicidade: “Aproveito o candeeiro da rua para escrever encostado ao parapeito da janela, o ruído do lápis no papel faz o resumo do barulho do dia.” E lê-se em duas golfadas!...

 

 

«[… pp 57]

Mestre Errico franze os olhos por causa do pó, do perigo das farpas, e tem um esguicho de rugas ao pé dos olhos de tanto os fechar. Os olhos de Rafaniello são húmidos, limpa-os com o dorso da mão. Ganhei alguma confiança com ele: dom Rafaniè, parece que estais a chorar. “É o ar de cá de dentro, diz, é a cola, é Montedidio que me dá cabo dos olhos.” E limpa-os. Diz que todos os olhos para verem precisam de lágrimas, caso contrário tornam-se como os dos peixes que fora de água não veem nada e ficam secos e cegos. São as lágrimas, diz, que permitem ver. […]

 

[… pp 78] Maria diz que eu existo e assim eis que eu também me apercebo de que existo. Pergunto-me: não podia aperceber-me sozinho de que existo? Parece que não. Parece que é preciso que seja outra pessoa a avisar. […]

 

[… pp 85-86]

Enrijecem os músculos do lançamento, agora eu estou aqui para ti, somos namorados, digo e já agora, Maria, o que é que fazem os namorados? “Fazem amor, casam, fogem juntos”, diz sem hesitar. Não pergunto mais, basta-me que seja ela a saber. Olhamo-nos, os olhos estão largos por causa da escuridão. Ela abre o sorriso e a ponta da pila move-se sozinha. Quando abre a boca e aparecem os dentes pica-me e fico com calor ali mesmo. Passo-lhe o braço à volta do ombro, aperto um pouco. É a primeira vez que sou eu a tocá-la, que um gesto começa por mim. Maria apoia toda a cabeça no braço, deixo de lhe ver a cara, acalma-se a comichão na pila. Sinto uma força descomunal, a força dos lançamentos formou também o músculo para segurar Maria. Levanta-se, apanha contra o peito a roupa estendida e para se despedir estica o pescoço para a frente num beijo. Então vou com a boca directamente ao encontro da sua, assim fica igual. Os namorados fazem gestos iguais. […]

 

[… pp 90]

Rafaniello fica contente, diz que as bênçãos valem mais que o dinheiro porque são ouvidas no céu. E também as maldições são ouvidas, diz e cospe no chão para enxaguar a boca da palavra triste.

 

[… pp 97]

Rafaniello diz que de tanto insistir Deus é obrigado a existir, de tantas orações se forma o seu ouvido, de tantas lágrimas nossas os seus olhos veem, de tanta alegria surge o seu sorriso. Como o bumeramgue, penso: de tanto treinar prepara-se o lançamento, mas pode a fé sair de um treino? […]

 

[… pp 196]

Escrevo as suas palavras porque as ouço repetir, não por as recordar. […]»

 

Erri de Luca. Montedidio. Bertrand, 1ª ed., Nov, 2012.

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Patilhar
Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

Hemingway

«[…] De súbito uma multidão entrou na rua. Vinham todos a correr apertados uns contra os outros. Passaram e subiram a rua em direcção à praça de touros, e atrás deles vinham mais homens a correr mais depressa, e depois alguns farroupilhas que corriam de verdade. Atrás deles havia um pequeno espaço vago e, logo os touros, a galope, com as cabeças abaixo e acima. Tudo se sumiu ao virar da esquina. Um homem caiu, rebolou para a valeta e deixou-se estar quieto, mas os outros touros foram a direito e não deram por ele. Corriam todos juntos.

      Depois de se terem sumido, um grande clamor veio da praça. E manteve-se. Depois, enfim, o estoiro do morteiro que significava terem os touros atravessado a massa de gente na arena e entrado para o touril.

(…)

      O touro que matara Vicente Girones chamava-se Bocanegra, tinha o número 118 da ganadaria de Sánchez Taberno, e foi morto por Pedro Romero, como terceiro touro dessa mesma tarde. A orelha foi-lhe cortada por aclamação do povo e dada a Pedro Romero, que, por seu turno, a deu a Brett, que a embrulhou num lenço que me pertencia e deixou orelha e lenço, juntamente com uma data de beatas de Muratti, no fundo da gaveta da mesinha-de-cabeceira que estava ao lado da cama dela no Hotel Montoya, em Pamplona.

(…)

      O touro estava especado nas quatro patas para ser morto, e Romero matou-o memo por baixo de nós. Matou-o, não como fora forçado a isso pelo último touro, mas como quis. Perfilou-se mesmo diante do touro, tirou a espada das pregas da muleta e bafejou a lâmina. O touro observava-o. Romero falou com o touro e bateu com um dos pés. O touro correu e Romero esperou por ele, a muleta baixa, bafejando a lâmina, os pés firmes. Depois, sem dar um passo em frente, uniu-se ao touro, o estoque estava no alto entre as espáduas, o touro seguiu a flanela ondulada baixa, que desapareceu ao desviar-se Romero para a esquerda, e tudo acabara.

(…)

      Levantei-me e fui para a varanda e pus-me a ver as danças na praça. O mundo já não andava à roda. Estava até muito límpido e luminoso, apenas com tendência a esfumar-se nos contornos. Lavei-me, penteei o cabelo. Achei-me estranho e desci à sala de jantar.

      - Aqui está ele! – disse Bill. – Meu velho Jake! Eu bem sabia que tu não esticavas desta.

      - Olá, meu borracho – disse Mike.

      - Tinha fome e acordei.

      - Come sopa – disse Bill.

      Sentámo-nos os três à mesa, e era como se faltassem seis pessoas.

[…]»

 

Ernest Hemingway. O Sol Nasce Sempre (Fiesta). Editora Livros do Brasil, pp 163/164, 198, 218 e 221/222.

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Patilhar
Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

...só uma linha

O aniversário passou. As sentinelas do palácio advertiram que o poeta não trazia manuscrito. (…) Eu dou-te o valor que te faz falta – declarou o Rei. O poeta disse o poema. Era só uma linha.

«[…]

No final o Rei falou.

         - Aceito o teu labor. É outra vitória. Atribuíste a cada vocábulo a sua genuína aceção e a cada nome substantivo o epíteto que lhe deram os primeiros poetas. Não há em toda a loa uma só imagem que não tenha usado os clássicos. A guerra é o formoso tecido de homem e a água da espada é o sangue. O mar tem o seu deus e as nuvens predizem o provir. Manejaste com destreza a rima, a aliteração, a assonância, as quantidades, os artifícios da douta retórica, a sábia alteração dos metros. Se viesse a perder-se toda a literatura da Irlanda – omen absit – ela poderia reconstruir-se sem prejuízo com a tua clássica ode. Trinta escribas vão trancrevê-la doze vezes.

         Houve um silêncio e prosseguiu:

         - Tudo está bem e não obstante nada se passou. Nos pulsos não corre mais depressa o sangue. As mãos não buscaram os arcos. Ninguém empalideceu. Ninguém proferiu um grito de batalha, ninguém opôs o peito aos viquingues. Dentro do prazo de um ano aplaudiremos outra loa, poeta. Em sinal da nossa aprovação, toma este espelho que é de prata.

         - Dou graças e compreendo – disse o poeta.

         As estrelas do céu retomaram o seu claro rumo. Outra vez cantou o rouxinol nos bosques dos saxões e o poeta regressou com o seu códice, menos longo que o anterior. Não o repetiu de memória; leu-o com visível insegurança, omitindo certas passagens, como se ele próprio não as entendesse de todo ou não quisesse profaná-las. A página era estranha. Não era a descrição da batalha, era a batalha. Na sua desordem bélica agitavam-se o Deus que é Três e é Uno, os numes pagãos da Irlanda e os que combateriam, centenas de anos depois, no princípio da Edda Maior. A forma não era menos curiosa. Um substantivo singular podia reger um verbo plural. As preposições eram alheias às normas comuns. A aspereza alternava com a doçura. As metáforas eram arbitrárias ou assim o pareciam.

         O Rei trocou algumas palavras com os homens de letras que o rodeavam e falou desta maneira:

         - Da tua primeira loa pude afirmar que era um feliz resumo de quanto se há cantado na Irlanda. Esta supera todo o anterior e também o aniquila. Suspende, maravilha e deslumbra. Não a merecerão os ignaros, mas sim os doutos, os raros. Um cofre de marfim será a custódia do único exemplar. Da pena que produziu obra tão eminente podemos esperar uma obra ainda mais elevada.

         Acrescentou com um sorriso:

         - Somos figuras de uma fábula e é justo recordar que nas fábulas prima o número três.

         O poeta atreveu-se a murmurar:

         - Os três dons do feiticeiro, as tríadas e a indubitável Trindade.

         O Rei prosseguiu:

         - Como prenda da nossa aprovação, toma esta máscara de ouro.

         - Entendi e agradeço – disse o poeta.

         O aniversário passou. As sentinelas do palácio advertiram que o poeta não trazia manuscrito. Não sem espanto o Rei fitou-o; era quase outro. Algo, que não era o tempo, havia sulcado e transformado as suas feições. Os olhos pareceiam olhar muito longe ou ter ficado cegos. O poeta rogou-lhe que trocasse umas palavras com ele. Os escravos abandonaram a câmara.

         - Não executaste a ode? – perguntou o Rei.

         - Sim – disse tristemente o poeta. – Oxalá Cristo Nosso Senhor mo tivesse proibido.

         - Podes repeti-la?

         - Não me atrevo.

         - Eu dou-te o valor que te faz falta – declarou o Rei.

         O poeta disse o poema. Era só uma linha.

[…]»

Jorge Luis Borges. O Livro de Areia. Quetzal, pp 76-79.

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Patilhar
Domingo, 18 de Novembro de 2012

«Um Sonho», de Umberto Eco

     «Quando alguém diz «sonho com» ou «sonhei que», normalmente entende-se que esse sonho materializou ou revelou os seus desejos. Mas um sonho pode ser também um pesadelo, que nos anuncia aquilo que não desejamos de modo nenhum, ou um sonho revelador, que precisa da intervenção de um intérprete autorizado, que nos explique o que é que o sonho anunciava, quais eram as suas promessas ou ameaças.

      O meu sonho é desta terceira natureza, e conto-o tal como o sonho, sem me perguntar antecipadamente se corresponde aos meus desejos ou aos meus medos.

      Sonho que há um black-out global, que deixa todo o mundo civilizado completamente parado, e que numa tentativa desenfreada de se atribuírem responsabilidades, na tentativa de se reagir a urna ameaça, rebenta urna bela guerra planetária. Mas urna daquelas guerras sensacionais, não um incidente marginal ao estilo da Segunda Guerra Mundial, que só fez cinquenta e cinco milhões de mortos. Uma guerra verdadeira, daquelas que hoje a técnica permite travar, com áreas inteiras do planeta desertificadas pela radiação, com o desaparecimento de pelo menos metade da população mundial por entre fogo amigo, fome, pestes, em suma, uma coisa como deve ser, levada a cabo por generais competentes e responsáveis, à altura dos tempos que correm.

      Naturalmente (também somos egoístas nos sonhos), sonho que eu e os meus familiares e amigos vivemos numa zona do planeta (possivelmente a nossa) em que a situação ainda não se tomou completamente desesperada.

      Não haverá televisão, para já não falar da Internet, visto que as linhas telefónicas também foram pelos ares. Restará urna ou outra comunicação via rádio, através dos velhos aparelhos a galena. As linhas eléctricas também serão destruídas, mas remendando aqui e ali uns quantos painéis solares, sobretudo nas casas de campo, conseguiremos ter algumas horas de luz; para o resto, teremos de ir ao mercado negro comprar petróleo para os candeeiros, tanto mais que já ninguém vai perder tempo a refinar gasolina para os automóveis que, a existirem, já não terão estradas por onde andar. Na melhor das hipóteses, restarão carroças e caleches puxadas por cavalos.

      A esta escassa luz, e possivelmente junto a uma lareira alimentada a lenha com parcimónia, poderei então ler aos meus netos, órfãos da televisão, velhos livros de fábulas encontrados no sótão, ou contar-lhes como era o mundo antes da guerra.

      Ao fim da tarde, vamos sentar-nos à volta do rádio e captaremos uma ou outra transmissão distante, que nos dirá como estão a correr as coisas no resto do mundo e nos prevenirá dos perigos que se adensam à nossa volta. Vamos voltar a treinar pombos-correios para podermos comunicar, e será agradável desprender das suas patas urna mensagem acabada de chegar, dizendo-nos que a nossa tia sofre de ciática mas lá se vai aguentando, ou encontrar o jornal do dia anterior no stencil.

      Pode até ser que nos tenhamos refugiado no campo, onde se salvou uma velha escola, e nesse caso eu daria o meu contributo à comunidade ensinando Gramática ou História - nunca Geografia, porque entretanto o território teria mudado de tal maneira que falar de Geografia seria o mesmo que falar da História Antiga. Se não houvesse a escola, juntaria os meus netos e os amigos deles, e dava aulas em casa, primeiro uns rabiscos, para ganharem mão, e não só na escrita como também nos numerosos trabalhos manuais que terão de desempenhar, e em seguida coisas mais sérias; se houvesse alunos mais crescidos poderia até dar-lhes umas boas lições de Filosofia.

      Pode ser que também se tenha salvo o pátio da paróquia, com um pequeno campo de futebol (onde os rapazes irão jogar com uma bola de trapos), talvez descubramos na cantina um velho jogo de matraquilhos, e talvez o pároco peça ao carpinteiro para construir urna mesa de pingue-pongue, que os jovens vão achar mais apaixonante e mais criativo do que todos os videojogos de antigamente.

      Vamos comer muita verdura, se a zona não tiver sido contaminada pelas radiações, e as urtigas cozidas saberão tão bem que vamos pensar que estamos a comer espinafres. Como se multiplicam por vocação, os coelhos não hão-de faltar, e talvez até um frango aos domingos, o peito para a filha mais nova, para a mais velha uma coxa, as asas para o pai, a outra coxa para a mãe, e para a avó, que é um bom garfo, o pescoço, a cabeça e a mitra, que nos frangos caseiros é a parte mais saborosa.

      Redescobriremos o prazer dos passeios a pé, o aconchego dos velhos casacões fora de moda, e das luvas de lã, com as quais vamos poder atirar bolas de neve.

      Não pode faltar o velho médico de província, capaz de misturar os restos de aspirina com quinino. É claro que, sem as câmaras hiperbáricas, as tacs e as ecografias, a esperança média de vida vai baixar para cerca de sessenta anos, o que no fim de contas não será nada mau, dada a média noutros pontos do globo.

      As colinas voltarão a estar salpicadas de moinhos de vento. Em frente aos braços dos moinhos, os velhos contarão a história de Dom Quixote, e as crianças vão achá-la fascinante. Haverá música, e todos aprenderão a tocar um velho instrumento redescoberto; por muito má que seja a situação, bastam uma faca e uma cana para se fazerem orquestras inteiras de flautas, aos domingos vamos dançar nas praças, e talvez ainda se encontre um acordeonista que tenha conseguido sobreviver e saiba tocar a Migliavacca.

      Jogaremos de novo as cartas nos bares e nas tabernas, enquanto bebemos champanhe e vinho novo. O bobo da aldeia, obrigado a abandonar a vida política, vai voltar a circular por aí. Os jovens desmotivados vão procurar consolo nos vapores de camomila com uma toalha na cabeça, e dirão que se sentem nas nuvens.

      Vamos voltar a ver animais a saltitarem de um lado para o outro nas montanhas, texugos, fuinhas, raposas e lebres até mais não, e até os defensores dos animais vão concordar em ir à caça de vez em quando, para arranjar alimentos com proteínas; usaremos velhas espingardas, se as houver, ou podemos sempre socorrer-nos de arcos e flechas, e zarabatanas vibráteis.

      Nos vales, à noite, ouviremos o ladrar dos cães, que andarão sempre bem alimentados e serão estimados, porque se descobrirá que substituem os sistemas electrónicos de alarme a baixo custo. Ninguém voltará a abandoná-los nas auto-estradas, em primeiro lugar porque adquiriram valor comercial, e em segundo porque já não há auto-estradas, e mesmo que as houvesse ninguém estaria disposto a utilizá-las, porque levariam demasiado depressa a uma zona que é melhor evitar, ubi sunt leones.

      A leitura reflorescerá, porque os livros, excepto em caso de incêndio, sobrevivem a muitos desastres, e havemos de reencontrá-los em armazéns abandonados, subtraídos as grandes bibliotecas citadinas arruinadas. Vão voltar a circular por empréstimo, serão oferecidos no Natal, far-nos-ão companhia durante os longos Invernos e até no Verão, quando fizermos as nossas necessidades debaixo de uma árvore.

      Apesar das vozes inquietantes da rádio, os mais poéticos de entre nós vão manter a esperança e dar graças aos céus todas as manhãs por ainda estarmos vivos e porque o Sol brilha, dizendo que, bem vistas as coisas, está a nascer uma nova Idade de Ouro.

      Ao fazer as contas e me aperceber de que estes renovados prazeres têm de ser pagos com um mínimo de três biliões de mortos, com o desaparecimento das pirâmides e da Basílica de São Pedro, do Louvre e do Big Ben (de Nova Iorque nem se fala, será um imenso Bronx), e que eu estarei condenado a fumar palha (se todas estas desgraças não me fizerem perder o vício), quando acordo do meu sonho sinto-me bastante inquieto e - dizendo a verdade - espero que nunca se venha a tomar realidade.

      Em todo o caso, fui consultar um sujeito que se dedica a adivinhação e que até sabe interpretar as vísceras dos animais e o voo dos pássaros, e ele disse-me que o meu sonho não prenuncia apenas fenómenos horríveis: também sugere que todo este horror que descrevi pode ser evitado se conseguirmos refrear os nossos consumos, se nos abstivermos da violência e não excitarmos em demasia a violência alheia, e se voltarmos a saborear de vez em quando os antigos ritos e os costumes desusados - porque, no fim de contas, hoje ainda podemos desligar o computador e a televisão e, em vez de voarmos num charter para as Maldivas, ficar a conversar sobre qualquer assunto ao pé da lareira; só precisamos de força de vontade.

      Mas, disse ainda o meu oniromante, até isto é um sonho, e é preciso que tenhamos a coragem de parar de vez em quando, para evitarmos que os sonhos se tomem em algo pior. E como tal, continuou o meu oniromante (que é sábio mas irritadiço, como todos os profetas a quem ninguém presta atenção), vão todos dar uma curva, porque em parte estes problemas também são culpa vossa.»

 

Umberto Eco. A Passo de Carangueijo. Difel, 2ª ed., pp 355-359.

(O livro é uma recolha de intervenções e artigos escritos entre 2000 e 2005. «Um Sonho» foi publicado no L'Espresso, em 2003.)

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Patilhar
Terça-feira, 24 de Julho de 2012

Rentes de Carvalho

(Apetece-me recomendar este livro!)

 

«[…]

       Na sexta-feira a aldeia encheu-se de gente, caras estranhas, amigos, parentes com a família toda, garotos lambuzados a chorar da caminhada. O forno não parava e as mulheres saíam cobrindo os tabuleiros, lá dentro tinham-se invejado, medido os doces, espiado quantos ovos a outra punha, as comadres a entenderem-se com piscadelas, cheias de raiva, a acusar.

        Na rua os ciganos largaram um burro inteiro e o animal, doido de cio, não sabia escolher, a mula do Bigodes apanhou-o em cheio na barriga, os rapazes em roda para que não escapasse, contando os coices, a atiçar a mula que de repente se voltou contra eles, disparada para os olivais, o burro atrás, as galinhas a cacarejar espavoridas com a cavalaria, as mulheres à janela e o Raposo encostado à bengala, a gozar, a moer entre os dentes.

         - Tem vergonha, porcalhão! – disse-lhe a mulher, empurrando-o, e o Marques, parado à entrada da loja, ouviu e desatou a rir.

         O veterinário mandara os carimbos pelo criado. O regedor que veja se os animais estão sãos. Diz-lhe que não tenho tempo. E o rapaz, julgando que fazia bem, pegou nos que encontrara sobre a escrivaninha, já que era para a festa levo os maiores! mas o regedor experimentou primeiro sobre papel, desconfiado da tinta que era vermelha. – Aqui há engano!

         Havia. Mataram os porcos diante do lagar, dez, uns atrás dos outros, um gritar dos diabos, ninguém tinha pensado que era preciso chamuscá-los e os foguetes estavam guardados nas pias do lagar, bastava uma faúlha…

         Levaram-nos para as eiras, os cães atrás, o rastro de sangue logo negro de moscas. Os ciganos tinham pedido as tripas e sentaram-se no muro à espera, tão mortiços que as galinhas lhe vinham debicar os pés, mas também era o último grão, o pescoço quebrava com um barulho de noz e os casacos abafavam tudo.

[…]»

J. Rentes de Carvalho in O Rebate. Quetzal, 2ª ed., pp 131.

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Patilhar
Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

Tiago Patrício

 

«[…]

A lua subia contrariada e ganhava uma cor branca, os grilos faziam-se ouvir com mais intensidade, um dos homens que fumava atirou com uma beata para o chão, uma das mulheres assomou à porta e abriu as pernas para urinar e um ribeiro escorreu pela valeta. Outra mulher queimou-se no fogão enquanto fervia água e veio até à rua gritar palavrões para os homens sentados em silêncio. Um mocho pousado numa árvore próxima piou e duas pinhas tombaram sobre o telhado da casa de pedra rente ao chão. Um dos homens mais novos foi ter com os cães encostados à cerca e começou a provocá-los até eles começarem a lutar, depois continuou a dar-lhes pontapés para que eles não parassem. Entretanto procurou uma pedra na base do muro e levantou-a. Tirou lá de baixo umas folhas enroladas e abriu-as várias vezes até encontrar o que procurava, depois pousou-as em cima do muro e, quando parecia que ia urinar, começou a fazer movimentos lentos e depois cada vez mais rápidos até que se vergou sobre o muro, apoiado na mão esquerda, enquanto a direita terminava o assunto. Esperou alguns instantes até que se ouviu um fio de urina escorrer sobre as pedras. Abotoou-se e acendeu um cigarro depois de voltar a guardar a revista debaixo da mesma pedra.

[…]»

Tiago Patrício in Trás-os-Montes. Gradiva, 1ª ed., pp.49-50.

Prémio Literário Agustina Bessa-Luís, 2011

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Patilhar
Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

Teolinda Gersão

«[...]

      Ouvir era um segredo. Ela ouvia muitas coisas, algumas impossíveis. Por exemplo, bastava-lhe olhar a pauta para ouvir a música lá escrita. Acontecera-lhe a primeira vez com Mozart, mas verificara depois que podia ouvir qualquer música olhando apenas a partitura. Como se dentro dela alguém tocasse. Não apenas um instrumento, violino ou piano, tinha a certeza de que poderia ouvir toda uma orquestra a partir da música escrita.

(...)

      Ouvir era deixar o mundo entrar em si. Ficava sem defesa, escutando. O som seguia o seu curso e ela deixava de existir separadamente, tornava-se parte do que acontecia. O que era também um risco. Quase de morte, pensava às vezes. Porque a música, de algum modo, estilhaçava-a, fazia-a sair de si mesma e arrastava-a para um estádio, não humano, contra o qual a música finalmente triunfava. Um triunfo imperfeito, contudo, porque a música tinha sempre que recomeçar, de acontecer de novo, para que o caos não se instalasse. Enquanto durava (mas nunca duraria para sempre), a música era uma forma de ultrapassar o caos, obrigando-o a caber numa medida. Ouvir era talvez isso: tomar parte na luta entre a medida e o caos.

[...]»

 

Teolinda Gersão in Os teclados. Sextante, 1ª ed., pp 13-15.

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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Lidl

Tem uma única luz, monocolor, triste. Não tem produtos, tem um produto, simples e barato. Não tem adereços, tem outras coisas igualmente inúteis, mas tristes, acabrunhadas, escondidas em caixas desengonçadas ou despudoradamente abertas e expostas. Não tem "rapariguinhas do shoping", tem empregados e empregadas, vestidos de um azul-oficina, na mais crua encenação do assalariado. Não me importava, se não gostasse de cores, muitas cores, de "rapariguinhas do shoping" e de adereços inúteis... e, sobretudo, se do olhar do meu casebre de trabalho não estivesse plantado o Lidl, o "meu Lidl", como um enorme madeiro seco entre as casas a lembrar-me que as sociedades de consumo são também sociedades de ansiedade.

 

 

«[...] Pensa bem no Lidl, e verás como funciona a analogia para o ponto em que todos os princípios básicos da desumanização estão em movimento, e declaradamente ao ataque. É uma máquina que agride furiosamente o teu sentido estético, apresentando-te sistematicamente a mais feia e desoladora das paisagens acessíveis ao alcance dos teus olhos. Como acabas por não ter outro remédio senão voltares lá muitas vezes, é o teu respeito básico pela estética que começa a enevoar-se, até que, um dia, já nem o vejas. Mas imagina que és forte. Sim, Ana Maria, imagina que és a mulher que nós sabemos que tu és. És corajosa, és teimosa, tens toda a força do mundo dentro de ti, e nada te assusta. Por isso o teu sentido estético é incorruptível. Nesse caso, a Grande Máquina humilha-te e é assim que te degrada, porque o Lidl vende tudo realmente tão barato, e tu para seres quem és tens realmente tão pouco dinheiro, que por muito que aquela paisagem assumida e prepositadamente feia te faça doer os sentidos, tu não podes deixar de lá voltar. Uma vez, e mais outra, e mais outra. E, de cada vez, ficas um bocadinho de nada menos brilhante. Um bocadinho de nada mais cansada. Um bocadinho de nada mais triste. E, em consequência, um bocadinho de nada menos humana. Agora conta isto por semanas, multiplica as semanas por meses, soma os meses em anos, e pensa bem quanto do teu coração já ficou enterrado por baixo dos caixotes do Lidl. Ainda por cima não te esqueças desta parte fundamental do Plano: para cada produto só tens uma escolha. Certo? Então o que acontece ao teu livre-arbítrio? Para onde vai a tua capacidade de escolheres tu quem queres ser, e como, e porquê, e quando? O que fazes da alma racional e consciente que te mantém o sexto sentido desperto? [...]»

 

Clara Ferreira Alves in A Primeira Luz da Madrugada. Oficina do Livro, 1ª ed., pp 114-115.

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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Zafón

«[...] No outro dia vi uma menina que corria pela rua com um giz na mão deixando o rasto de uma linha na parede e tive a impessão de que, aos cinco anos, descobrira o sentido da vida. [...]»

 

Carlos Ruiz Zafón no prólogo de O Principe da Neblina. Planeta, 1ª ed., pp 11.

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

O Bom Malandro

(O que mais gosto no Mário é a linguagem simples e directa, o humor certeiro e aquele ar malandro depurado pela idade. Lembra-me um pouco Clint Eastwood e os seus filmes, com imagens cruas e diálogos mínimos, sem adjectivos inúteis)

  

«[...]

O meu irmão apareceu-me no consultório, problema de laringite, nada de grave. Conversámos.

- Tenho uma namorada nova - revelou ele.

- Bravo. E é bonita?

- Não tanto como a Mau. Cheguei a contar-te porque nos separámos?

- Nunca, Heitor.

- Ela tinha um caso com a nossa prima Li.»

 

Mário Zambujal in Longe É Um Bom Lugar. Clube do Autor, 2ª ed. pp 49.

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Patilhar
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

Tulipas de Pingo Doce

(A notícia é recente: "Os 56% que a família Soares dos Santos detém na Jerónimo Martins, dona da marca Pingo Doce, passaram a ser controlados indiretamente, através de uma sociedade com sede na Holanda. A operação deverá estar relacionada com o agravamento da tributação fiscal". Não me apetece tecer grandes comentários, mas de repente lembrei-me de um texto, já com uns bons anos, de A. Barreto - quem diria... Aqui fica, apesar de já antes me ter referido a ele.)

 

 

«A minha pátria é uma conta bancária


Crimes, casamentos e luta entre poderosos: eis três dos mais atraentes condimentos da crónica que excita toda a gente. Nem as misérias humanas, que as televisões transformaram em notícias, destronam aqueles clássicos. Apesar disso, a ficção vem desvalorizando o crime. E o casamento, por causa do sexo, já não é o que era. Só a luta entre os ricos mantém toda a sua potencialidade. As disputas entre a família Champalimaud, o Govemo, os banqueiros portugueses e um banco espanhol estão nesse caso.

É interessante verificar como os argumentos, de qualquer lado, são comuns. A palavra dada, os compromissos, a honra, a liberdade, a transparência, a legalidade e o interesse nacional são invocados por todos. Rapidamente se percebe que a querela é política. O que está em causa é o poder. E, como nos filmes, a vingança. Depressa se compreende que os participantes neste enredo têm as suas interpretações dos valores em causa. A família Champalimaud, por exemplo, cujas contribuições para a história contenciosa portuguesa são famosas, tem ideias próprias sobre a palavra, a honra e a pátria. E todos os restantes têm as suas ideias sobre tais vocábulos e realidades.

As profissões têm códigos de conduta. Os estados e as condições também. Da ética empresarial, por exemplo, não fazem parte a palavra, a honra e o patriotismo. Pode um empresário, como ser humano, cultivar tais valores. É melhor que assim seja. Mas, como profissional, não é o que se Ihe pede. Exige-se-lhe, isso sim, que ganhe. Podemos não gostar. Mas as coisas são assim.

Compare-se com a ética política, por exemplo. Ou com a do desporto. Para já não dizer a militar. Diferentes umas das outras, integrando valores diversos, têm princípios afins. Entre eles: ganhar. É sabido como, na guerra, se perdoa tudo ao nosso soldado, enquanto tudo se condena ao adversário. Ou como, no desporto, o fim justifica os meios. Ou ainda como, na política, para uma vitória eleitoral, vale tudo.

É infeliz que assim seja. Gostamos mais de um “cavalheiro”. Admiramos o fair play. Elogiamos quem, a ganhar mal, prefira perder bem. Apreciamos os que respeitam regras de generosidade. E sublinhamos o princípio moral de que os fins não justificam os meios. Eis valores que nos permitem viver numa meIhor sociedade do que aquela onde apenas vigorem as éticas do sucesso e da vitória.

Mas muito disso é literatura. Aos nossos soldados perdoa-se e exige-se tudo, sobretudo em campo de guerra, onde todos os princípios morais estão suspensos. As hordas desportistas estão quase sempre à beira do massacre do inimigo, literalmente. À procura da vitória, os militantes políticos estão geralmente prontos para tudo. À espera de lucros, empresários e accionistas “não olham a meios”. Um empresário não tem de ter palavra e honra. Um homem sim. Mas um empresário tem de ter balanços e cash flow.

Previsivelmente, bairristas ou seguidores, soldados ou accionistas, evitam argumentar com os seus interesses: eles sabem que, fora das profissões, algures no património de uma comunidade, há valores mais universais que poderão formar uma moral comum. Ou uma cultura. Por isso os argumentos são sempre gerais e abstractos. Para defender o seu interesse, o aficionado, o guerreiro ou o capitalista afirmarão sempre a sua honra, a palavra, o interesse nacional, a justiça e a ética.

Estamos pois no reino de uma semântica social e de códigos de conduta privados. Não duvido de que Champalimaud seja patriota, com a sua ideia própria de pátria, urna pátria cujo governo lhe deixe fazer o que quer. No exercício da sua profissão, para que tem, dizem, excepcional talento, fez o que sabe: negócios, bluffs, ousadias, manobras de diversão e mais-valias. Pôs em prática, no seu interesse, os desejos de internacionalização tão apregoados pelas autoridades. Se faltou a regras de cortesia, a compromissos e a palavra dada, terá sido em nome da sua empresa, que é a sua pátria.

A este propósito, o argumento que defende o capitalismo nacional é débil. Com efeito, a vontade de preservar em mãos nacionais o capital de um grande grupo não resiste à primeira prova. E se o interesse desse capitalista nacional é o de vender a quem melhor paga? E se o interesse do grupo é o de se submeter a um mais poderoso? Será que a decisão de vender a estrangeiros, tomada por um reputadamente bom empresário português, faz dele um traidor?

Quanto ao Governo, aos governos, sobretudo o actual, mas também o anterior, o que lhes critico é de não saberem o que querem. Ou antes, de quererem tudo. Investimento estrangeiro e capitalismo nacional. Multinacionais e capitalistas portugueses. Grupos fortes e controlo político. Internacionalização e nacionalismo económico. Grandes barões e capitalismo popular. Centros de racionalidade e democracia económica. Livre iniciativa e selecção dos bons capitalistas. Das leis gerais sobre privatizações, aos diplomas de alienação, raramente os governos foram precisos quanto aos papéis respectivos do Estado e do mercado. E nas negociações concretas, sempre o Estado demonstrou querer guardar, informalmente, prerrogativas que não assumia explicitamente. O que em resumo se diz: não sabem o que querem.

Aprendi, há muitos anos, que a neutralidade pode ser um defeito. Houve até quem dela fizesse o “último círculo do inferno”. Mas a vida também me ensinou a reconhecer que há combates que não nos dizem respeito. E que, nesses, só tomam partido os interessados, os fanáticos e os parvos. Pela sucessão de gestos de um e de outro, entre o Governo e Champalimaud, venha o Diabo e escolha. E que tenha bom proveito.

Completamente bêbedo, um tenor de ópera deu, em Londres, conferência de imprensa. Ladeado de dois membros do Governo português, que ali se deslocaram de propósito, defendeu a realização de um campeonato de futebol em Portugal. Tendo-lhe alguém perguntado porquê, respondeu: “Porque o Governo português foi o primeiro a pedir.” Também aqui, pelos vistos, vale tudo.

(20. 6. 1999)

 

António Barreto. Uma Década. Retrato da semana 1991-1999. Relógio d'água. pp 499-502.

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Kundera

«[...]

Nunca acabaremos de criticar os que nos deformam o passado, o reescrevem, o falsificam, que dilatam a importância de um acontecimento, calam a de outro; estas críticas são justas (não podem deixar de sê-lo), mas não têm grande importância se não forem precedidas de uma crítica mais elementar: a crítica da memória humana enquanto tal. Porque que pode esta, pobre dela, na verdade? Não é capaz de reter o passado mais do que uma miserável parcelazinha, sem que ninguém saiba por que motivo justamente esta e não outra, uma vez que tal escolha, em cada um de nós, se faz misteriosamente, à margem da nossa vontade e dos nossos interesses. Nada se compreenderá da vida humana enquanto se persistir em escamotear a primeira de todas as evidências: uma realidade, tal como existia enquanto existia, já não existe; a sua restituição é impossível.

(...)

Imagino a emoção de dois seres que voltam a ver-se passados anos. Outrora frequentaram-se, e pensaram por isso estar ligados pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. As mesmas recordações? É aqui que o mal-entendido começa: não têm as mesmas recordações; os dois guardam do passado duas ou três pequenas situações, mas cada um tem as suas; as suas recordações não são parecidas; não se encontram; e nem sequer quantitativamente são comparáveis: um recorda-se do outro mais que o outro se recorda dele; primeiro porque a capacidade de memória difere de um indivíduo para outro (o que seria ainda uma explicação aceitável para cada um deles), mas também (e é mais penoso admiti-lo) porque não têm a mesma importância um para o outro. Quando Irena viu Josef no aeroporto, lembrava-se de cada pormenor da aventura passada de ambos; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro segundo, o seu encontro assentava numa desigualdade injusta e revoltante.

[...]»

 

Milan Kundera in A Ignorância. D. Quixote, 1ª ed. pp 101-103.

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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

... (ainda) Lobo Antunes

(O Expresso publica cinco textos de cinco "criticos literários" sobre o livro "Comissão das Lágrimas", de Lobo Antunes. Parece que não sou o único leitor angustiado...)

 

 

«[...] Os acontecimentos de 1977 são tão trágicos e fortes que se fica com a vontade de que "Comissão das Lágrimas" fosse um romance sobre a Comissão das Lágrimas; porém, Lobo Antunes afasta-se desse caminho, o que lhe interessa são as vozes que vivem na cabeça da narradora, cujo pai foi um dos torcionários, e que explica agora pecados alheios dando voz a mortos e vivos. O texto, torrencial mas elíptico, cruza tempos e testemunhos, repete frases e estribilhos, comentários racistas, memórias de família, conversas de seminaristas e coristas, associações livres, confusas e poderosamente poéticas. [...]

Pedro Mexia

 

«[...] E ainda que seja justo reconhecer que conseguimos isolar frases, excertos, páginas que têm uma grande força e densidade, logo somos obrigados a verificar que eles são submetidos a um dispositivo que os evazia e tudo devolve, transformado no artifíco gratuito de uma hiperliteratura deslumbrada consigo mesmo.»

António Guerreiro

 

«[...] Em última análise, o trabalho de construção do romance cabe sempre ao leitor. É nele que as vozes têm de ecoar. E é aqui também que o problema de Lobo Antunes se coloca. Porque as suas obras fecham-se cada vez mais sobre si mesmas, tendem cada vez mais para um autismo que deixa os leitores de fora (mesmo que maravilhados). [...]»

José Mário Silva

 

«[...] E mais uma vez em Lobo Antunes seria preciso regressar à inocência da infância, no pressuposto de que tal coisa possa existir.»

Ana Cristina Leonardo

 

«[...] O mesmo Lobo Antunes criou uma persona que inventou a literatura como "evento" e o escritor como "personagem literária" e vagamente angustiada, pendente dos grandes temas, enquanto nos convida a torpedear a vexata quaestia: o livro presta? Nem sempre. Os títulos continuam soberbos e as entrevistas também. Lobo Antunes é um virtuoso do florete e do floreado e pratica uma esgrima que prescinde das perguntas piedosas dos jornalistas. Há anos que não consigo acabar um livro dele. Acabei este. Monólogos da consciência, fragmentos de memória e passado, destruição de tempo e lugar que passam a unidades imateriais da escrita, nomes que não existem na economia narrativa nem na voz narrativa. Aparecem e desaparecem. [...]»

Clara Ferreira Alves

 

Expresso. Suplemento Actual. Nº 2033. 15.10.2011.

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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

António Lobo Antunes

(Ó António, começa a ser quase impossível ler o que escreves. Não é que espere uma história escorreita e simples - até porque sei que não gostas de contar histórias, mas de estar perto do coração da vida, signifique isso o que significar…-, mas apenas uma escrita que não me canse, não me deixe de rastos ao fim de uma hora de leitura. Já foi difícil com Ontem Não Te Vi Em Babilónia e com Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, os teus dois últimos livros que li, mas agora é quase insuportável. Admito que esta não seja a noite para ler mas, que diabo, estar mais perto do coração da vida é estar mais longe da compreensão da escrita?

Transcrevo, mas transcrevo mesmo, palavra a palavra, sem scanner, numa tentativa de melhor entender essas palavras, o iníco do terceiro capítulo do teu livro, prometendo que amanhã farei outra tentativa de leitura).

 

 

«Se as vozes não voltam não se escreve este livro: que dizia ela, que digo eu que não seja ditado pelas folhas e as coisas ou então desconhecidos na minha cabeça a discorrerem sem fim, sementes de avenca falando de nós, eu a convocar ambulâncias e joelhos doentes, a repeli-los

         - Enganei-me

         enquanto a minha mãe coxeia a sua desgraça, feita de granito em labaredas, e o meu pai, atrás dos cavalos e bispos de xadrez, à espera que o matem quando sou eu que desejam matar, bem lhes sinto as ameaças desde Moçâmedes

         - Ai Cristina

         assim que o mar de um lado, e o deserto do outro, principiaram a empurrar-me para o interior do meu corpo em que fui tão grande em pequena e me limito agora a um cubículo onde explodem granadas que me desfazem osso a osso, não olho para ninguém, não respondo, permaneço quieta na Clínica e quieta na sala, no desejo que não dêem  por mim nem pela minha mãe na província, diante do espantalho da horta

         - Qual de nós dois é a Alice?

         enquanto o avô tacteia o mundo com a cabeça ao alto dos cegos, convencido que as mãos, ao moldarem o ar, fabricam parentes

         - Rapariga

         um espantalho de boina e sobretudo, com restos de luvas nas canas dos braços, que os tordos não respeitam, tronco de palha com um seixo a imitar o coração a contrair-se lá dentro, foi o avô quem introduziu o coração na palha

         - Deixem-no viver como a gente

         e no de a mãe se aproximar a pedra viva latia, como tudo late também em África incluindo os defuntos, era necessário perguntar antes de os enterrar

         - Tem a certeza que faleceu?

         eles a pensarem na resposta, apesar de cheirarem a cinzas e capim ardido, e todas aquelas moscas passeando na pele

         - Acho que sim mas não tenho a certeza

porque convém medirmo-nos com atenção a fim de saber como estamos, avaliar o pulso, colocar um espelho na boca e notar se embacia ou não embacia, sugerir

         - Mete-se na sepultura a ver

         e no caso de ser incómoda a terra na cara eles previnem

         - Afinal enganei-me

         porque em Angola é assim, tudo ao contrário do que se imagina, chuva para cima em lugar de para baixo e os rios não no sentido do mar, direitinhos à gente, damos pelos finados à mesa, cruzamo-los nas ruas, empregam-se nas estradas a nivelar o alcatrão, o avô da minha mãe desconfiado

         Não andas a mentir?

         e a prova de que não ando a mentir está em que você a disfarçar as ternuras

         - Rapariga

         depois de séculos à conversa com os choupos […]»

 

António Lobo Antunes in Comissão das Lágrimas, pp 49-50. D. Quixote, 3ª ed.

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Segunda-feira, 8 de Agosto de 2011

Herman Hess

«[…]

         Ficará para sempre na minha memória a imagem das caudas dos pavões brilhando nas árvores altas ao luar, e das sereias resplandecendo numa doçura prateada ao emergirem das águas, à beira-mar sombreada entre os rochedos. E de como, solitariamente, sob o castanheiro junto da fonte, o magro Dom Quixote estava de primeira sentinela da noite, enquanto os últimos foguetes do fogo-de-artifício caíam tão suavemente na noite de luar e o meu colega Pablo, coroado de rosas, tocava a charamela para as raparigas.

         Ah, qual de nós teria imaginado que o círculo mágico se iria quebrar em tão pouco tempo. Que quase todos nós – e também eu, também eu! – nos iríamos tornar a perder nos ermos monótonos da realidade rotineira e rotulada, curvando-se, como funcionários públicos e empregados de balcão depois de uma patuscada ou de um passeio de domingo, nova e insipidamente no dia-a-dia do trabalho!

[…]»

 

Herman Hesse in Viagem ao País da Manhã. Cavalo de Ferro, 1ª ed., pp 26-27.

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Terça-feira, 26 de Julho de 2011

valter hugo mãe

«[…]

a teresa diaba já não era filha de ninguém. por muito tempo que se defendeu de bicho e instinto, a diaba era só bicho e instinto, como coisa que veio do mato para se amigar da vida das pessoas. era assim como um animal selvagem com muita vontade de ser doméstico. presa às atitudes dos homens viciara-se em homens, e nada do que fizesse seria honra para qualquer pai que a tivesse. assim era como se dizia, já não era filha de ninguém, se até os pais se recusavam a recordar o nascimento de tão atrofiada mulher, parida entre pernas como feita para alívio, nunca para viver. era disforme em pequeno, ponto pequeno, já feia para assustar as pessoas, e menina, diziam, vai ser bicho do diabo a distribuir o pecado em carne tão azarada. e era nos azares da sua carne que se rejeitava a filiação, para isso se deitou a teresa diaba às sortes, e como vingou não se imagina senão por forças demoníacas que a alimentaram. diaba, grunhindo e zurzindo em busca de prazer, pendurada em galho de homem o dia inteiro, batendo os raquíticos braços como asas, sem poder voar, sem andar direito, nada. todos lho diziam, anda, animal, some-te daqui a ver se te enfias numa toca e não levas uma pedrada. e ela sorria na sua meia loucura e rondava quem lhe falasse. como tive de lhe falar quando a vi, ou se calava do que viu, ou punha-lhe lâmina ao pescoço para a calar de vida. era assim simples, se abres a boca para espalhar o que ouviste sais deste mundo para outro. ela, saia levantada, grunhia risos e pedia-me que entrasse, entra aqui como de costume, estou com saudades tuas, meu amor.

 

o aldegundes duvidava da bondade de se aliviar na rapariga. era das coisas que ouvia na igreja, que humilhante seria fazer dos outros algo impensável. como pô-la de costas quando deus as fizera de frente. e nada de costas, como assim lhe dava prazer, talvez porque tão novo não lhe tivesse crescido o suficiente que enchesse à frente o que era a mulher, e pelas costas melhor se sentia. mas nada tinha importância, como lhe explicava, a ela cumpriam-lhe as forças negativas mais do que as positivas, e ao pôr-se nela havia que temer muito pela própria alma, mais do que pela dela. mas não por deus, que despreza as mulheres e as manchou de pecado, mas pelo diabo, à espreita no corpo delas a tentar agarrar-nos a alma a partir da ponta do badalo, dizia-lhe. ele olhou-me sem felicidade nem amargura, apenas resignado como o seu tempo de crescer, ultrapassado da sarga, olhando-a como a vaca velha e desnatural que não devia nunca parecer-lhe bela.

 

com alguns receios voltei ao corpo da teresa diaba eu também. […]»

 

valter hugo mãe in o remorso de baltazar serapião. Ed. Alfaguara, pp.75-76.

 

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Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Gonçalo Tavares

«[…]

      O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem podia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe.

      Quem iria contestar a “vida imoral” de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas.

      Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação.

      Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim.

      De certa maneira, era isso que Buchmann desejava: ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima.

[…]»

 

Gonçalo M. Tavares in Aprender a rezar na Era da Técnica. Caminho, 5ª ed., pp 235-236.

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Domingo, 1 de Maio de 2011

"Ilha sem Barcos"

         «Lembro-me de um tempo em que, na leitura excessiva de metáforas com que então se iludia a realidade, se falar da Beira Interior como se fosse uma “ilha sem barcos”. Essa imagem fugidia era, penso eu, agora, a procura de identificação breve de uma região à escala do país, da sua secular subalternidade cívica e social de pequena pátria, na espessura temporal do seu isolamento, na persistência imutável da realidade que parecia elevar-se da espessura dos dias. Interioridades…

         Era uma insularidade cercada de terra, configurada à solidão do campo e das montanhas, atormentada por um isolamento secular, que a imutabilidade da paisagem parecia ter petrificado. Monsanto, com o seu micro-cosmos arcaico, “nave de pedra”, onde, dizia Namora, “a fraga se torna pesadelo””, é simbolicamente imagem dessa realidade cósmica, retrato de uma portugalidade com séculos de desterro e de mágoas, cuja persistência se tornou num tempo longo de servidão vivido até ao século passado.

         Muitas vezes subi ao cimo dessa montanha de onde se vê a raia, e ao redor da qual se materializam paisagens de tão grande diversidade (“manta de retalhos”, chamou Orlando Ribeiro à Beira Baixa) que espicaçam a imaginação, como naqueles filmes que cavalgam os territórios à procura de paraísos perdidos, com as imagens a galope, rio impetuoso de vida, criando a ilusão de o tempo acelerar para a invenção da felicidade.

         Olhar ao redor, lá do cimo do castelo, até onde os olhos alcançam, quando o céu fica azul da cor do mar e o sol coado do fim da tarde poisa súbita nitidez nas coisas, é ter a percepção da lonjura da Beira na sua continuidade transfronteiriça, velhos castelos, onde aldeias e vilas se acolhiam à protecção, praças fortes de defesa colectiva, lugares que arvoravam ao alto a bandeira da independência, quando as gentes daqui eram insubstituíveis na sua condição de “carne para canhão”. Hoje, essa linha territorial da fronteira dissipou-se e está povoada de silêncios e de vazio humano, estigmatizada como espaço periférico de “baixa densidade”.

         Mas Monsanto guarda memórias e imaginários dessas guerras e do seu carácter inexpugnável, como a lenda que regista a resistência da população, durante anos refugiada no castelo. Conta-se: face ao cerco implacável, e à beira de esgotados todos os mantimentos, decidiram os sitiados atirar encosta abaixo uma bezerra engordada com o último trigo, para dizer aos sitiantes que não se rendiam pela fome. Todos os anos, em Maio, eleva-se no ar o som dos adufes e dos cantares, em tons vagamente árabes de funda inquietação. É a população que sobe ao castelo para atirar das muralhas potes de barro enfeitados com flores – “remake” possível do sacrifício da bezerra engordada com o trigo da fome.

         Neste regresso à memória do imaginário de Monsanto, parece-me ouvir Catarina Chitas com a sua voz belíssima, como pranto magoado de séculos, cantar a imemorial gesta da resistência de um povo, memória fragmentada de um Portugal que morreu.

[…]»

 

Excerto do texto Da “Ilha sem Barcos” ao Coração da Europa de Fernando Paulouro das Neves.

Interioridade/Insularidade Despovoamento/Desertificação. Paisagens, Riscos Naturais, e Educação Ambiental em Portugal e Cabo Verde. (Coord. Rui Jacinto e Lucio Cunha). Colecção Iberografias - 17. Centro de Estudos Ibéricos.

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Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Fado

«O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D.Sebastião em série de fotografias do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.

Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.

O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre Império desde que haja Imperador»

 

Fernando Pessoa in Portugal Sebastianismo e Quinto Império. Publicações Europa-América (org. António Quadros).

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Domingo, 20 de Março de 2011

Silvicultura da Biodiversidade

(Ler texto integral na Naturlink, aqui.)

 

«[…]

E os outros 3.6 milhões de hectares?

Parece razoável assumir que Portugal Continental poderá gerar, no máximo,1.7 a 2 milhões de hectares ocupados com o crescimento lenhoso para a indústria do papel e da madeira, produção de cortiça, superfícies de pinheiro–manso e castanheiro.

Existindo 5.3 milhões de hectares ocupados com floresta e matos restam3.3 a3.6 milhões de hectares (38 – 40% do território Nacional), incluindo o meio milhão de hectares onde se incluem a azinheira e outros carvalhos, espaço para o qual poderá ser adequada a antiga designação de “Bravio”, que será o espaço principal da Silvicultura da Biodiversidade.

Biomassa florestal, produção de energia e biodiversidade

A utilização de biomassa é considerada importante para o cumprimento das metas relativas à utilização de energias renováveis. O programa existente para a construção de centrais de biomassa tomou como base inicial a exploração dos resíduos da exploração florestal e da rede de faixas de controlo de combustível.

A produção de biomassa específica para produção de energia, e mesmo a própria utilização dos resíduos, serão limitados e determinados pelo preço da energia eléctrica. Poderão hipoteticamente existir situações de competição entre a produção para a indústria do papel, para a indústria da madeira e para a produção de energia, nos terrenos onde a produtividade potencial for suficiente. A produção de biomassa para energia não parece ser uma alternativa onde a produção de lenho também não o for.

Não parece também viável a desmatação para biomassa, não só atendendo à dimensão dos custos de exploração, mas também ao impacto ambiental potencial. De facto, a programação de centrais de biomassa com base no aproveitamento de resíduos de culturas florestais e faixas de combustível, é diferente do aproveitamento generalizado de arbustos para a produção de energia. A ser considerada esta última hipótese seria seguramente necessário avaliar o seu impacto ambiental.

A biomassa para energia não parece constituir uma opção de exploração para uma fracção significativa dos 3.6 milhões de hectares do “Bravio”.

(…)

Gestão da Biodiversidade Florestal – uma nova dinâmica
(…)

O pagamento com dinheiros públicos de serviços ambientais através de fundos da política de desenvolvimento rural ou de conservação não parece ser um caminho com dimensão ou sustentação futura suficiente para gerir o espaço Bravio.

É necessário que exista um rendimento associado para estimular a gestão activa e os incrementos em abundância e diversidade nas espécies e habitat que aumentam o valor natural do território florestal.

Actualmente o mercado deste tipo de valores é incipiente mas não inexistente, mas um pouco por todo o mundo estão em desenvolvimento rápido mercados para serviços associados à conservação:

Compra de acesso exclusivo a territórios

- Eco–turismo ou outras formas de turismo associado a espaços florestais
- Caça, Pesca, produtos não lenhosos
- Contratos de prospecção de novas espécies em florestas tropicais e equatoriais

Compra de terrenos exclusivamente dedicados a acções de conservação

- Acções de conservação com financiamento privado associadas ao posicionamento de empresas e suas marcas.

- Serviços de eco–compensação (tendencialmente offsets - offset de biodiversidade: actividade de conservação destinada a compensar, com impacto líquido positivo, impactos negativos inevitáveis) decorrentes de obrigações legais associadas ao licenciamento de actividades económicas.
- Serviços de eco–compensação voluntária.

 

(…)

Alguns destes mercados já existem há muito tempo com efeitos interessantes na conservação, dos quais um exemplo é o mercado da caça, com os efeitos benéficos para a conservação que o desenvolvimento deste sector teveem Portugal. Existeevidência de que a melhoria do habitat e a gestão das populações cinegéticas tiveram um efeito globalmente positivo na conservação, quando comparadas as zonas com e sem gestão cinegética.

(…)


No Brasil, uma Lei Federal em vigor desde 2000, determina que 0.5% dos custos de projectos com impacto na conservação do ambiente sejam obrigatoriamente aplicados em medidas de mitigação e compensação.

No estado da Califórnia (EUA) as medidas de compensação de impacto sobre a biodiversidade podem ser implementadas em territórios geridos precisamente com essa finalidade e que são colocados no mercado - “Conservation Banking” – regulado pela administração do Estado. Isto é, os gestores florestais vendem superfícies com características específicas (habitats e espécies), durante o período de tempo necessário a cumprir as obrigações de compensação decorrentes de projectos de investimento dos seus clientes.

Em Victoria na Austrália, o BushBroker é um mercado de créditos de vegetação natural, regulado pelo Estado, que permite aos proprietários florestais serem produtores de vegetação natural, vendendo os créditos de vegetação a empresas que necessitem de obter espaço livre de vegetação para a sua actividade.

Em Portugal o Decreto – Lei 142/2008 de 22 de Julho estabelece um novo regime jurídico da conservação da biodiversidade. Neste novo regime institui-se o princípio da compensação pelo utilizador dos efeitos negativos causados pelo uso de recursos naturais, regula-se em geral os instrumentos de compensação ambiental e cria-se a base legal para a constituição do Fundo para a Conservação da Natureza e da Biodiversidade. Isto é, criam-se as bases legais para uma abordagem de mercado da biodiversidade, no que diz respeito à floresta abre-se caminho à Silvicultura da Biodiversidade.

[…]»

Silvicultura da Biodiversidade. Carlos Rio de Carvalho.

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Quinta-feira, 24 de Fevereiro de 2011

O movimento do pião

O livro tem um título (porventura) pretensioso – 10 Anos de Política Ambiental -, mas como em todos os livros que arrumamos na estante depois de meia hora de leitura, acaba por haver qualquer coisa de importante, nem que seja uma pequena ideia.

Neste caso gosto da ideia do movimento do pião. Diz o autor na introdução (datada de Maio de 2002):

         Com o presente livro procura-se sintetizar dez anos da Política Ambiental em Portugal. A sua leitura torna claro que o nosso País avança, mas a passos muito pequenos, com muita energia, mas com fracos resultados – como um pião, que gasta toda a sua energia a rodar.

Isto faz-me lembrar outras políticas, mas agora, aqui, cansado, depois de um dia de muita energia gasta e de fracos resultados, sinto-me como esse pião, quase a parar de rodar, prestes a cair para o lado. Consola-me a ideia da criança que amanhã enrolará o cordel e o porá novamente a rodar. Sim, só aos olhos ingénuos de uma criança este milagre é possível…

João de Quinhones Levy in 10 Anos de Política Ambiental. Oficina do Livro.

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Patilhar
Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Cohn-Bendit

(Apesar de tudo, este velho do Maio de 68, diz coisas – dizia em 1999, ano da recolha destas conversas … -, que parecem novas. Ou é esta realidade parte do futuro de que ele falava? Se é, há que reconhecer que ainda anda por aí muito chefe de estação sem comboio, ou incapaz de perceber que o comboio chegou ao fim da linha há muito tempo…)

 

«[…]

Qual é então o papel de um líder político?

É certamente procurar agir sobre o futuro. Ele não é apenas um chefe de estação das “tendências pesadas” da sociedade, que se contentaria em manobrar a agulha, segundo horários definidos noutro lado. Mas ele também é um homem todo-poderoso que, pela sua simples vontade, determinaria o futuro, como o pretende a concepção antiga da política, fundada sobre a delegação total da autoridade: a sociedade dá mandato a um homem político, e em seguida ela aprova ou desaprova, reelegendo-o ou despedindo-o, como os romanos no circo saudavam ou condenavam os gladiadores, levantando ou baixando o polegar.

As sociedades mudaram. Hoje – é uma banalidade, mas é a realidade -, a transformação do mundo é tão rápida que desorienta os cidadãos. O que parecia imutável torna-se em pouco tempo ultrapassado, ou mesmo arcaico. A história da unificação alemã é um exemplo desta evolução fantástica. A tecnologia oferece outros. Hoje o presidente da República Francesa, quando fala dos jovens, sente-se obrigado a falar de computadores, mesmo se, visivelmente, não percebe nada disso, porque não se pode falar da sociedade sem evocar a informática, o que há vinte anos não interessava a ninguém.

(…)

A crise actual vem também do facto de, pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, as sociedades europeias recearem ser no futuro mais pobres que hoje e que no passado. É uma ruptura dramática com a evolução anterior. A força dos projectos conservadores ou sociais-democratas dos últimos quarenta anos consistia em poder garantir uma melhoria a prazo. É o que explica o fracasso das ideologias de alternativa radical, quer se trate do comunismo autoritário, ou dos revolucionários “bem pensantes”: frente a uma melhoria constante das condições de vida, a sua crítica não tinha credibilidade. Hoje é muito mais difícil garantir um tal futuro. Por isso, é necessário fazer política de outro modo.

[…]»

O Prazer da Política. Daniel Cohn- Bendit. Conversas com Lucas Delattre e Guy Herzlich. Notícias Editorial. Colecção Sinal dos Tempos.

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Patilhar
Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Erri De Luca

«[…]

      No Verão acordo cedo, vou aos rochedos de Santa Lúcia com a rede apanhar ouriços-do-mar e, se houver, um ou outro polvo. Estou lá um par de horas antes de o sol ultrapassar a encosta do vulcão. Saem dos clubes os senhores que regressam vindos de alguma festa nocturna. Com os seus fatos de noite expostos à primeira luz do dia, apressam-se a ir para o escuro como os morcegos atrasados. Vejo também sair o conde que mora no prédio e joga a propriedade nas mesas do clube. Não me vê. Os senhores têm uma vista diferente da nossa, que somos obrigados a ver tudo. Eles só vêem o que querem ver. Arregaço as calças até aos joelhos e desço os escolhos. Um golpe de sorte faz-me encontrar algo para põr na mesa. Antes de regressar a casa passo por Dom Raimondo para lhe devolver o livro. Faz-me encontrar um novo, escolhido por ele. Dom Raimondo é um livreiro aventuroso, recupera bibliotecas até da lixeira. Amiúde, é chamado a casas em luto que libertam o espaço do defunto.

      - Mais que a roupa e os sapatos, os livros é que trazem a marca da pessoa. Os herdeiros libertam-se deles por exorcismo, para se libertarem do fantasma. A desculpa é que precisam de espaço, sufoca-se de livros. Mas o que é que põem no seu lugar, encostado às paredes com a marca da forma deles?

      Dom Raimondo diz-me a mim o que não pode dizer a eles.

      - O vazio na parede deixado por uma biblioteca vendida é o vazio mais profundo que conheço. Trago comigo os livros mandados para o exílio, dou-lhes uma segunda vida. Tal como a segunda demão numa pintura, que serve para o retoque final, a segunda vida de um livro é a melhor.

      Recuperou a biblioteca de uma apaixonado pela literatura americana. Estou a ler belas aventuras sobre aquela terra para onde muitos napolitanos foram viver. Mas vê-se que não escrevem livros.

[…]»

Erri De Luca in O Dia Antes da Felicidade. Bertrand Editora.

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Patilhar
Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

Atiq Rahimi

(É um texto pequenino que encontrei numa daquelas bancas em que se misturam livros sem qualquer critério... Este, como outros textos, mostram que há qualquer coisa de místico no povo afegão. Aquela árvore, que não para de crescer, também faz parte da outra face deste povo...)

 

«[…]

Estás completamente nu, de pé, num ramo espesso de jujubeira. Trepaste para sacudir os ramos para Yassin. Lá em baixo, ele apanha os frutos. Involuntariamente começas a urinar. Chorando, Yassin afasta-se da árvore e vai sentar-se junto de outra. Retira as maçãs da trouxa, para lá depositar os senjets. Depois, fecha-a, dando-lhe um nó. Esgravata a terra com as suas pequeninas mãos e descobre uma porta à superfície do solo, munida de uma grande fechadura. Abre-a com a ajuda de um caroço de senjet e esconde-se debaixo da terra. Tu gritas:

       - Yassin, onde estás? Espera por mim, já venho!

       Yassin não ouve nada, vai-se embora e a porta fecha-se atrás dele. Procuras descer da árvore, mas esta não para de crescer. Cais, sem nunca alcançar o solo…

[…]»

 

Atiq Rahimi in Terra e Cinzas. Teorema.

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Patilhar
Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Zafón

Muitas vezes as contracapas dos livros têm pequenos textos, tipo resumo ou apenas pequenas transcrições de algumas frases mais emblemáticas que sempre me pareceram servir para uma de duas coisas: ou para determinar a opção de compra, em momentos de dúvida, ainda na livraria - o que designaria por uma operação de marketing, perfeitamente natural, pelo menos aceitável face à natureza de bem de consumo em causa; ou, segunda hipótese, para satisfazer gostos literários voyeuristas, típicos de uma sociedade em que as aparências são determinantes nos respectivos status sociais e que se traduzem em conhecimentos literários de inúmeros livros e respectivos autores exclusivamente pelos títulos dos livros e, na melhor das hipóteses, pelo tal resumo da contracapa – como semanalmente, de forma exuberante, nos demonstra o professor Marcelo…

 

Felizmente Zafón foge da contracapa, remetendo para as primeiras páginas deste livro um texto que, para além de me parecer uma provocação a estes voyeuristas, é acima de tudo um sublime exercício de escritor. Aqui fica:

 

      «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.

      Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro. Amigos, companheiros, professores e até a polícia lançaram-se na busca daquele fugitivo que alguns já julgavam morto ou perdido pelas ruas da má fama como num lapso de amnésia.

      Uma semana mais tarde, um polícia à paisana julgou reconhecer aquele rapaz; a descrição condizia. O suspeito vagueava pela estação de Francia como uma alma perdida numa catedral forjada de ferro e nevoeiro. O agente aproximou-se de mim com ar de romance negro. Perguntou-me se o meu nome era Óscar Drai e se era o rapaz que desaparecera sem deixar rasto do internato onde estudava. Assenti sem descerrar os lábios. Recordo o reflexo da abóbada da estação no vidro dos seus óculos.

      Sentámo-nos no banco do cais. O polícia acendeu um cigarro com calma. Deixou-o queimar sem o levar aos lábios. Disse-me que havia uma grande quantidade de pessoas à espera de me fazer muitas perguntas para as quais era conveniente que tivesse boas respostas. Assenti de novo. Olhou-me nos olhos estudando-me. “Às vezes contar a verdade não é uma boa ideia, Óscar”, disse. Estendeu-me umas moedas e pediu-me que telefonasse ao meu tutor no internato. Assim fiz. O polícia esperou que tivesse feito a chamada. Depois, deu-me dinheiro para um táxi e desejou-me sorte. Perguntei-lhe como sabia que não ia desaparecer de novo. Observou-me longamente. “Só desaparecem as pessoas que têm algum lugar para onde ir”, respondeu apenas. Acompanhou-me até à rua e ali se despediu, sem perguntar onde tinha estado. Vi-o afastar-se pelo Paseo Colón. O fumo do seu cigarro intacto seguia-o como um cão fiel.

      Naquele dia, o fantasma de Gaudí esculpia no céu de Barcelona nuvens impossíveis sobre um azul que fundia o olhar. Apanhei um táxi até ao internato, onde supus que me esperaria o pelotão de fuzilamento.

      Durante quatro semanas, professores e psicólogos escolares atormentaram-me para que revelasse o meu segredo. Menti e ofereci a cada um aquilo que queria ouvir ou o que podia aceitar. Com o tempo, todos se esforçaram por fingir que tinham esquecido aquele episódio. Segui o seu exemplo. Nunca expliquei a ninguém a verdade do que sucedera.

      Não sabia então que o oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca.

      Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»

 

Carlos Ruiz Zafón in Marina. Planeta.

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Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2010

Vargas Llosa

«[…] Era um ser pequenino e miúdo, mesmo no limite entre o homem de baixa estatura e o anão, com um nariz grande e uns olhos extraordinariamente vivos, onde bulia algo excessivo. Vestia de negro, um fato que se notava ser muito usado, e a camisa e o laço tinham nódoas, mas, ao mesmo tempo, na maneira como andava com essas peças havia nele algo de sóbrio e composto, de rígido, como os cavalheiros das velhas fotografias que parecem presos nas suas sobrecasacas engomadas, nos seus chapéus altos, tão justos. Podia ter uma idade qualquer, entre trinta e cinquenta anos, e luzia uma cabeleira oleosa e negra que lhe chegava aos ombros. A sua postura, os seus movimentos, a sua expressão pareciam o próprio desmentido do espontâneo e natural, faziam pensar imediatamente no boneco articulado, nos fios de títere. Fez-nos uma reverência cortês e com uma solenidade tão inusitada como a sua pessoa apresentou-se assim:

            - Venho furtar-lhes uma máquina de escrever, senhores. Agradecia que me ajudassem. Qual das duas é a melhor?

            O seu indicador apontava alternadamente para a minha máquina e para a de Pascual. Apesar de estar habituado aos contrastes entre a voz e o físico devido às minhas escapadas à Rádio Central, espantou-me que de uma figurinha tão mínima, de feitura tão desvalida, pudesse brotar uma voz tão firme e melodiosa, uma dicção tão perfeita. Parecia que nessa voz não só desfilara cada letra, sem uma só delas ficar mutilada, nem tão-pouco as partículas e os átomos de cada uma, os sons do som. Impaciente, sem dar-se conta da surpresa que a sua cara, a sua audácia e a sua voz nos provocavam, pusera-se a esquadrinhar e como que a farejar as duas máquinas de escrever. Decidiu-se pela minha veterana e enorme Regmington, uma carrinha funerária sobre a qual não passavam os anos. Pascual foi o primeiro a reagir:

            - O senhor é um ladrão, ou quê? – increpou-o e eu apercebi-me que me indemnizava pelo terramoto de Ispahan. – Passa-lhe pela cabeça levar assim sem mais nem menos as máquinas do Serviço de Informação?

            - A arte é mais importante que o seu Serviço de Informação, seu trasgo – o personagem fulminou-o, deitando-lhe um olhar parecido com o que merece o animal espezinhado, e prosseguiu na sua operação.

[…]»

 

Mario Vargas Llosa in A tia Júlia e o Escrevedor. D. Quixote.

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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Sándor Márai

(Canon EOS 400D; Sigma 18-200 mm; f/6,30; 1/200s;ISO 400; 200 mmm)

«[…] Ela tinha vinte anos; tu já eras juiz. Estavas solteiro. O resto… o resto já tu sabes, claro. Agora já sabes. Não te ofendas: não há razão nenhuma. Ninguém te acusa de nada. Não tens culpa de nada… talvez ninguém tenha. Sim, tenho uma pergunta a fazer-te. Uma só, já ta fiz antes. Mas pergunto novamente… Talvez… agora, que já sabes… agora, talvez entendas a pergunta. Alguma vez sonhaste, nestes oito, dez anos, com Anna?

A voz é humilde, suplicante, quase apaziguadora; é a voz onde se mesclam o mendigo e o médico. Kómives bate três vezes na mesa com o corta-papéis; seguidamente, põe de lado o objecto.

- Sonhar… O que é isso? – diz, rouco, em tom de desprezo. – Não são os sonhos a determinar a vida.

- Oh, não – apressa-se o médico a sossegá-lo. – Os sonhos, tens razão, não significam grande coisa. Não têm força capaz de modelar a existência… pelo menos, é raro terem efeito na vida diurna. Salvo, quando servem de exemplo, na ciência, na arte e na literatura. Mas, na maioria dos casos, tens razão, os sonhos só trazem confusão. Não têm sentido. E, com efeito, o sonho raramente tem uma causa, é quase sempre um efeito. Olha – diz em tom humilde e suplicante -, foi por isso que vim. Não te peço grande coisa. Simplesmente… antes de tomar uma decisão… Gostava de saber a verdade. É o mínimo que um homem na minha situação pode querer. Como se desses uma esmola a um mendigo, na rua. Ora, eu satisfaço-me com essa esmola. Confessa… não, é um termo excessivo e trivial. Tem piedade de mim, reflecte, lembra-te e dá-me como óbolo essa verdade confusa, inútil e sem interesse. Sonhaste, nestes anos, com Anna? – repete, obstinado.

O juiz tem um calafrio, estica os membros intumescidos: imóvel há horas, tem frio, e um arrepio desce-lhe pelas costas.

- Sonhar – diz, muito lentamente, como se precisasse de arrancar esta palavra de algures, de algum magma primitivo onde as palavras se confundem. – Sonhar é loucura – conclui penosamente, em tom arrastado.

- Sim, sim – apressa-se o médico a sossegar. – Os sonhos são uma insensatez. Não chegam a ser uma bruma. E não podemos fazer nada. São sombras que brincam connosco. Sonhaste?...

O juiz olha para o escuro.

- Dez anos – considera ele. – Dez anos, dizes tu… Não me lembro.

O médico apressa-se a sossegá-lo:

- Acredito, claro que acredito. Que atrevimento, julgar que… Ninguém se lembra de todos os sonhos insignificantes. E se eu não tivesse vindo aqui, esta noite, talvez nunca te tivesse ocorrido… A alma, às vezes, obra milagres. Consegue encerrar e isolar por completo um pensamento, uma recordação, um desejo… e fá-lo na perfeição. Vês, Anna não soube durante muito tempo. E quando, por fim, se encontrou a si mesma e compreendeu tudo, como alguém que descobre a realidade, que tem pés e mãos… aí, não percebeu onde haurira essa capacidade, a força para evitar durante dez anos enfrentar a realidade. Afirmou que os seus mecanismos de defesa tinham funcionado quase na perfeição. Claro, com os sonhos… com os sonhos já não tinha sido tão perfeito, mas de dia, durante esses dez anos, conseguiu, e estava quase sempre comigo, entre os meus braços. Ela amava-me, ou não teria sido possível. Mas, por outro lado, estava ligada a ti. Não é fácil acreditar. Eu não acreditava… e nem agora acredito, talvez. Por isso, estou aqui. Agora já não tem sentido prático, pois Anna morreu… sim, matei-a. O meu interesse é puramente teórico. Uma contraprova científica. Claro, também me interessa do ponto de vista pessoal… justamente porque Anna está morta. Sabes, ela contou-me, ontem à noite, que se encontrou contigo há dez anos, e foi como um terramoto, como se terra e céu se abrissem; foi “isso” para ela; o encontro foi “isso”… Parecia-lhe uma ordem. Não podia fazer ouvidos de mercador, pondo-se ao largo, nem esquivar uma interpretação. Ela creditava, e disse-mo ontem à noite, que tu também deves ter ouvido essa ordem. Era impossível não a ouvir, porque essa ordem era mais forte do que um trovão, e ninguém era tão surdo para não reagir. Um encontro desses acontece uma vez na vida. A vida segue o seu curso… e o homem… às vezes, passa ao largo. Não se pode explicar. Não é culpa de ninguém. A vida continua […]»

Sándor Márai in Divórcio em Buda. D. Quixote.

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Domingo, 14 de Novembro de 2010

opening hours

(Gosto deste texto, na Controversa Maresia)

 

«Falas-me de amor platónico mas perguntas-me a que horas abrem as minhas pernas. E eu respondo-te que sou como aquele barbeiro de província que tinha um papel sebento no vidro a dizer que abria a horas indeterminadas. Ah! e ser feliz: pois, também me falas disso. Cada umas das criaturas nesta esplanada envelhece ao segundo, mais um vestígio de rugas, uma vontade de desistir. O tempo passa por todos menos por nós mas é preciso que nos fitemos para além do que aparentamos, furar a pele. Entretanto olhamos a alforreca que dispersa as tainhas, translúcida como os teus olhos, e achamos que ainda ontem estávamos por aqui, iguais, as minhas pernas platónicas, o teu andar gingão. O nosso passado está presente em nós porque é o nosso presente: temos direito a pouco mais, há muito que o comboio saiu da estação, embora na verdade às vezes ainda me pergunte se já chegou ao destino. Sei lá quanto de ti não se imagina a tentacular-me enquanto molho o pão no molho. Quanto de ti é resistir a não fazer ou não fazer por não quereres fazer, apenas. Decifro-te em mim e o que dizes é como meu, deve ser das encruzilhadas da idade: ambos sem rumo, somos aquela alforreca que foi parar ao lodo e que agora não sabe como sair do cais, presa no meio das tainhas, que são muitas e vorazes. Além disso ainda não decidi se isso do platónico é um elogio ou uma ofensa. Mas contradiz sem dúvida o interesse demonstrado no meu horário de abertura.»

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Sábado, 16 de Outubro de 2010

Testamento

«Após a morte de Deus

abriremos o testamento

para saber

a quem pertence o mundo

e aquela grande armadilha

de homens.»

 

Testamento de Ewa Lipska. Rosa do Mundo. Assírio & Alvim.

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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2010

F. Pessoa

«Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
 
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
 
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
 
Que mal fiz eu aos deuses todos?
 
Se têm a verdade, guardem-na!
 
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
 
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me cansado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
 
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
 
Ó céu azul – o mesmo da minha infância - ,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
 
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
 
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!»
 
Álvaro de Campos. Lisbon Revisited. O Rosto e as Máscaras, 2ª edição. Ática.
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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

... das cinzas

«Não são mais que imberbes rebentos. Arderam há três anos mas já estão a ser pasto de chamas novamente. São muitas as áreas no país que ardem e voltam a arder num curto período de tempo, o que indica que ali há dedo dos pastores. Daí que alguns critiquem a recente decisão do Governo de pagar a alimentação do gado que perdeu o seu pasto nos incêndios. "É um incentivo para que continuem as queimadas", afirmam. "Não vamos deixar morrer os animais", responde o ministério.

 

 A relação entre a pastorícia e os incêndios em determinadas áreas - caso da regiões em volta de Castro Daire/Marco de Canaveses ou em redor de Mangualde/Gouveia, para dar alguns exemplos - fica clara quando se olha para a quantidade de vezes que uma mesma zona ardeu nas últimas três décadas. A equipa de José Miguel Cardoso Pereira, do Instituto Superior de Agronomia (ISA), fez este levantamento. E detectou inúmeros matos que insistem em pegar fogo amiúde, contra todas as probabilidades. 

"A recorrência de fogo é tão grande em determinadas áreas que pode dizer-se que são seguramente zonas tradicionais de pastorícia", diz Cardoso Pereira. Com dados disponíveis para 34 anos - de 1975 a 2008 -, a equipa do ISA mapeou as áreas ardidas, constatando que há zonas que, neste período de tempo, já arderam 14 vezes.

  

"Efeitos muito perversos"

Em condições normais, segundo os estudos de Cardoso Pereira, uma área está pronta para arder ao fim de cinco anos depois de ter sido consumida pelas chamas. Ou seja, se uma mesma área registou incêndios mais de seis vezes nestes 34 anos, pode dizer-se que há uma enorme probabilidade de ali terem sido feitas queimadas para renovação das pastagens. Que muitas vezes se descontrolam. 

O uso do fogo na renovação das pastagens é ancestral. É a forma mais barata de o fazer, tanto mais que muitas vezes é feito em áreas marginais, onde roçar o mato é difícil ou nem sequer compensa. Porém, as queimadas estão proibidas na época dos fogos. Mas continuam a ser feitas. 

Aliás, olhando para os relatórios dos incêndios deste ano, a GNR identifica claramente as queimadas como uma das causas mais frequentes dos fogos. A Polícia Judiciária tem também anunciado a detenção de pastores como alegados incendiários. Rui Almeida, responsável pela Directoria do Centro da PJ, adianta que, dos 36 detidos este ano, dois são pastores e sete indicaram ser agricultores. 

Esta relação próxima entre a pastorícia e os incêndios leva muitos a considerar "um risco" a decisão do Ministério da Agricultura de final de Agosto de estabelecer uma ajuda de emergência à alimentação animal "com vista a compensar as perdas ocorridas nas áreas de pastoreio ardidas" nesta época de incêndios - que só termina no próximo dia 15 de Outubro. No caso das ovelhas e cabras, está previsto um valor de 40 euros por cabeça e, no caso do gado bovino, a ajuda sobe para os 100 euros por animal. 

"A medida pode ter efeitos muito perversos", diz Carlos Aguiar, da Escola Superior Agrária de Bragança, especialista em pastagens. "Os pastos de Verão são de baixo valor alimentar, estão secos, o que em si agrava o risco de esta medida incentivar ainda mais o uso do fogo para a renovação das pastagens", acrescenta. 

"Abre um precedente complicado, pois, se as pessoas perceberem que se arderem os pastos recebem apoios para a alimentação animal, serão incentivadas a continuar a fazê-lo", diz Henrique Pereira dos Santos, arquitecto paisagista. "É uma medida que incentiva as pessoas a gerir o território de forma absurda", acrescenta. 

"Não apoiávamos os agricultores e deixávamos morrer os animais?" contrapõe o Ministério da Agricultura. "Era nossa missão ajudar, porque corríamos o risco de, daqui a um mês, se falar de uma grande mortandade". 

"É uma medida justa, é preciso ajudar os agricultores que ficaram sem pastagens, mas tem de ser bem controlada para não beneficiar ninguém indevidamente", argumenta por seu lado Paulo Rogério, da Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela. Se a acha perigosa? "Talvez pudesse vir a ser se não fosse só para este ano, mas como é uma medida que não vai ficar, decidida já depois dos incêndios, não me parece que seja vista como um incentivo", acrescenta.

 

Enquadrar a pastorícia

Com ou sem incentivos, o certo é que esta prática continua, com as consequências que se conhecem. Têm sido detidos alguns pastores mas a repressão também pode ser contraproducente, empurrando-os para a clandestinidade. Que se traduz num aumento das ignições na calada da noite.

"Tem de se investir no enquadramento técnico da pastorícia", defende Cardoso Pereira. Já hoje, os membros do Grupo de Análise e Uso do Fogo dão apoio a alguns pastores para fazerem queimadas em segurança. Mas são ainda uma minoria. 

"Os pastores produzem riqueza e devem ser acarinhados. Muitas vezes o problema está em não terem acesso à terra, o que os obriga a fazerem pastoreio de percurso, renovando, através do fogo, as pastagens de que necessitam", diz Carlos Aguiar, lembrando a quantidade de terra que o país tem devoluta, sem que quem dela necessita lhe possa aceder. A criação de um banco de terras, tão exigida por muitos e várias vezes prometida, continua a não passar disso mesmo: uma promessa.»

 

No Público, de hoje.

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Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

Alçada Baptista

«[…] Tenho a tentação constante deste retorno a uma espécie de saber que nada sabe, como se pressentisse que é preciso encontrar a ignorância incrustada na nossa memória mais profunda - na memória anterior a toda a memória - e que seria depois dessa reencontrada inocência que tudo teria que se reaprender. Estou com cinquenta e oito anos e tenho que reconhecer que passei a maior parte da minha vida a limpar o meu próprio terreno de construções clandestinas, de obras feitas sem licença - sem minha licença -: igrejinhas, sentimentos piegas, bairros operários, casas de espectáculo, artes e pinturas, catástrofes e outros flagelos (lá bem longe, no cabo do mundo), universidades, bordéis, ideologias e morais. Por mais que eu não queira, os meus passos continuam a tropeçar em velhos edifícios em ruínas mas não me apetece nada ceder porque acho que a reconstrução de tudo tem que começar com uma ligação verdadeira com aquela chamada indizível de que tenho a saudade: é aí que eu vejo o amor: uma vibração que não vem da inteligência e nem sequer dos sentimentos mas da natureza mais íntima e mais profunda do meu próprio ser.

 

Felizmente, nada disto para mim é dramático e sou capaz de pensar estas coisas com a dupla consciência de que a aproximação da vida é simples e leve mesmo quando nos propomos tocar naquilo de que depende o reencontro connosco próprios e que nos poderá dar a paz. Tenho a sensação de que o programa que nos meteram na cabeça está todo errado, que ali estava inscrito, por exemplo, que o amor é mesmo essa guerrilha: quem sabe, o capítulo da guerrilha homem-mulher, no grande tratado da guerra que impuseram à humanidade.

 

Hoje, já não posso ouvir falar em dialéctica, em competição, em vencer na vida, porque acho que é com nomes desses que se tem tentado encobrir o projecto sempre adiado de descobrir como saber usar a nossa liberdade e, com ela, implantar no mundo o lugar do homem. Eu hoje pergunto-me é se o nosso cérebro não estará a ser informado por um programa errado, oposto à nossa natureza, à matriz primordial do ser humano. Digo mesmo que me é difícil ver com clareza outro caminho embora saiba que a história é uma vaga que avança sem escrúpulos, a escrever o seu roteiro com aquilo que cada um tem de pior, indiferente aos poucos que procuram, nas suas margens, outras águas e outras linguagens. Isto e só ainda um princípio de descoberta mas de que não posso abdicar. De certo modo, é a minha proposta de partilha na aventura da vida.

 

[…]

 

Gosto de ti porque és minha irmã da seita do sonho. Os que sonham a dormir sabem, de manhã, que isso era uma ilusão mas os que sonham de olhos abertos acreditam que o estofo do futuro será feito desse sonho. Por isso são tão inquietantes aos olhos dos que preferiram ficar por aí, convencidos de que a vida se vive nestes limites, e nem ousam tomar conhecimento daquilo que se pode arriscar para poder experimentar as suas margens. É o medo que faz com que o homem ame a sua imperfeição. A verdade é que as pessoas não desgostam da sua imperfeição...

[…]»

 

A. Alçada Baptista in O Riso de Deus. Editorial Presença.

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