Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2016

mim

Não, não sou poeta! As palavras são duras, cheias de arestas e limito-me a colocá-las ao lado da intransigência dos sentidos, sem o necessário polimento da memória - roubo-as não sei onde (minto propositadamente - às vezes sei e também sei para que as quero!) e com mãos inseguras atiro-as como pedras lançadas aos pássaros (acerta, não acerta?!, normalmente não acerta, mas nem isso é importante).

Não, não sou pintor! Espalho tintas sobre telas como quem atira água sobre rosas brancas à espera que se tornem vermelhas (muitas vezes consigo perceber um ligeiro e inesperado perfume, mas as rosas brancas continuam brancas...). Às vezes as cores e os perfumes surpreendem-me, mas só eu posso perceber isso, o que nunca chega para tornar uma tela colorida numa pintura.

Não, não sou fotógrafo! Apontar e disparar não é suficiente para captar a realidade e muito menos percebê-la (a luz nem sempre me ajuda a ver melhor).

Sim, sou um leitor de mil palavras, um ouvinte de algumas canções e um apreciador de muitos vinhos (sim, e tintos de preferência). Sim, gosto da espuma dos dias (sim, sim, gosto de coisas inúteis). E do silêncio, e da solidão…

Sim, sou pescador e já fui caçador (a morte é desinteressante, mas só agora descobri isso).

(A que propósito escrevo eu sobre mim?)

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:25
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Patilhar
Terça-feira, 11 de Novembro de 2014

«O resto é silêncio»

 

IMG_8064.jpg 

 (Quinta dos Loridos, Bombarral)

  

 [...]Hamlet: O resto é silêncio! (Hamlet morre)

Horácio: Partiu-se um nobre coração. Boa noite amado príncipe e que os anjos do céu venham em coro embalar-te o sono [...]»

W. Shakespeare, Hamlet. Cena II. Acto V.

Desertificação: «[…] A ameaça de desertificação está hoje claramente associada às alterações climáticas. Mas a desertificação não pode ser entendida como um mero fenómeno biofísico. Está normalmente também associada à regressão demográfica e aos usos do solo. Estes vários factores interagem e agravam-se mutuamente nas suas consequências. Há por isso que encontrar formas de mitigar os efeitos dos fenómenos climáticos, adaptando as actividades humanas ao território e mantendo níveis e modos de utilização compatíveis com a conservação e valorização dos recursos naturais e territoriais. O combate à desertificação é, por isso, também um problema de ordenamento do território.[…]» Combate à Desertificação: Orientações para os Planos Regionais de Ordenamento do Território. DGOTU, 2006.

 

Desenvolvimento sustentável: «Um modelo de desenvolvimento que permite às gerações presentes satisfazer as suas necessidades sem que com isso ponham em risco a possibilidade de as gerações futuras virem a satisfazer as suas próprias necessidades». Brundtland (WCED, 1987).

 

Vivo no interior, naquele pedaço da jangada de pedra de onde se avistam terras de Espanha e areias de Portugal. Não é por obrigação, é por opção! Opção por muitas coisas que, conscientemente sobrevalorizadas, são suficientes para suportar algumas angústias… Nada de determinante, quando o mundo é o mundo que escolhemos.

Mas este mundo também é de mudança, muitas vezes com tropia própria, mas demasiadas vezes influenciado por um tropel ruidoso vindo do exterior, qual vendaval que de repente tudo arrasta e tudo destrói: encerramento de escolas, de repartições públicas, dos ‘correios’, de empresas,... O vendaval é quase sempre precedido de uma homilia sobre as “contas” e as “reformas” e, passado o temporal, uma oração sobre a desertificação e o desenvolvimento sustentável

(Amén)

Vem a acalmia e eles vão-se, orgulhosos do oráculo, cientes de que não só acabaram de ganhar uma batalha, como essa batalha era uma boa batalha de uma guerra misteriosamente regeneradora. Deixemo-los em paz, emproados e pobrezitos regressar ao seu burgo dourado.

Falemos de nós, dos que ficam, dos que sempre aqui estiveram, dos que resistiram e resistem a cada vendaval. Falemos então de qualidade de vida, das escolas, das repartições públicas, das empresas - da desertificação e do desenvolvimento sustentável e também, porque não, dos falsos poderes. Daqueles poderes muito apreciados e disputados por meia dúzia de adeptos dos clubes partidários, mas que não passam de fachadas de um poder longínquo que ostensivamente os ignora. É verdade que alguns não merecem mais que a ignorância e algum desprezo do poder central, tão grande é o seu egoísmo de pedestal, mas há outros que me custa olhar o seu olhar - um olhar impotente de quem não consegue dar um murro na mesa.

Todos sabemos, ainda que apenas em alguma da sua amplitude, que a desertificação tem múltiplas facetas e é condicionada por inúmeros factores. Mas, curiosamente, nunca inclui o esvaziamento e a degradação do poder que visivelmente se verifica nestes territórios! Provavelmente porque este esvaziamento não condiciona nada de essencial para as gerações futuras e, portanto, para um desenvolvimento sustentável, ainda que admita que se trata de uma profecia ingénua, certeira para todos (todos!) os representantes do poder central, mas talvez pouco justa para alguns (poucos!) autarcas.

Tenderia a concordar com esta tese se este caminho para uma ausência de poder fosse simples, consciente, natural e, portanto, em última análise, a génese de uma sociedade autónoma, adulta, feliz. Mas não é! Esta ausência é imposta e protagonizada por um grupo de pobres vaidosos inconscientemente atarefados em inutilidades práticas. Neste sentido, temo que no sentido real, é apenas um caminho para o vazio. O resto é silêncio.

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:08
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Patilhar
Quinta-feira, 20 de Setembro de 2012

E se...

 

(Foto da manifestação em Lisboa, 15 de Setembro, retirada daqui)

 

Se amanhã, como sempre, o relógio despertar à mesma hora, a água do duche estiver meio-fria, os olhos teimarem em piscar do sono curto, o primeiro café e o primeiro cigarro souberem mal e a espreitadela pela janela me revelar um sol igual a todos os outros, de todos os outros dias?

 

E se o segurança, como de costume, se levantar ligeiramente da cadeira, com uma vénia - bom dia, sr. engº - e a sra. da limpeza me cumprimentar  - atão, por cá outra vez? -, sorriso enigmático, ainda com o pano do pó na mão?

 

E se...

 

E se isto tem a ver com a liberdade, a minha liberdade?

Publicado por Fernando Delgado às 01:10
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Patilhar
Sexta-feira, 20 de Abril de 2012

Depois do ontem

(e depois do ontem)

De vez em quanto volto aqui, é verdade que cada vez menos, mas há muito, muito tempo... Não é o lugar, que nem sequer existe, mas as palavras que me impelem neste tropismo insconsciente. E como é bom regressar às palavras, ao provisório, ao que é só meu por instantes, mesmo sabendo que são pedaços roubados sabe-se lá onde. A memória é um vão de escada cheio dessas coisas roubadas, algumas partilhadas, outras esquecidas, a maioria inúteis. Estão ali, no vão de escada, acessíveis a todos os que passam, apenas dependentes de um olhar ou de um gesto.

 

(o mundo aconhegado no seu egoísmo)

Não sinto qualquer angústia pela indiferença, pelo passar por aqui sem deixar rasto. O homem é provavelmente o único animal com capacidade de rejeição - as coisas funcionam assim, há que ser realista -, mas a ausência perturba-me. O vazio não é um lugar, não é uma palavra, não é um gesto ou um olhar, é nada. Assim, sem mais.

 

(é o vento e alguma chuva?)

Longe, longe deste frenético quotidiano de coisas aparentemente sérias, mas de duvidosa utilidade e que nos põem cada vez mais longe de nós próprios. Num mundo cheio de urgências, de necessidades injustificadas, de solicitações incompreensíveis é preciso reaprender a sermos justos connosco próprios. É uma questão de auto-estima.

  

(aqueles passos apressados na rua significam o quê?)

E esta página em branco que de repente me fez remexer no lixo do vão de escada à procura de um pedaço amarrotado de memória. Como é bom regressar às palavras!

Publicado por Fernando Delgado às 01:03
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Patilhar
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

... à volta de um olhar

(... porque fogem as aves quando nos aproximamos?)

 

Era um desejo

um tropismo inconsciente

um breve brilho nos olhos.

Sem dizer nada

fugiste

levando-o contigo.

Regressas agora

e o teu olhar incompleto revela essa ausência.

Nunca mais aprendes que não há desejo sem corpo!

Publicado por Fernando Delgado às 23:42
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Patilhar
Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Ecossistemas

Dizem que as três maiores agências de rating – Fitch, Moody’s e Standard & Poor’s – prevêem uma acalmia dos mercados em relação à economia nacional, como resultado das previstas medidas do Orçamento de Estado…

 

São uns crentes, estes politólogos – qualquer caçador sabe que a acalmia dos predadores de topo, seja qual for o ecossistema em que existam, é sempre passageira, muitas vezes uma simples estratégia de caça…

  

Por muito chocante que possa parecer, as vitimas também são sempre as mesmas. Há momentos em que a única estratégia é mudar de vida, ou de selva… (já que tudo indica que o predador é imortal!)

Publicado por Fernando Delgado às 23:18
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Patilhar
Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

Um minuto

O pragmatismo transformou-se em doutrina. Não sei se é bom ou mau… Sei que me irrita esta espécie de apelo ao realismo a preto e branco, esta obrigação de enveredar pelo mal menor, esta opção pelo mais evidente e sobretudo pelo mais imediato. O deslumbramento aliado ao exibicionismo, às aparências, ao faz de conta, dá sempre nisto. No fundo, a mediocridade (como a verdade) acaba por vir sempre ao de cima. Não é uma questão de saber se há bruxas ou não, mas apenas a constatação de que muitas vezes as sombras não nos acompanham, perseguem-nos… O mundo ficou assim, está cada vez mais assim. Pouco me importa - ainda me permito vigiar o sonho!

Publicado por Fernando Delgado às 23:43
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Patilhar
Sexta-feira, 18 de Junho de 2010

Saramago

«Um descanso no caminho

O viajante está feliz. Nunca na vida teve tão pouca pressa. Senta-se na beira de um destes túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo. É uma ilusão que o assalta de longe em longe, não lho levem a mal.

In Viagem a Portugal, Ed. Caminho, 21.ª ed., p. 137»

 

Em Outros Cadernos de Saramago.

 

(Só a morte provoca a unanimidade - nem imaginas como dizem bem de ti! Não lhes leves a mal. Senta-te na beira de um desses túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que te vão compreender)

Publicado por Fernando Delgado às 23:40
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Patilhar
Domingo, 6 de Junho de 2010

Hoje

Poderia escrever sobre a crise, mas que sei eu da crise, que sei eu do sistema financeiro? Nada, zero! Mas as pessoas… De repente ficaram tristes; riem, mas não sorriem; andam de um lado para o outro, parece que andam; às vezes choram. Se ao menos houvesse alguém por perto a quem dar uma bofetada. Mas não, é o sistema, qualquer coisa sem cabeça (e sem corpo onde assentar um valente pontapé).

  

 (Lembram-se do Chaplin, em O Grande Ditador, a "brincar" com o mundo? Se Chaplin fosse vivo, que personagem encarnaria? Qual o rosto para o sistema financeiro? Um polvo? Os polvos têm rosto?)

    

Ah, os políticos! Não, não cairei na velha e estafada lenga-lenga de que os culpados são os políticos. É verdade que muitas vezes são medíocres, mas também quem quer ser político? Direi apenas que não estou nem nunca estarei à espera que resolvam os meus problemas. Já seria bom que não atrapalhassem!

 

Poderia escrever sobre o TGV, mas não sei nada de comboios, a não ser que nos levam ou trazem de qualquer sítio. Parece que é muito caro, mas a pressa, a necessidade de estar em qualquer lugar uns segundos antes dos outros, sempre teve um preço muito elevado. E eu que sempre gostei mais da viagem, do caminho, do que da partida ou chegada…

  

Poderia escrever sobre o petróleo da BP que jorra do fundo do mar algures no Golfo do México. Mas dizer o quê? Que é irónico o maior consumidor de energia fóssil do mundo de repente ver-se chafurdar numa imensa maré de crude?

 

Poderia escrever sobre a selecção nacional que partiu hoje para a África do Sul. Não digo nada!

  

(No fundo, no fundo, não me apetece escrever. Do que preciso mesmo é de uma tela e tintas para reinventar uma ou duas cores do arco-íris.)

Publicado por Fernando Delgado às 00:30
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Patilhar
Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

O Muro

 

        (imagens retiradas da internet)

 

    

 

Dizem que este tipo de acontecimentos precisa de um certo tempo (tempo histórico) para se poder dar uma depuração da(s) realidade(s), uma espécie de separação das diferentes mentiras e das diferentes verdades...

Devo confessar que pouco me importa esta exigência de distanciamento que, pelos vistos, a história necessita para efectuar a sua leitura imparcial... Sempre achei os impulsos e as emoções, a indignação e a revolta, o sim e o não, assim como os respectivos actos, símbolos da genuinidade humana e, como tal, improváveis objectos de uma leitura e de uma análise distanciadas. Pouco me importa que a futura leitura histórica, a leitura objectiva, tenha uma imensidão de factos bem arrumadinhos em milhões de palavras... Para mim, tudo se resumiu, desde sempre, a uma única palavra: liberdade! De resto, os muros, quaisquer que eles sejam, sempre se deram mal com a liberdade…

Publicado por Fernando Delgado às 00:54
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Patilhar
Segunda-feira, 24 de Agosto de 2009

O Dedo de Galileu

Há a idéia de que os cientistas são uns tipos fechados, metidos nos seus laboratórios ou imersos nos seus pensamentos, carrancudos, sem grande disponibilidade para o mundo quotidiano. Não me parece que seja bem assim! A ciência é exigente, avessa a facilidades e a generalidades, mas os seus intérpretes perceberam há muito tempo que o mundo depende deles, muito simplesmente porque não se pode viver nesse mundo sem alguém se dar ao trabalho do compreender. Aliás, por alguma razão as universidades são hoje, em todo o mundo, os centros do poder, embora o seu exercício seja delegado, por muito que custe a alguns políticos de trazer por casa (este é um bom tema de reflexão...).

 

Por estes motivos (não encontro agora outra razão objectiva…), habituei-me a ler alguns livros de divulgação científica, não na vã esperança de perceber os complexos mecanismos dessa ciência (sejamos claros: a ciência não é matéria de consumo fácil…), mas simplesmente na tentativa de perceber o que vai na cabeça de cada um daqueles génios. E o resultado é simplesmente deslumbrante: afinal aqueles tipos são geniais, mas gostam de coisas simples e, sobretudo, conseguem consumir a vida, vivendo-a, e não apenas decifrando-a, como se poderia suspeitar. No fundo, jogam aos dados, e têm imenso gozo nisso!
Para os menos atentos, ou os mais curiosos, aqui ficam alguns dos livros que ao longo dos anos me ajudaram a viver um pouco esse espaço de deslumbramento da ciência (livros de leitura breve, alguns com reduzida exigência de conhecimento prévio):
- O Acaso e a Necessidade, de Jacques Monod e François Jacob
- Diálogos sobre Física Atómica, de W. Heisenberg
- O Relojoeiro Cego e o Gene Egoísta, de Richard Dawkins
- Cosmos, de Carl Sagan
- O Macaco Nú e A Essência da Felicidade, de Desmond Morris
- Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson
… e, já agora, transcrevo um breve trecho da última leitura (um livro mais exigente – ainda não foi desta que compreendi aquela história de Einstein de que alguém pode viver dez anos e o seu amigo em viagem viver apenas cinco ou seis anos…), relativo ao capítulo do ADN, onde se revela esta coisa enigmática do nosso código genético ser fundamentalmente lixo, assim como um bilhete de identidade onde a única coisa verdadeiramente relevante é o insignificante número que o distingue de todos os outros:
 
«[…]
Uma grande parte do nosso ADN é lixo de intrões, já que a natureza, no seu modo elegante e económico mas no fundo esquálido, não se preocupa com deitar fora o lixo que cai em desuso, arrastando-o através de gerações sucessivas. O que é estranho, porque implica que grande parte do precioso recurso que é a energia seja canalizada para a propagação da inutilidade. Talvez o lixo tenha uma função que ainda não identificámos. Talvez seja a forma perfeita de assegurar a propagação da informação através das gerações, sem esta se expor aos perigos que acompanham a actividade patente. O ADN lixo poderá ser informação pura, eterna e não expressa com nenhum outro propósito que não uma existência sem propósito. Este ADN sem propósito é altamente bem sucedido, já que cerca de 98 por cento do ADN que arrastamos é lixo. Apenas 2 por cento é útil, ou seja, codifica proteínas.
[…]»
 
Peter Atkins in O Dedo De Galileu. Gradiva.
Publicado por Fernando Delgado às 01:19
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Patilhar
Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

... no fim do dia!

Vai-te cansaço!
Deixa-me com as palavras imóveis,
Pedras suspensas no nevoeiro.
Deixa-me usá-las,
Para que este caminho se torne límpido,
Para que estas águas cheguem ao mar.
 
Falta tempo, sobra tudo... 
Vai-te! Vai-te!...
 
A realidade não é o que faço.
A realidade sou eu!
Publicado por Fernando Delgado às 00:25
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Patilhar
Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

O Banqueiro Anarquista

(As explicações de Oliveira e Costa na comissão de inquérito da AR sobre o BPN, são uma peça inesquecível… Com o amargo de ter assistido a uma aula de gestão de mercearia, refugiei-me na releitura de algumas páginas do Banqueiro Anarquista, vá lá saber-se porquê… Aqui ficam alguns parágrafos desse texto de Fernando Pessoa, que não consta tivesse conhecido Oliveira e Costa, embora seja certo que conheceu muito bem a gestão de merceeiro, competente e eficiente, no seu âmbito, diga-se…)

 
«(…)
Vieram-me momentos de descrença; e V. compreende que era justificada… Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei-de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, a todas as ficções sociais porque elas não são naturais, porque carga d’água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta.
(…)
- Ora veja como ficaram resolvidas… As dificuldades eram estas: não é natural trabalhar para qualquer coisa, seja o que for, sem uma compensação natural, isto é, egoísta: e não é natural dar o nosso esforço a qualquer fim sem ter uma compensação de saber que esse fim se atinge. As duas dificuldades eram estas: ora repare como ficaram resolvidas pelo processo de trabalho anarquista que o meu raciocínio me levou a descobrir como sendo o único verdadeiro… O processo dá em resultado eu enriquecer; portanto, compensação egoísta. O processo visa o conseguimento da liberdade; ora eu, tornando-me superior à força do dinheiro, isto é, libertando-me dela, consigo liberdade. Consigo liberdade só para mim, é certo; mas é que, como já lhe provei, a liberdade para todos só pode vir com a destruição das ficções sociais, pela revolução social, e eu, só por mim, não posso fazer a revolução social. O ponto concreto é este: viso liberdade, consigo liberdade: consigo a liberdade que posso, porque, é claro, não posso conseguir a que não posso… E veja V.: à parte o raciocínio que determina este processo anarquista como o único verdadeiro, o facto que ele resolve automaticamente as dificuldades lógicas, que se podem opor a qualquer processo anarquista, mais prova que ele é o verdadeiro.
Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei a processos - confesso-lhe, meu amigo, que não olhei a processos;
(…)»
 Fernando Pessoa in O Banqueiro Anarquista. Antígona.
Publicado por Fernando Delgado às 00:38
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Patilhar
Sábado, 25 de Abril de 2009

Abril

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
 

(Utopia, José Afonso)

(25 Abril 1974, Vieira da Silva)

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:56
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Patilhar
Sábado, 21 de Março de 2009

No meio do caminho

 «No meio do caminho

 

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra
 
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.»
 
 
Carlos Drummond de Andrade
Publicado por Fernando Delgado às 23:47
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Patilhar
Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Darwin

Darwin nasceu há 200 anos - e agora compreendo a dificuldade de deus em reconhecer-se ao espelho esta manhã!...

Publicado por Fernando Delgado às 23:49
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Patilhar
Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Palestina

 

Não sei quem tem razão nesta guerra sem fim. Nem sequer sei se existe alguma coisa de racional em toda aquela luta por qualquer coisa que não se entende muito bem qual é – parece-me mais um espectáculo com actores ridículos para espectadores hipócritas, sejam eles ditadores árabes ou eminentes democratas ocidentais. No fundo, bem no fundo, pouco importa quem morre e porque se morre: calados ou não, defendem sobretudo os interesses, os seus interesses, numa atitude de pura hipocrisia política.
Não sou ingénuo – o mundo é assim! Não ignoro que existem causas, pelas quais às vezes se morre e que, em última análise, a morte faz parte da vida, uma espécie de epílogo… Mas não adianta: esta repulsa nem sequer é racional, é quase orgânica, porque a verdade, ainda mais verdade em guerras santas, é que não há nada de transcendente, divino ou belo num corpo que arrefece!

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:26
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Patilhar
Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

Avaliação

 

Na avaliação de funcionários públicos, sejam eles professores ou quaisquer outros, há que reconhecer que existe muito corporativismo, mas noto também um leve fio ideológico que, nestes tempos de ausência da dita, não deixa de ser muito interessante.
De facto, quando se coloca na mão de um determinado número de pessoas, sem grande escrutínio público, a decisão da valia profissional de um trabalhador, estamos não só perante uma situação geradora de conflitos, mas também perante um acto de evidente desvio democrático.
Claro que nas empresas privadas é o chefe que avalia a performance dos seus trabalhadores, sabe-se lá às vezes com que critérios, mas na função pública este acto deve ser democraticamente validado, sob pena de não haver distinção entre uma função de estado e uma função privada, isto é, correndo o risco da autoridade do dirigente (público, sob escrutínio) se confundir com a autoridade do chefe (privado, sem escrutínio).
E é esta distinção que é ideologicamente interessante. No fundo, os funcionários públicos parecem opor-se à autoridade discriminatória do dirigente no acto de avaliação, não necessariamente porque esse dirigente seja mau ou injusto, mas porque essa avaliação não está sujeita a escrutínio (valha a verdade que qualquer funcionário público pode recorrer para milhentos sítios, mas na prática não passa de burocracia interna, de ciclos viciosos de uma decisão anunciada…).
Se é assim (eu gostava que fosse assim...), se o que está em causa é uma revolta dos funcionários públicos contra uma legislação que confere poderes ao avaliador muito para além do que o bom senso democrático aconselha, curvo-me respeitosamente perante este acto de maturidade democrática e não deixo de me sentir feliz pela raiz ideológica da consciência colectiva do mesmo. E como é bom passar da defesa dos interesses à defesa dos princípios!...
 
(Interessam-me muito pouco os pormenores desta avaliação - burocracia, fichas, quem faz o quê, etc. É o costume quando se faz uma reforma e é normal a resistência à mudança - é uma lei da física. Não é por aí!... Aliás, muita gente gosta de discutir estas pequenas minudências, de uma forma quase obcessiva, nalguns casos porque confundem o essencial com o acessório, mas noutros claramente para não terem de admitir que erraram... 
E o erro, - qual erro, se foi deliberado? - em toda esta estória da avaliação dos funcionários públicos, é a ausência na respectiva legislação do único instrumento de avaliação verdadeiramente escrutinável e democrático – o concurso público. Com avaliação anual ou sem ela, com cotas ou sem elas, nas suas múltiplas formas, não seria muito mais fácil abrir um concurso de três em três anos, ou de quatro em quatro, para um determinado grupo profissional, indicando o número de vagas existentes..., com nomeação de um júri, com critérios claros e objectivos, com provas, com afixação de resultados, …? Que sei eu?...)
Publicado por Fernando Delgado às 00:46
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Patilhar
Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

AMI

 

Detesto encontros de angariação fundos para qualquer grupo, para qualquer causa, para qualquer um dos infernos deste mundo. Na maior parte dos casos não passam de convívios de gente vaidosa, com interesses inconfessáveis, que se empanturra à custa de qualquer grupo de famintos. Depois do evento, lá regressam aos seus pequenos mundos (verdadeiramente nunca de lá saíram), aos seus afazeres e aos seus interesses quase sempre opostos àqueles que pretenderam ajudar. Não quero exagerar, mas não me comovem por aí além as manifestações de solidariedade com os desgraçados da sociedade... Apesar de tudo, prefiro a bofetada a oferecer a outra face…
Mas reconheço que neste mundo há gente diferente... O que mais me impressiona no Dr. Fernando Nobre (que estava a ouvir na televisão, a propósito do lançamento do livro Imagens Contra a Indiferença…), é a disponibilidade para os outros, quaisquer que eles sejam. Não sei se isto traduz a bondade de alguém, nem sei se da sua acção resulta a solução de qualquer conflito. Também não me parece que isso seja sequer importante: se entendo este homem espantoso, ele não quer resolver nenhum conflito, não quer ser a solução para nada. Quer limitar-se a ajudar pessoas, anónimas, de qualquer cor, em qualquer sítio do mundo, porque há muito que entendeu que apenas o ser humano enquanto indivíduo pode depender dele, o resto baloiça perigosamente entre uma miríade de interesses inconfessáveis.
É esta descoberta das suas limitações e a rigorosa actuação em conformidade com as mesmas, que me impressiona. Não há nenhuma utopia que supere este realismo. Não há nada de mais genuíno do que resistir há tentação do pedestal. Também por isso, a AMI é hoje, provavelmente, uma das poucas instituições de que Portugal se pode orgulhar. Não sei se Portugal faz muito por ela. Mas talvez seja melhor ser assim!...
 
(... e porque os velhos da minha geração quando falam destas coisas ainda sentem o leve perfume da utopia, porque não ouvir a velha canção de Geraldo Vandré Para não Dizer que não Falei de Flores, na voz de Simone, no YouTube...)

 

«Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontece»

- Geraldo Vandré -

 

Publicado por Fernando Delgado às 22:40
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Patilhar
Sábado, 11 de Outubro de 2008

Lobo Antunes

(A televisão ainda tem coisas boas - a entrevista de ontem de Mário Crespo a António Lobo Antunes, na SICNotícias, é uma dessas raridades que ao fim do dia acaba por justificar o até amanhã... Como não sei colocar o vídeo aqui, nem sei se isso seria possível, acabei por transcrever os primeiros nove ou dez minutos, dos cerca de trinta dessa entrevista. É óbvio que qualquer excesso ortográfico é apenas o resultado da infelicidade das mãos, das minhas, até porque a linguagem escrita omite alguns pormenores importantes da linguagem oral, e sobretudo não revela os silêncios ou revela-os com outro sentido, pelo que nada substitui o original que pode ser visto aqui)

 
MC - O seu Arquipélago da Insónia, gostava de o ver lido por quem?
ALA - Quando estou a escrever nunca penso nos leitores, mas apenas em desembaraçar-me o melhor que posso do material que tenho…
MC - Que material é que tinha aqui?
ALA - A vida inteira!
MC - A sua?
ALA - A de nós todos. Nós somos ao mesmo tempo tão iguais e tão parecidos, porque as preocupações essenciais e as angústias essenciais são sempre as mesmas. Talvez o mais terrível para nós todos seja a angústia do homem no tempo… e a procura de nós mesmos… e a tentativa de compreender o significado e o sentido da vida… E até que ponto o sentido da vida dá sentido à morte?... E até que ponto a morte e a vida existem? Eu tenho muitas perguntas, mas acho que se algum dia souber as respostas, Deus muda logo as perguntas e me dá outras… Então a nossa vida acaba sempre por ser uma interminável interrogação, uma interminável pergunta... Umas vezes angustiada, outras vezes mais ou menos feliz, mas sempre uma pergunta. E vamos acabar ignorantes e tão inocentes como nascemos, creio eu.
MC - Eu ia lendo e… ia dividindo o livro… A principio, até me tentei a sugestionar se estava a encontrar as chaves para descodificar o segredo de tudo. (…) e comecei a imaginar que isto era outro livro, já! Depois, à medida que o ia lendo, …ia construindo em mim livros. Havia o livro da concepção da vida. E uma concepção dura! Alguém, um senhor, que diz a uma criada pega nas tuas coisas e esta noite vais dormir lá para cima. E há vida que nasce nisso. É sempre assim, tanto quanto eu vi, a concepção da vida é sempre abusiva?
ALA - … sabe, eu começo a dar-me agora conta de que talvez esse livro faça parte de uma…, não diria uma trilogia, mas uma trigonia talvez sobre Portugal. O Alentejo aí nunca é nomeado, mas claramente passa-se no Alentejo. Este que estou a escrever também não é nomeado, passa-se no Ribatejo… Hei-de fazer um mais acima… Sobre quem nós somos… Que, no fundo, quando há pouco me perguntou para quem escrevo,… eu escrevo para os portugueses… Cada vez mais. Com todas estas traduções, com tudo o que me tem acontecido, continua a ser para os portugueses que eu escrevo. Para as pessoas do meu país… Que é tão singular e tão rico ao mesmo tempo… Cada vez que dizem que Portugal é um país pequeno fico furioso, para mim chega-me perfeitamente e é enorme… E então era um pouco isso que eu queria: fazer uma espécie de retrato de todos nós, uma biografia de todos nós, uma autobiografia de todos nós. Cada um de nós é muitos, como o título do último livro… E em cada um de nós coincidem todos estes sentimentos contraditórios. E a nossa língua é maravilhosa para escrever. É muito mais fácil ser um bom escritor em português, do que em francês, por exemplo. O meu tradutor americano diz que há duas línguas excelentes para escrever: o português e o inglês, que é uma língua monossilábica. A nossa língua é tão maravilhosamente dúctil…, depois o problema é conseguir resistir às facilidades que ela lhe dá e transformá-la numa língua difícil…
MC - … já me abriu aqui um horizonte… Eu sabia que era uma zona rural nossa, mas não sabia aonde… Os tocanos iludiram-me!
ALA - A mim também…
MC - … descreve os tocanos… à tarde. Descreve uma tarde de tocanos. Descreve tocanos mortos. E iludiram-me. Então eu imaginei, deixei de poder imaginar o cenário... Os milhafres vieram a seguir... E onde há milhafres, se calhar há tocanos… E onde há tocanos e milhafres,… se calhar não era aqui… Não era este o meu universo que eu estava a ver retratado… E é…
ALA - Tudo se passa numa espécie de sonho. Como se o sonho fosse a única realidade possível… É muito curioso ter dito isso porque à medida que ia escrevendo o livro ia-me surpreendendo sempre. O livro foi feito sem plano e nos dias em que as mãos estavam felizes as palavras iam aparecendo…. E as coisas mais variadas e aparentemente contraditórias… Sabe, escrever é um processo doloroso, difícil e angustiado, como sabe tão bem como eu. Mas ao mesmo tempo há momentos de maravilhosa alegria quando a gente sente é isto, é isto, é a palavra… é isto que eu queria dizer. E que muitas vezes veicula sentimentos de que só parcialmente nos apercebemos. Há uma zona nossa que nos continua a ser completamente obscura, ou quase obscura para nós, e se eu conseguir atingir essa zona, esse núcleo de trevas que há em mim e pô-lo dentro de um livro, esse seria o desígnio, esse seria o desejo, esse seria…
(…)

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:52
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Patilhar
Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Capitalismo

(... a reflexão seguinte é interessante - esquecendo alguns pormenores ideologicamente datados... -, mas vale a pena perguntar se esta intervenção do governo americano aconteceria se estivessem em causa “pequenas” empresas, “pequenos” bancos. Ou, de outra forma, a intervenção ocorreu devido à dimensão absurda que atingem algumas empresas; mas se a dimensão é absurda, se em momentos de crise precisam de uma intervenção do Estado, sem a qual põem em causa a vida de milhões de pessoas, porque são privadas?)

 
«Risco de Estado
A “nacionalização” das duas agências hipotecárias norte-americanas carinhosamente tratadas por nomes próprios – Fannie Mae e Freddie Mac – é um acontecimento histórico que obriga a duas reflexões imediatas.
Uma, sobre os efeitos desta intervenção na resolução da crise. Outra, de natureza mais filosófica, sobre se a decisão de Henry Paulson, secretário do tesouro norte-americano e antigo banqueiro de investimento – e que, como o próprio ontem admitiu, foi a decisão mais difícil de toda a sua carreira – terá sido o certificado de óbito do liberalismo.

Sobre o primeiro ponto, é evidente que esta intervenção, de valor superior ao PIB português, travou apenas queda num poço sem fundo à vista. Daqui a algumas semanas, quando os bancos voltarem a apresentar resultados, não merecerá mais do que um rodapé nas cronologias que os jornais dedicam periodicamente à crise. Esta, depende da recuperação da confiança, que não regressa com uma operação pontual. Isto não significa que estejamos condenados a uma nova Grande Depressão. Mas há ainda muitos buracos por destapar. O Citigroup, por exemplo, tinha no final de Março activos superiores a um bilião de dólares (isso mesmo, com 12 zeros) fora do seu balanço. No próximo ano, as regras contabilísticas obrigam-no a transferir boa parte desses activos para os seus livros. Da última vez que procedeu a uma operação desse tipo, assumindo 100 mil milhões, o Citi contabilizou prejuízos associados de 7 mil milhões. Os responsáveis do banco garantem ter lucros suficientes para cobrir qualquer eventualidade e esperemos que tenham razão. Mas só quando todas estas núvens se dissiparem é que a crise estará definitivamente pelas costas.
Quanto à questão filosófica, é verdade que as forças do mercado abusaram – e de que maneira – das liberdades que lhes foram dadas. É fácil usar a crise para demonstrar a falência da economia de mercado. Mas os exemplos de planeamento central já mostraram à saciedade serem infinitamente piores. Os danos colaterais destes sistemas contaram-se também em milhões, não de euros ou dólares, mas de vidas humanas. Além disso, estes argumentos esquecem um pormenor importante: as regras do mercado livre prevêem um papel para o Estado – o de regulador. Pode, assim, defender-se sem demasiado cinismo que a crise nunca teria atingido as dimensões actuais se o Estado tivesse cumprido de forma eficaz o seu papel.
Outra regra do liberalismo é a que diz que os ganhos são proporcionais ao risco que se está disposto a tomar. Alan Greenspan – o Estado –, com as sucessivas descidas nas taxas de juro após os ataques do 11 de Setembro, contribuiu para promover a ideia de que o risco deixara de ter custos associados. Era evidente que essa factura iria queimar muita gente para além dos banqueiros que se empanturraram no festim dos últimos anos. Foi isso que levou Paulson a intervir. Resta saber se, com a substituição da noção de que o risco não tem preço pela de que, no final, o Estado lá estará para pagar a conta, o secretário do Tesouro não terá criado o embrião de uma nova crise algures no futuro.»
Pedro Marques Pereira no Editorial do Diário Económico.com
Publicado por Fernando Delgado às 23:58
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Patilhar
Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

LHC

Segundo percebi, e provavelmente percebi muito pouco…, o Large Hadron Collider (LHC) vai permitir dar resposta a muitas perguntas sobre a origem do Universo….Coisa aparentemente fácil se atendermos aos 20 anos de trabalho para construir um túnel circular com 27 Km, com tecnologias complicadas, e que juntou mais de 6000 cientistas de todo o mundo.

A investigação sempre foi um lugar estranho, por isso mesmo fascinante. Se houvesse alguma dúvida bastaria atender a que um dos objectivos é “entender por que a matéria é muito mais abundante no Universo do que a anti-matéria” e “uma das aspirações dos cientistas é encontrar o hipotético bosão de Higgs, uma partícula que nunca foi detectada com os aceleradores existentes, muito menos potentes que o LHC”.

(Como eu gostava de trabalhar num sítio destes – estou mesmo a ver o bosão a cumprimentar-me numa esquina do acelerador, “estás bom, pá, anda comigo, conheço um sítio sem tempo e sem lugar”, e a anti-matéria a mostra-me o oposto de mim mesmo, “estás a ver, não és nada!”... Só uma dica final aos cientistas, quanto mais não seja porque à ignorância sempre se permitiu dar conselhos - na minha cabeça o bosão tem a forma de um smarties amarelo e a anti-matéria é como farinha a soltar-se das mós dos moinhos de D. Quixote. Agora, cientistas, procurem!).

Publicado por Fernando Delgado às 00:46
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Patilhar
Sábado, 5 de Julho de 2008

Justiça

 

Fátima Felgueiras…
Isaltino Morais…
Valentim Loureiro…
Vale Azevedo...
Ferreira Torres…
Madeleine McCann...
Casa Pia…
Pinto da Costa…
Operação furacão...
Etc…
 
(Sou da área de ciências, como se dizia no liceu… Ensinaram-me que os problemas têm sempre solução ou se não têm percebe-se porquê, por mais complexos que sejam. Aprendi com a vida que às vezes existe mais que uma solução e o verdadeiro problema acaba por ser a escolha dessa solução… Mas nunca ninguém me tinha dito que, apesar de existir uma solução, não interessa ou não é relevante alcançá-la. É como se a resolução do problema constituísse em si mesmo um fim – o resultado nunca aparece, esgueira-se subrepticiamente por entre as inúmeras fórmulas, parece um fantasma à nossa frente como a cenoura à frente do burro. Caminha-se mas não se alcança, pensa-se mas não se age.
Chegámos a um ponto em que o estar já não cabe dentro do ser. Este incómodo acabará um dia por desabar sobre todos nós. É que não há fingimento que perdure para além do disfarce nem lei que resista à sua própria iniquidade).
Publicado por Fernando Delgado às 01:29
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Patilhar
Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Eu cumpri os objectivos...

Há uns dias pareceu-me ouvir o ministro da economia dizer que se mantinha no lugar porque tinha cumprido os objectivos… Como ando farto de pseudo-avaliações achei que não tinha entendido bem e passei à frente… Deparo agora com uma crónica no Expresso em que, ao que parece, o ministro disse mesmo que se mantinha no Governo porque eu cumpri os objectivos.
Estou estarrecido só de imaginar o pobre do Correia de Campos a olhar para a ficha de avaliação e para as notas que o avaliador lhe deu – não se imagina que possa ter tido outra coisa que um necessita de desenvolvimento, que não passa de uma expressão simpática para dizer és um idiota! Adorava conhecer as fichas de avaliação dos outros ministros, dos que não saíram. E já agora o nome dos avaliadores…
(A avaliação, qualquer avaliação, não tem nada de extraordinário desde que se limite a medir resultados, mas torna-se repugnante quando põe em causa a dignidade dos avaliados. É aqui, neste limiar psicológico que se identificam também os limiares da prepotência de uma qualquer tribo temporariamente eleita e permanentemente efeitiçada... Resistir à tentação ainda acaba por ser o menor dos pecados! Ou muito me engano, ou um dia o feitiço vira-se contra o feiticeiro...)
Publicado por Fernando Delgado às 00:12
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Patilhar
Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Lei e ética

Na quadratura do círculo, Pacheco Pereira fez uma abordagem interessante da quesão da lei e da ética, insurgindo-se contra a idéia de que numa democracia republicana, a lei é a ética (aparentemente uma frase de Pina Moura).
Tem razão o JPP! A ética é mais exigente que a própria lei, sobretudo quando se trata de actos políticos. Não faz sentido esperar que a lei determine se um determinado acto é legal ou ilegal - a sua eventual legalidade não legitima o acto do ponto de vista ético. Há muitos exemplos em política e quase sempre as vítimas de processos reclamam inocência após decisão judicial, esquecendo-se que o que está em causa são comportamentos eticamente condenáveis e não apenas ou só a prática de actos ilegais. Aliás a questão colocada por JPP é neste aspecto assassina: como se explica que, com vencimentos de político (ministro, autarca, etc.), se chegue a milionário em poucos anos?...
Publicado por Fernando Delgado às 00:14
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Patilhar
Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Casinos

Um tal Jerome Kerviel, um miúdo de 31 anos que ocupava uma posição menor no Société Général, levou este banco a perder 4,9 mil milhões de euros, ao que parece devido a investimentos em fundos europeus… Enfim, o puto deve ser um génio, mas o que verdadeiramente me incomoda são as declarações de Daniel Bouton, presidente do banco. Disse ele que as perdas poderiam ter sido ganhos, se os mercados tivessem subido na segunda, terça e quarta-feira.
Não percebo nada de mercados financeiros e por isso nunca comprei uma acção! Sempre me pareceu uma coisa para entendidos, onde os pequenos accionistas não passam de pequenos actores destinados a perder, mais tarde ou mais cedo, qualquer ilusão que lhes tenha passado pela cabeça. O chamado capitalismo popular sempre me pareceu uma fraude…, mas também nunca me imaginei a acordar, olhar-me ao espelho e descobrir, de repente, que do outro lado estava um accionista de uma qualquer fábrica de papel higiénico, de computadores ou de anti-depressivos…
Mas mudei de ideias – vou comprar acções! É que isto começa a tornar-se interessante: este mundo transformou-se num imenso casino e eu gosto de casinos. É verdade que ainda é sítio sem lugar, sem banca, sem jogadores, sem croupier e, muito menos, sem cigarros mal apagados, sem murros na mesa, sem choros ou lágrimas…, mas há-de lá chegar!
(Neste mundo tudo depende de uma boa segunda ou terça-feira, não porque existe um risco nos actos praticados, mas porque é um jogo e as cartas estão viciadas. Por isso é que tudo acontece e desacontece a uma velocidade suficiente para que não se perceba que é sempre a mesma água que corre por debaixo da ponte).
Publicado por Fernando Delgado às 01:16
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Patilhar
Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Sinais

(Mesmo que a edição de hoje do Público possa parecer um manifesto anti-Sócrates, convém não escamotear algumas das realidades que estão por detrás da prosa corrosiva de V.P. Valente, de A. Barreto ou de Manuel Carvalho no editorial do próprio jornal. Importa-me pouco que eles tenham razão ou não, até porque o contraditório, neste caso, seria um puro exercício de retórica, mas já ficaria profundamente preocupado se os ‘alvos’ permanecessem impávidos e serenos, rumo a qualquer coisa que, começa a perceber-se, pode não fazer muito sentido…
Convém não menosprezar estes ‘sinais’… A arrogância e a prepotência são típicas de quem não tolera a independência dos outros, embora sejam também um eficaz meio de atingir objectivos - felizmente em democracia têm um período de vida útil muito curto!
Quando aos actos pouco pensados e naturalmente mal recebidos pelos destinatários, acresce uma tendência quase doentia para lhes adicionar um adereço moral e uma etiqueta regulamentadora, chega-se ao limite do exercício do poder. A partir daqui tudo é possível…, pelo que vale a pena parar um pouco para reflectir, deixando falsas moralidades e bastões regulamentadores à porta!)
 
«(…) Nasceram no I Governo constitucional e cresceram até agora na maior tranquilidade. Andaram pelo ‘soarismo’, pelo ‘cavaquismo’ (que os promoveu muito), pelo ‘guterrismo’ (que os deixou à solta), pelo fugitivo Barroso e mesmo por Santana (que protegeram e guiaram). São do PSD, mas muito amigos do PS; ou do PS, mas muito amigos do PSD. O que não quer dizer que seja o ‘centrão’. O ‘centrão’ é a cozinha dos partidos para a pequena gente: para o funcionalismo, para as câmaras, para os subsídios. Com outra envergadura (e outro apetite), este ‘clube’ vive de amizades particulares, de confiança mútua, de exclusividade. Rodam e voltam a rodar. Cá fora tudo muda, eles nunca mudam. Basta ver os nomes de que se fala para o BCP e a Caixa. Não os conhecem? (…) Num país normal não concorreriam à administração do maior banco privado duas listas ‘partidárias’: uma ‘do Governo’ e uma da ‘direita’. Num país normal, há coisas que simplesmente não sucedem e pessoas que simplesmente não existem.»
Vasco Pulido Valente
«(…) Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu Governo. O primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra as iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas. (…)»
António Barreto
«(…) Pegando nas pontas de múltiplas iniciativas, percebe-se que o país está a ser comprimido por restrições destinadas a criar um homem novo na costa Oeste da Europa, um homem crente nas virtudes do Governo, saudável, civilizado e sem vícios. Sócrates não quer que sejamos apenas nórdicos na destreza com a tecnologia: exige-o também pela mudança de hábitos e costumes. (…) A questão que a nova moral pública da era Sócrates nos suscita é, porém, um problema de grau: não se trata apenas de penalizar os verdadeiros prevaricadores, mas a tentativa de nos impor uma sociedade asséptica, onde não se toleram erros involuntários, o direito ao vício do tabaco, colheres de pau ou bolos caseiros. O problema é que o Governo quer transformar à força da lei uma comunidade com manifesto défice de civismo numa turma de escola limpinha e bem comportada. Operações de engenharia social assim, já se sabe, são um perigo. (…)»
Manuel Carvalho, Editorial
Publicado por Fernando Delgado às 23:07
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Patilhar
Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007

Tratado de Lisboa

... muito interessante o penteado de Dulce Pontes – que bem que lhe ficava aquele visual no meio de tanto cinzentão engomado! Todas as encenações precisam de qualquer coisa que quebre a monotonia de momentos calculados ao milímetro – perante a fraca probabilidade de um pombo defecar bem do alto dos Jerónimos em cima de qualquer ombro presidencial, alguém encarregou Dulce Pontes de colorir o ambiente... Fê-lo bem, melhor ainda a cantar, transformando o pequeno número de Sarkosy numa mal ensaiada informalidade...
Não haja qualquer dúvida: somos muito bons a gerir coisas etéreas... É suposto que amanhã, esfumados os últimos clarões da festa e confrontados com a quotidiana realidade, acordemos mais felizes?...
Publicado por Fernando Delgado às 23:28
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Patilhar
Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Laxness

“(…) Einer de Undirhlío era, por sua vez, crítico do mundo, e geralmente escrevia sobre os homens quando morriam, e buscava conforto na fé cristã, que ele pressupunha ser mais favorável aos agricultores numa outra vida do que nesta.(..)”
Halldór Laxness, in Gente Independente
 
(Ao ler Gente Independente - vou só no início, o fim ainda está a quase 400 páginas -, lembrei-me de repente de Torga, mas mais do que todos os outros, de Steinbeck e daquelas duas páginas finais de A Um Deus Desconhecido, que durante 30 anos me ficaram na memória - tenho o mau hábito de datar os livros e de os sublinhar. De facto, as mãos mortais do Alma Grande ou os filhos da Mariana (só dela!), em Torga, a angústia do padre perante a eminência da tempestade depois de anos de seca “vão despir a roupa toda (…) e rebolar-se na lama. Vão chafurdar na lama como porcos”, de Steinbeck, são pedaços de um conjunto que se vai construindo e crescendo perante uma única certeza: “os nossos efeitos são a única evidência da nossa vida”, tudo o resto é um imenso e tosco desenho de emoções que se vão construindo e destruindo sobre um pedaço de terra que meigamente nos vigia, e nos espera.
Os livros que têm os agricultores e as comunidades rurais como protagonistas, acabam sempre por revelar uma enorme rudeza e crueldade na abordagem das relações entre as pessoas, ou destas com o meio. É como se tudo tivesse que começar e acabar num dado momento, com uma sofreguidão pouco adequada à imagem idílica que às vezes se tem do campo… A verdade é que é mesmo assim – há entre a terra e o homem uma cumplicidade que, de tão intensa, se torna fatal. Não haja ilusões, estes pequenos mundos só aparentemente são simples e a rudeza dos homens é apenas a expressão do verdadeiro rosto da terra. Mas é também por isso que são os mais interessantes mundos do mundo!)
Publicado por Fernando Delgado às 23:55
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Patilhar
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Milagres

“(…)
- Está branco como uma nádega de freira, Daniel. Sente-se bem?
Um hálito invisível varria a plateia.
- Está aqui um cheiro esquisito – comentou Fermín Romero de Torres. – Parece de peido rançoso, de notário ou procurador. (…)”
 
A Sombra do Vento, de Ruiz Zafón
 
Gosto do humor…, mas isto não era para estar aqui. Só está, porque, entre o olhar sobre as páginas e o ouvido na televisão, acabei por fechar o livro (sinal dos tempos…) e prestar alguma atenção à notícia de que haveria algum problema com a santificação dos pastorinhos de Fátima. Coisa menor se não fosse a causa da coisa: os médicos a quem o Vaticano solicitou parecer (tenho dúvidas que estes termos façam sentido numa tal relação, mas esta aliança é já em sim um pormenor importante…), tinham dúvidas de uma pretensa cura de diabetes incuráveis… Enfim, haverá mais pormenores, mas o que me impressiona é esta generosidade (ou condescendência?) da ciência perante o espírito… Bem vistas as coisas, é como se a ciência, de repente, se transformasse numa entidade certificadora de milagres. Em certo sentido, é uma confissão de derrota…
Dizem que Deus não dorme e, pelo andar dos tempos, é bem possível que um destes dias a ciência procure certificar este estado de permanente halitose…
Publicado por Fernando Delgado às 00:22
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Patilhar
Sábado, 6 de Outubro de 2007

Interruptores

Alguém criou uma esquina mágica – um sítio onde é possível ir, permanecer algum tempo e ouvir de um lado e transmitir para o outro. Assim, sem mais! É simples: sentamo-nos na esquina, muito atentos ao lado em que gente inteligente fala de coisas importantes e,  em simultâneo, falamos para o outro lado, transmitindo essas coisas a anónimos incrédulos… (Não, não é psicologia de massas de qualquer ditadorzito de bairro, é eficácia de gestão para elites, para aquele número restrito de privilegiados que se juntam mais próximo da esquina…).
Visto de longe, são duas ruas, aparentemente iguais, mas em que uma tem luz e outra vai recebendo essa luz através daquele interruptor falante agarrado à esquina, qual idiota que não percebe que o interruptor só atrapalha aquilo que é naturalmente fácil…
O mais dramático é quando se conhece um destes interruptores…, meu deus, quanta vaidade, quanta arrogância, quanta inutilidade debitada a cada clique!...
 
(Amanhã vou à caça!)
Publicado por Fernando Delgado às 23:53
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Patilhar
Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Hoje, nada

... entre a eleição(?...) de Luís Filipe de Menezes, a homilia do Marcelo desta noite (está cada vez pior, o professor,,,), o desabafo de Soares (é uma desgraça, disse..., mas era bem melhor que não dissesse nada...), a morte do Cavaco ( do pai...), as enxurradas em Lisboa (pobre cidade que não suporta uma ressaca mais longa do S. Pedro), acabei na história dos monges da Cartuxa... Nada de novo nestes monges, apesar das celas em vez de quartos, da pequena ração em vez da comida, do silêncio ensurdecedor de quem troca os prazeres da vida (afinal, a própria vida!... Excluídos os prazeres, resta o quê?), por qualquer coisa que os meus gostos terrenos não alcançam...
Julguei que esta minha irritação tinha origem numa dor de costas que me impede de fugir para longe da televisão... Mas não, é apenas o resultado de uma realidade medíocre ou inverosímil...
Publicado por Fernando Delgado às 01:35
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Patilhar
Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

Sun Tzu

“Ho-lü disse: ”Li, Senhor, os seus treze capítulos completos. Será capaz de me fazer uma pequena demonstração de controlo de tropas?”
Sun Tzu respondeu: “Sou, sim.”
Ho-lü perguntou: “Poderá a experiência ser feita com mulheres?”
Sun Tzu assentiu: “Pode, sim.”
Concordando, o rei mandou que do palácio viessem cento e oitenta belas mulheres.
Sun Tzu dividiu-as em duas companhias, colocando à frente de cada uma delas uma das favoritas do rei. A todas ensinou como empunhar alabardas. Perguntou-lhes então: Sabeis onde estão o coração, as mãos, direita e esquerda, e as costas?”
E as mulheres afirmaram: “Sabemos.”
Sun Tzu explicou-lhes: “Quando eu der a ordem ‘Em frente’, virai-vos para onde o coração está virado. Quando mandar ‘À esquerda’, voltai-vos para o lado da mão esquerda. Quando mandar ‘À direita’, voltar-vos-eis para o da direita. Finalmente, quando ordenar ‘À retaguarda’, virar-vos-eis na direcção das vossas costas.”
E as mulheres voltaram a afirmar: “Entendemos.”
Uma vez feitas estas recomendações, informou-as estarem os instrumentos do carrasco a funcionar.
Sun Tzu proferiu as ordens três vezes e explicou-as cinco vezes mais, após o que ordenou ao tambor que rufasse. “Direita volver”. As mulheres escangalharam-se a rir.
Sun Tzu comentou: “Se os regulamentos não são claros e as ordens não são perfeitamente explicadas, a culpa é do comandante.”
Assim, repetiu as ordens mais três vezes e explicou-as mais cinco vezes, após o que fez sinal ao tamborim para que rufasse. “Esquerda volver”. De novo as mulheres rebentaram de riso.
Sun Tzu comentou: “Se as instruções não são claras e os comandos pouco explícitos, a culpa é do comandante. Mas quando foram bem claramente postos e não são executados de acordo com os ditames militares, então o delito é da parte dos oficiais.”
Logo a seguir, ordenou que as mulheres no comando das divisões esquerda e direita fossem decapitadas.
O rei Wu, que do alto do seu terraço assistia aos exercícios, viu que as suas duas queridas concubinas iam ser executadas. Aterrado, enviou a toda a pressa um ajudante-de-campo, com a mensagem seguinte: “Já verifiquei ser o general capaz de lidar com tropas. Sem aquelas duas concubinas, a minha comida perderá o seu sabor. É meu desejo que não sejam executadas.”
Sun Tzu respondeu-lhe: “Este vosso servo foi por vós próprio nomeado comandante-chefe, e quando um comandante-chefe encabeça as suas tropas não é obrigado a obedecer totalmente ao seu soberano.”
Como exemplo, fez levar por diante a sua ordem de decapitação das duas mulheres que haviam comandado as duas divisões e nomeou as duas que se lhes seguiam em categoria como novas comandantes.
Repetiu as ordens através do tamborim e as mulheres viraram à esquerda, à direita, em frente, à retguarda, ajoelharam-se e ergueram-se, todas em total acordo com as instruções que lhes havia dado. Nem sequer ousaram produzir o mais leve ruído.
Sun Tzu enviou nessa altura uma mensagem ao rei informando-o de que “as tropas estão agora em condições. O rei poderá descer e inspeccioná-las. Estão prontas a ser utilizadas de conformidade com os reais desejos, pelo meio do ferro e do fogo, se for preciso”.
O rei Wu respondeu-lhe: “Pode o general voltar ao seu hostal e descansar. Não inspeccionaremos as tropas.”
Ao que Sun Tzu replicou: “O rei apenas aprecia palavras ocas. É incapaz de as pôr em prática.”
 
Sun Tzu in A Arte da Guerra
 
Faço os possíveis por ler os livros que me recomendam, mesmo que o título, que é sempre a primeira janela, seja uma blasfémia… Agora que cheguei ao fim, não quero comentar o livro (fica o texto acima como exemplo…), mas apenas dizer que há amigos (é verdade, tenho amigos com os quais estou quase sempre em desacordo, é a minha forma de exercitar a arte da guerra…) que me surpreendem. Ó Álvaro, nem sequer sei se gostei do livro, foi-me completamente indiferente, não ficou nada, … Se queres que te diga, houve partes em que me lembrei do Valente Soldado Chveik, de J. Hasek (que saudades!...), outras do RDM (não andaste na tropa, mas é uma espécie de manual de boas maneiras…) ou das Citações do Mao, (tão certinhas, tão óbvias,...), e, imagina, do Nuno Rogeiro, na TV, com aquele ar de inteligente a explicar a guerra, qualquer guerra… A única coisa boa é que, como rejeição, desta vez vou arranjar coragem e tempo (à força!), para ler A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (pelo menos gosto do título…), que está aqui mesmo ao lado há demasiado tempo à minha espera... Um dia destes ofereço-te um livro…
Publicado por Fernando Delgado às 23:53
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Patilhar
Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Pequenos mundos

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Os dois velhotes dirigem-se a um destino bem preciso - eles vêm de algum lado e o caminho, tal como num rio, apenas traduz as margens de um rumo... O aparente caminhar para o fim está apenas na nossa cabeça..., mesmo que a realidade nos diga que é assim. Não há nos inícios e fins de qualquer coisa nada de dramático, apenas a demonstração de que "o mundo é composto de mudança", tão só a certeza de que o futuro precisa destes fins , unicamente a esperança de que os inícios (os novos inícios) não rejeitem todos os outros.

A prova de que isto é assim, está nas casas sem telhado, não porque caíram de velhos ou porque o fogo os consumiu, mas apenas porque estas casas precisaram de libertar o que no seu conteúdo já não fazia sentido estar aprisionado... São bonitas assim, abertas ao céu, como as mãos estendidas a outras mãos...  

(A compaixão é um sentimento inútil, ridículo e hipócrita..., é preciso imaginar estes pequenos mundos como os mais belos mundos do mundo!)

 

Publicado por Fernando Delgado às 21:47
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Patilhar
Segunda-feira, 4 de Junho de 2007

O Borda d'Água

 

Já não é um jornalito que parece saído de um qualquer offset clandestino, mas ainda mantém sintomas de um parto difícil... Não pesa uns quilos, como alguns jornais de referência da nossa praça, porque tem apenas o essencial: as luas, novas, velhas e assim assim; os dias de plantar bróculos, feijões, tomates, ... e de podar macieiras e ameixeiras, e de semear os nabos, as couves,... tudo o que é verde ou para lá caminha...; depois tem coisas boas e outras menos boas, mas ainda assim boas, escritas em forma de futuro, que como se sabe tem sempre um aspecto redondo, que é a melhor forma de falar do que não se sabe...; às vezes reduz esse futuro a previsões, quase nunca acerta, mas isso não é importante, o importante é mesmo a previsão, que é uma maneira de nos deixar em suspenso até a uma nova previsão...; e tem o juízo final, uma espécie de avaliação, ou de sentença, às vezes dura, muito dura...; é um jornal sobre tudo, para toda a gente, ou como se diz agora um jornal generalista, de grande expansão...
 
(Comprei o Borda d'Água em Coimbra e estava agora a folheá-lo, depois de ouvir a "homilia" do Marcelo R. Sousa, na RTP1 - foi apenas uma coincidência, mas esta referência, aqui, é obviamente intencional!...)
... e depois há conselhos irresistíveis (edição de 2007):
 
“Reutilize a água do banho, entregue para reciclagem do lixo (os óleos dos fritos, em garrafas, no lixo normal), carregue o telemóvel longe de si, apague a luz de presença da televisão e tenha-a ligada só quando a vê, use a manta nas pernas em vez do calorífero, tenha acesa apenas a luz da sala em que está, desloque-se mais a pé e de transportes públicos e melhorará o destino do planeta.”
 
ou ainda,
 
“Quanto à gripe das aves, com o Ministério da Saúde a desperdiçar tanto dinheiro em vacinas prematuras, não se deixa amedrontar com as estatísticas paranóicas de milhares de mortos, ria-se do papão da gripe e imunize-se naturalmente respeitando as leis da vida e da alma sã, respirando ar puro, ou em vapor de água a caruma dos pinheiros e folhas de eucalipto, alfazema e tomilho. Lembre-se mesmo que é melhor ter gripes e febres que são sinais de luta interna e competente contra vírus e bactérias no organismo do que tomar antigripes e antivírus, que nunca servem para toda a gente e que depois o podem incapacitar de reagir, por exemplo, a outros vírus e tumores.”
Publicado por Fernando Delgado às 00:13
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Patilhar
Terça-feira, 29 de Maio de 2007

Modigliani

(… esboço para uma cena do filme1 modigliani, em que o pintor dança à volta da estátua de Balzac, no meio da neve, com uma garrafa de vinho tinto na mão…)
 
Convoquem todos os nómadas do mundo, mostrem-lhes um caminho e verão como eles se quedarão na encruzilhada da partida, antes de se esgueirarem pelos atalhos do destino. Depois barafustem, critiquem, revejam todos os conceitos e normas, criem padrões de comportamento, rasguem novos caminhos… Que inutilidade, que estranha forma de ser! Haverá sempre um modigliani a dançar à volta da estátua de Balzac, ou de Camões, ou de Pessoa… Haverá sempre um nómada no meio deste sedentarismo mental que em permanente dança desenha leves traços no céu, apenas perceptíveis no prolongamento das mãos. E é aqui, só aqui, que o mundo começa a tornar-se interessante… (o vinho tinto é apenas um pormenor).
1 de Mick Davis, com Andy Garcia (Modigliani), Omid Djalili (Picasso), Theodor Danetti (Renoir), Stevan Rimkus (Soutine), etc.
Publicado por Fernando Delgado às 01:01
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Patilhar
Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

Existindo

Vou por aí
muito lentamente
com um sorriso
para que não percebam
que não me apetece sorrir.
Como é difícil ser-se testemunha de si próprio!
 

 

Publicado por Fernando Delgado às 02:49
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Patilhar
Sexta-feira, 4 de Maio de 2007

O engenheiro

(Notas para um epitáfio ao engenheiro...)
 
Nota um:
“Eu fingi que estudei engenharia. Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda. Meu coração é uma avozinha que anda pedindo esmolas às portas da alegria.”
 
... da biografia de Álvaro de Campos, segundo Fernando Pessoa (... ele próprio)
 
Nota dois:
“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.
 
O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.
 
Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.
 
Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?
 
Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.
 
Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?
 
Quantos Césares fui!
 
Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!"
 
Pecado Original de Álvaro de Campos
Publicado por Fernando Delgado às 00:59
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Patilhar
Quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Existências

"(...) Nenhum acto é tão autêntico como o trabalho.
Quando queremos ser sérios e profundos dizemos que trabalhamos.
E é nesse gesto mágico e económico que se suportam os nossos sonhos.
A labuta como método de render homenagem à existência.
Culto do que não é oculto nem ficcional. (...)
 
(... e quanto me custa reproduzir estes versos de "importância" no Sísifo... Gosto do oculto e do ficcional e sobretudo não gosto do trabalho como invocação da existência... Mas são versos, posso sempre refugiar-me no seu provável sentido metafórico e tentar justificar, a mim mesmo, esta ausência cada vez mais prolongada... Que mal me sinto, tão sério e profundo que nem admito que o trabalho me impede  outras existências...)
Publicado por Fernando Delgado às 00:05
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Patilhar
Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

PIRRA

Os blogs só são interessantes para quem os faz! Ninguém entenderia a partilha de um reflexo condicionado…
 
(… e, no entanto, o cão vagueia pelas ruelas há dois anos…)
Publicado por Fernando Delgado às 01:02
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Patilhar
Domingo, 31 de Dezembro de 2006

Vazios

Há períodos em que não apetece escrever, como há outros em que não apetece ler, falar, trabalhar… É estranho, mas é mesmo assim. São espaços aparentemente vazios, em que nada nos motiva, em que tudo se resume à rotina, a esta forma ambígua de fazer sem estar e de estar sem ser. Mas há um lado prático nesta pausa intelectual: as coisas, mesmo as coisas importantes deste mundo, acabam por acontecer sem nos beliscar em demasia, como se fizessem parte da rotina, como se fossem normais e simples, como se acontecessem porque têm que acontecer. Há, assim, momentos em que a inteligência se desliga, deixando-nos em standby, numa letargia madura que se traduz em inutilidade e iniquidade social…
(… na televisão estão dois indivíduos encapuçados a colocar uma corda no pescoço de Saddam Hussein…)
É suposto que os sistemas políticos suportem actos racionais… Acaba, 2006!
Publicado por Fernando Delgado às 01:53
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Patilhar
Sábado, 7 de Outubro de 2006

Ausência

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(... estar ausente não é estar longe, nem sequer não estar aqui. É não ter nada para dizer, porque tudo se consumiu neste quotidiano que, de vez em quando, se torna predador da imaginação!...)
Publicado por Fernando Delgado às 01:11
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Patilhar
Sábado, 16 de Setembro de 2006

J. Ratzinger

Há nomes que parecem predestinados a adequarem-se a determinadas funções…,e na minha cabeça J. Ratzinger associa-se a coronel… Admito que seja um complexo, uma espécie de um manto que quer encobrir um agnosticismo consciente…
Acabo de ouvir que Bento XVI citou um livro no qual é relatada uma conversa entre o imperador cristão bizantino do século XIV, Manuel Paleologos II, e um persa, sobre as "verdades" do cristianismo e do islamismo… Não há dúvida que escolheu o pior momento para o fazer…, mas tratando-se de um coronel as palavras tornam-se coerentes…
Publicado por Fernando Delgado às 01:40
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Patilhar
Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

Günter Grass

Günter Grass, segundo ele próprio confessa, parece que se alistou nas SS aos 17 anos...
 
(É sempre bom saber a verdade? E essa verdade é sempre importante? Voltarei a ler “O Tambor” e, finalmente, terei coragem de acabar de ler “Uma Longa História”? E se reler estarei de mente aberta ao prazer da leitura, ou apenas a tentar descobrir nas entrelinhas eriçadas cruzes suásticas… Que idiotice esta de termos um passado! E que estranha vertigem esta de a ele regressarmos quando o presente nos bastava…)
Publicado por Fernando Delgado às 00:16
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Patilhar
Terça-feira, 1 de Agosto de 2006

Fidel Castro

"Estamos todos a rezar para que ele fique bom!", resposta/opinião de uma mulher, recolhida nas ruas de Cuba, quando questionada por um jornalista sobre o internamento de Fidel Castro...
(Que pensará Fidel deste apelo ao divino? E que estranho deus intercederá por ele?)
Publicado por Fernando Delgado às 23:28
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Patilhar
Quinta-feira, 20 de Julho de 2006

Coisas inacabadas

Acontece-me cada vez com mais frequência ler um texto, olhar um quadro... e achar que estão inacabados, incompletos, que falta qualquer coisa... Mas simultaneamente também tenho a certeza que na altura em que foram criados me pareceram completos... O tempo parece, assim, acrescentar algum material à memória, dar-lhe um pouco mais de dimensão, dispor alguns grânulos de outra maneira, de modo que o ontem e o hoje sejam diferentes... De algum modo o presente acaba sempre por troçar do passado, olhá-lo com algum desdém, considerá-lo apenas um traço incerto e vago, muito rudimentar, quase nada...  O que é dramático é verificar que, para as coisas essenciais, este acréscimo de conhecimento (será?) é perfeitamente inútil - retocar o texto ou a pintura, seria tão desastroso como acrescentar ou retirar uma palavra a qualquer conversa de ontem ou retocar o pôr do sol desta tarde...

Parece assim que a busca de uma qualquer perfeição - signifique isto o que significar... - é feita a partir de correções de imperfeiçõs sucessivas, detectadas a qualquer olhar sobre o ontem que se repete a cada dia... Não vale a pena tão grande e inútil esforço - é sempre preferível começar de novo!

Publicado por Fernando Delgado às 00:19
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Patilhar
Terça-feira, 11 de Julho de 2006

Atrás dos tempos...

Às vezes passam dias e as palavras não existem,... é como se de repente o céu ficasse sem nuvens, sem estrelas, vazio... e, no entanto, isto, este vazio, não é possível. Não há vazios, mas apenas outra coisa que não são palavras..., são cores, são gestos, são silêncios... Mas as palavras também são isto, também são cores, também são gestos, também são silêncios,... só que são outras palavras, são outra coisa, que não se escreve, não se lê, não fica, não permanece. É a isto que chamam a espuma dos dias?, qualquer coisa de irremediavelmente precário, qualquer coisa que vive e morre ao mesmo tempo? Um dia é um dia, com palavras ou sem elas, com gestos ou sem eles, com cor ou sem cor, com gritos ou com silêncios... Por muito que me custe, há dias que não constam da memória e apenas traduzem um tempo ausente. Pena é que esses dias não sejam recuperáveis, reutilizáveis nos momentos em que esse tempo é insuficiente... Devíamos poder escolher os tempos da nossa existência!
Publicado por Fernando Delgado às 00:12
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Patilhar
Terça-feira, 20 de Junho de 2006

Interiores

(Papel/madeira/linho, 60 x 35 )
As coisas simples apenas significam que em determinado momento foi possível o despojo completo da alma e o esqueleto resultante é apenas uma estrutura à espera de um novo inconsciente…
Publicado por Fernando Delgado às 02:19
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Patilhar
Sexta-feira, 2 de Junho de 2006

O Outro Pé da Sereia

“A melhor maneira de fugir é ficar parado. Lição que o burriqueiro Zero Madzero aprendera com a imbabala, a gazela dos matos densos. É a fuga da presa que engrandece o caçador. O ficar imóvel é o mais astuto modo de enfrentar o predador: deixar de ter dimensão, converter-se em areia no deserto. Desaparecer para fazer o outro extinguir-se.
A melhor maneira de mentir é ficar calado. Lição que o burriqueiro não aprendera com ninguém. O silêncio não é ausência de fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra.”
Mia Couto in O Outro Pé da Sereia
 
E se a nossa demora nos instantes inúteis nos justificasse como presa? Quem é o caçador e quem nos conduziu e nos mantém neste estado de aceitação? Porque nos escondemos imóveis e amorfos neste mato denso? Porque está ausente a revolta? Que estranho tropismo nos impele para este silêncio? É preciso criar um código de interpretação do silêncio?... E tu, já pensaste que o mundo pode ser um erro? Mas, que adianta isso, que grão de areia acrescenta ao teu ego? Resolve tu a questão: qual é a cor do teu mundo? – isso, permanece calado e imóvel, pronto a reduzires-te à mínima dimensão, ao conformismo! Que mentira sustenta esta verdade?
 
(Um dia somos capazes de tudo e no dia seguinte nem sequer admitimos que pensámos em tal coisa. Qualquer caçador sabe que estes limites estabelecem as fronteiras do racional, permitindo distinguir o momento em que, para a presa e predador, se torna irreversível qualquer fuga. É neste momento que faz sentido reduzir tudo ao silêncio, em que faz sentido dizer-se tudo sem nenhuma palavra!)
Publicado por Fernando Delgado às 23:49
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Patilhar
Segunda-feira, 29 de Maio de 2006

OGM's

Por força de um trabalho que estou a fazer sobre Organismos Geneticamente Modificados (OGM’s), fui obrigado a ler dezenas de artigos sobre esta matéria, principalmente americanos, disponíveis no site da AgBioWorld…, mas o que me trouxe aqui não são propriamente os OGM’s, mas a maneira como a comunidade científica americana (e não só) parece encarar a ciência e a sua aplicação prática.
Sabe-se que em Portugal existe um claro divórcio entre os cientistas e investigadores, por um lado, e as empresas, por outro, com consequências muito graves quer na credibilização do trabalho científico quer no grau de inovação empresarial. As excepções são muito poucas e apenas confirmam a regra, pelo que se apela sistematicamente a uma maior interligação entre estas duas realidades, de modo a que os cientistas e investigadores não “trabalhem apenas para o curriculum” e as empresas se abram à inovação. Nisto parece estarmos todos de acordo.
O que é para mim espantoso é que o oposto também acontece e pode ser uma catástrofe! A leitura dos inúmeros artigos disponíveis no AgBioWorld revela o lado mercantil da ciência, o apelo a um conjunto inenarrável de argumentos demagogicamente alinhados para obter um determinado efeito psicológico na opinião pública. Os exemplos são do tipo “hoje temos 6.5 mil milhões de pessoas, em 2050 teremos 9 mil milhões; na população actual 1.2 mil milhões de crianças morrem à fome ou são subnutidas; a ‘agricultura tradicional’ não pode sustentar esta população; etc….”, para logo depois concluir sem qualquer despudor, que a solução para a erradicação da fome no mundo está nos OGM’s…
Quem escreve isto não são jornalistas, ou cidadãos que exprimem a sua opinião, são cientistas de reputadas universidades americanas, australianas, indianas, francesas, inglesas…, são respeitáveis professores que descobriram como se manipula o genoma dos organismos vivos, mas que não se coíbem de simultaneamente serem consultores das empresas que comercializam os produtos obtidos…
Sei que a ciência não é neutra, nem tem que o ser, mas causa-me alguma náusea ver os cérebros deste planeta embrenhados numa disputa mercantil e demagógica que em alguns casos chega a parecer histérica, como nestes dois exemplos:
“(…) Hhat saddens me most, Sir, is much you will be missing if you turn your back on science. I have tried to write about the poetic wonder of science myself, but may a take the liberty of presenting you with a book by another author? It is The Demon-Haunted World by lamented Carl Sagan. I’d call your attention especially to the subtitle: Science as a Candle in the Dark”, carta aberta de Richard DawKins, Professor of the Public Understanding of Science at OxfordUniversity, ao Príncipe Carlos
ou
“The efforts of organizations such as Greenpeace to block efforts to feed people adequately throughout the world by battling biotechnology resolutely are doubtless helpful to the finances of that organization, which does not spend a cent of its money will go to alleviate starvation or to help people, but they are outrageous, scientifically unfounded, and should be rejected out of hand by any moral person” de Peter Raven, Missouri Botanical Garden.
 
Malthus enganou-se quanto ao crescimento demográfico e é evidente que a pobreza e a fome no mundo não se resolvem com OGM’s, como não se resolveram com a revolução verde. Valha a verdade que os OGM's podem ser um importante factor de progresso na obtenção de alimentos, de preservação do ambiente e da biodiversidade (usando menos pesticidas), ou de erradicação de doenças crónicas (carência de vitamina A no arroz e de proteína na batata, por exemplo). Não me preocupa muito a acusação ética ou religiosa "playing god", até porque deus gosta destes jogos..., mas neste caso, como em muitos outros, apetece responder: that’s the politics, stupid!
Publicado por Fernando Delgado às 00:48
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