Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2016

Volta-de-lua

- Filho, hoje é dia de volta-de-lua, não devias podar as videiras...

- Hum?

- No meu tempo, os homens levavam uma pequena bacia com água e cinza que punham ao pé das videiras enquando andavam a podar. Quando acontece a volta-de-lua a cinza revolve-se e a água fica turva - não se pode podar mais! As videiras não dão cachos e o vinho estraga-se...

 (Entretanto Marcelo foi eleito presidente da república)

 Sem bacia com água e cinza, espero que as videiras dêem uvas e o vinho seja bom... 

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:42
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Patilhar
Domingo, 27 de Maio de 2012

o achigã e a tragédia dos comuns

Fui à pesca e não pesquei nada… Fiquei parado, sentado numa pedra, de cana na mão, a olhar para um tipo (não, não me atrevo a chamá-lo pescador) com um saco cheio de achigãs: pequenos, médios, grandes, minúsculos…, enfim, de todos os tamanhos. Aparentemente o tipo estava feliz!

 

Há sítios onde nos sentimos sós e egoístas, e incapazes de perceber o mundo. Mas também é nestes sítios que por vezes se encontra um sentido para as teorias que já lemos ou aprendemos em qualquer lado, e não há nada de mais real do que sentir a verdade de uma teoria.

A Tragédia dos Comuns (1) é um texto célebre, de Garret Hardin, publicado em 1968 na revista Science (2) e que posso resumir mais ou menos assim:

  

Na utilização de pastagens comuns (3), alguns pastores descobrem que se aumentarem o seu rebanho, aumentam o lucro individual, enquanto o custo é dividido por todos. Numa situação extrema, todos os pastores tenderiam a aumentar o rebanho, originando uma sobreexploração dos recursos e a consequente tragédia, em que todos perdem.

  

O próprio Hardin considera que há muitas questões não técnicas à volta deste problema, para além da questão dos interesses público e privado, mas o que verdadeiramente me interessa é a complexidade do comportamento humano na utilização de recursos públicos.

  

Aquele tipo, com o saco cheio de achigãs, não conhece de certeza o texto de Hardin, nem deve fazer a mínima ideia do que ele significa. Apeteceu-me bater-lhe (ainda por cima olhava para mim com ar de vencedor de qualquer batalha...), mas também tive medo que ele me respondesse que pode pescar todos aqueles achigãs porque sabe que eu e outros pescadores não o fazemos, revelando-me da forma mais cruel que a tragédia não acontecerá.

 

Há dias em que não se pode ir à pesca. Não é por lei, é por auto-regulação.

 

 

(1) Parece que a expressão é mais antiga e atribuída a William Forster Lloyd, num livro sobre população, publicado em 1833.

(2) Ver texto aqui.

(3) O termo comum provém da expressão commons, que era utilizada para designar as pastagens, as florestas e os campos compartilhados por uma comunidade rural.

Publicado por Fernando Delgado às 00:37
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Patilhar
Sexta-feira, 10 de Março de 2006

Freud, o pionés e o prego

Numa das caminhadas pretensamente fisioterapáticas que costumo fazer pela cidade, numa noite fria e chuvosa, encontrei um velho debruçado sobre um daqueles cantos das ruas onde tudo se junta: folhas das árvores, papéis, terra suja… O velho aparentemente tinha encontrado o que procurava: uma folha escrita à mão, com a tinta desbotada e com alguma lama à mistura. Olhou-me naquele silêncio de significado universal – isto é importante! -, dobrou cuidadosamente a folha em quatro partes, meteu-a no bolso e afastou-se lentamente.
 
Nunca mais o vi, mas agora, uns dias depois, apetece-me revisitá-lo no meu imaginário – naquele sítio onde a realidade olha a sua sombra tentando encurtar o espaço que as separa… – e entro pela janela numa enorme sala onde o velho está sentado, dolorosamente curvado sobre um livro. Ao fundo, num placard pendurado na parede, consigo descortinar a folha com as letras desbotadas, ainda ligeiramente suja de lama, presa com um pionés. Olha-me, e o seu rosto revela-me um conjunto de inquietações a que só os velhos conseguem transmitir alguma tranquilidade e ternura. “Sabes, há coisas que não devemos perder, mesmo que seja uma folha suja… É bom deixar-mos rasto daquilo que pensamos!” Sentei-me e ele levantou-se e começou a andar pela sala. “A vida não é simples, mas é possível retirar-lhe a ambiguidade que quase sempre a torna insuportável… Aquela folha tem um texto sobre essa ambiguidade, essa espécie de hipocrisia oculta... Vou ler-ta.” Tirou a folha do placard, sentou-se a meu lado, olhou-a longamente e, sem a ler, sussurrou-me: “O acesso ao poder…”, olhou-me, mas claramente não esperava qualquer assentimento, e continuou “…aos pequenos poderes, torna-nos insensíveis a um conjunto de princípios de que nunca devíamos abdicar. É a sofreguidão do imediato, do amanhã que é já agora, mesmo que seja evidente que as coisas estão incompletas e imaturas. Não há um conjunto de regras que sustentem a acção e muito menos o conjunto teórico de princípios que a fundamente. Não, no exercício do poder o que é fundamental é a sua manutenção e é desta sustentação até ao limite da hipocrisia que te queria falar…”
 
Levantei-me e saí pela janela. Fugi! Fugi, porque conheço a história (a realidade aproximou-se da sua sombra…) da folha suja presa no placard a que se vão acrescentando pionés, como se acrescentam peões num campo de batalha, até ela se tornar eternamente estável. A maior ambição da folha é desprender-se do placard, mesmo que venha a parar numa sarjeta suja (nunca as palavras escolheram o local de nascimento e morte…), e a do placard é manter esta espécie de simbiose mumificante. Ambas caem no equívoco de se pensarem autónomas. Ambas dependem do pionés e tudo, em última análise, está sujeito à arbitrariedade de quem dispõe da capacidade de manipular estes objectos de cabeça desmesuradamente oca e um biquinho estúpido. E como esses manipuladores gostam de deixar as impressões digitais na cabeça colorida do pionés, meu deus!... Mas a sua suprema ambição reside na capacidade de transformar o pionés num prego, ferozmente espetado no centro da folha, assegurando a sua eterna estabilidade e imutabilidade. Mesmo adivinhando o obsceno da folha esventrada, a tentação é tão grande que há cabeças que não resistem… E torna-se num vício!
 
(Tudo isto não passaria de um divertido e inútil jogo, se não estivéssemos a falar de pessoas. Tudo isto se resumiria à distracção perante folhas sujas e letras desbotadas, se não estivessem em causa estruturas sociais frágeis. Tudo isto se resumiria à defesa de um conjunto de interesses, se não estivesse em causa os princípios básicos da vida em sociedade... É pena que Freud, que eu saiba, não se tenha debruçado sobre a influência do pionés e do prego - objectos fálicos, sem dúvida! - no exercício do poder…).
ps : Chamaram-me a tenção para o pionese … De facto a palavra correcta é pionés - espécie de prego de cabeça larga e chata, geralmente usado para fixar papéis. Do fr . punaise. (Dicionário da Língua Portuguesa, 2004. Porto Editora).
Publicado por Fernando Delgado às 23:06
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Patilhar
Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2005

O Zé da Estina

O Zé da Estina sentou-se na pedra granítica no alto do monte, puxou da onça e da mortalha e lentamente enrolou o cigarro. Não tinha pressa, nada à volta sugeria qualquer urgência. O tempo repousava embalado na leve brisa que suavemente lhe afagava os cabelos grisalhos. Lá no fundo, o rio parecia parado, adormecido, embrulhado num azulado forte. A águia imperial dava voltas junto ao céu, apenas por dar, como se fosse aquela a sua forma de descansar. Acendeu o cigarro. Duas fumaças, um suspiro longo e o olhar fixo no horizonte. Fixo, mas perdido: “Porque buscam os homens essa coisa inútil que é o amanhã? Porque acham que o podem condicionar!..., mas o que ganham com isso? Que posso eu acrescentar a este mundo, para que regresse aqui amanhã e o sinta melhor?” Desviou o olhar para o rio. “Nada. A este mundo não posso acrescentar nada. A única maneira de fazer qualquer coisa de útil por ele, é não fazer nada. É mantê-lo assim, dentro de mim, sem mim.” Levantou-se, procurou a águia que continuava a voar em círculos, agora mais perto do céu, e começou a descer a encosta. Junto ao rio, como uma cobra que se liberta da pele inútil, tirou lentamente o fato que depositou num pequeno montículo em cima das botas, e atirou-se à água, nadando para a outra margem. Saiu da água e dirigiu-se para uma pequena cabana, meia escondida por um salgueiro. Nu, na penumbra da cabana, sentiu-se estranhamente confortável e feliz... Lá fora, na outra margem, a águia pousada junto às botas, às calças e à camisa, guardava o seu Zé da Estina, como um deus que zela pelos seus ícones. Se o luar testemunhou qualquer metamorfose, acabou por escondê-la no amanhecer do dia seguinte. A verdade, porém, é que o Zé da Estina nunca mais apareceu e a águia tem agora o hábito de pousar na pedra de granito, com o olhar vivo de sentinela fixo na cabana abandonada.
Publicado por Fernando Delgado às 00:33
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Patilhar
Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2005

Os Três Mosqueteiros

A história de Alexandre Dumas - Os três Mosqueteiros - pode resumir-se assim: Em 1625, D’Artagnan, um jovem fidalgo com aspirações a mosqueteiro, chega a Paris e inadvertidamente ofende três mosqueteiros, Porthos, Athos e Aramis, o que o leva a envolver-se num empolgante duelo. No entanto, mal este começa, os quatro são atacados por guardas do Cardeal. A bravura demonstrada por D’Artagnan leva-o à amizade com os mosqueteiros e, em breve, a perigosas aventuras por terras de França e Inglaterra, com o objectivo de deitarem por terra os planos do Cardeal Richelieu e sua temível espia Milady. "Um por todos e todos por um" será então o lema destes quatro bravos heróis que juntos irão lutar corajosamente pela justiça, honra e defesa da coroa!
  
Mas há uma outra história, julgo que contada por J. L. Godard, num filme de que não me recordo o título..., não sei sequer se é de Godard... (a minha memória tem já zonas de penumbra), mas como se costuma dizer: as palavras não são minhas, roubei-as não sei onde, mas sei para que as quero! A história é mais ou menos assim: Porthos, o (mais) bruto dos três mosqueteiros, era o especialista do grupo em detonações. Usava pólvora preta, doseava bem a carga e calculava ainda melhor o tempo de espera do detonador. Acendia o rastilho e afastava-se calmamente para um lugar seguro. Fez isto centenas de vezes, com êxito. Certo dia, depois de acender o rastilho e começar a afastar-se, vá lá saber-se porquê, olhou para os pés e descobriu que caminhava porque um pé ia para a frente, enquanto o outro ficava para trás..., depois o de trás ia para a frente, enquanto o da frente ficava para trás..., isto é, descobriu que caminhar resulta de uma situação de desequilibro. Parou estupefacto a olhar para os pés, lado a lado, agora em equilibrio... Já com a bomba a detonar e a montanha a cair-lhe em cima, ainda teve tempo de articular umas palavras já moribundas: “porra, a instabilidade é a única coisa que nos mantém vivos!”
 
(Suspeito que Milady, por entre lágrimas, terá dito: “a primeira vez que pensou, morreu!”)
Publicado por Fernando Delgado às 01:19
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Patilhar
Quarta-feira, 20 de Abril de 2005

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"E se me pegares na mão e me levares para aquele lugar a que chamas utopia, eu vou. Não porque acredite nele, mas simplesmente porque deste lado já não existe nada. Nem mágoa, nem tristeza, nem desejo, nem sequer raiva. Aqui é cada vez mais o presente, sem o ontem ou o amanhã. Não acreditas? Então fala-me do teu mundo, dos teus sonhos... Sentes-te mal, como um minúsculo grão de areia?!..., não precisas dizê-lo, basta olhar para ti. Pensa um pouco!... Conta-me o que fizeste das laranjas que seguravas nas mãos, encostadas ao peito.
Sei que a lua adormeceu nas águas do lago e os teus cabelos esvoaçaram levemente. Da alma não me lembro, mas do corpo retenho o sorriso cúmplice do delito. Resta um perfume fugaz do teu gesto irreflectido - porque deitaste as laranjas ao lago, assustando os patos? Não te interessa, eu sei. Estás contente com o teu mundo, com as tuas pequeninas coisas, com os teus inúteis interesses. Mudaste, estás na idade da razão - ainda te lembras de Sartre? -, por isso sou benevolente. Era-me indiferente, se fosses só tu. Mas não! Estamos todos assim - acomodados, amorfos, quietos, velhos.
Sei que os tempos mudam e que a memória é uma coisa precária, um pouco como a espuma das ondas que se desfaz lentamente na areia da praia. Mas, quer queiras quer não, no fim resta sempre uma cicatriz que dói e, ingénua e lenta, condiciona ainda o teu pequenino mundo de interesses. Eu sei, por mais que o negues, que os dias são longos, mas resguarda neles um pedacinho e pensa no que fizeste dos princípios que dizias abraçar para toda a vida - passa um leve olhar sobre essa cicatriz! Não, não falo dos chavões que vorazmente fomos aprendendo em noites intermináveis de discussão e que nunca percebi muito bem se vinham da Revolução Francesa ou de um qualquer Maio intemporal. Falo das emoções, do sim em silêncio, do olhar cúmplice, do perfume das palavras. Falo da voracidade dos princípios e da angústia dos interesses.
Não, não me fales em ideologia - um conjunto de princípios não forma uma ideologia -, era só uma mão-cheia de princípios, suficientes para definir o nosso pequenino mundo. Percebes o que quero dizer? És capaz de me explicar a diferença entre esquerda e direita? Não, não me fales da União Europeia - é uma desculpa! E não me venhas com os argumentos do costume - a moeda única, o desenvolvimento do país ... É discurso televisivo, é discurso de interesses e nem quero saber se a discursos diferentes correspondem ou não os mesmos interesses (ou vice-versa, que sei eu?). São interesses e isso basta-me! E não me digas que o teu mundo cresceu, que já não é pequenino, porque é uma ilusão causada pela dispersão por inúmeras coisas inúteis - não confundas o teu espaço de emoções com o teu espaço de ilusões e não deixes que um se misture com o outro. Separa as águas, faz um apelo à diferença... A propósito, ainda roubas rosas nos jardins? Eu sei que estamos em final de século, provavelmente na sua década menos interessante, mas nada nos obriga a esta homogeneidade amorfa - lá por termos todos acesso à mesma biblioteca nada nos obriga a ler os mesmos livros e a ter as mesmas referências. Lembras-te que nos ensinaram a levar porrada e a dar a outra face - é um bom exemplo moral, dizia-se. Mas há sempre um dia em que nos irritamos e damos também um bofetão. Faz bem acontecer isto - é como acordar lavado, ainda que admitamos que o homem é um ser que erra, que mente mesmo quando ama, que sofre mesmo quando está feliz, que se torna incompleto quando não falta nada.
Tu dizias-me que o sonho é o lugar onde só cabe uma pessoa de cada vez. Eu nunca acreditei, por isso te utilizei para dizer aquilo que não sou capaz de exprimir no singular. Mas tu conheces-me. Sabes que vou ficando - não sei se por hábito se por opção -, até ao dia em que, de tanto olhar quem passa, adormeça e aceite o mundo tal como ele é. No dia seguinte, claro, porque o presente ainda é uma plataforma de rosas embrulhadas na saudade diáfana. Lembro-me que escolheste o mês da luz opaca para fugires à procura de outros mundos. Não te censuro, porque sei que juntos (nem imaginas a multidão que somos) faremos do céu - que é bem o silêncio da terra morna - um espaço enorme, florido e povoado de emoções. Como costumavas ler de um qualquer dos teus muitos papéis: "Gosto dos meus erros! Não quero renunciar à liberdade deliciosa de me enganar."
 
(Texto publicado na Gazeta do Interior, em Junho de 1997, sob o título "A voracidade tranquila dos sentidos" e que, por uma enorme preguiça..., aqui reproduzo. Até amanhã!)
Publicado por Fernando Delgado às 00:03
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Patilhar
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