Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Ricardo Araújo Pereira

Um "velho" amigo enviou-me por email um texto, já com alguns meses,  de Ricardo Araújo Pereira: "Ponto da Situação" (ver revista Visão). Como este é um blog que costuma roubar coisas a outros (a originalidade é um palavrão simpático, mas de difícil aplicação prática...), transcrevo esse texto com a devida vénia...

Para os mais curiosos, há muitos outros textos de igual "calibre" na citada revista e do mesmo autor. Textos, ou apenas frases geniais, como esta:

«Quando se trata de taxar grandes fortunas os analistas tornam-se filosóficos: mas o que é um rico?, perguntam.»

ou esta:

«Admito que um jornalista não saiba muito sobre economia, fraqueje na história, hesite na ciência política. Mas recuso ser posto ao corrente da actualidade por pessoas que não sabem o que se faz numa orgia. Há um mínimo de cultura geral de que uma sociedade civilizada não pode abdicar.»

ou ainda esta:

«Eu ainda sou do tempo em que havia apenas dois cuidados a ter com a fruta: lavar ou descascar. Desrotular é uma preocupação contemporânea. "Lavaste essa maçã, Carlinhos?", perguntavam as mães do século XX. "Lavaste e desetiquetaste essa maçã, Carlinhos?", perguntam as mães do século XXI.»

«Ponto da Situação

Os portugueses vivem hoje num país nórdico: pagam impostos como no Norte da Europa; têm um nível de vida como no Norte de África. Como são um povo ao qual é difícil agradar, ainda se queixam. Sem razão, evidentemente.

A campanha eleitoral foi dominada por uma metáfora, digamos, dietética: o Estado era obeso e precisava de emagrecer. Chegava a ser difícil distinguir o tempo de antena do PSD de um anúncio da Herbalife. "Perca peso orçamental agora! Pergunte-me como!" O problema é que, ao que parece, um Estado gordo é caro, mas um Estado magro é caríssimo. Aqueles que acusavam o PSD de querer matar o Estado à fome enganaram-se. O PSD quer engordá-lo antes de o matar, como se faz com o porco. Ninguém compra um bácoro escanzelado, e quem se prepara para comprar o Estado também gosta mais de febra do que de osso.

Embora o nutricionismo financeiro seja difícil de compreender, parece-me que deixámos de ter um Estado obeso e passámos a ter um Estado bulímico. Pessoalmente, preferia o gordo. Comia bastante mas era bonacheirão e deixava-me o décimo terceiro mês (o atual décimo segundo mês e meio, ou os décimos terceiros quinze dias) em paz.

Enfim, será o preço a pagar por viver num país com 10 milhões de milionários. Talvez o leitor ainda não tenha reparado, mas este é um país de gente rica: cada português tem um banco e uma ilha. É certo que é o mesmo banco e a mesma ilha, mas são nossos. Todos os contribuintes são proprietários do BPN e da Madeira. Tal como sucede com todos os banqueiros proprietários de ilhas, fizemos uma escolha: estes são luxos caros e difíceis de sustentar. Todos os meses, trabalhamos para sustentar o banco e a ilha, e depois gastamos o dinheiro que sobra em coisas supérfluas, como a comida, a renda e a eletricidade.

Felizmente, o governo ajuda-nos a gerir o salário com inteligência. Pedro Passos Coelho bem avisou que iria fazer cortes na despesa. Só não disse que era na nossa, mas era previsível. A nossa despesa com alimentação, habitação e transportes está cada vez menor. Afinal, o orçamento gordo era o nosso. Agora está muito mais magro, elegante e saudável. Mais sobra para o banco e para a ilha.»

 

Boca do Inferno. Ricardo Araujo Pereira. Revista Visão. 15.09.2011.

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Publicado por Fernando Delgado às 23:47
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