Terça-feira, 11 de Novembro de 2014

«O resto é silêncio»

 

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 (Quinta dos Loridos, Bombarral)

  

 [...]Hamlet: O resto é silêncio! (Hamlet morre)

Horácio: Partiu-se um nobre coração. Boa noite amado príncipe e que os anjos do céu venham em coro embalar-te o sono [...]»

W. Shakespeare, Hamlet. Cena II. Acto V.

Desertificação: «[…] A ameaça de desertificação está hoje claramente associada às alterações climáticas. Mas a desertificação não pode ser entendida como um mero fenómeno biofísico. Está normalmente também associada à regressão demográfica e aos usos do solo. Estes vários factores interagem e agravam-se mutuamente nas suas consequências. Há por isso que encontrar formas de mitigar os efeitos dos fenómenos climáticos, adaptando as actividades humanas ao território e mantendo níveis e modos de utilização compatíveis com a conservação e valorização dos recursos naturais e territoriais. O combate à desertificação é, por isso, também um problema de ordenamento do território.[…]» Combate à Desertificação: Orientações para os Planos Regionais de Ordenamento do Território. DGOTU, 2006.

 

Desenvolvimento sustentável: «Um modelo de desenvolvimento que permite às gerações presentes satisfazer as suas necessidades sem que com isso ponham em risco a possibilidade de as gerações futuras virem a satisfazer as suas próprias necessidades». Brundtland (WCED, 1987).

 

Vivo no interior, naquele pedaço da jangada de pedra de onde se avistam terras de Espanha e areias de Portugal. Não é por obrigação, é por opção! Opção por muitas coisas que, conscientemente sobrevalorizadas, são suficientes para suportar algumas angústias… Nada de determinante, quando o mundo é o mundo que escolhemos.

Mas este mundo também é de mudança, muitas vezes com tropia própria, mas demasiadas vezes influenciado por um tropel ruidoso vindo do exterior, qual vendaval que de repente tudo arrasta e tudo destrói: encerramento de escolas, de repartições públicas, dos ‘correios’, de empresas,... O vendaval é quase sempre precedido de uma homilia sobre as “contas” e as “reformas” e, passado o temporal, uma oração sobre a desertificação e o desenvolvimento sustentável

(Amén)

Vem a acalmia e eles vão-se, orgulhosos do oráculo, cientes de que não só acabaram de ganhar uma batalha, como essa batalha era uma boa batalha de uma guerra misteriosamente regeneradora. Deixemo-los em paz, emproados e pobrezitos regressar ao seu burgo dourado.

Falemos de nós, dos que ficam, dos que sempre aqui estiveram, dos que resistiram e resistem a cada vendaval. Falemos então de qualidade de vida, das escolas, das repartições públicas, das empresas - da desertificação e do desenvolvimento sustentável e também, porque não, dos falsos poderes. Daqueles poderes muito apreciados e disputados por meia dúzia de adeptos dos clubes partidários, mas que não passam de fachadas de um poder longínquo que ostensivamente os ignora. É verdade que alguns não merecem mais que a ignorância e algum desprezo do poder central, tão grande é o seu egoísmo de pedestal, mas há outros que me custa olhar o seu olhar - um olhar impotente de quem não consegue dar um murro na mesa.

Todos sabemos, ainda que apenas em alguma da sua amplitude, que a desertificação tem múltiplas facetas e é condicionada por inúmeros factores. Mas, curiosamente, nunca inclui o esvaziamento e a degradação do poder que visivelmente se verifica nestes territórios! Provavelmente porque este esvaziamento não condiciona nada de essencial para as gerações futuras e, portanto, para um desenvolvimento sustentável, ainda que admita que se trata de uma profecia ingénua, certeira para todos (todos!) os representantes do poder central, mas talvez pouco justa para alguns (poucos!) autarcas.

Tenderia a concordar com esta tese se este caminho para uma ausência de poder fosse simples, consciente, natural e, portanto, em última análise, a génese de uma sociedade autónoma, adulta, feliz. Mas não é! Esta ausência é imposta e protagonizada por um grupo de pobres vaidosos inconscientemente atarefados em inutilidades práticas. Neste sentido, temo que no sentido real, é apenas um caminho para o vazio. O resto é silêncio.

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:08
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