Domingo, 27 de Maio de 2012

o achigã e a tragédia dos comuns

Fui à pesca e não pesquei nada… Fiquei parado, sentado numa pedra, de cana na mão, a olhar para um tipo (não, não me atrevo a chamá-lo pescador) com um saco cheio de achigãs: pequenos, médios, grandes, minúsculos…, enfim, de todos os tamanhos. Aparentemente o tipo estava feliz!

 

Há sítios onde nos sentimos sós e egoístas, e incapazes de perceber o mundo. Mas também é nestes sítios que por vezes se encontra um sentido para as teorias que já lemos ou aprendemos em qualquer lado, e não há nada de mais real do que sentir a verdade de uma teoria.

A Tragédia dos Comuns (1) é um texto célebre, de Garret Hardin, publicado em 1968 na revista Science (2) e que posso resumir mais ou menos assim:

  

Na utilização de pastagens comuns (3), alguns pastores descobrem que se aumentarem o seu rebanho, aumentam o lucro individual, enquanto o custo é dividido por todos. Numa situação extrema, todos os pastores tenderiam a aumentar o rebanho, originando uma sobreexploração dos recursos e a consequente tragédia, em que todos perdem.

  

O próprio Hardin considera que há muitas questões não técnicas à volta deste problema, para além da questão dos interesses público e privado, mas o que verdadeiramente me interessa é a complexidade do comportamento humano na utilização de recursos públicos.

  

Aquele tipo, com o saco cheio de achigãs, não conhece de certeza o texto de Hardin, nem deve fazer a mínima ideia do que ele significa. Apeteceu-me bater-lhe (ainda por cima olhava para mim com ar de vencedor de qualquer batalha...), mas também tive medo que ele me respondesse que pode pescar todos aqueles achigãs porque sabe que eu e outros pescadores não o fazemos, revelando-me da forma mais cruel que a tragédia não acontecerá.

 

Há dias em que não se pode ir à pesca. Não é por lei, é por auto-regulação.

 

 

(1) Parece que a expressão é mais antiga e atribuída a William Forster Lloyd, num livro sobre população, publicado em 1833.

(2) Ver texto aqui.

(3) O termo comum provém da expressão commons, que era utilizada para designar as pastagens, as florestas e os campos compartilhados por uma comunidade rural.

Publicado por Fernando Delgado às 00:37
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