Segunda-feira, 26 de Outubro de 2015

A acrotonia do neo-liberalismo

«Os números do dinheiro» retiraram-me da leitura de Agualusa, o que só por si é um mau presságio (nunca mais acabo de ler o livro dos camaleões...).

 

António Peres Metello, Braga de Macedo, Ricardo Pais Mamede e Teixeira dos Santos, os protagonistas do programa Os números do dinheiro , na RTP 3, até são bons conversadores, mas se cada um deles já é em si uma enciclopédia de certezas (todas as certezas são enciclopédicas, estáticas, inúteis...), no seu conjunto só transmitem incertezas e dúvidas. Não pela incerteza e dúvida - elementos essenciais para qualquer evolução social e económica relevantes -, mas porque traduzem uma evidente incapacidade de ler o presente e, consequentemente, de olhar o futuro. De facto, se os entendo, todos dizem que existe um problema nos mercados financeiros, mas nenhum admite que o problema são os próprios mercados financeiros.

 

Para alguém com poucos conhecimentos nesta matéria, como é o meu caso, o que me fica são umas ideias dispersas que posso ler do seguinte modo: desde há cerca de 40 anos, com a crescente globalização, os mercados financeiros ficaram cada vez mais dependentes de um pisca-pisca em qualquer país do mundo e de um computador na secretária de um qualquer especulador. A crescente luminosidade do pisca-pisca (supostamente o crescimento acentuado do PIB desse país...) corresponde a um crescente fluxo de dinheiro electrónico para esse país. Sempre foi assim, dizem do lado, mas a grande diferença é que passou a ser on line, in time, com um simples toque na tecla enter.

 

E o pisca-pisca, pisca cada vez mais depressa, cada vez com mais luminosidade à força de tantos enter e alimentado pelos próprios enter, até ao momento em que funde. De repente ou lentamente, mas sempre porque alguém carregou pela última vez no enter, mas desta vez para dirigir o fluxo de dinheiro (fluxo financeiro, dizem eles...) para outro pisca-pisca. E a história repete-se...

 

Repete-se até ao momento em que o próprio computador entope e, por mais que se carregue na tecla enter, não há pisca-pisca que responda. É neste ponto que acontecem as crises - financeira, económica, de nível mundial, dizem eles. E acrescentam que há que recomeçar de um ponto muito mais abaixo... São os ciclos económicos, crescimento/crise/crescimento..., numa espécie de repetição histórica, mas sem nunca assegurarem em que ponto estamos neste momento (na tragédia ou na comédia...).

 

Ao ver estes programas, ao ouvir estes ilustres economistas debitar ciência, fico sempre com a sensação de que nenhum deles quer admitir o que me parece óbvio: vivemos numa economia de casino e a globalização sustentada num neo-liberalismo acrótone só serviu para validar e certificar o jogo. Mas também, que sei eu?

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:28
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