Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Montedidio

É um livro espantoso. Parecem posts. São fragmentos de uma imensa integridade, escritos num rolo de papel que se vai enrolando e desenrolando numa desconcertante simplicidade: “Aproveito o candeeiro da rua para escrever encostado ao parapeito da janela, o ruído do lápis no papel faz o resumo do barulho do dia.” E lê-se em duas golfadas!...

 

 

«[… pp 57]

Mestre Errico franze os olhos por causa do pó, do perigo das farpas, e tem um esguicho de rugas ao pé dos olhos de tanto os fechar. Os olhos de Rafaniello são húmidos, limpa-os com o dorso da mão. Ganhei alguma confiança com ele: dom Rafaniè, parece que estais a chorar. “É o ar de cá de dentro, diz, é a cola, é Montedidio que me dá cabo dos olhos.” E limpa-os. Diz que todos os olhos para verem precisam de lágrimas, caso contrário tornam-se como os dos peixes que fora de água não veem nada e ficam secos e cegos. São as lágrimas, diz, que permitem ver. […]

 

[… pp 78] Maria diz que eu existo e assim eis que eu também me apercebo de que existo. Pergunto-me: não podia aperceber-me sozinho de que existo? Parece que não. Parece que é preciso que seja outra pessoa a avisar. […]

 

[… pp 85-86]

Enrijecem os músculos do lançamento, agora eu estou aqui para ti, somos namorados, digo e já agora, Maria, o que é que fazem os namorados? “Fazem amor, casam, fogem juntos”, diz sem hesitar. Não pergunto mais, basta-me que seja ela a saber. Olhamo-nos, os olhos estão largos por causa da escuridão. Ela abre o sorriso e a ponta da pila move-se sozinha. Quando abre a boca e aparecem os dentes pica-me e fico com calor ali mesmo. Passo-lhe o braço à volta do ombro, aperto um pouco. É a primeira vez que sou eu a tocá-la, que um gesto começa por mim. Maria apoia toda a cabeça no braço, deixo de lhe ver a cara, acalma-se a comichão na pila. Sinto uma força descomunal, a força dos lançamentos formou também o músculo para segurar Maria. Levanta-se, apanha contra o peito a roupa estendida e para se despedir estica o pescoço para a frente num beijo. Então vou com a boca directamente ao encontro da sua, assim fica igual. Os namorados fazem gestos iguais. […]

 

[… pp 90]

Rafaniello fica contente, diz que as bênçãos valem mais que o dinheiro porque são ouvidas no céu. E também as maldições são ouvidas, diz e cospe no chão para enxaguar a boca da palavra triste.

 

[… pp 97]

Rafaniello diz que de tanto insistir Deus é obrigado a existir, de tantas orações se forma o seu ouvido, de tantas lágrimas nossas os seus olhos veem, de tanta alegria surge o seu sorriso. Como o bumeramgue, penso: de tanto treinar prepara-se o lançamento, mas pode a fé sair de um treino? […]

 

[… pp 196]

Escrevo as suas palavras porque as ouço repetir, não por as recordar. […]»

 

Erri de Luca. Montedidio. Bertrand, 1ª ed., Nov, 2012.

Tags:
Publicado por Fernando Delgado às 02:46
| Comentar post
Patilhar
Fernando Delgado

Pesquisar

 

Posts recentes

Ajustando as velas

Contrastes

Religiões

Negro profundo

«Ninguém desce vivo de um...

Recomeços

«Custo social dos incêndi...

Sinais

Recoleção

Domesticação...

"geografia das ausências"

Galerias ripícolas

do res nulius ao black ac...

A case of you

Assimetrias

J. Fanha

Eduardo Mendoza

«o pregador de verdades d...

Belos dias

A Gente Vai Continuar

Talamou

Dylon

«A realidade é uma opiniã...

«Human»

Outono

Tags

aprender

canções

estórias

interiores

leituras

notícias do casino

outros olhares

peanuts

pintura

rural

todas as tags

Arquivos