Sexta-feira, 16 de Maio de 2014

Mao, Cavaco e Barroso

(Não resisto a transcrever - com a devida vénia -, parte do texto «A EXPEDIÇÃO À CHINA E O ENCONTRO COM MAO», de Fernando Paulouro Neves. Para ler na integra, em Notícias do Bloqueio)

 

«A força da mitologia chinesa, a dimensão simbólica das suas lendas, alteraram o sono de sua excelência, em Pequim. Dormiu mal o Presidente, inquietou-se a Primeira Dama, os ansiolíticos disponíveis não fizeram o efeito pretendido. Os sobressaltos dos sonhos acordavam-no violentamente, faziam-no erguer-se na cama, como uma mola, os suores corriam-lhe pelo rosto.
--Então, querido, sossega! Aqui não há dragões... -- sussurrava a mulher, docemente, como se já tivesse interiorizado a paciência chinesa para falar com as crianças.
-- Sim, sim, filha, não há dragões, mas há serpentes de sete cabeças, e uma delas abocanhava-me todo, se eu não acordo, de repente, e dou uma guinada para o lado! -- disse o Presidente, já meio sentado na cama. -- E depois havia sempre espadas a degolarem imperadores e até o Mao se veio sentar, ao meu lado, numa conversa que eu não percebi lá muito bem...
-- E o que te disse ele? -- perguntou ela curiosa com o enredo da história.
-- Ora, que me estava muito grato por eu ter guiado tão bem aquele rapazito, que era seguidor fanático dele e apontava muito a Longa Marcha como exemplo, e considerava genial a maneira como eu fui implacável na Revolução... "Ele, o rapazito, embevecia-se com as tiranias da Revolução Cultural". Era a Mao a falar, explicou Cavaco.
-- Rapaz, mas qual rapaz?
-- Então, Maria, não sabes... o Durão Barroso! O Mao até me disse que ele era muito competente, não lhe escapava nada, nem os sofás da Faculdade... E confidenciou-me: "Eu sempre disse que ele  ia longe, iria ter um grande futuro. Agora quem poderia imaginar que viria a ser Presidente da Europa, ele, que tem os olhos em bico, como é que os europeus, sempre tão eurocentristas e, às vezes, xenófobos (veja o êxito da Le Pen!) foram numa dessas... São as condições objectivas, Cavaco, para ele ser Presidente da Europa é porque a Europa está uma porcaria e já não tem conserto!"
-- Óh, homem! não vês que isso era um sonho?
-- Mas era um sonho bom, Maria, um sonho muito bom: o Mao a falar comigo e a segredar-me: "Você, Cavaco, quando esteve no governo disse que era o grande timoneiro, não foi? Também leu o Livro Vermelho, seu maroto! E não disse, também, que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas? Ora, aí está: isso foi sempre um dos princípios basilares da minha política. Era o reino das certezas e quem tinha dúvidas estava tramado". Eu fiz que sim com a cabeça, embevecido com a teoria da certeza metódica... Estava tão feliz, andar com o Mao Zedong a passear pela Cidade proibida... parecia ter chegado ao Paraíso.
[…]»

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Publicado por Fernando Delgado às 00:13
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