Quarta-feira, 25 de Março de 2015

Herberto Helder

Conheço mal a poesia de Herberto Helder: alguns poemas de dois livros guardados na estante já há alguns anos. É urgente revisitá-lo(s)…

Ficam aqui as palavras "roubadas" ao MEC:

 

«Não é preciso dizer nada. Sequer o nome dele. A ventania, toda a noite e dia, disse tudo. Se é verdade que o vento leva as palavras, as palavras dele não eram palavras: eram o vento. E o vento vem sempre ter connosco. Volta.

Não é preciso citá-lo. Dele se pode dizer que conseguiu, com divina dificuldade, dizer tudo o que tinha para dizer, se dizer é tornar ditas as coisas indizíveis das quais qualquer língua nos separa, não sendo a portuguesa a mais separadora.

Morreu quando disse que morreu. Escrever é uma coisa que se faz bem. Dizer é outra coisa. Não é qualquer um que diz e deixa dito. Contando pelos dedos não é quase ninguém. Contando pelos olhos que lêem e pelo barulho que levam à barriga da alma era só ele.

Tudo o que ele disse ficou dito. Não era maior do que ele: era do mesmo tamanho do que ele. Esta não é a melhor maneira. É a única maneira de dizer: a glória. Que não é só a glória da obra dele mas também a glória que era ele.

A beleza e o poder, a mentira, a invocação, a propaganda da poesia, a abertura da cabeça para o corpo: todas estas magias só eram humanas nele. Para ele apenas faziam parte da prática de viver. Para ele - apetece-me exagerar, como ele exagerará sempre - eram apenas pela poesia.

A poesia é que é. Ele é o poeta do que a poesia é. Mas, acima de tudo, a morte dele - um ser humano que, se não tivesse escrito um só verso, não poderia ser mais amado - é uma tragédia para a família e para os amigos que o amavam.»

Miguel Esteves Cardoso. Morreu alguém. Público. 25.03.2015.

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Publicado por Fernando Delgado às 23:48
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