Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

Hemingway

«[…] De súbito uma multidão entrou na rua. Vinham todos a correr apertados uns contra os outros. Passaram e subiram a rua em direcção à praça de touros, e atrás deles vinham mais homens a correr mais depressa, e depois alguns farroupilhas que corriam de verdade. Atrás deles havia um pequeno espaço vago e, logo os touros, a galope, com as cabeças abaixo e acima. Tudo se sumiu ao virar da esquina. Um homem caiu, rebolou para a valeta e deixou-se estar quieto, mas os outros touros foram a direito e não deram por ele. Corriam todos juntos.

      Depois de se terem sumido, um grande clamor veio da praça. E manteve-se. Depois, enfim, o estoiro do morteiro que significava terem os touros atravessado a massa de gente na arena e entrado para o touril.

(…)

      O touro que matara Vicente Girones chamava-se Bocanegra, tinha o número 118 da ganadaria de Sánchez Taberno, e foi morto por Pedro Romero, como terceiro touro dessa mesma tarde. A orelha foi-lhe cortada por aclamação do povo e dada a Pedro Romero, que, por seu turno, a deu a Brett, que a embrulhou num lenço que me pertencia e deixou orelha e lenço, juntamente com uma data de beatas de Muratti, no fundo da gaveta da mesinha-de-cabeceira que estava ao lado da cama dela no Hotel Montoya, em Pamplona.

(…)

      O touro estava especado nas quatro patas para ser morto, e Romero matou-o memo por baixo de nós. Matou-o, não como fora forçado a isso pelo último touro, mas como quis. Perfilou-se mesmo diante do touro, tirou a espada das pregas da muleta e bafejou a lâmina. O touro observava-o. Romero falou com o touro e bateu com um dos pés. O touro correu e Romero esperou por ele, a muleta baixa, bafejando a lâmina, os pés firmes. Depois, sem dar um passo em frente, uniu-se ao touro, o estoque estava no alto entre as espáduas, o touro seguiu a flanela ondulada baixa, que desapareceu ao desviar-se Romero para a esquerda, e tudo acabara.

(…)

      Levantei-me e fui para a varanda e pus-me a ver as danças na praça. O mundo já não andava à roda. Estava até muito límpido e luminoso, apenas com tendência a esfumar-se nos contornos. Lavei-me, penteei o cabelo. Achei-me estranho e desci à sala de jantar.

      - Aqui está ele! – disse Bill. – Meu velho Jake! Eu bem sabia que tu não esticavas desta.

      - Olá, meu borracho – disse Mike.

      - Tinha fome e acordei.

      - Come sopa – disse Bill.

      Sentámo-nos os três à mesa, e era como se faltassem seis pessoas.

[…]»

 

Ernest Hemingway. O Sol Nasce Sempre (Fiesta). Editora Livros do Brasil, pp 163/164, 198, 218 e 221/222.

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Publicado por Fernando Delgado às 01:19
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