Domingo, 16 de Novembro de 2014

O vedor

MMendes.jpe

 Já vi vedores em pleno trabalho e são impressionantes. Os homenzinhos (os dois ou três que vi em acção eram de fraca estatura - não sei se ajuda à função...) pegam num ramo, tiram-lhe as folhas de modo a ficar uma varinha, seguram-na nas duas mãos e começam a andar pelo terreno. A certa altura a vara começa a torcer-se toda e ele fica um pouco indeciso - dá um passo atrás, outro à frente, mais um para cada lado e estático, olha o dono do terreno, aponta o dedo para o chão e diz: aqui! E é ali que se inicia a furação de encontro ao veio de água antes descoberto. Se a água está a dez metros ou a cem metros, pouco importa - há água!

Por duas ou três vezes, tentei de varinha em punho (a mesma varinha que acabara de se dobrar nas mãos do vedor) ir muito devagar de encontro à água, mas qual quê, a varinha nunca se dobrou, nem mesmo nos sítios exactos onde antes tinha soçobrado à humidade profunda da terra. Mas pior que a minha inabilidade foi a sentença de incompetência do vedor: "é preciso saber!".

 

Lembrei-me do vedor ao ouvir o Marques Mendes na televisão a propósito já não sei bem do quê... Ele é o verdadeiro vedor no nosso tempo - tem a estatura adequada, sabe oferecer-nos água antes mesmo de termos sede, aparece ligado a um sem número de empresas e de casos, mas essas empresas ou já não existem ou se existem ele nunca lá pôs os pés, e os casos são apenas pequenos percalços naturais numa azáfama, que vamos aos pouco descobrindo, é de coisa nenhuma.

O homem trabalha, trabalha, mas não produz nada. O homem fala, fala, mas não diz nada. O homem corre, corre, mas limita-se a não estar no sítio que é suposto estar… , mas, glória das glórias, sabe aquilo que mais ninguém sabe: a forma de encontrar água a dez ou a cem metros de profundidade com uma simples varinha verde de oliveira. É preciso saber!

 

(O dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora, diz que o vedor é (i) o que vê; (ii) inspector, intendente; (iii) o que é especialista na descoberta de veios de água nos diversos terrenos.)

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:57
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