Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Arturo Pérez-Reverte

É sempre com um pé atrás que compro livros de jornalistas, embora admita que se trata de um preconceito construído à volta dos escritos de um jornalista-escritor português que insiste em piscar-me o olho no fim de cada telejornal...

Apesar das 512 páginas, "Homens Bons" permitem limpar um pouco aquele preconceito... O texto das duas primeiras páginas, uma espécie de resumo ou de enquadramento da narrativa, parece-me confundir-se com o subtítulo a bold de um artigo de opinião:

  

     «Imaginar um duelo ao amanhecer, na Paris de finais do século XVIII, não é difícil. Basta ter lido alguns livros e visto uns quantos filmes. Contá-lo por escrito é algo mais complexo. E utilizá-lo para o arranque de um romance tem os seus riscos. A questão é conseguir que o leitor veja o que o autor vê, ou imagina. Converter-se em olhos alheios, os do leitor, e desaparecer discretamente para que seja ele a entender-se com a história que lhe narraram. A destas péginas precisa de um prado coberto pela geada da manhã e de uma luz difusa, acizentada, para a qual seria útil recorrer a uma neblina suave, não muito espessa, daquela que brotava frequentemente nos bosques dos arredores da capital francesa – hoje muitos desses arvoredos desapareceram ou estão incorporados nela – com a primeira claridade do dia.

     A cena precisa também de umas personagens. Na luz incerta do sol que ainda não desponta devem notar-se, um pouco esbatidas entre a bruma, as silhuetas de dois homens. Um pouco mais retiradas, debaixo das árvores, junto a três carruagens ali paradas, há outras figuras humanas, masculinas, envoltas em capas e com chapéus de três bicos enfiados sobre o disfarce. São meia dúzia, mas não interessam para a cena principal; por isso podemos prescindir deles por agora. O que deve atrair a nossa atenção são os dois homens imóveis em frente um do outro, de pé sobre a erva húmida do prado. Vestem calções justos e estão em mangas de camisa. Um é magro, alto para a época, e tem o cabelo grisalho apanhado num rabicho curto sobre a nuca. O outro é de estatura média e tem o cabelo encaracolado nas têmporas, emproado como era próprio da moda mais requintada do seu tempo. Nenhum dos dois parece novo, ainda que estejamos a demasiada distância para apreciar isso. Portanto, aproximemo-nos um pouco deles. Observemo-los melhor.

     O que cada um segura na mão é uma espada. Ou uma espada parecida com um florete, se repararmos nos pormenores. O assunto, portanto, parece sério. Grave. Os dois homens estão a três passos um do outro, ainda imóveis, olhando-se com atenção. Quase pensativos. Todos concentrados no que vai acontecer. Têm os braços caídos ao longo do corpo e as pontas de aço roçam na erva do chão, coberta de geada. O mais baixo, que de perto também parece mais novo, tem uma expressão altaneira, talvez teatralmente desdenhosa. Dir-se-ia que, embora estude o seu adversário, está à espera de mostrar uma figurabem composta aos que o observam dos limites do prado. O outro homem, mais alto e de mais idade, possui uns olhos azuis aquosos e melancólicos que aparentam ser contagiados pela humidade ambiental. À primeira impressão parece que aqueles olhos fixam o homem que tem à frente, mas se repararmos bem neles, notaremos que não é assim. Na verdade encontram-se absortos, ou distraídos. Ausentes. Talvez, se naquele momento, o homem que têm em frente mudasse de posição, aqueles homens continuassem a olhar para o mesmo lugar, indiferentes a tudo, atentos a imagens distantes que só eles conhecem.

     Do grupo reunido debaixo das árvores chega uma voz, e os dois homens que estão no prado levantam os espadins devagar. Cumprimentam-se brevemente, levando um deles a guarnição à altura do queixo, e depois põem-se em guarda. O mais baixo apoia a mão livre na anca, adotando uma elegantíssima postura de esgrima. O outro, o homem alto de olhos aquosos e curto rabicho grisalho, estende a arma e ergue a outra mão, com o braço e antebraço quase em ângulo reto, com os dedos relaxados e ligeiramente descaídos para a frente. Os ferros, ao tocarem-se com suavidade pela primeira vez, produzem um tilintar metálico que ecoa nítido, argênteo, no ar frio do amanhecer.

     Continuemos a escrever, agora. Contemos a história. Saibamos o que troxe estas personagens até aqui.»

 

Arturo Pérez-Reverte. Homens Bons. ASA, 1ª ed, pp 9-10.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:39
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