Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2015

Ana de amsterdam

Há neste Blog, de Ana Cássia Rebelo, que lamento só recentemente ter descoberto, qualquer coisa de inquietante que ainda não consegui descodificar. A escrita (e as escolhas que ela encerra ou insinua...) é apaziguadora em alguns textos, de completa rebeldia noutros e de um terno desconforto em quase todos - não há conversa lamecha nem adjectivos inúteis, mas apenas uma enorme fome de vida... Ou não?

Aqui ficam quatro exemplos, com viva recomendação de leitura de todo o Blog:

«Cerejeiras 

No festival literário da Gardunha conheci o Pedro Eiras. Também há coisas boas nos festivais literários. Levou para o festival a mulher e as filhas. É um homem gentil, usa t-shirts às risquinhas, fala pausadamente, sorri muito, às vezes, fecha os olhos enquanto conversa. Comprei na altura o seu romance sobre Bach. Ainda não o li, porém, desde então, sempre que escuto Bach, lembro-me do Pedro. No dia de Natal, sozinha, a caminho de casa do meu irmão, escutava no carro os Concertos de Brandenburgo. A música erudita é um bálsamo na minha vida, mas continuo a sentir-me uma intrusa quando a escuto. Perante tanta beleza, tão extraordinária e sublime beleza, eu, descrente, ateia convicta, quase acredito em Deus e acho que isso diz muito sobre as minhas contradições. Parada numa rua feia da Alta de Lisboa, os prédios de habitação social sujos de fuligem, paredes grafitadas, olhando os negros que fumavam à porta do café Milenuim, pré-disposta a agoniar-me com os risos dos meus sobrinhos e o borburinho distante das conversas sobre Inglaterra, lembrei-me da descida da serra da Gardunha: campos de cerejeiras carregadas de frutos, eu e o Pedro sentados no pequeno autocarro ao lado do condutor, em conversa animada; atrás, a Sandra, a sua mulher, morena silenciosa e muito bonita, as filhas observando a paisagem.»
 

«Kamikaze

O problema, como lhes costumo dizer, é deles, não meu. Não tenho compromissos, sou livre como uma borboletinha. Não traio ninguém. Três homens casados, mas muito diferentes. Conheço o Alexandre há dez anos, encontramo-nos em quartos de hotel quando nos apetece. Os nossos corpos conhecem-se de outras vidas, encaixamos perfeitamente, tocamo-nos como bichos, sem filtros, sem inibições. Ele sabe o que me dá prazer. Sei o que lhe dá prazer. Gosta, por exemplo, que lhe lamba os testículos. Nunca me fala da mulher ou dos filhos. A última vez que estivemos juntos explicou-me o que era uma didascália e, depois de me beijar as mamas, disse que eu era uma mulher-kamikaze. É o amante perfeito. Não trocamos mensagens, não falamos ao telefone, não nos encontramos para almoçar. O segundo amante, recente, novato, é muito diferente. Encontrei-o por acaso na fila do pão. Bonito e escultural, mas um pouco parvo. Empolga-se, diz que os meus olhos castanhos são lindos e que a minha boca tem a cor das framboesas maduras. Que tédio, que miserável tédio! Chama-se Miguel e acho que o vou deixar. Fala-me de amor, um amor aborrecido e previsível, mas depois, pobre coitado, partilha comigo histórias sobre a mulher e as duas filhas. Na semana passada, depois de me oferecer um livrinho de merda que naturalmente não lerei, disse que a mulher, empregada bancária, é a rocha que sustenta a sua vida. Não vou para a cama com um homem para o ouvir falar da sua mulher. O terceiro homem casado com quem me deito é o homem que amo. Um homem inteligente, bonito, o mais bonito do mundo, não há homem igual, mas pelo qual não tenho qualquer tipo de entusiasmo sexual. Deito-me com esse homem quando ele quer, sou dissimulada, detestável, finjo orgasmos, simplesmente porque preciso de senti-lo perto de mim.»

«Dois dedos de testa

Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maduras. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade das casas de banho-públicas, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.»

«A Casa dos Budas Ditosos

Interrompo o silêncio para um desabafo: a cadeia de supermercados Auchan baniu das suas prateleiras A Casa dos Budas Ditososdo João Ubaldo Ribeiro. Dizem os senhores que por lá mandam que o livro é pornográfico. Gesto tacanho, de imbecilidade necessariamente viril. Tive os melhores orgasmos da minha vida a ler o dito livro. Trouxe-o a minha irmã Susana de Brasília. Li-o às escondidas, com o coração acelerado, quando a casa paterna repousava de todos os seus outros habitantes. À conta dessas prazenteiras tardes de verão tenho até uma fotografia do escritor colada na porta do frigorífico. Perguntam-me os meus filhos quem é este senhor de bigode que aqui está? Não lhes respondo. Eu sei porque ele lá está. É, pois, absurda a atitude dos senhores do grupo Auchan. Em vez de banirem o livro do João Ubaldo Ribeiro das suas castas prateleiras, deviam encará-lo como um trunfo promocional, oferecê-lo, por exemplo, a todas as mulheres que fizessem compras superiores a cinquenta euros. Os senhores do grupo Auchan talvez não saibam mas um bom orgasmo, secreto, inesperado, proibido, dá mais felicidade a uma mulher do que os trocos que poupa comprando iogurtes de marca branca ou fraldas por atacado.»
Publicado por Fernando Delgado às 22:53
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