Quarta-feira, 25 de Março de 2015

Herberto Helder

Conheço mal a poesia de Herberto Helder: alguns poemas de dois livros guardados na estante já há alguns anos. É urgente revisitá-lo(s)…

Ficam aqui as palavras "roubadas" ao MEC:

 

«Não é preciso dizer nada. Sequer o nome dele. A ventania, toda a noite e dia, disse tudo. Se é verdade que o vento leva as palavras, as palavras dele não eram palavras: eram o vento. E o vento vem sempre ter connosco. Volta.

Não é preciso citá-lo. Dele se pode dizer que conseguiu, com divina dificuldade, dizer tudo o que tinha para dizer, se dizer é tornar ditas as coisas indizíveis das quais qualquer língua nos separa, não sendo a portuguesa a mais separadora.

Morreu quando disse que morreu. Escrever é uma coisa que se faz bem. Dizer é outra coisa. Não é qualquer um que diz e deixa dito. Contando pelos dedos não é quase ninguém. Contando pelos olhos que lêem e pelo barulho que levam à barriga da alma era só ele.

Tudo o que ele disse ficou dito. Não era maior do que ele: era do mesmo tamanho do que ele. Esta não é a melhor maneira. É a única maneira de dizer: a glória. Que não é só a glória da obra dele mas também a glória que era ele.

A beleza e o poder, a mentira, a invocação, a propaganda da poesia, a abertura da cabeça para o corpo: todas estas magias só eram humanas nele. Para ele apenas faziam parte da prática de viver. Para ele - apetece-me exagerar, como ele exagerará sempre - eram apenas pela poesia.

A poesia é que é. Ele é o poeta do que a poesia é. Mas, acima de tudo, a morte dele - um ser humano que, se não tivesse escrito um só verso, não poderia ser mais amado - é uma tragédia para a família e para os amigos que o amavam.»

Miguel Esteves Cardoso. Morreu alguém. Público. 25.03.2015.

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Publicado por Fernando Delgado às 23:48
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Patilhar
Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015

Cegos, surdos e mudos

«Passos não falou com Tsipras»

Expresso

Mas eles não estiveram na mesma reunião, na mesma sala, durante 8 ou 9 horas? Não falou! - e também não ouviu e não olhou?

Mas estes ilustres representantes da Europa, falam sem se falarem? Ouvem sem se ouvirem? Olham sem se olharem?,... e, felizes e contentes, apanham o avião de regresso a casa?

Mas que obscuras reuniões tem esta gente! Mas que estranhas criaturas nos governam!

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:42
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Patilhar

World press photo

Esta foto verdadeiramente espantosa, de Ergi Ilnitsky, ganhou o 1º prémio da Categoria Notícias/Individual da World Press Photo deste ano. De acordo com a descrição da notícia, foi obtida numa cozinha situada na baixa de Donetsk, na Ucrânia.

Está lá tudo! Afinal a guerra não é mais que um cemitério de memórias e de sonhos em que o único ausente é o corpo - a fotografia não é física, mas emocional.

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:08
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Patilhar
Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015

Rascunho...

... para uma página da sebenta da história:
 
«De que alfurjas, bueiros, cavernas sulfurosas, loca infecta, saíram estas legiões de comentadores, articulistas, jornalistas, escreventes, gente dos blogues, que passaram o dia das eleições gregas a pedir mais austeridade punitiva para os gregos, mais desemprego, mais pobreza e miséria, mais impostos, menos salários e serviços públicos, como retaliação e vingança por terem tido o topete de votar no Syriza? Ai quiseram livrar-se da austeridade, pois preparem-se para levar com o dobro, para não se porem com ideias! Os insultos a um dos povos mais martirizados da Europa – martírio sem resultados, como todos podem perceber – sucederam-se: não querem trabalhar, querem viver à custa de empréstimos que não têm intenção de pagar, pior do piorio, mentirosos, falsificadores de contas, enganadores de alemães, violentos, mal-agradecidos, tudo. 
 
Ouvindo estas vozes, exigindo que a única política europeia seja "levar o Syriza à derrota" para evitar o contágio, sem transigências e com toda a dureza, eu penso como nestes últimos anos nós não tivemos só discussões políticas e ideológicas (poucas aliás, a sério), alimentámos o mal. O mal. Nalguns sítios da nossa sociedade gerámos, alimentámos, engordámos, trouxemos à luz do dia gente má, muito má, que mandou e manda em nós, instilando arrogância, desprezo pelos mais fracos, insensibilidade face à miséria, gente que olha os gregos como se fossemuntermenschen. Do alto do seu conforto, sim porque o conforto distingue-os da ralé, eles andam a passear-se nestes dias com uma enorme espinha na garganta, mais do tamanho de uma trave do que de uma espinha, e não gostam. Obrigado aos gregos por terem ensinado aos maldosos que a sua impunidade tem limites. 
 
O FIM DO BLOQUEIO EUROPEU 
 
Um dos resultados mais positivos das eleições gregas é terem acabado com o bloqueio que as políticas da "inevitabilidade" traziam à Europa. O isolamento alemão (e português) é maior, e todos os outros países têm hoje razões e obrigações de mitigar, moderar e mesmo, num certo sentido, acabar com a hegemonia alemã das políticas de austeridade. A decisão e o maior protagonismo do Banco Central Europeu já abria caminho para essa inversão. Draghi não se limitou a propor uma medida "técnica" contra a inflação negativa, mas explicou preto no branco que as políticas anteriores tinham dado mau resultado e propôs-se aplicar uma medida que classificou de "expansionista". Não admira que Passos Coelho não tenha gostado, as suas declarações, inequívocas neste caso, consideravam estas políticas como "erros". 
 
 Mas o soçobrar do bloqueio da "inevitabilidade" (aquilo que mais dói aos detractores das eleições gregas) vai tornar mesmo governantes fracos como Hollande, um obstáculo para o curso punitivo que Merkel, Rajoy e Passos desejariam "para derrotar um governo do Syriza". Eu não tenho nenhuma especial simpatia por Hollande, mas não o estou a ver a assinar de cruz medidas punitivas contra os gregos e, sem a França, a hegemonia alemã enfraquece muito. É isso que significa o desfazer do bloqueio: há hoje alternativas políticas que seriam impensáveis há seis meses. Obrigado aos gregos por terem permitido a possibilidade de uma melhor Europa. 
 
NÃO VAI SER FÁCIL
 
Todos sabemos que o caminho dos gregos não é fácil. Sabemos, a começar pelos gregos, que enormes dificuldades vão estar pela frente. Mas pela primeira vez depois destes anos de lixo, foram eles próprios que escolheram o caminho das pedras que queriam trilhar e não os alemães e os burocratas europeus. Faz uma enorme, gigantesca diferença, este assumir de dignidade nacional para um país que foi humilhado como poucos. 
 
 E é uma bofetada de luva branca para muitos que enchem a boca com a "Pátria", para depois a descreverem como um "protectorado", que aceitaram com aplauso abdicar de todos os traços da nossa soberania, e transformarem Portugal num vassalo obediente, muito além do que seria razoável pelas nossa atribulações financeiras, que tenha sido um partido que descrevem com desprezo como de "extrema-esquerda", que restituiu à Grécia a honra perdida. 
 
 Sim, porque na vitória do Syriza o conteúdo do seu programa foi o que menos contou, mas a afirmação da independência e da soberania de um povo que não esqueceu as violências que os alemães fizeram na Segunda Guerra Mundial, e os insultos à Grécia na última década, e a vontade de varrer a elite política nacional corrupta que foi o seu instrumento. Uma vitória destas não se obtém sem ser pelo contra, por aquilo que os gregos não queriam. Depois virá o resto. Obrigado aos gregos por nos terem ensinado que em tempos de lixo o que verdadeiramente mobiliza a mudança é o que não se deseja, e só depois de se ter atirado borda fora esse lastro é que se pode começar a falar outra língua. 
 
 AFINAL OS GREGOS NÃO FAZEM TUDO MAL
 
Portugueses, aprendam com os gregos! Eleições no domingo, coligação durante a noite, governo na tarde do dia seguinte. Obrigado aos gregos por nos darem lições de eficácia.»
 
J.P.Pereira. Abrupto.
 

 

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Patilhar
Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2015

HSBC

Não me importam os pormenores (as pessoas, os montantes, os intervenientes em geral, …), mas o sistema: o edifício, a arquitectura e a formatação legal (ou pelo menos não ilegal…) que permitiram e sustentaram (permitem e sustentam?) estes procedimentos e os montantes absurdos neles envolvidos. Um dia este sistema autofágico implode!

 

«Foram revelados primeiros nomes de clientes portugueses do HSBC na Suíça, onde tinham aplicados 969 milhões de dólares. Desde 2005 Portugal amnistiou mais do quíntuplo desse valor em capital irregular no estrangeiro.»

Expresso online.

«Há uma declaração de interesse pessoal a fazer: não tenho dinheiro que se veja em lado nenhum e vivo do salário. Depois tenho uma declaração moral: não penso que qualquer pessoa rica seja suspeita. […] Há, no escândalo dos depósitos no banco HSBC, duas vertentes completamente diversas. A primeira, é um errado julgamento moral da riqueza, como se quem fosse rico tenha de ser necessariamente suspeito. A outra vertente é séria: a da fuga ao fisco, que é crime em Portugal e em qualquer parte do mundo civilizado.»

Henrique Monteiro, no Expresso.

«O ritmo de concessão de vistos "gold" caiu a pique imediatamente depois de ter sido conhecida a investigação judicial que levou à detenção de altos responsáveis dos ministérios da […]».

Jornal de Negócios.

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Patilhar
Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015

O rabejador

«Portugal olha para o Syriza como o rabejador olha para o forcado da cara. Estamos com muita esperança no desgraçado que vai lá à frente e leva uma boa cornada do touro mas, com sorte, talvez consiga imobilizá-lo de modo a permitir que nós seguremos no lado do bicho que não aleija. 

[...]

Felizmente, podemos contar com o nosso primeiro-ministro. Passos Coelho não espera nada de Tsipras. Não faz sentido combater a austeridade, porque a austeridade é nossa amiga. Dizer que a dívida é impagável é de uma desfaçatez impagável. O desemprego, o aumento da dívida e o incumprimento das metas do défice são fruto da má vontade da realidade, que se recusa a colaborar com o caminho certo. Desejar outra coisa é inútil e perigoso. Poderia gerar desemprego, aumento da dívida e incumprimento das metas do défice. Deus nos livre. De acordo com o primeiro-ministro, as ideias do Syriza são "um conto de crianças". É possível, não digo que não. Mas as ideias de Passos Coelho são, como sabemos, um filme para adultos. E o traseiro que o protagoniza, infelizmente, é o nosso.»

"Eh, toiro lindo! Olha o Tsipras". Ricardo Araújo Pereira. Visão.

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Patilhar
Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015

Bichos de sangue frio

Passos Coelho:

  • BES: «É uma questão para o Banco de Portugal» e continuou a banhos na Manta Rota.
  • PT: «É uma questão privada de uma empresa privada», sentenciou impávido e sereno.
  • Grécia/Syriza: «É um conto de crianças» e suspirou por Merkel.
  • Hepatite C: «os Estados devem fazer tudo o que está ao seu alcance para salvar vidas humanas, mas não custe o que custar» e adormeceu.
  • etc, etc, etc...

Por alguma razão os animais de sangue frio são os únicos que têm veneno.

 

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Patilhar
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015

A solução

O que aconteceu hoje (ontem) nas eleições gregas é, antes de tudo, uma resposta à humilhação. Para os que não perceberam, ou não querem perceber isto, só lhes resta dissolver o povo e eleger outro, como dizia (o alemão) Brecht. 

«[...]

Por culpa sua

O povo perdeu a confiança do governo

E só à custa de esforços redobrados

Poderá recuperá-la. Mas não seria

Mais simples para o governo

Dissolver o povo

E eleger outro?»

A solução. Bertolt Brecht.

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Patilhar
Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2015

Συνασπισμός Ριζοσπαστικής Αριστεράς (SYRIZA)

Tenho pena de não ter um retsina para abrir no domingo (ainda vou ver se encontro!...) e saborear o odor a resina como quem saboreia o corpo da mudança. Se calhar não vai acontecer nada disto e se acontecer, no fim (uns anos depois) tudo estará na mesma. Mas há uma coisa que eu sei por vivência própria: os tempos de mudança e de ruptura são os únicos que verdadeiramente interessam, que verdadeiramente nos motivam, que de facto nos incluem. O resto, o enorme interlúdio entre estes momentos, não passa de um espesso e penoso tédio (por alguma razão a história ignora estes buracos negros de coisa nenhuma).

Nem sei bem quem são os dirigentes do Syriza, ou o que querem. Sei algumas coisas que não querem e isso, por agora, chega - em determinadas situações, o único acto que conta é o murro na mesa. É este o momento!

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Patilhar
Terça-feira, 20 de Janeiro de 2015

Noticias do casino

(Arnaut, J.L., cidadão português, membro do conselho consultivo da Goldman Sachs)

Ora aqui está um cidadão português merecedor de todo o meu apoio e consideração. Não me lembro de alguém burlar a Goldman Sachs de uma forma tão profissional. Foram 706 M€? À g'anda Zé Luis! Volta quando quiseres - tens uma medalha de mérito à tua espera (Belém está a preparar a cerimónia ) e toda a fraternidade pátria para gastares o chorudo prémio de desempenho que com certeza vais receber. Como diria o Ronaldo: ssiiiiiiiiii!

 

«O Goldman Sachs anunciou esta sexta-feira, 10 de Janeiro, que José Luís Arnaut é o novo membro do conselho consultivo internacional do banco. As funções do português passam por “fornecer conselhos estratégicos sobre uma série de negócios, regiões, políticas públicas e questões económicas, em particular sobre Portugal e os países africanos de língua portuguesa”, revela o comunicado emitido.»

Expresso on-line

«O ex-ministro José Luís Arnaut e o ‘partner’ do Goldman Sachs António Esteves estiveram envolvidos no empréstimo superior a 706 milhões de euros do banco norte-americano ao BES, noticia hoje o Wall Street Journal»

Jornal i on-line

«Os portugueses José Luís Arnaut e António Esteves intervieram de forma decisiva para desbloquear empréstimos da Goldman Sachs ao BES em vésperas do colapso do banco, garante o Wall Street Journal. A operação gerou prejuízos de centenas de milhões com a operação.»

Expresso on-line

 

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Patilhar
Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2015

Roundup Ready

À procura de algumas informações sobre como controlar umas ervas que andam a crescer onde não devem, encontrei o glifosato e o Roundup, e com eles toda a lista de "inovações" da Monsanto. A lista é tão longa e a história tão macabra, que ficam aqui os links para uma versão em (mau) português e em inglês. Como em muitas outras áreas, também na agricultura há empresas grandes demais...

 

 

 

 

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Patilhar
Sábado, 13 de Dezembro de 2014

«Sei lá, a vida tem sempre razão!»

É um dia vazio e frio e a música é o silêncio acolhedor...

A canção, de Vinicius, termina assim:

«[…]

De nada adianta ficar-se de fora.

A hora do sim é o descuido do não.

Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.

Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão!»

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Patilhar
Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2014

Notícias do casino

(Assembleia da República. Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES)

 

Ricciardi e Salgado parecem ter optado pelo confronto  - e quando, neste tipo de protagonistas, se opta pelo confronto normalmente pretende-se esconder ou diluir a irresponsabilidade. Esta é uma estratégia de diversão, muito conhecida, com os efeitos clássicos: divisão de opiniões com afastamento do essencial do debate, centrando-o em questões pessoais ou familiares.

Um engodo, do qual só saberemos a verdadeira dimensão quando chegar a hora de trocar as fichas e tivermos conhecimento de que a caixa não tem cash para os muitos bilhões em jogo (entre os mil milhões à portuguesa e os biliões à americana, prefiro sempre os bilhões à brasileira, quanto mais não seja pela simbologia certeiramente obscena que a palavra sugere...).

É nessa altura que nos batem à porta!

Publicado por Fernando Delgado às 00:30
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Patilhar
Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Final de festa

Em poucos meses: BES, Vistos Gold, Sócrates... Isto parece um final de festa!... E se daqui a um ano, nas legislativas, o PS, o PSD e o CDS juntos, tivessem menos de 50% dos votos?

 

(Uma verdadeira festa tem que acabar em caos. Se não for assim a festa é um velório ruidoso… Como não gosto de velórios, espero que a festa seja mesmo festa, e que daqui a um ano possa viver esse caos, até porque há muitas formas de nos sentirmos indignados. A minha forma de indignação, porque acredito na democracia, é esta!)

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Patilhar
Domingo, 16 de Novembro de 2014

O vedor

MMendes.jpe

 Já vi vedores em pleno trabalho e são impressionantes. Os homenzinhos (os dois ou três que vi em acção eram de fraca estatura - não sei se ajuda à função...) pegam num ramo, tiram-lhe as folhas de modo a ficar uma varinha, seguram-na nas duas mãos e começam a andar pelo terreno. A certa altura a vara começa a torcer-se toda e ele fica um pouco indeciso - dá um passo atrás, outro à frente, mais um para cada lado e estático, olha o dono do terreno, aponta o dedo para o chão e diz: aqui! E é ali que se inicia a furação de encontro ao veio de água antes descoberto. Se a água está a dez metros ou a cem metros, pouco importa - há água!

Por duas ou três vezes, tentei de varinha em punho (a mesma varinha que acabara de se dobrar nas mãos do vedor) ir muito devagar de encontro à água, mas qual quê, a varinha nunca se dobrou, nem mesmo nos sítios exactos onde antes tinha soçobrado à humidade profunda da terra. Mas pior que a minha inabilidade foi a sentença de incompetência do vedor: "é preciso saber!".

 

Lembrei-me do vedor ao ouvir o Marques Mendes na televisão a propósito já não sei bem do quê... Ele é o verdadeiro vedor no nosso tempo - tem a estatura adequada, sabe oferecer-nos água antes mesmo de termos sede, aparece ligado a um sem número de empresas e de casos, mas essas empresas ou já não existem ou se existem ele nunca lá pôs os pés, e os casos são apenas pequenos percalços naturais numa azáfama, que vamos aos pouco descobrindo, é de coisa nenhuma.

O homem trabalha, trabalha, mas não produz nada. O homem fala, fala, mas não diz nada. O homem corre, corre, mas limita-se a não estar no sítio que é suposto estar… , mas, glória das glórias, sabe aquilo que mais ninguém sabe: a forma de encontrar água a dez ou a cem metros de profundidade com uma simples varinha verde de oliveira. É preciso saber!

 

(O dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora, diz que o vedor é (i) o que vê; (ii) inspector, intendente; (iii) o que é especialista na descoberta de veios de água nos diversos terrenos.)

 

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Publicado por Fernando Delgado às 00:57
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Patilhar
Terça-feira, 11 de Novembro de 2014

«O resto é silêncio»

 

IMG_8064.jpg 

 (Quinta dos Loridos, Bombarral)

  

 [...]Hamlet: O resto é silêncio! (Hamlet morre)

Horácio: Partiu-se um nobre coração. Boa noite amado príncipe e que os anjos do céu venham em coro embalar-te o sono [...]»

W. Shakespeare, Hamlet. Cena II. Acto V.

Desertificação: «[…] A ameaça de desertificação está hoje claramente associada às alterações climáticas. Mas a desertificação não pode ser entendida como um mero fenómeno biofísico. Está normalmente também associada à regressão demográfica e aos usos do solo. Estes vários factores interagem e agravam-se mutuamente nas suas consequências. Há por isso que encontrar formas de mitigar os efeitos dos fenómenos climáticos, adaptando as actividades humanas ao território e mantendo níveis e modos de utilização compatíveis com a conservação e valorização dos recursos naturais e territoriais. O combate à desertificação é, por isso, também um problema de ordenamento do território.[…]» Combate à Desertificação: Orientações para os Planos Regionais de Ordenamento do Território. DGOTU, 2006.

 

Desenvolvimento sustentável: «Um modelo de desenvolvimento que permite às gerações presentes satisfazer as suas necessidades sem que com isso ponham em risco a possibilidade de as gerações futuras virem a satisfazer as suas próprias necessidades». Brundtland (WCED, 1987).

 

Vivo no interior, naquele pedaço da jangada de pedra de onde se avistam terras de Espanha e areias de Portugal. Não é por obrigação, é por opção! Opção por muitas coisas que, conscientemente sobrevalorizadas, são suficientes para suportar algumas angústias… Nada de determinante, quando o mundo é o mundo que escolhemos.

Mas este mundo também é de mudança, muitas vezes com tropia própria, mas demasiadas vezes influenciado por um tropel ruidoso vindo do exterior, qual vendaval que de repente tudo arrasta e tudo destrói: encerramento de escolas, de repartições públicas, dos ‘correios’, de empresas,... O vendaval é quase sempre precedido de uma homilia sobre as “contas” e as “reformas” e, passado o temporal, uma oração sobre a desertificação e o desenvolvimento sustentável

(Amén)

Vem a acalmia e eles vão-se, orgulhosos do oráculo, cientes de que não só acabaram de ganhar uma batalha, como essa batalha era uma boa batalha de uma guerra misteriosamente regeneradora. Deixemo-los em paz, emproados e pobrezitos regressar ao seu burgo dourado.

Falemos de nós, dos que ficam, dos que sempre aqui estiveram, dos que resistiram e resistem a cada vendaval. Falemos então de qualidade de vida, das escolas, das repartições públicas, das empresas - da desertificação e do desenvolvimento sustentável e também, porque não, dos falsos poderes. Daqueles poderes muito apreciados e disputados por meia dúzia de adeptos dos clubes partidários, mas que não passam de fachadas de um poder longínquo que ostensivamente os ignora. É verdade que alguns não merecem mais que a ignorância e algum desprezo do poder central, tão grande é o seu egoísmo de pedestal, mas há outros que me custa olhar o seu olhar - um olhar impotente de quem não consegue dar um murro na mesa.

Todos sabemos, ainda que apenas em alguma da sua amplitude, que a desertificação tem múltiplas facetas e é condicionada por inúmeros factores. Mas, curiosamente, nunca inclui o esvaziamento e a degradação do poder que visivelmente se verifica nestes territórios! Provavelmente porque este esvaziamento não condiciona nada de essencial para as gerações futuras e, portanto, para um desenvolvimento sustentável, ainda que admita que se trata de uma profecia ingénua, certeira para todos (todos!) os representantes do poder central, mas talvez pouco justa para alguns (poucos!) autarcas.

Tenderia a concordar com esta tese se este caminho para uma ausência de poder fosse simples, consciente, natural e, portanto, em última análise, a génese de uma sociedade autónoma, adulta, feliz. Mas não é! Esta ausência é imposta e protagonizada por um grupo de pobres vaidosos inconscientemente atarefados em inutilidades práticas. Neste sentido, temo que no sentido real, é apenas um caminho para o vazio. O resto é silêncio.

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:08
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Patilhar
Sábado, 8 de Novembro de 2014

Notícias do casino

A LuxLeaks é um bonito nome para baptizar este caldeirão com os ingredientes do costume: um paraíso fiscal, umas dezenas de multinacionais e uma consultora. O cozinheiro também faz parte dos chefs conhecidos. Estes menus, típicos de um mundo globalizado, estão a tornar-se repetitivos e banais, sintoma típico de algo que se desagrega e se decompõe aproximando-se mais do momento de ruptura. É uma questão de tempo, tempo histórico porque a pressa não entre neste jogo.

 

«[...] Uma investigação internacional, divulgada esta quinta-feira por alguns órgãos de comunicação social, revela a existência de acordos fiscais secretos durante oito anos entre o governo luxemburguês e 340 empresas multinacionais. Apple, Amazon, Ikea, Pepsi e Axa são algumas das empresas envolvidas nesta contabilidade paralela.

Segundo o "The Guardian", os acordos foram assinados entre 2002 e 2010, altura em que Jean-Claude Juncker, o atual presidente da Comissão Europeia, era primeiro-ministro do país, e representam milhares de milhões de euros em receitas fiscais perdidas pelos Estados onde as multinacionais estão sediadas.

(...)

Intitulada "Luxembourg Leaks" ou "LuxLeaks",  a investigação - que envolveu 80 jornalistas de 26 países durante seis meses - teve como base cerca de 28 mil páginas de documentos obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ). 

(...)

A consultora PricewaterhouseCoopers (PwC), que mediou os acordos com Luxemburgo e elaborou os relatórios, alega, por sua vez, que as questões colocadas pelos jornalistas do consórcio internacional foram baseadas em informação "roubada" e "antiga", mas que coloca essa questão nas "mãos das respetivas autoridades".[...]»

Expresso online. 06.11.2014.

Publicado por Fernando Delgado às 01:07
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Patilhar
Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Notícias do casino

«Diretor e diretor-adjunto de supervisão saem do Banco de Portugal para a PwC [PricewaterhouseCoopers], auditora que ganhou contratos, sem concurso, no âmbito da supervisão do Banco de Portugal. Conflito de interesses?»

Expresso. URL 

 

«Há expressões extraordinárias que se associam aos bancos. O 'stress' é uma delas. Testes de stress, bancos mais stressados do que outros, chumbos e passagens, até parece fazer sentido dizer: pobres dos bancos! Só pode ser ironia. O stress é nosso. Confesso o meu. Esta semana não paro de pensar no mais fantástico negócio dos últimos meses. Não foi muito publicitado - talvez para não stressar os bancos e os governos  -, salvo por dois ou três comentadores e outras tantas notícias. Deve ser da preguiça de que fala o primeiro-ministro. Refiro-me ao fantástico negócio que transformou um empréstimo que o BES fez ao BES Angola (BESA) no valor de 3,3 mil milhões de euros em 720 milhões, montante que talvez receba um dia o Novo Banco.»

António José Teixeira. Expresso. URL

 

«Físico célebre [Stephen Hawking] diz que Deus

já não é necessário»

Expresso: URL

 

(Já antes Einstein tinha dito 'Deus não joga aos dados', mas fica agora claro que o casino está entregue a um croupier cego, onde os clientes se divertem a lamber as fichas sem valor real. Não há uma orquestra, como no Titanic, mas as bailarinas continuam a insinuar-se aos clientes. The show must go on!)

Publicado por Fernando Delgado às 23:18
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Patilhar
Domingo, 12 de Outubro de 2014

As loucuras de Berardo

IMG_8069.jpg(Escultura de Breuer-Weil no Buddha Eden - Quinta dos Loridos, Bombarral)

 

De acordo com o próprio Berardo, este Jardim ("Jardim da Paz") surge como reacção à destruição dos Budas Gigantes de Bamyan (sec. VI) no Afeganistão, em 2001, pelo regime talibã.

São  centenas (milhares!...) de esculturas gigantes (seis mil toneladas de pedra) vindas da China e aqui depositadas entre sobreiros centenários e um conjunto de espécies exóticas com dificuldades de "entenderem" o clima local.

Leio de Berardo: “temos que nos respeitar uns aos outros. Há que ter uma participação e ajudar as novas gerações a aprenderem a respeitarem-se mutuamente”, acrescentando que olha este "Jardim como uma plataforma de diálogo com todas as civilizações e, ao mesmo tempo, uma homenagem ao papel que os portugueses historicamente desempenharam no alargar de horizontes do mundo – aquilo a que actualmente se chama globalização. É importante que não se esqueçam que fomos nós que iniciámos o processo”.

 

(A liberdade, a minha liberdade - política, religiosa, moral, cultural, ... -, é a única causa pela qual, se tal fosse necessário, lutaria no sentido físico do termo. Por isso entendo as palavras de Berardo. Mas pensando assim, há coisas - e admito que o problema seja meu -, de que não gosto: tenho muita dificuldade em entender a translocação de símbolos culturalmente bem localizados e datados, mesmo que o motivo invocado seja a irracionalidade talibã e o total desprezo pela liberdade.

Num mundo global é natural que todos nós procuremos entender e conhecer esse mundo, mas já não me parece natural que se peguem em pedaços desse mundo e se coloquem noutro lugar, num lugar culturalmente estranho, sem ligação à sua história... Não se trata de qualquer sentido de pureza da cultura, até porque não tenho nenhuma ilusão acerca dos limites da transacção de bens culturais. É apenas um sentimento que resulta de uma observação intimista: alguns budas pareciam acanhados entre os sobreiros!)

Nota: A Quinta dos Loridos é lindíssima (alguns edifícios são do século XVII) e tem uns vinhos interessantes...

 

Publicado por Fernando Delgado às 23:56
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Patilhar
Quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

Notícias do casino

Estamos na fase final da queda dos políticos que vieram do nada e paulatinamente subiram nas hierarquias partidárias (sabe-se lá como), acabando eleitoralmente despedidos para uma qualquer empresa de influências e proveitos públicos. Restam poucos, mas ainda os suficientes para se temerem uns bons anos de complicadas e compulsivas compensações de favores.

Mas as coisas estão a mudar. Já não se trata de gente sem pedigree e sem estatuto genealógico como foram os boçais “amadores do ofício” Oliveira e Costa, Dias Loureiro e Armando Vara, entre outros, ou de geniais gestores da “piscina do tio patinhas” como João Rendeiro (ironicamente autor do profético livro «João Rendeiro, Testemunho de um Banqueiro»), para não alongar a lista de ilustres seguidores da mais desmedida ambição pessoal.

(Um parêntesis para sublinhar que a ambição é uma característica e não necessariamente uma qualidade. D. Sebastião foi provavelmente um dos mais ambiciosos portugueses de sempre e ainda lá anda, coitado, de espada afiada de ambição a matar infiéis…)

Mas dizia, que já não se trata de gente sem pedigree, sem estatuto genealógico. Não, nada disso. Espirito Santo, Zeinal Bava, Granadeiro, pertencem a outra estirpe. São de outro estatuto, têm muitos “genes genealógicos” (um gene genealógico é um clone, não tem nada de novo, limita-se a reproduzir o passado) ou uma longa colecção de titulos honorificos («o melhor gestor a nível europeu da área das telecomunicações», de Zeinal Bava - pobre Europa!), master’s, pós-graduações, Ph.D., de preferência com carimbos católicos e uma passagem pela “escola da vida” da Goldman Sachs.

Só me importam estes ilustres gestores do efémero porque todos eles tornaram este país mais pobre, mais triste, temo que mais efémero também. Só me importam porque têm seguidores cada vez mais experientes, mais dissimulados, mais profissionais – a gestão política dos últimos anos só reforça esta ideia e as consequências são catastróficas: onde estão e de quem são o BES, o BPN, a PT, a EDP, os Correios, a GALP, a REN, a Cimpor, etc.? O que se segue nesta imensa lista - será que vão chegar às Desertas e às Berlengas?

Será que é mesmo preciso recomeçar do nada?

Publicado por Fernando Delgado às 02:00
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Patilhar
Sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

Notícias do casino

«TALVEZ AGORA VITOR BENTO PERCEBA COM QUEM SE METEU 

Vítor Bento tem escrito sobre o problema da ética nos negócios e na política. Por isso, é uma daquelas partidas que a história prega a todos, poder ouvir palavras como as que Paulo Portas proferiu publicamente numa reunião centrista, em que Vítor Bento passou de bestial a besta. Portas é um dos principais responsáveis, pela sua posição no governo, da escolha de Vítor Bento, visto que todo o processo do BES é conduzido pelo governo utilizando como instrumento o Banco de Portugal. Portas ouviu com certeza as críticas da oposição de que Bento não tinha experiência bancária, de que a escolha tinha sido política, etc. Ele, como toda a muralha de personalidades do governo que se pronunciaram, bem como os comentadores próximos do poder, reagiram indignados a estas acusações incensando Bento até aos limites, como a excepcional escolha para “salvar” o banco. Bento devia ter compreendido que não era tanto ele próprio, nem o resto da sua equipa que eram elogiados, mas a sageza do governo e do seu instrumento o Banco de Portugal, na escolha.


Agora, Vítor Bento teve que ouvir as palavras de Portas, com a mesma repulsa moral que elas suscitam em gente bem formada. Portas fala como se nada tivesse a ver, assim como o governo que faz parte, na escolha de Vítor Bento, uma escolha errada porque não era um “banqueiro” e não “percebia” de banca, não era “profissional” do ofício para que foi escolhido… pelo governo. E depois dá-lhe uma lição moral, a mesma que Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa lhe deram, e que segundo este último, “toda a gente” partilha, do PSD de Alcobaça aos seus companheiros de praia:


“Os bancos gerem-se por profissionais e por gente que tenha espírito de missão e que, em qualquer circunstância, perceba que o interesse nacional é superior a qualquer interesse pessoal.”


Bento portou-se mal ao demitir-se, devia continuar no banco como responsável de fachada, enquanto a cadeia de comando do governo ao Banco de Portugal decidia tudo em nome dele. Ou seja, Bento não aceitou ser um fantoche e isso só lhe fica bem nestes tempos de dissolução moral. Vem agora um tecnocrata mais dúctil.»

 

José Pacheco Pereira. Abrupto. (URL)

Publicado por Fernando Delgado às 22:36
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Patilhar
Sábado, 13 de Setembro de 2014

Virus Ébola

(... isto é mesmo assim?...)

 

«Vírus Ébola: o embuste

Ao contrário da ideia com que se fica pela leitura da imprensa, não existe qualquer razão para recear que o vírus Ébola se possa transformar numa pandemia à escala mundial.

 

Tem tanto de extraordinária como de caricata a histeria que vai por esse mundo por causa da “catástrofe” provocada pelo vírus Ébola. 

A imprensa internacional fala de 1229 mortos entre Março e Agosto de 2014. Ora bem, se consultarmos a página da OMS sobre este assunto, veremos que na realidade foram 788 os casos de óbito formalmente identificados como causados pelo vírus Ébola, um número bem inferior aos 1,2 milhões de mortes causadas pela malária (paludismo). O número remanescente limitou-se a traduzir os casos “suspeitos” ou “prováveis”. 

As imagens televisivas com que fomos recentemente presenteados, mostrando-nos técnicos de saúde, quais marcianos envergando complexas máscaras junto de doentes suspeitos, são totalmente insensatas e dignas de um mau filme de ficção científica. 

É importante saber-se que o vírus Ébola não se transmite com facilidade. Para haver transmissão do vírus, tal como acontece com o vírus da SIDA - o VIH - é necessário um contacto direto com um líquido biológico do doente, como o sangue, as fezes ou o vómito. 

O vírus Ébola é sobretudo perigoso quando mal acompanhado. Como os doentes infetados morrem de desidratação ou de hemorragias, então o tratamento consiste logicamente na hidratação e/ou transfusão sanguínea, e não na administração de uma qualquer vacina ou hipotético medicamento. 

Como a solução contra a epidemia consiste essencialmente em respeitar medidas simples usando o bom senso - higiene, boa nutrição, vitaminas C e D nas doses adequadas -, a verdadeira prioridade nos países tocados pelo flagelo, deveria ser criar infra-estruturas médicas de forma a fornecer aos doentes os cuidados médicos de base. 

Seria bom que se soubesse que não há qualquer transmissão por via aérea, ou seja, quando uma pessoa fala ou tosse, não vai espalhar o vírus pelo espaço aéreo circundante. 

Assim sendo, ao contrário da ideia com que se fica pela leitura da imprensa, não existe qualquer razão para recear que o vírus Ébola se possa transformar numa pandemia à escala mundial. 

Semear o pânico pode ser um negócio muito lucrativo que importa desmontar. Veja-se o que se passou ainda recentemente (2005) com a “pandemia eminente” da “gripe das aves”. Através da sábia manipulação da opinião pública, a consequência foi uma totalmente desnecessária vacinação em massa da população com o consequente enriquecimento de alguma indústria farmacêutica por um lado, e esvaimento dos cofres públicos em muitos milhares de euros em vacinas usadas e… não usadas, por outro. O antiviral “milagre” Tamiflu limitou-se tão-só a reduzir a duração dos sintomas em menos de um dia, sem conseguir limitar minimamente as hospitalizações. 

Os títulos sensacionalistas martelados por alguma imprensa nas últimas semanas não fazem qualquer sentido. Importa que não nos deixemos submergir pela informação viciada e pela mentira. A reação totalmente excessiva face a este problema corre o risco de provocar uma catástrofe humanitária de dimensões bem superiores à provocada pelo próprio vírus Ébola. A medida tomada recentemente pelo governo da Serra Leoa, que interditou o albergue e os cuidados dados a estes doentes – única forma de os salvar -, mimoseando com a pena de dois anos de prisão os seus infractores, bem como uma outra tomada pelo governo da Libéria, ordenando aos soldados que atirassem a matar sobre as pessoas que procurassem passar a fronteira como forma de impedir a propagação da epidemia, é inacreditável. O mito dum passageiro africano infetado pela doença, no avião, que poderia infetar o país europeu onde desembarcasse é da mesma forma totalmente irrealista e traduz uma total ignorância sobre a realidade do vírus Ébola. À semelhança do que se passou com a “gripe das aves” importa não enviar camiões de vacinas ou medicamentos para África ou para onde quer que seja. Tal servirá unicamente para enriquecer alguns laboratórios farmacêuticos. 

A psicose informativa vigente, reprimindo as populações e isolando dezenas de milhares de infelizes criaturas, homens, mulheres e crianças, postos em quarentena na Libéria com medo dum contágio que nunca acontecerá se não houver contacto direto com os líquidos orgânicos do portador da doença, tem de ser urgentemente desmontado e desmascarado. 

Não podemos aceitar a reedição dum negócio das arábias à custa da boa fé ingénua e da desinformação do incauto cidadão.»

 

Manuel Pinto Coelho, médico, doutorado em Ciências da Educação, no Público)

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Publicado por Fernando Delgado às 00:15
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Patilhar
Segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

Notícias do casino

«O caso do BES e do GES é um maná para os advogados especializados neste tipo de litigância, aliás os mesmos que são especialistas na blindagem de contratos, os mesmos que fizeram as contrapartidas, os mesmos que negociaram do lado da banca e do lado do governo. Para meia dúzia deles, porque é um círculo muito fechado, o caso BES/GES vai ser um presente de ouro.

Há muito aventureirismo legal (melhor ilegal) em todo o processo e tantas zonas vermelhas e cinzentas, tanta coisa feita em cima do joelho, e muita mais de legalidade mais que duvidosa, que todos, pequenos e grandes, do lado “bom” e do lado “mau”, têm vantagem em ir a tribunal, mesmo com uma justiça lenta como a nossa. E é evidente que a expectativa de litígios sobre litígios vai embaratecer ainda mais o lado “bom”, visto que ninguém se arrisca a comprar sem ter a certeza de que não fica com um bem enrodilhado por dezenas de anos em processos judiciais. A não ser que o governo se atravesse com garantias e dinheiro, o que já está a fazer e ainda vai fazer muito mais. É só esperar um pouco.»

Abrupto: URL

«[…]

Depois há a intensa produção de paradoxos, que passam por ser o mais linear dos raciocínios. O governo e o Banco de Portugal parecem que querem o BES “bom” vendido o mais depressa possível. Mas para vender bem o BES “bom” este tem que ser “estabilizado”, ou seja, demora tempo. Queremos vender rápido, mas rápido só pode ser “instável”, logo mais barato. No intervalo, a indústria da “estabilidade”, ou seja da imagem e da marca, lá vai ganhando dinheiro com transformar o banco numa borboleta, anúncios, cartazes, fachadas, que nisso somos rápidos e bons a encomendar e há uma verdadeira multidão de “criativos” para responder. Mas se soubessem mais de lepidópteros ou lessem o Nabokov, saberiam que o “novo banco” ficaria bem mais servido com uma larva ou lagarta. Primeiro, porque comem muito, coisa que fica sempre bem a um banco mesmo “bom”, e, quando fosse vendido no esplendor rápido de borboleta então poderia ser que os “contribuintes”, - palavra que deveria ter um alarme acoplado visto que quando o governo a usa ou trata-se de impostos, despedimentos, ou cortes, - ficassem ressarcidos.

[…]»

Abrupto: URL

José Pacheco Pereira. Abrupto.

Publicado por Fernando Delgado às 00:01
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Patilhar
Domingo, 7 de Setembro de 2014

Cansado...

(e perdido...) 

 

Ainda não acabei de chegar!...

Esse calendário tem os dias todos?

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(Barragem da Marateca, ao final do dia...)

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:33
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Patilhar
Quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

A. Gedeão

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Praia de Carvalhais, Comporta.

(Vê Moinhos? São Moinhos. Vê gigantes? São gigantes.)

 

«Os meus olhos são uns olhos.

E é com esses olhos uns

que eu vejo no mundo escolhos

onde outros, com outros olhos,

não vêem escolhos nenhuns.

 

Quem diz escolhos diz flores.

De tudo o mesmo se diz.

Onde uns vêem luto e dores,

uns outros descobrem cores

do mais formoso matiz.

 

Nas ruas ou nas estradas

onde passa tanta gente,

uns vêem pedras pisadas,

mas outros gnomos e fadas

num halo resplandescente.

 

Inútil seguir vizinhos,

que ser depois ou ser antes.

Cada um é seus caminhos.

Onde Sancho vê moinhos

D. Quixote vê gigantes.

 

Vê moinhos? São moinhos.

Vê gigantes? São gigantes.»

 

António Gedeão. Impressão digital.

 

Publicado por Fernando Delgado às 01:54
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Patilhar
Terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Rui Veloso

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Rui Veloso, em Oleiros.

 

Foi um concerto triste, a meio da semana, num lugar improvável.

Uns dias depois, em entrevista ao DN, dizia que «É muito difícil para mim aceitar a realidade do país. Fico à espera que isto um dia tenha compostura e volte aos valores básicos da vida. (...) Todos sabem de tudo como no futebol! Gente que nada percebe do que fala mas mesmo assim opina sem critério. Portanto, eu vou parar. Tenho de fazer uma paragem na minha vida para provavelmente estar com os amigos, para poder viajar, para arrumar os meus DVD, deitar fora coisas, trabalhar calmamente na minha música, sem pressões, e pôr em ordem algumas coisas que tenho desarrumadas na minha vida».

Diz mais coisas, mas é fácil perceber que se fartou deste país. Vão chover críticas de quem acha que só os privilegiados se podem dar ao luxo de dizer basta. Não quero saber. Do Rui só espero que não deixe de fazer canções. O resto - este país que um dia há-de voltar aos valores básicos da vida, este país reduzido à mediocridade de gente que nada percebe do que fala (nem imaginas a praga de gente dessa que existe por todo o lado...) -, fica para depois. Eles hão-de acabar por cair em cima da sua própria merda. Resistir é preciso!

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:57
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Patilhar
Segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

Notícias do casino

«Os portugueses viveram acima das suas possibilidades!»

Vitor Bento

 

(O itinerário não podia ser melhor escolhido: Angola, Miami, Líbia,... O enredo tem maus e bons, como qualquer enredo que se preze. Chamam aos primeiros bad e aos segundos novo - não é muito imaginativo, mas funciona. No fim, como sempre, o novo vence o bad. Também como sempre, alguns morrerão em nome de boas causas, em nome do bem, em nome do bom, do not bad. Haverá um veículo para o bad, conduzido pelo Máximo. Para o novo não consta que haja veículo, mas o herói tem nome: Bento. O budget atinge muitos milhões, como convém a qualquer grande história, com tão empolgante elenco. Registam-se as admiráveis interpretações do Ben e do Max, o grande patrocínio da Passos & Luís, SA e a magistral realização do Costa. O Zé, com ar desengonçado, barba por fazer e manguito firme, também entra em cena. À força, sem dar por isso, mas entra. Com um ar tão descomposto que tudo indica vir de qualquer farra acima das suas possibilidades. Faz parte do elenco dos bad's!

Entretanto os críticos destas artes desdobraram-se em elogios. O Marcelo acha que o enredo, os protagonistas e até o produtor e o realizador podem ser candidatos a um ou vários galos de barcelos (o equivalente português do óscar...) e o Mendes até anunciou que vai crescer o cabelo ao Ben, com indicação da data precisa de tal ocorrência e acrescentando que vai usar penteado tipo Bento - o da selecção nacional... O Castrim gritou, do fundo da campa, que os portugueses vivem abaixo das suas possibilidades!...)

(Ficha técnica. Produtores: Pedro Passos Coelho, Maria Luís Albuquerque; Realizador: Carlos Costa; Realizador adjunto: Carlos Tavares; Argumento: Ricardo Espírito Santo; Efeitos especiais: Paulo Portas; Actores: Vítor Bento, Luís Máximo Santos, Zé Povinho, outros; Críticos: Marcelo Rebelo de Sousa, Marques Mendes, Mário Castrim)

 

«O BES Angola, o banco de Miami e o líbio Aman Bank ficam no bad bank, segundo a decisão do Banco de Portugal conhecida nesta segunda-feira, que atribui ainda a este veículo 10 milhões de euros para ajudar a administração na recuperação de ativos. O Banco de Portugal tomou este domingo o controlo do BES e anunciou a sua separação num “banco bom”, denominado Novo Banco, e num “banco mau” (bad bank), na prática um veículo que fica com os ativos tóxicos do BES e cuja gestão foi nomeada pelo supervisor e regulador bancário.

Em comunicado hoje emitido, o supervisor e regulador bancário dá conta do que fica no bad bank. Além da totalidade das ações do próprio BES, ficam neste veículo a participação maioritária que o BES tinha no BES Angola, o banco norte-americano Espirito Santo Bank e o banco líbio Aman Bank. Ficam ainda no bad bank os “direitos de crédito” do BES sobre as holdings do Grupo Espírito Santo, caso da Espírito Santo International, ou seja, fica neste veículo a exposição ao GES.

No entanto, refere o supervisor bancário que não ficam no bad bank os “créditos sobre entidades incluídas no perímetro de supervisão consolidada do BES” e dos créditos sobre as seguradoras Tranquilidade, Tranquilidade-Vida, Esumédica, EuropAssistance e Seguros Logo, pelo que deverão passar para o Novo Banco. O Banco de Portugal passou ainda para o bad bank um total de 10 milhões de euros para “proceder às diligências necessárias à recuperação do valor dos seus ativos”. O bad bank, liderado por Luís Máximo dos Santos, mantém o nome BES mas não tem licença bancária.»

(Resumo da net, já não sei bem de quem...)

Publicado por Fernando Delgado às 22:12
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Patilhar
Domingo, 3 de Agosto de 2014

Pipa de massa

        - Uma pipa de massa! -, disse Durão Barroso na assinatura do acordo de parceria com a UE, referindo-se a 26 000 M€ de fundos…

        - Porreiro, pá! – murmurou, com voz rouca, um assistente ausente da cerimónia.

        - Silêncio! - pediu o mestre de cerimónias com o dedo em riste e espuma no canto da boca.

 

Ao fundo da sala, alguém lia "O Banqueiro Anarquista", de Fernando Pessoa. Não consta que se tivesse apercebido da dimensão da pipa. Estava sóbrio e parecia feliz!

(link entre pipas)

 

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Publicado por Fernando Delgado às 23:49
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Patilhar
Terça-feira, 22 de Julho de 2014

Notícias do casino

É um texto longo, publicados na VISÃO, em 19 Setembro de 2013, que valeu a Paulo Pena o Prémio Gazeta de Imprensa, e agora republicado. Sem capacidade de compreender a dimensão dos números - os números muito grandes ainda são realidade? -, confesso que também eu “fiz um swap especulativo, na quinta-feira passada, o euromilhões: e perdi!"

 

«Bancocracia: A verdadeira história da crise bancária portuguesa

As conversas, reuniões e pressões dos banqueiros portugueses, nos dias "negros" de setembro de 2008, há cinco anos, quando o Lehman Brothers faliu, e 40% da riqueza mundial "desapareceu". Desde então, pouco ou nada mudou. Exceto, claro, nas nossas vidas... 

 

Por estes dias, o nome de Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE, circula em Bruxelas e Frankfurt como "um dos nomes mais fortes" para encabeçar o Mecanismo Único de Supervisão da Banca europeia, aprovado na quinta-feira, 12, em Estrasburgo. Segundo deputados da Comissão de Economia do Parlamento Europeu, Constâncio é mesmo o candidato principal a este cargo, uma das principais novidades, provocadas pela crise de 2008.

Na quarta-feira da semana passada, 11, outras memórias da crise regressaram ao noticiário.

O BCP, o BPN e o BPP estão entregues aos tribunais. A lista é fastidiosa: Oliveira e Costa, Dias Loureiro e vários ex-responsáveis do BPN, Jardim Gonçalves e cinco ex-administradores do BCP, João Rendeiro e vários ex-administradores do BPP. Nenhum foi condenado, embora todos tenham sido acusados e tenham contra si infindáveis páginas de processos do Banco de Portugal (BdP) e da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM).

Há cinco anos, tudo era diferente.

No início de agosto de 2008, as cinco estrelas do Lake Resort, em Vilamoura, eram poucas para dividir pelas figuras da alta finança que ali comemoravam. O aniversário de Paula Caetano, mulher de Horácio Roque, o homem-forte do Banif, juntou muitos improváveis parceiros de brinde. A festa parece, a esta distância, o fim de uma era.

Américo Amorim, o acionista do BIC, de capitais luso-angolanos, que viria a comprar o BPN, convivia com Alípio Dias. Este, ex-administrador do BCP, acabara de perder a guerra pelo controlo do banco para, entre outros, os capitais angolanos da Sonangol. Lado a lado (e a receber efusivos "beijinhos", segundo uma nota do Expresso), Alípio e Joe Berardo, o acionista que liderou a campanha contra Jardim Gonçalves e deitou por terra o valor das ações do BCP. Nessa guerra pelo BCP, João Rendeiro, homem forte do BPP, era aliado de Berardo. Contra Alípio Dias que tinha, em tempos, tentado evitar que o BPP abrisse as portas. Todos juntos, celebravam.

Faltava um mês e meio para a falência do Lehman Brothers.

O clima internacional era sombrio, havia, pelo menos, um ano, com as notícias ainda que difusas das complicações no mercado hipotecário norte-americano. A economia estava estagnada. As taxas de juro subiam.

Os preços das matérias-primas disparavam. Eram sinais de perigo.

 

Portugal e as Seychelles

Em Portugal, os tempos ainda não eram difíceis para a banca, que valia cerca de três vezes mais que a economia do País.

"O setor financeiro, sobretudo a banca, é sem dúvida o mais poderoso da economia portuguesa, e tutela a política económica", explica Nuno Teles, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Nuno apresentou, na passada quinta-feira, em Londres, a sua tese de doutoramento sobre "financeirização da economia".

Esse poder aumentou, graças à moeda única europeia: "O setor financeiro nacional teve a oportunidade de se endividar no exterior, de forma quase ilimitada, a preços muito baixos. Contudo, aliado à tradicional falta de competitividade da nossa indústria, a banca optou por colocar todo este capital disponível em setores onde o seu lucro estava garantido, nomeadamente a construção e imobiliário. A banca financiava o construtor e, em seguida, financiava o comprador, ficando com o imóvel como garantia." O resultado foi um endividamento líquido recorde ao exterior, apenas ultrapassado pelo das Seychelles.

A indústria transformadora recebia 40% do crédito bancário destinado a empresas, em meados dos anos noventa. Na nossa década, esse valor caiu para metade, "em torno dos 20%", conclui Teles. Além do crédito com "lucro garantido", a banca apostou na área do "rentismo" (rent-seeking), nas palavras de Joseph Stiglitz, o ex-coordenador da equipa de assessores económicos de Clinton, e prémio Nobel da Economia. São rendimentos de "rendas" garantidas pelo Estado, como as PPP, em Portugal.

E é assim que a crise de Wall Street tem um elo com a crise portuguesa. Os credores da banca portuguesa eram, em grande medida, os mesmos do falido mercado hipotecário norte-americano: os grandes bancos do Norte da Europa.

 

Um brinde com 'mimosas'

O problema desta crise começa na própria linguagem. A finança tem uma língua própria (ver A novilíngua da crise) e movimenta números que, para qualquer cidadão, são meras abstrações. A complexidade das operações bancárias, que estão na origem da crise que ainda vivemos, é entediante. Tudo isso faz com que, ainda hoje, cinco anos depois, seja difícil responder à pergunta mais simples: o que se passou? 16 de março de 2008. O Bear Sterns, 5.º maior banco americano, foi "salvo" in extremis, da falência. O seu rival JP Morgan comprou por 2 dólares ações que valiam 172 dólares um ano antes. A Reserva Federal (Fed) comprometeu-se a "limpar" 30 mil milhões de dólares de "lixo" tóxico que infetava o balanço do banco. Numa palavra: subprime.

Na manhã desse domingo, 16, os responsáveis por alguns dos hedge-funds que apostaram contra o Bear Sterns comemoraram a derrocada do "inimigo" com um pequenoalmoço no Hotel Four Seasons de Manhattan, "fazendo brindes com mimosas [um cocktail de sumo de laranja com champanhe] preparadas com garrafas de $350 de Cristal." (Andrew Ross Sorkin, Too Big To Fail, Penguin).

Os bancos têm um poder quase divino: podem "fazer" dinheiro. A maneira mais fácil é emprestá-lo. A nossa dívida é um "ativo".

Dinheiro que, antes, não existia. No caso dos empréstimos subprime, era a galinha dos ovos de ouro: 2 000 000 000 000 de dólares. Dois biliões. Para se ter uma ideia: algumas das maiores empresas mundiais, juntas, como a Apple, a Amazon, o Google e o Facebook, valem apenas metade dessa quantia.

Os norte-americanos, mesmo aqueles que não tinham documentos, emprego ou qualquer tipo de bens, foram aliciados a contrair empréstimos avultados. Entre 2003 e 2005, pediram emprestados 3,7 biliões de dólares.

Mais ou menos o mesmo montante que foi acumulado nos EUA, em poupanças, nos últimos 200 anos... (Matt Taibbi, Griftopia, Spiegel & Grau) Para se precaverem do risco destes estranhos empréstimos, os bancos criaram "seguros " de risco (CDS, CDO, CLO, swaps, ver glossário) que mais não fizeram do que contaminar todo o sistema bancário. Allan Greenspan, ex-governador da Fed, elogiou os bancos pela "inovação" e disse que estes produtos, que ele próprio batalhou por desregular, comportavam riscos "negligenciáveis ". As agências de rating ajudaram, dando notações altas a estas "armas de destruição maciça", como lhe chamou Warren Buffett, o multimilionário norte-americano.

Foi uma festa, enquanto durou. Os CEOs, que não percebiam bem o que os seus "quants", analistas quantitativos, faziam com estes produtos, receberam bónus gigantescos pelos lucros que não paravam de aumentar. Até que rebentou a "bolha".

Quando o mercado do subprime começou a cair, o Banco Central Europeu e a Reserva Federal americana abriram a bolsa aos bancos, para prevenir "o risco significativo de uma crise bancária", como lembra o economista grego Costas Lapavitsas, no seu livro Crisis in the Eurozone. Os bancos usaram essa "liquidez" dada pelos bancos centrais para "aumentarem os seus empréstimos aos países da periferia" na Europa. "A garantia era de que as bancarrotas na Zona Euro seriam impossíveis." (Lapavitsas) 15 de setembro de 2008. O Lehman Brothers faliu.

No dia seguinte, o Governo americano injetou os primeiros 85 mil milhões de dólares na seguradora AIG. O próprio Presidente Bush não conteve o pavor: "É suposto uma companhia de seguros fazer estas coisas?", questionou, ao ser informado do problema dos credit default swaps.

 

Reuniões e inconfidências

Parte desse dinheiro, pago pelos contribuintes americanos, veio diretamente para a Europa.

Os grandes bancos europeus eram os mais expostos ao subprime .

Em setembro de 2008, Portugal era um país muito diferente do que é hoje. Tinha uma dívida pública de 68%, face ao PIB, cerca de metade da que tem atualmente, passados cinco anos, quatro deles vividos em "austeridade".

A Europa decidira gastar, para mitigar o efeito recessivo da crise. O efeito combinado da política "expansionista" com a diminuição dos impostos, causada pela crise, pusera as contas públicas no vermelho.

4 da tarde, hora de Washington DC, de quinta-feira, 25 de setembro de 2008. À volta de uma mesa oval, na Casa Branca, John McCain, o candidato republicano e Barack Obama, o seu adversário democrata, sentaram-se, rodeados pelo Presidente, George W. Bush, o seu vice, Dick Chenney, e o poderoso secretário do Tesouro, Hank Paulson.

Ao seu estilo, Bush deixou uma frase para a posteridade: "Se não soltamos o dinheiro, esta porcaria pode cair ao chão." (Too Big To Fail, Penguin) Bush tentava convencer os dois partidos a aprovar o plano de Paulson, o TARP (Programa de Auxílio para Ativos Problemáticos), no valor de 700 mil milhões de dólares, uma inédita injeção de dinheiros públicos no sistema financeiro, para "limpar" das contas dos bancos o lixo "tóxico" que tinham acumulado em operações complexas e arriscadas. Houve quem chamasse a este "resgate" o "socialismo dos ricos".

Por essa altura, em Lisboa, também havia reuniões de alto nível. Vítor Constâncio mandou chamar, na terça-feira, 30 de setembro, ao Banco de Portugal (BdP), cinco banqueiros: Faria de Oliveira, da CGD, Carlos Santos Ferreira, do BCP, Fernando Ulrich, do BPI, Ricardo Salgado, do BES, e Nuno Amado, do Santander-Totta. A conversa, rigorosamente sigilosa, fora marcada a propósito da crise americana. Mas o habitualmente fleumático governador deixou escapar uma preocupação: "A situação de dois pequenos bancos portugueses." Os bancos nunca foram nomeados, mas, naquela sala, ninguém tinha dúvidas: tratavase do BPN e do BPP. Os visados souberam, rapidamente.

No sábado seguinte, 4 de outubro, uma notícia do Expresso relatava a reunião.

Miguel Cadilhe ficou indignado com esta "inconfidência". À frente do BPN desde 24 de junho de 2008, Cadilhe tentava encontrar uma solução para o banco e para a sociedade que o detinha (a SLN). E corre contra o tempo. Em quatro meses, descobre 96 offshores escondidos e um banco, o Insular, que servia para ocultar prejuízos e lucros, financiar empresas do grupo e esconder operações.

Entre os obstáculos de Cadilhe, que eram muitos, estava o receio, do BdP de um "contágio " americano a Portugal. Não pelo lado "tóxico", mas sim pela ainda mais intangível "confiança". Havia corridas aos depósitos em Inglaterra, Islândia, Irlanda, resgates multimilionários em França, na Bélgica, na Holanda, na Alemanha.

"Na carteira de ativos do BPN não havia produtos derivados. Só aplicações em créditos, depósitos e outros títulos negociáveis normais", garante à VISÃO Manuel Meira Fernandes, o administrador financeiro da equipa de Cadilhe.

 

A nacionalização

Nas reuniões entre Cadilhe e Constâncio, não era a bolha do subprime que causava a visível "crispação". Eram as referências, diretas de Cadilhe à quota de responsabilidade do regulador no caos que estava à vista de todos nas contas do BPN.

Aqui, os depósitos estavam a crescer, mensalmente, desde que Cadilhe e a sua administração tinham chegado. De setembro para outubro, depois do Lehman e da "inconfidência " de Constâncio, registou-se a primeira queda, de quase 300 milhões de euros. Mesmo assim, o saldo ainda superava o registado em junho desse ano, e dezembro de 2007.

A queda fez, no entanto, soar o alarme.

Pressionados por Bruxelas, os governantes queriam evitar, a todo o custo, o mínimo sinal de uma "corrida aos depósitos".

Carlos Costa Pina, na altura secretário de Estado do Tesouro, recorda: "A crise financeira contribuiu para tornar patentes, de forma mais rápida, as fragilidades do BPN. Tive a noção, a partir de julho de 2008, de que a nacionalização poderia ser inevitável. E por isso dei indicações para se começar a preparar essa eventualidade. Deveríamos procurar sempre alternativas, mas sabia que, se elas falhassem, teria que estar tudo pronto para uma decisão imediata. Não haveria, depois, tempo para estudar. Apenas para agir." No Eurogrupo, reunido de emergência, em Paris, após a falência do Lehman Brothers, havia outros motivos de preocupação: a Irlanda tinha dado uma "garantia integral sem limites" aos seus bancos, atirando o défice para uns impensáveis 32% do PIB.

No dia 2 de novembro, um domingo, estava Miguel Cadilhe em Ponte de Lima, quando recebeu uma chamada de Costa Pina. O BPN seria nacionalizado.

Teixeira dos Santos comunicou a decisão, ao lado de Constâncio, numa conferência de imprensa. Cadilhe demitiu-se. E o buraco do BPN não parou de crescer. Os depósitos, esses, caíram a pique. Mil milhões a menos, em setembro de 2009. Outros mil milhões "voaram" em 2010.

Numa coisa Meira Fernandes e Costa Pina estão de acordo: "Os problemas do BPN eram internos e prévios à falência do Lehman Brothers.

A crise financeira acelerou a sua visibilidade, que se teria verificado com ou sem falência do LB." (Costa Pina); "A crise do BPN tem uma génese própria: irregularidades e fraudes. Com ou sem Lehman Brothers, teria sempre acontecido." (Meira Fernandes).

Onde discordam é nas virtudes da solução escolhida pelo Governo. Nacionalizar foi, para Meira Fernandes, "um erro crasso" e uma "mistificação". "O balanço que faço é péssimo. A liquidez do banco agravou-se, a solvabilidade deixou de existir (o banco ficou tecnicamente falido) e a rentabilidade positiva nunca foi atingida. Quem está a suportar os custos da nacionalização, contrariamente ao então afirmado pelo ministro Teixeira dos Santos, são os contribuintes." Carlos Costa Pina admite que algo podia ter sido diferente: "No caso do BPN, não tivesse o contexto sido o que foi e talvez a nacionalização pudesse ter sido evitada, encarando-se a falência. Mas infelizmente não se escolhem os momentos em que os sinistros acontecem e, à época, a falência teria tido proporções não verificáveis noutro contexto."

 

O risco de tudo se repetir

Ainda havia uma segunda "banqueta" (expressão de um ex-banqueiro) em risco: o BPP. Afirma o ex-governador do Banco de Portugal, António de Sousa: "Nunca foi um banco, nem nunca deveria ter sido. Infelizmente, o Banco de Portugal não pôde evitar dar a licença que é obrigatória por lei." O BPP era 14 vezes mais pequeno que o BPN, em volume de depósitos. Por isso, em dezembro de 2008, o Governo não teve dúvidas de que seria deixado à sua sorte. O Estado avalizou 450 milhões de euros para um fundo que procurasse reaver parte dos investimentos perdidos por clientes (que garantiam ter entregue as suas poupanças como depósitos e o banco usou como investimentos de risco).

Mas o problema não estava resolvido.

Para mais quando a Zona Euro entrou, definitivamente, na espiral da crise, com os resgates à Grécia e à Irlanda, em 2010. Foram os bancos portugueses que, ficando sem liquidez nos mercados interbancários, e impedidos pelo BCE de aceder aos financiamentos com garantias, fizeram pressão no sentido da intervenção da troika. Estavam inundados de um novo tipo de "ativo tóxico": os títulos da dívida pública portuguesa (e da grega). Fizeram-no em privado, durante algum tempo, e convenceram o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e o novo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. Mas precisaram de pressionar em público para convencer José Sócrates. Judite de Sousa, jornalista da TVI, convidou os banqueiros para uma série de entrevistas. Para sua surpresa, todos aceitaram, no momento. "48 horas depois, o primeiro-ministro estava a pedir ajuda financeira", contou a jornalista, numa entrevista ao Público. E observou: "Acabei por, com aquelas entrevistas, fazer parte de uma narrativa que foi meticulosamente preparada pelos banqueiros." Nos 78 mil milhões de euros do "resgate" estava incluída uma fatia de 12 mil milhões para "recapitalizar" a banca nacional, garantindo que entre 9% e 10% do dinheiro investido existisse mesmo nos cofres das instituições cumprindo os rácios de capital definidos após a crise, em Basileia. O nome do mecanismo de ajuda aos bancos é complicado Contingent Convertible Bonds. O acrónimo é surrealista: CoCos.

Usaram este financiamento quatro dos maiores bancos portugueses: o BCP, o BPI, o BANIF e a Caixa. Como contrapartida, os bancos têm de pagar juros de 7%, aceitar administradores nomeados pelo Estado e reduzir para metade os vencimentos dos seus administradores. Têm ainda de encolher.

Despedir trabalhadores, fechar balcões.

E estamos, agora, mais preparados para lidar com uma crise bancária? Nuno Teles duvida: "É difícil avaliar se estamos à beira de uma nova crise, mas é claro o quão pouco mudou na economia internacional desde a crise de 2008. Os mecanismos que deram origem à crise quase não se alteraram." Meira Fernandes, que se reformou da atividade bancária, ironiza. "Fiz um swap especulativo, na quinta-feira passada, o euromilhões: e perdi." Mais a sério, este ex-administrador financeiro garante que, hoje, o setor "vive uma crise de confiança". "Aprendemos pouco."

 

Onde estão os protagonistas

À escala europeia pouco passou do papel.

Nos EUA, apesar dos esforços de Paul Volcker, o ex-governador da Fed nomeado por Obama para um conselho de sábios, continua por fazer a separação entre bancos comerciais e bancos de investimento. Nenhuma das regras impostas por Roosevelt, nos anos 30, de contenção da especulação, revogadas ao longo dos anos 90, foi retomada.

O antigo responsável pelo Lehman Brothers ibérico, o espanhol Luís de Guindos, é o ministro da Economia do Governo de Madrid. Dois dos quadros portugueses do gigante falido norte-americano ocupam, hoje, posições sensíveis: João Moreira Rato é o presidente do IGCP, que gere a dívida pública portuguesa. Deixou o Lehman em julho de 2008, quando era diretor-executivo. João Quintanilha, que começou a sua carreira na equipa de derivados do Lehman Brothers, é hoje membro da consultora Stormharbour, escolhida para assessorar o IGCP na análise dos swaps das empresas públicas.

Há banqueiros no banco dos réus, em Portugal.

Pedro Vaz Serra, antigo responsável pelo extinto BPP, confessou, na quarta-feira passada, dia 11, no Tribunal de Coimbra, 12 crimes de burla e outros tantos de falsificação de documentos. Terá ficado com 731 mil euros dos clientes, que usou para fazer obras numa casa apalaçada, em Oliveira do Bairro. "Senti grandes dificuldades financeiras ", justificou-se, perante os juízes. "Foi um ato esporádico", sublinhou o seu advogado.

Em 2008, era senior adviser do BPP, com uma coluna de opinião no Jornal de Negócios, com o sugestivo título de Ética e Negócios.

Na mesma quarta-feira da semana passada, noutro tribunal, em Lisboa, o conhecido advogado Magalhães e Silva defendeu o seu cliente, Jorge Jardim Gonçalves, fundador do BCP, acusado de crimes de manipulação de mercado por transações em 21 sociedades offshore, criadas pelo BCP, para valorizar as ações do banco, na perspetiva da acusação.

Magalhães e Silva terminou a sua alegação afirmando: "Simplesmente, não é a justiça dos tabloides que se espera deste tribunal." Nos EUA, nenhum dos responsáveis pela banca foi condenado.

A crise parece ter-se transformado num gigantesco "ativo tóxico", limpo pelos biliões que os Estados gastaram. E a roleta continua a girar.

 

GLOSSÁRIO. A NOVILÍNGUA DA CRISE

"Economia" é, na definição de Ambrose Bierce, "adquirir o barril de uísque que não é necessário pelo preço da vaca que não se tem dinheiro para comprar" (Dicionário do Diabo, ed. Tinta da China). As coisas complicam-se, ainda mais, no nosso século...

  • CDO (Collaterized Debt Obligations): Obrigações com garantia real. O nome é engenhoso. Na realidade, trata-se de algo puramente virtual. Um CDO nasce da expetativa de pagamento de um conjunto de dívidas (hipotecas sobre casas, empréstimos sobre carros, cartões de crédito, etc.). Essas dívidas são todas juntas, pelos bancos, e divididas em pedaços. Aqui entram as agências de rating, que dão a cada um dos pedaços uma nota: de AAA a lixo. Depois, os bancos constroem uma pirâmide, em que no vértice estão os ratings mais altos e a base é o "lixo". O "lixo" paga um retorno maior.
  • CDS (Credit Default Swaps): Permutas de risco de crédito. Os CDS podem ser vendidos Over The Counter, ou seja, fora das bolsas. A quem não tem, sequer, qualquer investimento na dívida inicial. O CDS é como um seguro de um carro de alguém que pode ser vendido a outra pessoa que, muito naturalmente, pode apenas querer que o carro se estampe para receber o prémio.
  • Short Selling/ Naked Short Selling: Venda curta e venda curta a descoberto sem garantia. O short-selling tem um objetivo: desvalorizar um determinado bem (ação ou título). A versão "a descoberto" só é possível graças aos buracos na legislação. Imagine o leitor tem uma empresa, que vale 100 euros por ação. Alguém pretende comprar ações por metade do preço. Manda vender, sem comprar e o preço vem por aí abaixo. Foi isso que se passou com a cotação de vários bancos, como o Lehman Brothers.
  • Swaps: Permutas. Por exemplo: uma taxa de juro fixa por uma variável. Mas os swaps podem ser mais especulativos. Taxas de juro por cocktails de "obrigações", flutuações cambiais, índices de matérias-primas... Na Refer, enquanto era responsável financeira, Maria Luís Albuquerque contratou um swap, sobre os juros da dívida da empresa, indexado ao desempenho da coroa sueca.

 

TRÊS PERIGOS QUE SOBREVIVERAM À CRISE

  1. OS BANCOS DEMASIADO GRANDES Se já eram "demasiado grandes para falir", os bancos que sobreviveram à crise de 2008 estão ainda maiores. Sobretudo os "tubarões" de Wall Street, que absorveram outros.
  2. AS 'ARMAS DE DESTRUIÇÃO MACIÇA' Há "notícias de um sistema financeiro cheio de 'ativos tóxicos' na China", adianta o economista Nuno Teles. Nenhum país avançou muito na regulação de "derivados".
  3. OS BANCOS NA SOMBRA Fundos soberanos, hedge-funds, offshores, continuam a desempenhar um papel financeiro importante, e acrescentam risco ao sistema. "Não podemos ter globalização financeira sem regulação supranacionais", defende o ex-governante Costa Pina.»
Publicado por Fernando Delgado às 01:11
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Sexta-feira, 4 de Julho de 2014

Um país doente

 

(Há um limite a partir do qual não há pátria, mesmo que exista um país. Estamos perto de atingir esse limite...)

 

 

«EXODE AU PORTUGAL

Un Portugais quitte son pays toutes les 5 minutes

Malgré la timide reprise de l'économie portugaise, les candidats à l'exil sont toujours plus nombreux parmi les jeunes diplômés, dont des infirmiers, médecins, professeurs et ingénieurs.

 

 

En dépit de la reprise, l'exode des jeunes Portugais continue. (photo: AFP)

Il y a 40 ans, ses grands-parents émigraient à Tours en France, où ils ont travaillé comme employée de maison et menuisier. Joana Miranda, une infirmière de 27 ans, s'apprête à s'installer, elle, en Allemagne, grâce à un emploi décroché dans une clinique à Munich. Au Portugal, elle enchaînait des petits boulots dans des maisons de retraite. «Je gagnais 5 euros bruts de l'heure, sans contrat fixe, j'arrivais à 500 euros nets par mois. En Allemagne, j'aurai un emploi stable, avec 2 000 euros nets», raconte-t-elle. Un tiers des 3 500 infirmiers formés chaque année dans les écoles portugaises émigrent, selon leur ordre professionnel. À part l'Allemagne, c'est surtout l'Angleterre qui les attire.

L'exode des Portugais s'est encore accéléré en 2013, quelque 128 000 habitants ont pris le large pour échapper à la crise. Entre 2011 et 2013, ils étaient plus de 300 000 à chercher leur salut à l'étranger. Lors de la grande vague d'émigration des années 60, ils fuyaient la dictature de Salazar, la guerre coloniale et la misère. Aujourd'hui, les Portugais connaissent la démocratie, mais la pauvreté persiste. «Cet exode inquiétant traduit un manque total de confiance des Portugais en l'avenir du pays», a commenté Maria Manuela Aguiar, ancienne secrétaire d’État à l’Émigration. Et la tendance n'est pas près de s'inverser: «Je ne vois pas d'amélioration, l'hémorragie devrait se poursuivre en 2014 et 2015».

Fuite des cerveaux

Joana Miranda figure parmi la dizaine de participants à un cours intensif d'allemand à l'institut Goethe de Lisbonne, qui a vu le nombre de ses élèves exploser pendant la crise. L'Allemagne a accueilli 12 000 Portugais depuis 2011, mais la langue est une barrière difficile à franchir. Expliquer les unités de mesure des perfusions, s'y retrouver dans les médicaments, s'adresser à un patient qui sort des soins intensifs... pour l'instant, l'allemand des élèves est encore un peu hésitant. Mais comme Joana, ils ont déjà tous un contrat de travail en poche et commenceront le 15 juillet dans une clinique spécialisée en cardiologie à Munich, qui leur finance des cours d'allemand.

Certaines, comme Maria Chaves, 29 ans, quittent un emploi stable. Elle gagnait 1 100 euros nets par mois dans un hôpital à Lisbonne. «Ici, nous n'avons pas d'avenir, pas de perspective d'avancement», explique la jeune infirmière. Son mari, un militaire, a démissionné pour la suivre. Les conditions de travail à l'hôpital se sont dégradées au Portugal, sous l'effet des coupes dans les dépenses de santé prévues dans le programme de rigueur négocié en 2011 en échange d'un prêt international de 78 milliards d'euros.

La cure d'austérité du Portugal a contribué à aggraver la récession et le chômage. Au printemps 2013, la croissance est revenue et l'emploi a commencé à remonter la pente. Mais 37,5% des moins de 25 ans n'ont toujours pas de travail. Si la plupart des jeunes émigrés continuent à exercer les mêmes métiers que leurs grands-parents (construction, hôtellerie, ménage), environ 20% parmi eux sont des diplômés hautement qualifiés. «Contrairement aux années 60, le Portugal est désormais confronté à une fuite des cerveaux. C'est dangereux, on a perdu ceux dont nous avons besoin pour faire redémarrer l'économie», constate Joao Peixoto, professeur de sociologie à l'université de Lisbonne. Selon lui, il faudrait «tenter de faire revenir les jeunes diplômés dès que possible».

(L'essentiel/AFP)

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Publicado por Fernando Delgado às 23:42
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Patilhar
Domingo, 22 de Junho de 2014

A caminho fim

Esta é a fase da preguiça e da falta de paciência para falar das coisas do costume..., da degenerescêcia de quase tudo o que emana da política e dos políticos. Este texto, tirado daqui, é elucidativo (vale a pena visitar este Blog).

 

«A degenerescência ética do regime

 

Não ponho as mãos por ninguém mas procuro não acusar sem provas. Vejo pessoas do PSD, que estimo, a apelidar de escroques os adversários, talvez por frustração de não terem quem possam defender da PR, ao Governo e à maioria.

Desde a escola SLN/BPN há um partido que adquiriu a vanguarda da decadência ética, que exonerou os escrúpulos da sua conduta e usa a chantagem como arma de arremesso contra a oposição.

Depois da promiscuidade dos serviços secretos com a Ongoing, protagonizada por Silva Carvalho, impedida de aclarar, ao abrigo do segredo de Estado, ontem o plenário da AR votou, de manhã, uma lei que coíbe fortemente o trânsito direto de agentes dos serviços de informação para o sector privado. Um dos votos foi o do deputado Paulo Mota Pinto, antigo conselheiro do TC, e atual deputado do PSD.

À tarde, soube-se que o impoluto deputado, coordenador do Conselho de Fiscalização das secretas, cujo voto da manhã foi a favor da moralização, estava indigitado para ser chairman (presidente não executivo) do Banco Espírito Santo.

Confrontado pela Lusa, Mota Pinto, sete arrobas da reserva ética do PSD, afirmou que, nesse caso [e só nesse], renunciará aos cargos de deputado e de fiscalizador das secretas. [...]»

 

Carlos Esperança, em Ponte Europa.

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Publicado por Fernando Delgado às 00:14
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Sexta-feira, 16 de Maio de 2014

Mao, Cavaco e Barroso

(Não resisto a transcrever - com a devida vénia -, parte do texto «A EXPEDIÇÃO À CHINA E O ENCONTRO COM MAO», de Fernando Paulouro Neves. Para ler na integra, em Notícias do Bloqueio)

 

«A força da mitologia chinesa, a dimensão simbólica das suas lendas, alteraram o sono de sua excelência, em Pequim. Dormiu mal o Presidente, inquietou-se a Primeira Dama, os ansiolíticos disponíveis não fizeram o efeito pretendido. Os sobressaltos dos sonhos acordavam-no violentamente, faziam-no erguer-se na cama, como uma mola, os suores corriam-lhe pelo rosto.
--Então, querido, sossega! Aqui não há dragões... -- sussurrava a mulher, docemente, como se já tivesse interiorizado a paciência chinesa para falar com as crianças.
-- Sim, sim, filha, não há dragões, mas há serpentes de sete cabeças, e uma delas abocanhava-me todo, se eu não acordo, de repente, e dou uma guinada para o lado! -- disse o Presidente, já meio sentado na cama. -- E depois havia sempre espadas a degolarem imperadores e até o Mao se veio sentar, ao meu lado, numa conversa que eu não percebi lá muito bem...
-- E o que te disse ele? -- perguntou ela curiosa com o enredo da história.
-- Ora, que me estava muito grato por eu ter guiado tão bem aquele rapazito, que era seguidor fanático dele e apontava muito a Longa Marcha como exemplo, e considerava genial a maneira como eu fui implacável na Revolução... "Ele, o rapazito, embevecia-se com as tiranias da Revolução Cultural". Era a Mao a falar, explicou Cavaco.
-- Rapaz, mas qual rapaz?
-- Então, Maria, não sabes... o Durão Barroso! O Mao até me disse que ele era muito competente, não lhe escapava nada, nem os sofás da Faculdade... E confidenciou-me: "Eu sempre disse que ele  ia longe, iria ter um grande futuro. Agora quem poderia imaginar que viria a ser Presidente da Europa, ele, que tem os olhos em bico, como é que os europeus, sempre tão eurocentristas e, às vezes, xenófobos (veja o êxito da Le Pen!) foram numa dessas... São as condições objectivas, Cavaco, para ele ser Presidente da Europa é porque a Europa está uma porcaria e já não tem conserto!"
-- Óh, homem! não vês que isso era um sonho?
-- Mas era um sonho bom, Maria, um sonho muito bom: o Mao a falar comigo e a segredar-me: "Você, Cavaco, quando esteve no governo disse que era o grande timoneiro, não foi? Também leu o Livro Vermelho, seu maroto! E não disse, também, que nunca se enganava e raramente tinha dúvidas? Ora, aí está: isso foi sempre um dos princípios basilares da minha política. Era o reino das certezas e quem tinha dúvidas estava tramado". Eu fiz que sim com a cabeça, embevecido com a teoria da certeza metódica... Estava tão feliz, andar com o Mao Zedong a passear pela Cidade proibida... parecia ter chegado ao Paraíso.
[…]»

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Publicado por Fernando Delgado às 00:13
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

April showers bring May flowers

Fiquei com a sensação de que não foi uma entrevista a um primeiro-ministro mas muito simplesmente a alguém que lidera reuniões de trabalho às quintas-feiras (não há um discurso político! – opções, rumos, liderança, convicções, mobilização -, mas apenas um enumerar de medidas desconexas com justificações vagamente fundamentadas).

Depois desta entrevista de Passos Coelho a J. Gomes Ferreira, nada melhor que a meteorologia, ainda por cima com um formato educativo…

 

«[…]

Quase todos ouvimos o ditado popular “em Abril, águas mil”. Quase nenhum de nós o questiona. É um saber feito de tempo, saber tácito feito de regularidade passada que teima em se repetir anualmente, pouco tempo depois do equinócio (da primavera) em regiões acima da nossa latitude até ao círculo polar árctico.

Aquele ditado não existe só em terras lusas. Que se encontre também em Espanha não é de espantar. Mas que faça parte da “sabedoria popular” por essa Europa acima, isso já levanta algum espanto (e pede ciência). Encontramos o provérbio em França - "les giboulées de Mars” -, no Reino Unido e Irlanda – “April showers”, "April showers bring May flowers" – e, exemplo nórdico, até na Noruega – “April bygger”.

O fenómeno meteorológico que alimenta o provérbio assenta no aumento do período de luminosidade solar incidente de forma progressivamente mais perpendicular a partir do equinócio da primavera (no hemisfério norte). Isto provoca um aumento progressivo da temperatura do solo, o que causa evaporação da água (mesmo que pouca devido a outonos e invernos menos chuvosos – como foi o caso este ano) retida e presente nos interstícios da terra.

Correntes de ar quente e vapor de água ascendem, aumentando a humidade relativa do ar. Como a temperatura média do ar também subiu, maior quantidade de água passa e fica na atmosfera (maior humidade relativa), prenúncio de nuvens, certezas pluviais. Este movimento, por convecção de ar quente e água (quer no estado gasoso quer no liquído), provoca fenómenos meteorológicos súbitos que nos “estragam” os passeios primaveris, mas que redistribuem a água preciosa, minorando os efeitos de secas nefastas para a maltratada agricultura.

[…]»

António Piedade. Abril, águas mil! Ler na integra em De rerum natura, aqui.

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Terça-feira, 15 de Abril de 2014

Momento Zen

- A Terra está apoiada sobre o quê? - perguntou o rei ao Monge.

- Sobre um grande elefante - respondeu o Monge.

- E em baixo do elefante, o que tem?

- Uma tartaruga - respondeu o Monge.

- E em baixo da tartaruga, o que tem?

- Outra tartaruga, majestade,… Mas é  melhor pararmos por aqui,  pois daí em diante são só tartarugas!

(Diálogo supostamente atribuído a um monge budista)

 

- Tens a certeza? – perguntou Paulo a Passos.

- Tenho. É mesmo urgente anunciar um ajustamento no salário mínimo – respondeu Passos.

- E depois do ajustamento, o que vem?

- Outro anúncio. Anúncio de cortes...

- Nas pensões! E a seguir a esse anúncio?

- Mais anúncios, Paulo,… Mas é melhor pararmos por aqui, pois daí em diante são só cortes!

(Diálogo supostamente atribuído a um anarquista)

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Publicado por Fernando Delgado às 00:20
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Domingo, 13 de Abril de 2014

Cinco actos de uma tragédia portuguesa

1º acto:

«No Portugal não democrático, no Portugal pré-União Europeia e pré-Comunidade Europeia havia ensino de excelência apesar do regime político em que se vivia e isso era possível porque numa escola era desejável reforçar a própria cultura de excelência da escola. Não estou seguro que aconteça hoje o mesmo em muitas escolas portuguesas e europeias».

Durão Barroso, ainda presidente da CE, na cerimónia de entrega do donativo do prémio europeu Carlos V à CAIS e à Escola Secundária de Camões.

 

2º acto:

«Isso não existe! O convite para vir ao parlamento existe! Isso não existe! [… mas eles querem falar no 25 de Abril?!...] Isso é um problema deles!»

Assunção Esteves, à entrada ou à saída (entre a porta…) de qualquer sala do parlamento sobre a questão dos capitães quererem falar na cerimónia do 25 de Abril.

 

3º acto:

«…o meu vencimento traduz o meu valor de mercado! Não me lembro quanto é a minha reforma!»

Eduardo Catroga sobre o seu vencimento mensal de 35 mil euros, na EDP, e sobre a reforma que aufere de cerca de 9 mil euros.

 

4º acto:

«[…] terão de ser identificadas poupanças ao nível da máquina do Estado que honrem esses compromissos. Não é um trabalho que se faça de um dia para o outro, mas é um trabalho que será apresentado ao país muito proximamente e creio que, sinceramente, não há nenhuma razão para estar a criar um bicho-de-sete-cabeças à volta desses cortes que o Estado vai ter de fazer para o próximo ano».

Passos Coelho referindo-se à meta de défice de 2,5% em 2015

 

5º acto:

«Roma locuta, causa finita»

Leite Martins, Sec. Estado Adm. Pública, citando Santo Agostinho (“Roma falou, a questão está decidida”) no parlamento depois de um briefing “off” com jornalistas que se tornou notícia (hipótese de substituir a CES por um sistema que faça depender a evolução das pensões de indicadores económicos e demográficos).

 

(... mediocridade, ganância, ambição sem excrúpulos e cinismo! Estes são os atributos necessários a um curriculum de poder. Que se fodam!)

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Publicado por Fernando Delgado às 00:59
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Sábado, 1 de Março de 2014

Viriato Soromenho Marques

[... não será isto o "inconseguimento" a que se referia a Exmª Srª Presidente da Assembleia da República? ... ou são apenas insónias, ou paralisias duma almofada incómoda? Mas que estranhas e pequenas personagens nos vigiam o son(h)o...]

 

 

«Almofada de pedra

Como é que designaríamos o comportamento de um cidadão que, incapaz de honrar um crédito pessoal a uma taxa de 3,35%, prestes a atingir a maturidade, contraísse um novo empréstimo a uma taxa de 5,11% para pagar o primeiro ("troca de dívida")? Sem dúvida, tratar-se-ia de um comportamento pouco recomendável. E como seria classificado esse comportamento se o cidadão em causa utilizasse parte do novo empréstimo (de 11-02-2014) para antecipar, parcialmente, o pagamento em 19,5 meses do primeiro empréstimo, pagando 102,89 euros por cada 100 euros de dívida ("recompra")? Seria, certamente, uma atitude temerária, pois aumenta a despesa com juros para apenas empurrar a dívida para o futuro. Pois é isso que o Governo pretende fazer hoje. O leitor pode ir ao site eletrónico do IGCP. Abra o boletim mensal de fevereiro sobre "Dívida Pública". Na p. 2, vê que o Estado vai ter de resolver até 2016 cerca de 39 mil milhões de euros de empréstimos. Esse imenso obstáculo tem sido o pretexto para a constituição de uma volumosa "almofada" financeira. Tudo indica que o IGCP quer recomprar, hoje, uma parte de uma série de dívida a dez anos, contraída a partir de outubro de 2005 (ver p. 3). Se o fizer, às taxas mais recentes no mercado secundário, isso significa que, para o montante que for hoje amortizado, vamos pagar mais 3,53% de juros por ano até outubro de 2015 do que antes das duas operações financeiras supracitadas. Será isto uma gestão prudente, ditada pelo interesse nacional, ou estará o Tesouro público em risco para alimentar uma ilusão pré-eleitoral de triunfo? Será esta uma almofada que alivia o País, ou uma pedra amarrada às pernas que o atira para o fundo? Temos direito a saber a lógica com que se joga o dinheiro sonegado aos salários e às pensões. Direito a uma explicação, ou a uma beliscadela que nos acorde deste pesadelo.»

 

Viriato Soromenho Marques. Almofada de Pedra. Diário de Notícias, 27.02.2014.

Publicado por Fernando Delgado às 00:52
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Quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

Paco de Lucia

 

Não sou bom em música nem gosto de evocações, mas a notícia chegou sem aviso: o Paco morreu! Partiu, e agora imagino uma guitarra ali a um canto, muito quieta, não sei se mais triste, mas muito só.

Fico-me em silêncio, na solenidade da tua interpretação do concerto de Aranjuez, escutando os sons da guitarra com a mesma inquietação com que olho alguém que me acena do meio da multidão.

 

 

 

Publicado por Fernando Delgado às 00:02
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Patilhar
Quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

(ainda) Miró

Já se sabe o desfecho do "caso" Miró (ver aqui um resumo comprometido antes desse fim...)

 

Contudo, a questão não está encerrada. Neste interregno, logo que as pinturas cheguem a Portugal, proponho que as pendurem nas paredes do gabinete da Exª Srª Ministra das Finanças e fechem a porta durante um dia inteiro - como naqueles castigos pedagógicos que no meu tempo se aplicavam aos miúdos da escola que não estudavam (os modernos pedagogos que me perdoem, mas apesar de tudo aprendi alguma coisa com estes métodos "ultrapassados",... e a Srª Ministra tem idade para perceber isso!)

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Publicado por Fernando Delgado às 22:25
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Patilhar
Quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

The times they are a-changin'

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Publicado por Fernando Delgado às 21:56
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Patilhar

Elogio das minorias

(Manifestantes em Kiev - foto retirada da internet)

 

Irritam-me os comentários relativos a manifestações ou protestos: "são meia-dúzia!", "não representam ninguém!" ou, mais cinicamente, "só estão ali porque não têm mais nada que fazer!" Comentários muito comuns, transformados em argumentos, de quem não tolera o direito à indignação, ou muito simplesmente o direito à diferença.

 

Sei que é exagerado e talvez abusivo utilizar este exemplo/acontecimento, mas apetece-me perguntar se os milhares, alguns milhares de ucranianos que há uns meses se concentram na praça da Independência, em Kiev, nas condições que todos podemos ver nos media, representam os 45 ou 50 milhões de ucranianos. Se esta meia-dúzia de manifestantes não representa nada nem ninguém e se só estão ali porque não têm mais nada que fazer.

 

Ou há minorias boas e minorias más? Não se podem comparar coisas diferentes? Pois não, mas na sua essência, na legitimidade política dos actos - actos de maioria! -, são assim tão diferentes? Ou os interesses (e a hipocrisia) são os parâmetros de escolha que estabelecem a diferença?

 

Quantos dos processos de mudança que aconteceram no mundo começaram com a revolta e apoio de maiorias? Quais?

 

(Esta irritação é orgânica e resulta de uma crescente e quotidiana asfixia por parte de uma maioria que em Portugal olha e age com desdém sobre todos os que não se acomodam... Não pretende ser uma reflexão sobre o papel das minorias na evolução das sociedades. É um desabafo, um grito de desconforto!)

 

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Patilhar
Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2014

Crato

«A liberdade de expressão é uma coisa linda: permite-nos distinguir os idiotas»

Ricardo Araújo Pereira

 

Lembro-me de ler nos jornais coisas interessantes de Nuno Crato. Cheguei mesmo a reproduzir aqui parte de alguns desses escritos (O peso de Júpiter ou o Passeio Quântico). Eram escritos de alguém ligado ao ensino, à ciência, que numa linguagem simples e didáctica me entretia com estórias da física, da matemática, da astronomia, ou de tudo um pouco...

 

Um dia convidaram o pobre do Crato para ministro. Estou a ser ingénuo: ele fez-se convidado! E estragou tudo. O homem da ciência virou político, um político medíocre, medroso, sem convicções, sem capacidade de assumir um único acto. Dos ministros que contam (convenhamos que daqueles cinzentões todos que se sentam às quintas-feiras à volta de uma mesa, só quatro ou cinco contam: finanças, economia, educação, saúde, negócios estrangeiros), Crato é claramente o pior de todos. Nem me interessam muito os pequenos actos, a gestão do dia a dia - para alguma coisa existem assessores, directores gerais e outros especializados e dedicados mangas de alpaca! Interessa-me o pensamento político e ideológico do sr. ministro. É arrepiante: exames a professores, cheque-ensino, escola pública versus escola privada, investigação, ... Não se trata de incompetência, trata-se de uma agenda ideológica com fins determinados.

 

Porque me é permitido ter opinião, e liberdade de expressão, posso distinguir o idiota que, quase sempre calado, ausente e com palavras mansas, acha que se pode moldar a realidade à sua ideologia de pequenos e pobres passeios quânticos, sem que ninguém dê por isso.

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Patilhar
Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2014

Carlos V

«Carlos V, no seu túmulo em Yuste, deve ter-se rebolado de riso, ao ver atribuído a Durão Barroso um Prémio com o seu nome, celebrando simbolicamente a Europa.

(...)

Durão Barroso é o rosto deste tempo. O que há meses alguns dos principais jornais europeus escreveram sobre a sua acção política, como responsável cimeiro da União Europeia, foi arrasante, como caricatura de incapacidade e de incompetência.
É por isso que Carlos V, ele que foi imperador determinado e fazia ouvir a sua voz em todo o espaço europeu, deve estar a rebolar-se de riso. Depois, na pompa e circunstância da cerimónia de Yuste, ainda se ouviu o argumento infantil de Durão Barroso a dizer que a Europa não tem culpa da crise, fazendo lembrar aqueles garotos que, descobertos no meio da traquinice, se desculpam:
-- Não fui eu, foram eles!

[...]»

 

O Riso de Carlos V. Para uma leitura integral em Notícias do Bloqueio de Fernando Paulouro das Neves

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Patilhar
Sexta-feira, 10 de Janeiro de 2014

MIRÓ, segundo a Ministra das Finanças

O ar de desprezo com que a Srª Ministra da Finanças anunciou a venda de dezenas de obras de Miró é chocante. Anunciou-o como quem anuncia a venda do carro usado a pingar óleo, dos tachos lá de casa ou dos pechisbeques que já não conseguem adornar o seu alvo pescoço.

 

Não me interessa se estas obras tiveram origem no BPN, nem que as mesmas tenham sido adquiridas sabe-se lá como. Sei que ninguém as reclamou e que podem ser vendidas - pelo que deduzo que não foram roubadas -, que estão na CGD, legitimamente, e que gostaria muito de as ver em qualquer galeria, em qualquer lugar público. Sei que é por causa de decisões como esta que hei-de sempre detestar quem olha para a cultura com um cifrão em cada olho.

 

Incomoda-me o simples facto de haver gente desta no poder. Incomoda-me pensar que estamos dependentes da mediocridade e da ignorância. Incomoda-me este tempo sem tempo protagonizado por gente sem vergonha!

 

(Há uma petição aqui, para quem queira assinar)

 

(Suponho que no leilão da Christie's estarão testas de ferro de banqueiros de todo o mundo para adquirir as obras. Não era uma boa altura, Srª Ministra, de leiloar a longa lista de gestores do BPN? Com a experiência que têm...)

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Patilhar
Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2013

Ei-los que partem...

«Os portugueses não emigram, fogem!»

José Alberto Carvalho, TVI, hoje.

 

 

Sempre fomos assim,

de espada na mão

ou de mãos estendidas,

nunca olhos nos olhos

enfrentando a realidade.

 

Sempre

correndo na arena

entre o fado e os cornos do touro!

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Patilhar
Sexta-feira, 29 de Novembro de 2013

Lobo Antunes

Já antes o fiz (aqui e também aqui) mas hoje não tenho paciência para transcrever a entrevista de Lobo Antunes a Mário Crespo na SIC.

Porque os 26 ou 27 minutos da entrevista (conversa, diálogo?) fazem parte daquelas coisas que só acontecem em televisão de vez em quando, aqui deixo um link para o respectivo vídeo, esperando que não o apaguem, ou lhe mudem o endereço...

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Patilhar
Sábado, 2 de Novembro de 2013

O apanha-bolas

1. Esta tentativa de aliciar continuamente o pobre do Seguro para os mais diversos consensos é reveladora da hipocrisia a que o exercício da política chegou e, em última análise, é humilhante para qualquer das partes envolvidas. Enquanto uma dessas partes não quer ser responsável única de um desastre que, já há muito tempo, é mais que óbvio, a outra parte não entra no jogo, mas lamentavelmente repõe em campo uma bola que sistematicamente sai pela linha lateral…

Este papel de apanha-bolas de um jogo medriocre e inútil, só é possível pela incapacidade política de Seguro de entender que há jogos em que não se entra, muito menos num papel secundário normalmente destinado a miúdos que ainda não distinguem os sonhos da realidade (o que não tem nada de mal, desde que os sonhos não os persigam…)

2. Estou irritado com a forma primária com que, conscientemente – sim, conscientemente e deliberadamente! -, alguns políticos nos querem fazer passar por parvos. Acabei de ler, o "guião da reforma do estado” de ponta a ponta - obrigado, Portas, pelo tamanho daquela letra adequada a velhos míopes como eu - e fiquei assim. Sei que, por um exercício consciente de liberdade, chegado o fim do dia, não tenho nenhum deus a quem prestar contas, mas vós ilustres membros do rebanho, não vos sentis envergonhados quando, submissos, bajulam esse deus?

3. ... que bom ter à mão as crónicas, do Quinto Livro de Crónicas, de Lobo Antunes!

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Patilhar
Sexta-feira, 1 de Novembro de 2013

Assalto aos Recursos Naturais

Para uma leitura preocupada e reflexiva. Preocupada com analogias de "pequena" escala em Portugal, mesmo as que se podem apresentar como "soluções" (todo o interior florestal/pirómano do país...); reflexiva no entendimento da evolução histórica, a longa evolução histórica destes fenómenos, as suas causas, as suas consequências e, já agora, os seus protagonistas.

 

«[...]

Ao longo da última década, alguns governos, grandes empresas e organizações com grande poder económico, sediadas em países como a China, a Arábia Saudita, a Alemanha, o Reino Unido, e outros estão a comprar grandes extensões de terra em diversas regiões do mundo, destacando-se África, Ásia e América do Sul. O objectivo é a extracção dos recursos minerais e também o uso agrícola e florestal. Há estimativas que indicam que desde o ano 2000 foram vendidos cerca de 50 milhões de hectares a governos e empresas estrangeiras.

Este assalto aos recursos naturais por parte de alguns países que dominam o mundo e controlam a economia global, revela a face perversa da lógica de desenvolvimento dominante, em que é possível a alguns países comprometerem o potencial de desenvolvimento de países mais pobres, tantas vezes sem qualquer preocupação de bem-estar para com os povos que aí residem. Se as colonizações decorrentes das descobertas marítimas dos portugueses e das conquistas europeias provocaram uma séria delapidação de recursos nos continentes e países então colonizados, o assalto em curso é de uma brutalidade cega e surda, mas tragicamente devastadora.»

 

Helena Freitas. O Assalto aos Recursos Naturais. Público, 10.10.2013.

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Patilhar
Sábado, 12 de Outubro de 2013

JPP dixit

«O problema é que desde a última “crise Portas” o carácter disfuncional do governo acentuou-se. Já era mau, agora é pior porque se institucionalizou a diarquia reinante, sem que Portas tenha os verdadeiros poderes para que tem os seus múltiplos chapéus e Passos Coelho mande alguma coisa, entre o alheamento e a indiferença, a esperar que o seu Vice tropece nos seus chapéus como aconteceu na última semana. Será que o Presidente ainda não entendeu que não tem governo, tem um ajuntamento de conveniência em que os egos, as vinganças, as rasteiras, o salvar a sua própria pele são a regra e a motivação de todos os dias? Antes o cancro do governo era Relvas, hoje é Portas, mas em ambos os casos a primeira responsabilidade é de Passos Coelho e Cavaco Silva. E visto a voo de pássaro tudo parece desconjuntado, como efectivamente é. Pobre país, o nosso.»

  

«Pode ser aliás que não haja nada para saber, é tudo por arroubos, “desenhos”, tentativa e erro, anúncios cirúrgicos por Marques Mendes, recados ao Expresso nos fins de semana para a primeira página. O objectivo é criar “impressões”, e depois, quando as “impressões” caiem dias depois, sem sustentação, o seu efeito útil já existiu. Exemplos: “as privatizações foram as mais transparentes de sempre”, o “governo aumentou as reformas”, “não é necessário mais planos de austeridade”, “agora é que se vai exigir à EDP que participe no esforço nacional”, “o governo negociou os contratos swap de modo a evitar que se pagassem milhões”, PPPs idem, a “economia já deu a volta”, etc., etc. Tudo isto embrulhado em números reais, números imaginados, números previstos, comparação entre o que se previa e que vai acontecer, comparação entre o futuro virtual e a realidade nunca enunciada, tudo o que é mentira é “lapso”, tudo o que é grave é “declaração infeliz”, nada tem consequências. Claro, e a culpa é dos portugueses “piegas”, dos sindicatos comunistas, dos traidores do PSD, dos “socráticos” no PS e do Tribunal Constitucional.»

 

José Pacheco Pereira. Abrupto.

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Patilhar
Quinta-feira, 10 de Outubro de 2013

...?

 

Que diabo estão a fazer deste país?

 

 

 

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Patilhar
Segunda-feira, 22 de Julho de 2013

«a.c. e d.c.»

Porque há uma forma para além do conteúdo ininteligível...

 

«Os discursos de Cavaco Silva à nação começam a ter uma certa lógica. Dividem-se em duas partes: antes do copo d'água (a.c.) e depois do copo d'água (d.c.). Antes do copo d'água Cavaco explica-nos como é que tudo aquilo que ele queria deu errado: os partidos não quiseram um compromisso de salvação nacional que "75% dos países de dimensão média da União Europeia" têm... e etc., por mais incompreensível e intelectualmente desonesto que seja. Depois Cavaco pára. Apossa-se do copo d'água. Bebe com sofreguidão. Ouvem-se dezenas de cliques dos fotógrafos acampados em frente ao Presidente. Cavaco pousa o copo d'água. Diz: "Portugueses". E finalmente explica-nos que vai fazer aquilo que não queria fazer há quinze dias.»

 

Rui Tavares, no Público.

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