Quinta-feira, 5 de Agosto de 2010

A lebre que lia o jornal

(Para o Higino, a quem um dia ouvi contar esta história, Não era esta, esta tem jornal, a outra só tinha lebre e pimenta, e não lia, Mas na próxima história há-de ter jornal, até uma criança de colo sabe isso...)

 

 

«[…]

     Primeiro há que encontrar uma boa pedra plana, com mão travessa de altura e larga bastante para meia folha de jornal. O dia não será de vento, para que não se espalhe o montinho de pimenta que, na confusão dos títulos e da letrinha miúda itálica e redonda, vai ser o gatilho desta espingarda. Como toda a gente sabe, a lebre é curiosa, Ainda mais do que o gato, Nem há comparação, basta dizer-se que o gato não quer saber do que vai pelo mundo, a ele tanto se lhe dá, ao passo que a lebre não pode ver um jornal caído numa estrada que não vá logo ver o que se passa, e tanto assim que há caçadores que descobriram um sistema, põem-se de atalaia atrás dum valado e quando a lebre se chega para saber as notícias, trás, fogo nela, o pior é que o jornal fica esfarrapado pelo chumbo e tem de se ir arranjar outro, já se viu um caçador com uma cartucheira de jornais, até parecia mal, Mas então a pimenta, Na pimenta, sim senhor, é que está o segredo da arte, o que é preciso é que não haja vento, mas isso também é condição quando está o jornal na estrada, se o vento lhe dá e vai voando, nem a lebre lhe liga, que gosta de ler as notícias em seu sossego, Muito me conta, Muito mais lhe contarei ainda se tivermos ambos ocasião, e então armado daquele aparato, pedra, jornal e pimenta, é só esperar, se levar muito tempo é porque o sítio é mau para lebres, às vezes acontece, depois não se vá queixar de que não havia caça, a culpa é toda sua, mas quando se conhece o terreno, nunca falha, daí a pouco aparece a primeira lebre, aos saltos, morde além, trinca por este lado, e de repente fica com as orelhas espetadas, viu o jornal, Que faz ela, Coitada, nem desconfia, vai naquela ânsia de saber notícias, corre para o jornal e começa a ler, é uma lebre feliz e contente, não lhe escapa uma linha, mas eis senão quando chega o nariz ao montinho de pimenta e funga, E que é que acontece, O mesmo que lhe aconteceria a si se lá estivesse, espirra, bate com a cabeça na pedra e morre, E depois, Depois é só ir buscá-la, mas, querendo, passa-se por lá umas horas mais tarde e então é um cinturão de lebres, atrás de uma foi outra, é o que têm, são muito curiosas, não podem ver um jornal, Olhe lá, isso é tudo verdade, Pergunte a quem quiser, até uma criança de colo sabe estas coisas.

[…]»

 

José Saramago in Levantado do Chão. Caminho.

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Publicado por Fernando Delgado às 19:30
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