Quarta-feira, 4 de Agosto de 2010

Saramago

«[…]

Com quinze quilómetros para andar, um homem tem seu vagar de pensar, dá balanço à vida, ainda ontem rapazelho e daqui a pouco recruta, mas quem ali vai na estrada, pé firme, é o melhor tirador de cortiça dos nove novéis que com ele aprenderam, quem sabe se não irá encontrar algum na tropa. O tempo aqueceu, o saco não pesa muito, mas bamboleia e escorrega do ombro, aqui me sento a descansar, uns tantos metros fora da estrada, não longe, mas a coberto, estendo dobrada a manta por causa da humidade do chão, pouso a cabeça no saco e adormeço, tenho tempo de chegar a Monte Lavre. Sentou-se agora ao pé de mim uma velha muito velha, é pouca sorte a minha e o que lhe vale a ela, mas a mim não sei que me valha, a força que ela tem, será feitiço, pega-me na mão, abre-me os dedos fechados, e diz, Reza na tua mão, António Mau-Tempo, que nunca casarás nem nunca darás filhos, que farás cinco grandes viagens a longas terras e arruinarás a tua saúde, não terás terra tua a não ser a da sepultura, não és mais do que os outros, e mesmo essa só pelo tempo de seres pó e coisa nenhuma, a não ser os ossos que sobram, iguais aos de toda a gente, que irão parar a qualquer lado, aí não chega a minha adivinhação, mas enquanto fores vivo não farás nada mal feito, ainda que te digam o contrário, e agora levanta-te que são horas. Mas António Mau-Tempo, que sabia que estava a sonhar, fez de contas que não ouviu a ordem e deixou-se continuar a dormir, mal fez ele porque assim não chegou a saber que sentada à sua beira estivera uma princesa a chorar e que lhe pegara na mão duríssima e calosa, ainda que tão jovem, tão jovem era, e então, tendo esperado tanto, retirou-se a princesa arrastando sobre os tojos e as estevas o cetim do seu vestido, e por isso quando António Mau-Tempo acordou, estava o mato coberto de flores brancas que antes não vira.

[…]»

 

José Saramago in Levantado do Chão. Caminho.

 

(Estas palavras fazem parte de um texto, de um longo texto sobre o Alentejo. É um texto duro…, mas aqui, com o mar ao fundo, sem tojos nem estevas e com um sol burguês de fim de férias, não é fácil escolher palavras… Parece-me que este é o livro do Saramago militante, comprometido, assim como Memorial do Convento é o livro do Saramago escritor, profissional, e A Viagem do Elefante, o livro da leveza de quem já não precisa de muitas palavras para contar uma história. Parece-me! Mas este sol e este não fazer nada também só me deixam ver as flores brancas sobre o mato quando o importante já aconteceu. Só aquela gaivota parece desperta, deslumbrada nas asas brancas sobre o mar de cetim…)

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Publicado por Fernando Delgado às 01:24
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